Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

Yu Xuanji (844–869)



A Modo de Usar & Co. inicia aqui uma série de postagens sobre poetas chinesas da Dinastia Tang, com traduções de Ricardo Portugal e Tan Xiao, com pequenas notas biográficas seguidas de uma nota introdutória comum dos tradutores.

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Yu Xuanji (Chinês tradicional: 魚玄機) foi uma poeta chinesa nascida em Chang'an durante a Dinastia Tang. Foi casada, como concubina, com Li Yi (李亿) aos 16 anos, e após separar-se converteu-se numa cortesã e monja taoísta. Há pouca informação concreta sobre sua vida. Teve seus poemas publicados em vida em um volume, que se perdeu. O texto mais antigo com informações sobre sua vida aparenta-se, segundo alguns autores que escreveram sobre ela, a tablóides e revistas de fofoca atuais. A poeta morreu aos 26 anos. Temos dela hoje 49 poemas. Leia sua Poesia Completa em tradução, no volume editado pela UNESP, a cargo dos generosos tradutores que permitiram esta publicação.


--- Modo de Usar & Co.

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Nota dos tradutores

A literatura da China tem uma longa tradição feminina. Dentre os catalogados 2.200 escritores da Dinastia Tang (618-905 d.C.), considerada o período de ouro da cultura clássica naquele país, citam-se 190 mulheres. A Dinastia Tang chinesa foi um dos momentos da história mundial em que a condição da mulher mais se aproximou de uma posição favorável na sociedade, de quase igualdade de gênero. Uma grupo expressivo daquelas artistas mulheres era formado por monjas taoístas e por cortesãs. Estas duas castas eram intercomunicantes (houve vários casos de cortesãs que se tornaram monjas taoístas e vice-versa), sendo formadas por mulheres de vida autônoma e vinculada à intelectualidade da época.
Os dez poemas abaixo são das três autoras consideradas mais importantes nessa tradição – Yu Xuanji, Li Ye, Xue Tao. Os poemas de Yu Xuanji aqui citados foram publicados em 2011, pela UNESP, em edição bilingue, com traduções, notas e prefácio preparados por nós. Os das outras duas poetas compõem antologia da Dinastia Tang que estamos preparando para publicação próxima. Feliz ano do dragão para todos!

--- Ricardo Portugal e Tan Xiao.


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POEMAS DE YU XUANJI : 冬夜寄温飞卿


苦思搜诗灯下吟

不眠长夜怕寒衾。

满庭木叶愁风起

透幌纱窗惜月沈。

疏散未闲终遂愿

盛衰空见本来心。

幽栖莫定梧桐处,

暮雀啾啾空绕林。


Para Feiqing em uma noite de inverno


Baixa poema invoco-te à luz da lanterna

à noite insone renego o frio das cobertas

Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor

Entre as cortinas em gaze a lua declina

Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim

em florescer e murchar conhece-se a flor

mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos

Encerra a tarde um arco os pardais em alarde



代人悼亡


曾睹夭桃想玉姿,

带风杨柳认蛾眉。

珠归龙窟知谁见,

镜在鸾台话向谁。

从此梦悲烟雨夜,

不堪吟苦寂寥时。

西山日落东山月,

恨想无因有了期。


Compartilhando um luto


Lembro a elegância como um jade, a pele em pêssego

salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas

Encerra a gruta do dragão aquela pérola

À base em fênix, só, na alcova resta o espelho

a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa

não mais que a dor insuportável, sem parelho

A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas

ao sol, à lua: nunca mais uma esperança




遣怀


闲散身无事,

风光独自游。

断云江上月,

解缆海中舟。

琴弄萧梁寺,

诗吟庾亮楼。

丛篁堪作伴,

片石好为俦。

燕雀徒为贵,

金银志不求。

满杯春酒绿,

对月夜窗幽。

绕砌澄清沼,

抽簪映细流。

卧床书册遍,

半醉起梳头。


Deixando-se levar


Nenhum laço me prende; sempre livre,

vou sem destino, leve entre as paragens

Nuvens se abrem entre lua e rio,

amarras frouxas, barco em pleno mar

No Templo Liang,1 tanger o alaúde,

no pavilhão recita-se o poema

Ter por abrigo as grutas de bambus

e nas veredas, pedras companheiras

Preciosos são o pardal, a andorinha

São ar a prata e o ouro, seus castelos

A primavera oferta verde o vinho,2

à noite a lua aquieta-se à janela

O passo estanca à fonte transparente

e em seu espelho, à imagem, deixo o grampo

Na cama, ébria, os livros me rodeiam

Cabelo aliso ao pente, enfim levanto-me




打球作


坚圆净滑一星流,

月杖争敲未拟休。

无滞碍时从拨弄,

有遮栏处任钩留。

不辞宛转长随手,

却恐相将不到头。

毕竟入门应始了,

愿君争取最前筹。


Olhando-os jogar polo


Desliza a bola, um cometa, macia roda

Batem-se os tacos, luas crescentes às pontas

Correm os homens, atiram-se uns contra os outros

Vejo-os por trás; do cercado, jogo meu olho

À frente a bola salta-lhes, cortam-se em círculos

Como se nem desejassem marcar, parecem

Mas iniciado este jogo, irão até o fim

E vença o melhor: a este, espera uma prenda



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Ricardo Primo Portugal é escritor e diplomata, graduado em Letras pela UFRGS. Está completando sete anos vivendo e trabalhando na China, primeiro em Pequim, depois em Xangai e, a partir de 2010, em Cantão (Guangzhou). Publicou: DePassagens (Ameop, 2004), Arte do risco (SMCPA, 1992), entre outros. Foi co-organizador da edição bilíngue chinês-português Antologia poética de Mário Quintana (EDIPUCRS, 2007), primeiro livro de poeta brasileiro traduzido para o chinês, com o apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai. Em junho de 2011, saiu, pela UNESP, Poesia completa de Yu Xuanji, edição bilíngüe da obra da poetisa clássica chinesa (Dinastia Tang), com traduções suas, em parceria com a esposa, Tan Xiao, primeira obra completa de poeta daquele país editada no Brasil, traduzida diretamente do original chinês. (ver: http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1267). No final de 2011 publica, pela editora 7 Letras, [Zero a Sem], haicais (ver: https://www.7letras.com.br/zero-a-sem.html).

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Tan Xiao é graduada em Letras, com ênfase em língua inglesa e ensino das línguas inglesa e chinesa pela Universidade Zhong Nan, Changsha, Hunan, República Popular da China. Estudou português na UnB. Foi intérprete e tradutora português-chinês da Embaixada do Brasil em Pequim e trabalhou no escritório brasiliense da empresa Huawei. Atualmente, faz o mestrado em lingüística na Universidade de Línguas Estrangeiras de Guangdong (“Guang Wai”, 广外).

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