Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Marguerite Duras (1914 – 1996)



Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, nos arredores de Saigon, na então Indochina Francesa, Vietnã. Seu nome de batismo era Marguerite Donnadieu. Foi uma das mais conhecidas escritoras francesas do pós-guerra, além de excelente diretora e roteirista. Estreou na literatura em 1943, com Les Impudents, mas o primeiro romance a chamar a atenção da crítica seria Un barrage contre le Pacifique, de 1950. A fama começaria a vir com Moderato Cantabile (1958), mas seria tão-só na década de 80, com a publicação de L'Amant (1984), pelo qual recebeu o prestigioso Prêmio Goncourt, e La Douleur (1985), que Duras se transformaria em verdadeira celebridade do mundo das letras em seu país. Foi uma polemista nata, tão famosa por seus textos e filmes como por sua vida pessoal, da qual emanavam seus livros.

Seu roteiro para Hiroshima Mon Amour (1959), dirigido por Alain Resnais, é um dos grandes textos de amor do pós-guerra. Um belíssimo poema lírico.



O lirismo, as projeções de um eu-espéculo, sua narratividade altamente paratática, a clara consciência de composição textual, a linguagem metafórica, seu uso de potentes alegorias, tudo isso faz-me ver Duras como poeta. O texto que apresentamos aqui, do filme Les Mains négatives (1978) e em tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira, parece-me uma demonstração muito bela deste lirismo na autora, estivesse esta escrevendo oficialmente prosa ou diálogos para filmes. Textualidade.


--- Ricardo Domeneck


§


TEXTO DE MARGUERITE DURAS
em tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira





As mãos negativas (excerto)


Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.



Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito


essas mãos


abertas


Azuis
E pretas


Do azul da água
Do preto da noite


O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho


O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas


E ele gritou


Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo


Essas mãos
do azul da água
do preto do céu


Planas


Colocadas divididas sobre o granito cinza


Para que alguém as visse


Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos


Eu te amo


Eu grito que eu quero te amar, eu te amo


Eu amarei quem quer que escute o meu grito

Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano


Insustentável


Ninguém escutará mais


Ninguém verá


Trinta mil anos
Estas mãos, pretas


A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra


Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca


O desejo


a palavra ainda não foi inventada


Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força


e depois gritou


Acima dele as florestas da Europa,
sem fim


Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes


Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido


Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede


Tudo se esmaga


Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo


Trinta mil anos


Eu chamo


Eu chamo aquele que me responder


Eu quero te amar eu te amo


Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco


Eu sou aquele que gritava que te amava, tu


(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)


:


Les mains négatives (1979)
Margueirte Duras

On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.



Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit


ces mains


ouvertes


Bleues
Et noires


Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit


L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul


L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses


Et il a crié


Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime


Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel


Plates


Posées écartelées sur le granit gris


Pour que quelqu'un les ait vues


Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans


Je t'aime


Je crie que je veux t'aimer, je t'aime


J'aimerai quiconque entrendra que je crie


Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan


Insoutenable


Personne n'entendra plus


Ne verra


Trente mille ans
Ces mains-là, noires


La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre


Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche


Le désir


le mot n'est pas encore inventé


Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force


et puis il a crié


Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin


Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts


Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini


Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi


Tout s'écrase


Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime


Trente mille ans


J'appelle


J'appelle celui qui me répondra


Je veux t'aimer je t'aime


Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc


Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi



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