Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Contribuições novas para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto": quarta leva




Novas contribuições para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto", com Matilde Campilho (Portugal), Gerardo Jorge (Argentina), Daniel Saldaña París (México) e os brasileiros Roberta Ferraz, Juliana Bratfisch, Laura Liuzzi, Renan Nuernberger, Maurício Cardozo, Mario Sagayama e Júlia de Carvalho Hansen.


Você pode acompanhar o projeto diretamente pelo novo canal



ou aqui mesmo, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.. Veja os novos vídeos abaixo.


--- Modo de Usar & Co.


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Matilde Campilho (Lisboa, 1982) lê o poema "Um adeus português", de Alexandre O'Neill (1924 - 1986).

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Gerardo Jorge (Buenos Aires, 1980) empresta sua voz a Leónidas Lamborghini (1927-2009).

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Daniel Saldaña París (Ciudad de México, 1984) presta su voz a Ramón López Velarde (1888 - 1921).

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Roberta Ferraz (São Paulo, 1980) vocaliza o poema "Anjo de papel ou de água?", de Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal, 1938 - 2007).

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Juliana Bratfisch vocaliza o poema "A mulher de Lot", de Wislawa Szymborska (1923 - 2012), do conjunto de traduções de Regina Przybycien publicadas no volume "poemas" (São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

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Laura Liuzzi (1985) empresta sua voz a T.S. Eliot (1888 - 1965) pela quinta parte do poema Little Gidding. Tradução de Ivan Junqueira.

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Renan Nuernberger (São Paulo, 1986) vocaliza o poema "As facas pernambucanas", de João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999).

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Mauricio Cardozo (Curitiba, 1971) empresta sua voz a Paul Celan (1920-1970), lendo o poema "Todesfuge", em sua tradução para o português ("Funesfuga").

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Mario Sagayama (São Paulo, 1989) vocaliza o poema "O poeta ao espelho, barbeando-se", de José Paulo Paes (1926 - 1998).

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Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) vocaliza o poema "Homem para Deus", do português Ruy Belo (1933 - 1978).

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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Li Ye (floruit 760 - 780)

A Modo de Usar & Co. segue hoje com a série de postagens sobre poetas chinesas da Dinastia Tang, a cargo dos tradutores Ricardo Portugal e Tan Xiao, com pequenas notas biográficas seguidas de uma nota introdutória comum dos tradutores.

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Li Ye (李冶) foi uma poeta chinesa da Dinastia Tang, da qual sobreviveram 16 poemas, 12 dos quais foram preservados em antologias da Dinastia. Acredita-se que foi cortesã e monja taoísta, como Yu Xuanji. A poeta morreu por volta do ano 784.


--- Modo de Usar & Co.

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Nota dos tradutores

A literatura da China tem uma longa tradição feminina. Dentre os catalogados 2.200 escritores da Dinastia Tang (618-905 d.C.), considerada o período de ouro da cultura clássica naquele país, citam-se 190 mulheres. A Dinastia Tang chinesa foi um dos momentos da história mundial em que a condição da mulher mais se aproximou de uma posição favorável na sociedade, de quase igualdade de gênero. Uma grupo expressivo daquelas artistas mulheres era formado por monjas taoístas e por cortesãs. Estas duas castas eram intercomunicantes (houve vários casos de cortesãs que se tornaram monjas taoístas e vice-versa), sendo formadas por mulheres de vida autônoma e vinculada à intelectualidade da época.

Os dez poemas abaixo são das três autoras consideradas mais importantes nessa tradição – Yu Xuanji, Li Ye, Xue Tao. Os poemas de Yu Xuanji aqui citados foram publicados em 2011, pela UNESP, em edição bilingue, com traduções, notas e prefácio preparados por nós. Os das outras duas poetas compõem antologia da Dinastia Tang que estamos preparando para publicação próxima. Feliz ano do dragão para todos!

--- Ricardo Portugal e Tan Xiao.


