Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

EMPRESTE SUA VOZ A UM POETA MORTO: Marcelo Sahea vocaliza o poema fonético "Karawane", de Hugo Ball



Hugo Ball foi um dos fundadores do Cabaret Voltaire em Zurique, projeto iniciado em 1916, e o primeiro teórico e líder em torno da vanguarda histórica anti-distópica que passaria a ser chamada de dadaísmo por causa da revista DADA (1916 - 1919), na qual publicaram poemas, artigos e seus primeiros manifestos. Trata-se de um dos primeiros poetas discutidos pela Modo de Usar & Co. no início de suas atividades, como precursor incontornável da poesia sonora e performática do pós-guerra e do século XXI. No primeiro número impresso da revista, a seção "Dois momentos de saúde bucal e higiene mental na poesia germânica" trazia os poemas "Canto noturno do peixe", de Christian Morgenstern, e justamente o "Karawane" de Hugo Ball. É uma conjunção de admiração comum que nos alegra na escolha do poeta Marcelo Sahea (Rio de Janeiro, 1971) para sua participação no projeto Empreste sua voz a um poeta morto:




Pode-se ler a postagem da Modo de Usar & Co. dedicada a Hugo Ball e outros poetas ligados a DADA e suas heranças no ensaio abaixo:



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Leia também a postagem dedicada a Marcelo Sahea.






Hugo Ball (1886 - 1927)

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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Modo de Usar & Co. lança seu projeto televisivo EMPRESTE SUA VOZ A UM POETA MORTO


Os editores da Modo de Usar & Co. começam aqui um projeto, que chamamos de EMPRESTE SUA VOZ A UM POETA MORTO, convidando poetas contemporâneos brasileiros e internacionais a doarem suas vozes a seus mestres mortos. Iniciado no México, o novo canal da Modo de Usar & Co. traz já leituras de Daniel Saldaña París (México) lendo Salvador Díaz Mirón (México); Ezequiel Zaidenwerg (Argentina) lendo Luis Cernuda (Espanha); Robin Myers (Estados Unidos) lendo Wallace Stevens (Estados Unidos); Luis Felipe Fabre (México) lendo Xavier Villaurrutia (México); Hernán Bravo Varela (México) lendo Alfredo R. Placencia (México); Ricardo Domeneck (Brasil) lendo Carlos Drummond de Andrade (Brasil), em homenagem a Minerva Reynosa (México); Óscar de Pablo (México) lendo Roque Dalton (El Salvador); e a dupla Paula Abramo (México) e Ricardo Domeneck (Brasil) lendo Raul Pompeia (Brasil).

Nas próximas semanas, o canal receberá a colaboração de mais poetas brasileiros, assim como encomendas de leituras a outros poetas internacionais.

Você pode acompanhar o projeto diretamente pelo novo canal



ou aqui mesmo, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.. Encerramos as postagens de 2011 com esta primeira série mexicana do projeto. Retornaremos nos primeiros dias de 2012, com uma postagem sobre um jovem poeta contemporâneo brasileiro.



--- Modo de Usar & Co.


EMPRESTE SUA VOZ A UM POETA MORTO
série iniciada no México, dezembro de 2011



Daniel Saldaña París (Ciudad de México, 1984) presta su voz a Salvador Díaz Mirón (1853 - 1928).

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Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) presta su voz a Luis Cernuda (1902 - 1963).

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Robin Myers (New York, 1987) lends her voice to Wallace Stevens (1863 - 1955).

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Luis Felipe Fabre (Ciudad de México, 1974) presta su voz a Xavier Villaurrutia (1903 - 1950).

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Hernán Bravo Varela (Ciudad de México, 1979) presta su voz a Alfredo R. Placencia (1873-1930).

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Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977) empresta sua voz a Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), leitura dedicada à poeta mexicana Minerva Reynosa.

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Óscar de Pablo (Ciudad de México, 1979) presta su voz al poeta salvadoreño Roque Dalton (1935 - 1975).

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Paula Abramo (Ciudad de México, 1980) e Ricardo Domeneck (São Paulo, 1977) emprestam/prestan suas/sus vozes/voces a Raul Pompeia (1863 - 1895).

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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Luís Gama (1830-1882)

da série Sintonia de nossa sincronia




Luís Gama nasceu em Salvador, Bahia, em 1830. Filho de um fidalgo português e daquela que, um dia escrava, veio a se tornar uma das grandes líderes políticas e revolucionárias brasileiras no século XIX – Luísa Mahin – que, sequestrada na África da tribo Mahin, nação islâmica Jeje-Nagô, esteve envolvida na articulação de revoltas e tentativas de revolução como a Revolta dos Malês (1835) e a Sabinada (1837-1838).

