Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Júlia de Carvalho Hansen



Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em janeiro de 1984 e mora em Lisboa desde 2009. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e atualmente cursa o mestrado em Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa. Neste ano de 2012 prepara uma dissertação sobre a noção de tradição em alguns ensaios de poetas do século XX, enquanto termina de escrever o seu segundo livro de poemas: alforria blues ou poemas do destino do mar, do qual os poemas aqui publicados fazem parte. Seu primeiro livro é o cantos de estima, que teve duas edições de materiais, tamanhos e tiragens diferentes. A primeira foi no projeto 12 exemplares [link: http://12exemplares.blogspot.com] no qual a poeta datilografou a máquina de escrever 14 poemas e os costurou em 12 cadernos que foram destinados a pessoas de diferentes idades, profissões e localidades, com o convite de que retribuíssem o cantos de estima com o fazer que quisessem. Das respostas foi feita uma exposição na Associação Cultural Cecília, em São Paulo, em agosto de 2009. No mesmo mês, foi publicada a 2ª edição, ampliada em poemas e na tiragem gráfica de 120 exemplares. É possível encontrá-la para download na internet [link: http://pt.scribd.com/doc/45464735/Cantos-de-Estima]. A convite da Fundação realiza com a artista plástica Mayana Redin a exposição Aluvião, no Porto, em dezembro de 2010. Em fevereiro de 2011 é lançada sua publicação de poemas Primeira Reunião de Lugares, integrante da mostra "Transporto sempre uma viagem", na Galeria Quadrum, em Lisboa. O número 3 impresso da Modo de Usar & Co. traz vários poemas da poeta, dos quais reproduzimos um abaixo, seguido de vários poemas inéditos.

--- Modo de Usar & Co.


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POEMAS DE JÚLIA DE CARVALHO HANSEN

[Temes a noite onde os nomes...]
Júlia de Carvalho Hansen

Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares
e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro
são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos.

Um avião cruza os ares em direção a um batizado.
É o seu eco que cola as sílabas umas as outras
rejuntes de significado, amálgamas do esquecimento.

Se só pensas em assentar as mais corretas, maneiras
de permanecer, feito cal, espalhado pelas espáduas
trêmulo cimentado teu coração, um canteiro de plantio
para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano.
De ti, só poderei aceitar atrelar-me, como um mexilhão.

Agora sou na tua rocha. E de mim se aproxima outro,
que os passageiros não alcançarão. Age antes de querer
com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves
sem enciclopédia ou Discovery Channel
feito um miúdo se maravilha, ama as pérolas,
sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las.

Como eu, um dia, também contigo, tentei.

(publicado originalmente, junto de vários outros inéditos, no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.)


§


Poemas completamente inéditos:

poemas do destino do mar

Acordei em Lisboa com o barulho de abrirem
um lençol molhado no céu
e tentavam arrastar as colinas para o rio.
Ao meu lado desenhavas
as linhas de um mar apavorado
mas grande demais para fugir.

Guardo junto a outros. Tudo o que me importa.
Há uma caixa ali, do lado esquerdo de quem está comigo,
onde estão aos quantos instantes iguais
gravados nas milhares de fotografias
digitais pelos turistas no mundo agora
e eu. Tão madura, tão rude, inconstante
cinqüenta mil doçuras que te apavoram
cinqüenta mais cinqüenta mil e duas paisagens com uma pessoa em frente
ícone, um totem do igual
queimado pelo vermelho do sol.

Ou que quer dizer isso?
Esse lugar que desaparece com uma chuva-fria
os quatro dias dados aos combatentes do entretenimento
seus pés que incham, desacostumados a andar e
clicam. Para a tia que ainda existe, uma empregada atenta
tua mão distraidamente na varanda da minha mão.
Como o vento grava em uma roupa
um alvo é só um vulto. Que quer dizer isso?
Um beijo dado
mais tarde.


§


O céu que nos prometa um ano bêbado
sem por enquantos
um ano que diz ENTÃO MOSTRA
e sacode feito leitoa as tetas que caem
são nuvens
de uma chuva dramática e sem aprendizagem.
Eterno ser sem se apropriar
da impossibilidade de organizarmos
em formas calmas, permanentes, necessárias
tanto você como também eu
ou nós podemos pular e estaremos no alto
através dele, este céu que nos promete
Sou eu o messias e anuncio
mais uma rodada de anos
bêbados.


§


Enquanto ele fala sobre um furacão e a força repentina que é nascer eu
ouço. Ao seu lado o tempo, penso, passa em mim
como uma poça de água parada
por onde atravessou um caminhão.

Não sei pra onde
dizem vão
essas placas abandonadas
nem porque elas ficam assim
penduradas.

Ninguém salva a ninguém de si mesmo
brinca de farol, no máximo
neon das estrelas do coração.

Ele abre a janela e sorri como o vento mostra os dentes do cavalo dado.
Não olha assim, amor,
depende tanto tudo, não esquece.


§


Seja lábio, lanterna
adivinha o meu nome
no céu, homem.

Treme não. O astro
é barbárie, insolação
rosto sem face. Mas

o mar quando escreve
é um coração
que não tivesse centro.

Que fosse capaz
o mar de te deixar
mesmo se, não deixava.

Vingava os olhos
de tanto ver mexer
pra te morder

a onda que abraça
a galáxia ri
muito branca.


§


galope

Acordo em estado de dicionário. Sei que enquanto não escrever meus ombros continuarão como as lombadas duras das capas. Definitivamente é hora de acordar e meus olhos se desprendem de alegria quando sacudo os pés pra um lado e outro, e ainda no colchão os olhos desprendem das órbitas e começam a me olhar. Depois do café, chego na pia da casa de banho e tenho que lavar os dentes. A escova, escova. A pasta quase acabando, da próxima vez Colgate não, Couto. Couto é portuguesa. Tiro todo o açúcar do café depois do pequeno-almoço para as cáries não corroerem todos os meus dentes. Não que eu não tenha amor pelas coisas que vivem. Não que a putrefação não seja uma forma, tão pouco sutil forma, de vida. Não que eu ache que seja capaz de conter o destino das coisas, dos meus dentes, mas definitivamente meus poemas mentais são melhores do que os escritos. O que provocará certamente em quem lê uma vontade de estar por dentro do meu corpo, das minhas órbitas, dos meus pés. Coisa que eu até que gostaria. Por não ter onde ser colocada na minha retirada de dentro para a sua entrada, eu teria, definitivamente, como aquele cavalo que saiu da aldeia, definitivamente eu teria fugido.



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2 comentários:

nydia bonetti disse...

Que bárbaro o trabalho de Julia. Segui o link, encontrei outros blogs. Muito bons.

Anónimo disse...

Que bacana que fizeram uma postagem sobre a Júlia. Gosto muito dos poemas dela. Saudações camaradas

Danilo Bueno