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POEMAS DE LI YE :

湖上卧病喜陆鸿渐至


昔去繁霜月

今来苦雾时。

相逢仍卧病

欲语泪先垂。

强劝陶家酒

还吟谢客诗。

偶然成一醉

此外更何之。



DOENTE JUNTO AO LAGO – SAUDAÇÃO A LU YU


Sobre a geada a lua, à tua ida

e hoje retornas na amarga neblina

Eis-me deitada, enferma, aqui me encontras

À fala acorre a lágrima, escorre

Vens, e do vinho de Tao me ofereces

e te devolvo um poema de Xie

Encher a cara contigo outra vez

mais do que isso, que posso querer?



相思怨


人道海水深

不抵相思半。

海水尚有涯

相思渺无畔。

携琴上高楼

楼虚月华满。

弹著相思曲

弦肠一时断。

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CANTO DE SAUDADE


Profundo, dizem do mar, suas águas

tão mais ao fundo chega a saudade

Mar sem margens, larga a sua praia

e mais longe alcança meu sentimento

Tomo o alaúde, subo as escadas

só no terraço, com a lua cheia

e esta canção que diz: estou triste

toco e arrebento as cordas, as tripas


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Sobre os tradutores:


Ricardo Primo Portugal é escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Está completando sete anos vivendo e trabalhando na China, primeiro em Pequim, depois em Xangai e, a partir de 2010, em Cantão (Guangzhou). Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Foi co-organizador da edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Em junho de 2011, saiu, pela UNESP, Poesia completa de Yu Xuanji, edição bilíngüe da obra da poetisa clássica chinesa (Dinastia Tang), com traduções suas, em parceria com a esposa, Tan Xiao, primeira obra completa de poeta daquele país editada no Brasil, traduzida diretamente do original chinês. (ver: http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1267). No final de 2011 publica, pela editora 7 Letras, [Zero a Sem], haicais (ver: https://www.7letras.com.br/zero-a-sem.html).

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Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Estudou português na UnB. Foi intérprete e tradutora português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim e trabalhou no escritório brasiliense da empresa Huawei. Atualmente, faz o mestrado em lingüística na Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong (“Guang Wai”, 广外).

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Fabiano Calixto vocaliza seu texto "Instruções para compor um folk"



Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973) vocaliza seu poema "Instruções para compor um folk", do seu livro inédito Nominata Morfina. Gravado em São Paulo, janeiro de 2012.