Luís Gama foi vendido pelo pai para pagar uma dívida de jogo. Na fazenda do alferes que o comprara, Antonio Pereira Cardoso, aprendeu a ler e escrever antes de fugir para São Paulo, onde passou a frequentar o curso de Direito como ouvinte e fundou, em 1864, o jornal Diabo Coxo. Em 1869, fundou com Rui Barbosa o jornal Radical Paulistano, no qual difundiu os ideais que levariam, finalmente, tanto à Abolição (oficial) da escravidão no Brasil como à proclamação da República, cofundando ainda, em 1873, o Partido Republicano Paulista. Colaborou ativamente na resistência contra o racismo e a escravidão, na organização de fugas e ajuda financeira a negros, assim como na defesa, em tribunais, de centenas de escravos foragidos. Liderou a Mocidade Abolicionista e Republicana. Luís Gama morreu em São Paulo em 1882.

Tal qual foi o caso dos melhores autores brasileiros do século XIX, como Sapateiro Silva e o próprio Sousândrade de "O Inferno de Wall Street", sem mencionar a escrita além-gêneros de Qorpo-Santo, a prosa genial de Machado de Assis e Raul Pompeia ou o Cruz e Sousa de "Litania dos pobres" (estes fundadores da Modernidade Poética Brasileira), o ótimo poeta Luís Gama dedicou-se a uma escrita crítico-satírica e de escárnio invectivo que, muito além do modernismo do Grupo de 22 (tantas vezes infantilmente celebratório), segue nos melhores textos dos supracitados a mostrar a inviabilidade crônica do projeto de nação no qual as elites estúpidas deste país ainda insistem, às custas da exclusão de tantos. São autores ética e esteticamente conscientes de seu momento histórico, mestres formais e de estilo, sem qualquer noção infantilizada de "independência estética" da Literatura sobre a História. Como ainda o são Lima Barreto, Augusto dos Anjos e o Euclides da Cunha d´Os Sertões, este nosso épico de fundição e "findação" da nação, não de fundação, como encontramos nos épicos clássicos e seus "mitos fundadores". Os textos de Luís Gama, Qorpo-Santo, Sapateiro Silva, Machado de Assis, Raul Pompeia, Sousândrade e Cruz e Sousa não se querem mitos da fundação, mas crônicas do afundanço.

Quem ousará dizer que poemas como "O Barão da Borracheira" e "Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom" não são atualíssimos? Ler Luís Gama hoje poderia ajugar-nos a lembrar que o poeta deveria/poderia ser oposição, não importa quem esteja no Poder. Poesia moderna, de Catulo a Sousândrade, sempre pré-distópica.


--- Ricardo Domeneck


§


POEMAS DE LUÍS GAMA


O Barão da Borracheira

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!

§


Serei Conde, Marquês e Deputado


Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...


§


A um Nariz

Você perdoe,
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.

Gregório de Matos

Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.

Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,

Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante

Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.

De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.

Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.

E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.

Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.

Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.

Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.

É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.

Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.

Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.

De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.


do livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).

§

Retrato

É renga, magricela e presumida,
Com pele de muxiba engrouvinhada;
O corpo de sumaca desarmada,
A cara de muafa mal cosida;

A perna de forquilha retorcida,
Os ombros de cangalha um tanto usada;
A boca, de ratões grata morada,
Maçante na conversa em mal sofrida;


Senhora de um leproso cão rafeiro,
Que, querendo passar por mocetona,
Se besunta com sebo de carneiro;

Vestida é saracura de japona,
De feia catadura, e de mau cheiro,
Eis a choca perua da Amazona.

§


Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom

(...)

Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

(...)

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Hilary Kaplan



Hilary Kaplan nasceu em Los Angeles, Califórnia, em 1978. É poeta, tradutora e pesquisadora de literatura brasileira. Faz sua tese de doutorado em Literatura Comparada entre a Universidade de Brown (Rhode Island) e o Rio de Janeiro, onde vive atualmente, e desenvolve uma pesquisa sobre ecopoéticas transnacionais no século XXI. Ganhou a prestigiosa bolsa PEN translation Fund 2011 e trabalha no momento vertendo o livro Rilke shake (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007), de Angélica Freitas, para a língua de Pound. Hilary Kaplan também escreve sobre poesia brasileira para a revista Jacket 2 (http://jacket2.org/). O poema "Manhã" foi originalmente publicado na revista Celuzlose.


