sexta-feira, 30 de março de 2012

"Repentistas, líricos e trovadores: Cátia de França", por Reuben da Cunha Rocha



Repentistas, líricos e trovadores: Cátia de França
por Reuben da Cunha Rocha, especial para a Modo de Usar & Co.

Frequentemente o passeio pela experiência criativa dos anos 70 nos depara c/ uma série de artistas que operam no cruzamento de vetores diversos, deglutindo poéticas díspares, criando sem compromissos de campo, contaminando uns aos outros reciprocamente, sem casamentos. Um momento, certamente não o único, de tensões e sínteses tão radicais que nenhum balanço de época daria conta, pois que cada indivíduo significa a sua própria linguagem.

As notas que seguem são um convite p/ uma caminhada pelos jardins dalgumas figuras das mais produtivas que atuaram nessa época, o que não quer dizer que apenas nela. São atacantes da arte experimental do período, a quem o vetor da poesia alimentou pelo cordel, a trova, a poesia romântica e a moderna, com liberdade sincera a ponto de agirem como se qualquer coisa fosse de fato possível. São paisagens pessoais, relâmpagos que me deram e dão eletricidade duradoura, tudo na frequência de muito frevo, baião, forró, bolero, maracatu, embolada, rock e tudo o mais.

Os sinalizadores que escolhi são Ednardo, Alceu Valença e Cátia de França. Poderiam ser outros, Moraes Moreira, Zé Ramalho, Galvão. Elomar e suas cantigas de amor e amigo. Ou Belchior, o Bertold Brecht dos movimentos migratórios, curiosa antítese do hippismo paz e amor e grande revoltado – “meu bem, não pense em paz/ que deixa a alma antiga”.

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Cátia de França nasceu em João Pessoal, Paraíbia, em 1947. Lança o disco Vinte palavras girando ao redor do sol em 1979, após um compacto duplo e diversas passagens por festivais na década de 60, quando também dá um giro pela Europa acompanhando um grupo folclórico. Sua música é rica em fusões, de folk, forró, blues e rock, sempre c/ a alta pressão rítmica e sonora do baião.

Vinte palavras girando ao redor do sol é produzido por Carlos Alberto Sion e Zé Ramalho, responsável ainda pelos viajantes solos de viola do disco, que ainda conta c/ participações de Dominguinhos, Sivuca, Elba Ramalho e Amelinha. Seguem-se Estilhaços (1980), Feliz demais (1985), Olinda (1986), Avatar (1996) e Cátia de França canta Pedro Osmar (2005).

Em entrevistas, ela costuma dizer que compõe grávida dos autores que estiver lendo, e tem destaque, de fato, a presença de figuras como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Manoel de Barros ou José Lins do Rego nas suas letras, mas eu diria que a força de sua poética deve igualmente à prosódia de seu “baião urbano”, ao pulso forte de suas narrativas, cinema oral da poesia. Artista plástica, multi-instrumentista, é também autora dos livros Zumbi em cordel, Falando de natureza naturalmente (infantil) e da autobiografia Manual da sobrevivência.


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POEMAS DE CÁTIA DE FRANÇA



Coito das araras// Papagaio da asa amarela/ Corre e leve esse recado meu pra ela/ Minha saudade não se rebate/ Vai no grito estrangulado do meu canto// Papagaio trombeteiro/ Meu amigo ele é um bom carteiro/ Diz pra ela que nas águas do coito/ Nasceu versos da espera na lagoa// No Coito das Araras/ Quem passa por lá não para/ No Coito das Araras/ Tudo está como sempre foi/ O gado pasta no Berra Boi/ Tudo está como sempre foi// No Coito das Araras/ É o araçá das almas/ O Zé que cantava é o sete casacas/ É a sombra do touro êia, peroba baião ê ê/ É a sombra do touro êia, timborna sertão// Ainda trago na boca, nos olhos, a visão da tua imagem/ Despenteada, sorrindo, correndo pela rodagem/ Meia distância, meia légua, légua e meia/ No fim apanhei restou a peia, légua e meia / Você correndo pela rodagem, légua e meia / Despenteada, sorrindo, légua e meia

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Quem vai, quem vem

Cátia de França - "Quem vai, quem vem" by Modo de Usar & Co.

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Os Galos// Na torre da igreja, num muro qualquer/ Em algum galinheiro, terreiro mulher/ O galo é seresta, ele é o seresteiro/ É relógio é alarme escondido num puleiro/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Disputa na arena de vida ou de morte/ A sorte lançada no brilho do esporão/ No centro da rinha ele ganha e explode/ Numa raiva danada ele come uma galinha/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Ciscando na areia, comendo sujeira/ O galo é algo bem marcial/ Garanhão general de penas coloridas/ Numa aposta foi cego já não há mais saída/ É triste de ver sua crista caída/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá// Faísca é o nome do galo citado/ Sua fama correu por todo o estado/ O olho que é cego segura a emoção/ O inimigo comendo a poeira no chão/ Ê Ê paracatum paracumbá/ Ê Ê paracatum paracumbá

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Sustenta a pisada

Cátia de França - "Sustenta a pisada" by Modo de Usar & Co.


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