Instruções para compor um folk
Fabiano Calixto

Na Teodoro, me parece, nenhum momento é insignificante o bastante, como queríamos crer. A qualquer instante, entre vendedores de doces ou filmes pirata & algum grupo fazendo piadas com a nova estrela do futebol paulista, encontramos aquela garota com olhos cheios d’água carregando um pequeno vaso com flores da Nicarágua. Então ficamos em dúvida se deixamos na secura do ar aquela memória triste ou se a encharcamos com cerveja gelada – naquela lanchonete que vende os salgadinhos mais vagabundos da cidade, mas tem as mesas limpas & três ou quatro belas reproduções de Rothko. Inevitável não lembrar daqueles folks que falam dessa vida maltratada que levamos neste planeta. Aliás, para retomar aquele assunto sobre a composição de um folk, penso que, para compor um, precisamos do repouso pós-degustação das inflorescências femininas do cânhamo, da Berenice das insônias de Murilo, de rimar kiddin’ you com didn’t you. Precisamos de oferendas & arranjos florais. Precisamos nos imaginar Jean-Luc Godard vendendo, em um qualquer sebo parisiense, os livros autografados por Valéry roubados ao valerianum (a ilustre biblioteca de seu avô). O tema é tão antigo quanto um sorriso, homens decapitados & ervas daninhas. Tão conhecido quanto a caganeira de Pedro I, a gagueira de George VI & a demência do Führer. (Aliás, rimar esfíncter com Hitler daria uma boa fluidez à composição, além de funcionar como uma poderosa alegoria). Antes de cruzar a avenida & entrar na Oscar Freire, imagino que as pernas nuas da mulher amada poderão dar um perfume acústico à melodia. Mas, sabe que é estranho compor um folk? Há uma certa urgência, um desmentir, uma espécie de não-lugar fantasmagórico. Veja só: o que terá nomeado primeiro o primeiro poeta? Ao percorrer com as retinas alumbradas Vieira da Silva conseguiremos desadoecer a lâmina que insiste renomear nossa jugular? Que ansiedade porta um poliedro de fogo quando sabemos que poliedros de fogo não nos servem mais como inspiração? E, nesta praia de ossos, que inspiração? Não tendo como responder a isso, é necessário sujar os dedos de sangue. Não se deve ter medo das metáforas, já que a apregoada “morte da metáfora” é já, por si, uma metáfora. Se isso não for possível, talvez um sorvete de frutas vermelhas que, derretendo, escorra sua calda açucarada sobre a mão esquerda num domingo de sol enquanto se diz à namorada que nem os mais altos & complexos malabarismos da mente valem uma violeta. Mas, para ser mais preciso, insisto, seria mais bacana sangue. Ser duro (às vezes, cruel). Saber que a tristeza é a primeira flor do tempo, que nela é que, queiramos ou não, viveremos intensamente o suicídio de nossos desejos. Um a um. Então a morte novamente dará as cartas. Isso nos dissolverá. Um carinho ausente – por pura escolha. É muito válido, para compor um folk, uma nova reunião. & outra. Mais outra. De versos, de beijos, de amigos, de nãos, de figurinhas da Copa da Espanha. Ter a perfeita noção de que as pessoas a quem se destina o folk estarão interessadas exclusivamente em situações inesquecíveis. Pois quem já tocou a pele de seda & vidro moído da vida sabe que só o alumbramento vale o vexame de definhar-se, dia após dia, frente às contorções de tantas datas. Comprar certas brigas, respeitando sempre aquilo que nos eleva a nós mesmos & que, por isso, nos leva leves aos outros. Por exemplo: não precisa ser pró-Cuba nem anti-Cuba para entender que esta noite milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo etc. Um folk, meu caro amigo, é um silêncio brutal, é um hesitar, evitando relações com gente de temperamento sórdido, quando os vermes da alta patifaria endinheirada dizem que “o que fazemos não presta, porque andamos com uma roupa sovada & o colarinho sujo”. Sim, eu sei éramos o tipo de garotos que não costumavam chorar, nem mesmo sobre pesados invernos onde cai pesada, dentro da sessão da tarde, a solidão. Creio que, para compor um folk, não é preciso estudar numa escola rural & depois ingressar num seminário. Não é preciso trabalhar como tipógrafo, nem ter morado em Petrogrado. Não são necessários arranjos florais ou oferendas, nem padrinhos ou projetos aprovados pelo ministério da cultura. Conversar com Mársias sobre possíveis parcerias, sim – afinal, as flautas! Não é preciso devorar a comida siciliana, mas vale muito a pena comer as mil cortesãs de Corinto. Não é preciso rodar as ruas & vielas do Rio, como um zumbi, trincando de bêbado, à caça de Luísa Porto, nem é preciso emular as extravagâncias de William Cannastra. Lembra-se quando falei sobre o sangue? Pois então, levemos Iessiênin para passear pela Praça da República: Adeus, amigo, sem mãos nem palavras etc., imagine um poetic gore movie, imagine as curvas no rosto da garota Podolski quando caligrafava & desenhava O país onde tudo é permitido. Para compor um folk, turvos de amores & horrores, observando andorinhas chocando balas de fuzil, nós, indecisos pobres ossos de nós mesmos, na arena dessa desgraça portátil, tendo ou não colhido tulipas negras ou dálias azuis, devemos compreender que o horror não nos divide, o horror nos cerca. Observar a precisão astronômica dos moai do Pacífico Sul & ter em mente que todas as regras de construção só são válidas para os poemas que são cópias de outros poemas. Por isso: caminhar, caminhar – sabendo que, quando a ave sangria cantar três mil vezes, entraremos no império do transe & do delírio, onde, diria um carbonário, o planeta entra na órbita do coração.