--- Marília Garcia

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POEMA DE HILARY KAPLAN
[clique na imagem para ampliar o poema]

























(Tradução de Marília Garcia)



























Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Xavier Villaurrutia (1903 - 1950)


Xavier Villaurrutia foi um poeta e dramaturgo mexicano, nascido na Cidade do México em 1903. Com poetas que conhecera ainda nos tempos de estudos na Escuela Nacional Preparatoria, como Salvador Novo e Jaime Torres Bodet, formaria a partir de 1928 o chamado Grupo dos Contemporâneos, nome pelo qual ficaram conhecidos por se reunirem em torno da revista Contemporáneos (1928-1931), da qual Xavier Villaurrutia foi um dos fundadores, após ter já fundado com Salvador Novo a revista Ulyses (1927-1928). Estudou teatro na Universidade de Yale com uma bolsa concedida a ele em 1935. Traduziu para o castelhano obras de Anton Tchekhov, André Gide e William Blake. Publicou os volumes de poemas Reflejos (1926), Nocturnos (1933), Nostalgia de la muerte (1938), Décima muerte (1941) e Cantos a la primavera y otros poemas (1948).

No Brasil, o maior divulgador do trabalho de Xavier Villaurrutia é o poeta Horácio Costa (São Paulo, 1954), por quem nutro grande respeito, e que traduziu o trabalho do mexicano. Minhas traduções são uma leitura pessoal, sem qualquer ousadia de querer competir ou melhorar as traduções impecáveis de Horácio Costa, das quais conheço apenas algumas disponíveis na Rede. São minha tentativa de incorporar em mim o que amo no lirismo concreto e metonímico de Xavier Villaurrutia e distribuir, talvez demasiado à minha maneira, estas imagens férreas do corpo.


--- Ricardo Domeneck


§

POEMAS DE XAVIER VILLAURRUTIA


Desejo

Amar você com fogo duro e frio.
Amar você sem palavras, sem pausas, silêncios.

Amar você tão-só quando você quiser
e tão-só com a presença muda dos meus atos.

Amar você na ponta da língua e enquanto a mentira
em você não se diferencia da ternura.

Amar você quando finge toda a indiferença
que seu abandono nega, que funde seu calor.

Amar você cada vez que tua pele e boca
procurem minha pele dormindo, minha boca desperta.

Amar você pela solidão, se você me abandona nela.
Amar você pela cólera que acende em meu coração.

E mais que pela alegria e o delírio,
amar você pela angústia e a dúvida.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Deseo
Xavier Villaurrutia

Amarte con un fuego duro y frío.
Amarte sin palabras, sin pausas ni silencios.

Amarte sólo cada vez que quieras,
y sólo con la muda presencia de mis actos.

Amarte a flor de boca y mientras la mentira
no se distinga en ti de la ternura.

Amarte cuando finges toda la indiferencia
que tu abandono niega, que funde tu calor.

Amarte cada vez que tu piel y tu boca
busquen mi piel dormida y mi boca despierta.

Amarte por la soledad, si en ella me dejas.
Amarte por la ira en que mi razón enciendes.

Y, más que por el goce y el delirio,
amarte por la angustia y por la duda.




§


Noturno da estátua

Sonhar, sonhar a noite, a rua, a escada
e o grito da estátua virando a esquina.

Correr até a estátua e encontrar tão-só o grito,
querer tocar o grito e achar tão-só o eco,
querer agarrar o eco e encontrar tão-só o muro
e correr até o muro e tocar um espelho.
Achar no espelho a estátua assassinada,
arrancá-la do sangue de sua sombra,
vesti-la em um piscar de olhos,
acariciá-la como uma irmã imprevista
e jogar com as fichas de seus dedos
e contar em seu ouvido cem vezes cem cem vezes
até que a ouça dizer: "estou morta de sono".

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Nocturno de la estatua
Xavier Villaurrutia

Soñar, soñar la noche, la calle, la escalera
y el grito de la estatua desdoblando la esquina.

Correr hacia la estatua y encontrar sólo el grito,
querer tocar el grito y sólo hallar el eco,
querer asir el eco y encontrar sólo el muro
y correr hacia el muro y tocar un espejo.
Hallar en el espejo la estatua asesinada,
sacarla de la sangre de su sombra,
vestirla en un cerrar de ojos,
acariciarla como a una hermana imprevista
y jugar con las fichas de sus dedos
y contar a su oreja cien veces cien cien veces
hasta oírla decir: «estoy muerta de sueño».