Do livro Nominata morfina, a sair.



Fabiano Calixto é coeditor da Modo de Usar & Co.. Nasceu em Garanhuns, Pernambuco, em 1973. Publicou os livros Algum (1998), Fábrica (2000), Um Mundo Só Para Cada Par (2001) - em parceria com os poetas Tarso de Melo e Kléber Mantovani, Música Possível (2006) e Sangüínea (2007), assim como o livro de poemas para crianças Pão com bife (2007). O poeta e tradutor vive em São Paulo.


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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Rui Camargo


Rui Camargo nasceu em Minas Gerais, em fevereiro de 1988 e mora em São Paulo desde 1991. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. O poema "adão & eva", vocalizado no vídeo abaixo, foi publicado no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.. O segundo poema é completamente inédito.


--- Modo de Usar & Co.


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POEMAS DE RUI CAMARGO





adão & eva
18:00, domingo
para cláudio

aqui

meu velho

a gente põe

na sopa

o que sobrou

ossos de maio


você também

sem dúvida

ouviu

o som do choro

sobre a panela do inverno

é o sal

o iodo

do garfo


e deixa andar

a ceia exige

o tempero do cálcio


agora

a janta é assim

depois que despejaram

a gente do céu

o aluguel tava caro


(originalmente publicado no terceiro número impresso
da Modo de Usar & Co.)

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sexta-feira, 12:00

sem líquido

ou lágrima

só como o pó seco

que erra o caminho

mesmo sem ter rumo

ou água

que desse curso exato

ao silêncio da estrada


com um rio falava

e era absolvido


mas

só um

com o pó seco

escrevo em tinta árida

a confissão

e o testamento

uma letra por passo


no fim

ao menos

o vento lê

em cada grão

o testemunho

e

proferida a extrema unção

herda de mim

oblíquo

a tinta dos sapatos




Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Christian Ide Hintze (1953 - 2012)



Christian Ide Hintze foi um poeta e performer austríaco, nascido em Viena a 26 de dezembro de 1953. Uma das vozes mais importantes da poesia experimental germânica, um defensor incansável das possibilidades que as novas tecnologias traziam, tanto em termos de novas práticas como de um retorno a formas milenares de manifestação poética.

Trabalhou com filme e intervenções urbanas em cidades como Viena, Londres, Estocolmo, chegando a ser preso na Berlim Oriental por uma performance, expulso de uma feira editorial em Stuttgart e condenado em Viena por destruição de patrimônico público por colar poemas e cartazes nas paredes do Burgtheater.

Colaborou com grandes mestres da poesia em performance do pós-guerra, como Henri Chopin (1922 - 2008) e Allen Ginsberg (1926 - 1998).

Em 1992, fundou em Viena a importante e influente Schule für Dichtung (Escola de Poesia de Viena), na qual deram aulas poetas como Allen Ginsberg, Humberto Ak'abal, Nick Cave, H. C. Artmann, Anne Waldman, Blixa Bargeld, Henri Chopin, Ed Sanders, Ayu Utami e Inger Christensen.

O poeta morreu inesperadamente em Viena, com apenas 58 anos de idade, há poucos dias.


--- Ricardo Domeneck


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POEMAS DE CHRISTIAN IDE HINTZE




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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Marguerite Duras (1914 – 1996)



Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, nos arredores de Saigon, na então Indochina Francesa, Vietnã. Seu nome de batismo era Marguerite Donnadieu. Foi uma das mais conhecidas escritoras francesas do pós-guerra, além de excelente diretora e roteirista. Estreou na literatura em 1943, com Les Impudents, mas o primeiro romance a chamar a atenção da crítica seria Un barrage contre le Pacifique, de 1950. A fama começaria a vir com Moderato Cantabile (1958), mas seria tão-só na década de 80, com a publicação de L'Amant (1984), pelo qual recebeu o prestigioso Prêmio Goncourt, e La Douleur (1985), que Duras se transformaria em verdadeira celebridade do mundo das letras em seu país. Foi uma polemista nata, tão famosa por seus textos e filmes como por sua vida pessoal, da qual emanavam seus livros.

Seu roteiro para Hiroshima Mon Amour (1959), dirigido por Alain Resnais, é um dos grandes textos de amor do pós-guerra. Um belíssimo poema lírico.



O lirismo, as projeções de um eu-espéculo, sua narratividade altamente paratática, a clara consciência de composição textual, a linguagem metafórica, seu uso de potentes alegorias, tudo isso faz-me ver Duras como poeta. O texto que apresentamos aqui, do filme Les Mains négatives (1978) e em tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira, parece-me uma demonstração muito bela deste lirismo na autora, estivesse esta escrevendo oficialmente prosa ou diálogos para filmes. Textualidade.


--- Ricardo Domeneck


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TEXTO DE MARGUERITE DURAS
em tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira





As mãos negativas (excerto)


Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.



Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito


essas mãos


abertas


Azuis
E pretas


Do azul da água
Do preto da noite


O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho


O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas


E ele gritou


Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo


Essas mãos
do azul da água
do preto do céu


Planas


Colocadas divididas sobre o granito cinza


Para que alguém as visse


Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos


Eu te amo


Eu grito que eu quero te amar, eu te amo


Eu amarei quem quer que escute o meu grito

Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano


Insustentável


Ninguém escutará mais


Ninguém verá


Trinta mil anos
Estas mãos, pretas


A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra


Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca


O desejo


a palavra ainda não foi inventada


Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força


e depois gritou


Acima dele as florestas da Europa,
sem fim


Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes


Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido


Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede


Tudo se esmaga


Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo


Trinta mil anos


Eu chamo


Eu chamo aquele que me responder


Eu quero te amar eu te amo


Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco


Eu sou aquele que gritava que te amava, tu


(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)


:


Les mains négatives (1979)
Margueirte Duras

On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.



Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit


ces mains


ouvertes


Bleues
Et noires


Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit


L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul


L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses


Et il a crié


Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime


Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel


Plates


Posées écartelées sur le granit gris


Pour que quelqu'un les ait vues


Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans


Je t'aime


Je crie que je veux t'aimer, je t'aime


J'aimerai quiconque entrendra que je crie


Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan


Insoutenable


Personne n'entendra plus


Ne verra


Trente mille ans
Ces mains-là, noires


La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre


Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche


Le désir


le mot n'est pas encore inventé


Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force


et puis il a crié


Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin


Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts


Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini


Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi


Tout s'écrase


Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime


Trente mille ans


J'appelle


J'appelle celui qui me répondra


Je veux t'aimer je t'aime


Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc


Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi



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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Yu Xuanji (844–869)



A Modo de Usar & Co. inicia aqui uma série de postagens sobre poetas chinesas da Dinastia Tang, com traduções de Ricardo Portugal e Tan Xiao, com pequenas notas biográficas seguidas de uma nota introdutória comum dos tradutores.

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Yu Xuanji (Chinês tradicional: 魚玄機) foi uma poeta chinesa nascida em Chang'an durante a Dinastia Tang. Foi casada, como concubina, com Li Yi (李亿) aos 16 anos, e após separar-se converteu-se numa cortesã e monja taoísta. Há pouca informação concreta sobre sua vida. Teve seus poemas publicados em vida em um volume, que se perdeu. O texto mais antigo com informações sobre sua vida aparenta-se, segundo alguns autores que escreveram sobre ela, a tablóides e revistas de fofoca atuais. A poeta morreu aos 26 anos. Temos dela hoje 49 poemas. Leia sua Poesia Completa em tradução, no volume editado pela UNESP, a cargo dos generosos tradutores que permitiram esta publicação.


--- Modo de Usar & Co.

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Nota dos tradutores

A literatura da China tem uma longa tradição feminina. Dentre os catalogados 2.200 escritores da Dinastia Tang (618-905 d.C.), considerada o período de ouro da cultura clássica naquele país, citam-se 190 mulheres. A Dinastia Tang chinesa foi um dos momentos da história mundial em que a condição da mulher mais se aproximou de uma posição favorável na sociedade, de quase igualdade de gênero. Uma grupo expressivo daquelas artistas mulheres era formado por monjas taoístas e por cortesãs. Estas duas castas eram intercomunicantes (houve vários casos de cortesãs que se tornaram monjas taoístas e vice-versa), sendo formadas por mulheres de vida autônoma e vinculada à intelectualidade da época.
Os dez poemas abaixo são das três autoras consideradas mais importantes nessa tradição – Yu Xuanji, Li Ye, Xue Tao. Os poemas de Yu Xuanji aqui citados foram publicados em 2011, pela UNESP, em edição bilingue, com traduções, notas e prefácio preparados por nós. Os das outras duas poetas compõem antologia da Dinastia Tang que estamos preparando para publicação próxima. Feliz ano do dragão para todos!

--- Ricardo Portugal e Tan Xiao.


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POEMAS DE YU XUANJI : 冬夜寄温飞卿


苦思搜诗灯下吟

不眠长夜怕寒衾。

满庭木叶愁风起

透幌纱窗惜月沈。

疏散未闲终遂愿

盛衰空见本来心。

幽栖莫定梧桐处,

暮雀啾啾空绕林。


Para Feiqing em uma noite de inverno


Baixa poema invoco-te à luz da lanterna

à noite insone renego o frio das cobertas

Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor

Entre as cortinas em gaze a lua declina

Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim

em florescer e murchar conhece-se a flor

mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos

Encerra a tarde um arco os pardais em alarde



代人悼亡


曾睹夭桃想玉姿,

带风杨柳认蛾眉。

珠归龙窟知谁见,

镜在鸾台话向谁。

从此梦悲烟雨夜,

不堪吟苦寂寥时。

西山日落东山月,

恨想无因有了期。


Compartilhando um luto


Lembro a elegância como um jade, a pele em pêssego

salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas

Encerra a gruta do dragão aquela pérola

À base em fênix, só, na alcova resta o espelho

a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa

não mais que a dor insuportável, sem parelho

A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas

ao sol, à lua: nunca mais uma esperança




遣怀


闲散身无事,

风光独自游。

断云江上月,

解缆海中舟。

琴弄萧梁寺,

诗吟庾亮楼。

丛篁堪作伴,

片石好为俦。

燕雀徒为贵,

金银志不求。

满杯春酒绿,

对月夜窗幽。

绕砌澄清沼,

抽簪映细流。

卧床书册遍,

半醉起梳头。


Deixando-se levar


Nenhum laço me prende; sempre livre,

vou sem destino, leve entre as paragens

Nuvens se abrem entre lua e rio,

amarras frouxas, barco em pleno mar

No Templo Liang,1 tanger o alaúde,

no pavilhão recita-se o poema

Ter por abrigo as grutas de bambus

e nas veredas, pedras companheiras

Preciosos são o pardal, a andorinha

São ar a prata e o ouro, seus castelos

A primavera oferta verde o vinho,2

à noite a lua aquieta-se à janela

O passo estanca à fonte transparente

e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo

Na cama, ébria, os livros me rodeiam

Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me




打球作


坚圆净滑一星流,

月杖争敲未拟休。

无滞碍时从拨弄,

有遮栏处任钩留。

不辞宛转长随手,

却恐相将不到头。

毕竟入门应始了,

愿君争取最前筹。


Olhando-os jogar polo


Desliza a bola, um cometa, macia roda

Batem-se os tacos, luas crescentes às pontas

Correm os homens, atiram-se uns contra os outros

Vejo-os por trás; do cercado, jogo meu olho

À frente a bola salta-lhes, cortam-se em círculos

Como se nem desejassem marcar, parecem

Mas iniciado este jogo, irão até o fim

E vença o melhor: a este, espera uma prenda



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Ricardo Primo Portugal é escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Está completando sete anos vivendo e trabalhando na China, primeiro em Pequim, depois em Xangai e, a partir de 2010, em Cantão (Guangzhou). Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Foi co-organizador da edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Em junho de 2011, saiu, pela UNESP, Poesia completa de Yu Xuanji, edição bilíngüe da obra da poetisa clássica chinesa (Dinastia Tang), com traduções suas, em parceria com a esposa, Tan Xiao, primeira obra completa de poeta daquele país editada no Brasil, traduzida diretamente do original chinês. (ver: http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1267). No final de 2011 publica, pela editora 7 Letras, [Zero a Sem], haicais (ver: https://www.7letras.com.br/zero-a-sem.html).

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Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Estudou português na UnB. Foi intérprete e tradutora português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim e trabalhou no escritório brasiliense da empresa Huawei. Atualmente, faz o mestrado em lingüística na Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong (“Guang Wai”, 广外).

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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Novos vídeos do projeto "Empreste sua voz a um poeta morto"




Novas contribuições, todas brasileiras, para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto". Você pode acompanhar o projeto diretamente pelo novo canal



ou aqui mesmo, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.. Veja os novos vídeos abaixo.


--- Modo de Usar & Co.


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Rui Camargo vocaliza o nono poema da série dos "Poemas do pequeno assassino", de Orlando Parolini (1936 - 1991).

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Fabiano Calixto (Garanhuns, 1973) vocaliza o poema "Cogito", de Torquato Neto (1944 - 1972).

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Carlito Azevedo (Rio de Janeiro, 1961) empresta sua voz a C. Tarkos (Paris, 1963-2004) lendo o poema "Um beijo".

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Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988) vocaliza o poema "O homem público Nº 1 (Antologia)", de Ana Cristina Cesar (1952 - 1983).

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Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1983) vocaliza o poema "A chula das fogueiras", de Fernando Assis Pacheco (1937 - 1995).

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Danilo Bueno (São Paulo, 1979) vocaliza o poema "Um prego", de Luís Miguel Nava (1957 - 1995).

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Eduardo Jorge (Fortaleza, 1978) vocaliza o poema "Lamento sobre o Lago de Nemi", de Haroldo de Campos (1929 - 2003).

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Ricardo Domeneck (Bebedouro, SP, 1977) vocaliza o poema "Miscasting", de Hilda Machado (1952 - 2007).


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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Wislawa Szymborska (1923 - 2012)



Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.

Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2009, com o título Tutaj (Aqui). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.



Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".

Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes autodepreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.

No ano passado, a Companhia das Letras lançou uma antologia dos poemas da polonesa no Brasil, com traduções de Regina Przybycien.

Wislawa Symborska morreu há dois dias, em sua Cracóvia de eleição, a 1° de fevereiro de 2012. A Modo de Usar & Co. lamenta imensamente esta gigantesca perda.


--- Marília Garcia e Ricardo Domeneck.


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POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)

§

A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.


(tradução de Regina Przybycien)


§§§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele essa gente estranha.
Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas pinturas assim como esta:

Nada especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma canoa forçando seu curso contra a corrente.
Vê-se uma ponte sobre a água e vê-se gente na ponte.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.

A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A canoa navega sem se mover.
A gente na ponte corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.

É difícil passar sem um comentário:
Esse não é de modo algum um quadro inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.

Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.

Por causa de um rebelde
um tal Hiroshige Utagawa
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:

Tem sido de bom-tom há gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.

Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a ponte e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.

(tradução de Regina Przybycien)

§

Abaixo, poemas em tradução de Júlio Sousa Gomes

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

§§§

Estação

Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.

Uma carta por enviar
te avisara.

Conseguiste não chegar
à hora prevista.

O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.

Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.

Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.

Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.

A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.

Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.

Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da verossimilhança.

Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.


§§§


Na torre de Babel

Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças.
— Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões.
— Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar.
— É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza.
— Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo.
— Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
E é tudo? — De ninguém como de ti.
Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui.
— Tens umas mãos tão bonitas.
É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas.
— Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.


§§§


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.

§§§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:

Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.

O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.

É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.

Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:

Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.

Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.



Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.

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