§


Inventar a verdade

Faço atento o ouvido ao peito,
como, na praia, o caracol ao mar.
Ouço meu coração latir sangrando
e sempre e nunca igual.
Sei por quem ele late assim, mas não posso
dizer o porquê será.

Se começasse a dizê-lo com fantasmas
de palavras e enganos, ao acaso,
chegaria, tremendo de surpresa,
a inventar a verdade.
Quando fingi que te amava, não sabia
que já te amava!

(tradução de Ricardo Domeneck)


:

Inventar la verdad
Xavier Villaurrutia

Pongo el oído atento al pecho,
como, en la orilla, el caracol al mar.
Oigo mi corazón latir sangrando
y siempre y nunca igual.
Sé por quién late así, pero no puedo
decir por qué será.

Si empezara a decirlo con fantasmas
de palabras y engaños, al azar,
llegaría, temblando de sorpresa,
a inventar la verdad:
¡Cuando fingí quererte, no sabía
que te quería ya!



§


Noturno em que nada se ouve

Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem

(tradução de Ricardo Domeneck)


:

Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia

En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.


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Domingo, 4 de Dezembro de 2011

Gerard Reve (1923 - 2006)



Gerard Kornelis van het Reve foi um poeta e romancista holandês, nascido a 14 de dezembro de 1923 em Amsterdã, Holanda, e falecido a 8 de abril de 2006 em Zulte, Bélgica. A partir de 1973, com vários livros já publicados, passou a assinar seus textos como Gerard Reve, nome com o qual é conhecido hoje em seu país, onde forma, ao lado de Harry Mulisch e Willem Frederik Hermans, a chamada "Grande Tríade" da literatura holandesa do pós-guerra. Estreou com o volume de poemas Terugkeer (1940) – cujo título pode ser traduzido como "retorno" ou "restituição", seguido em 1947 do romance De avonden (Os entardeceres). Gerard Reve publicaria então os volumes de prosa Werther Nieland (1949), De ondergang van de familie Boslowits (A decadência da Família Boslowits, 1950), Tien vrolijke verhalen (Dez histórias felizes, 1961) e Vier Wintervertellingen (Quatro contos de inverno, 1963).

Foi, no entanto, com os livros Op weg naar het einde (A caminho do fim, 1963) e Nader tot U (Mais perto de ti, 1966) que Gerard Reve, a esta altura ainda conhecido como Gerard Kornelis van het Reve, tornou-se conhecido e bastante controverso em seu país de origem, por sua homossexualidade declarada (algo inédito para intelectuais na Holanda de então), e o uso que faz da sexualidade para um desnudamento do fracasso e violência nas relações entre todos os humanos, em oposição à relação com o Divino. O seu é um misticismo altamente carnalizado, sua religiosidade é erotizada e política. Neste aspecto, talvez possamos ver nele um parentesco com diversos autores do pós-guerra, cada um à sua maneira, como o italiano Pier Paolo Pasolini, a brasileira Hilda Hilst ou o francês Georges Bataille.


Descobri o trabalho de Gerard Reve há poucos dias através do jovem escritor alemão Emanuel John, com quem preparei as traduções abaixo, e a descoberta desencadeou uma obsessão fulminante. Com o conhecimento da língua alemã, que me permite arranhar a superfície do holandês, passei os últimos dias pesquisando o trabalho dele, principalmente o poético, ainda que Reve pareça ser, como Hilst, um mestre do embaralhamento dos gêneros literários. Esta será uma postagem crescente, que acompanhará meu mergulho no trabalho do holandês. Abaixo, minhas traduções para algumas das "Canções espirituais", que encerram o romance epistolar Nader tot U (Mais perto de ti, 1966), com a assistência de Emanuel John e correções de Arnaud de Schaetzen. Encerro a postagem, por ora, com um vídeo em que se pode ver e ouvir o próprio Gerard Reve em uma entrevista dos anos 60.


--- Ricardo Domeneck


§


POEMAS DE GERARD REVE

das Geestelijke Liederen / Canções espirituais,
incluídas ao final do romance Nader tot U (1966)


Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas.

:

Drinklied

Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



§

Poema para o Doutor Trimbos

"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.

:

Gedicht voor Dokter Trimbos

"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.


§

Confissão

Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.

(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.

:

Bekentenis

Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.


§

Paraíso

Eu era um urso muito grande que era muito amável.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.

:

Paradijs

Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.



§

Para o Anjo

Se me guiaste até o fundo do poço,
Volta, peço-te, e fica com O Moço.

:

Aan de Engel

Als gij mij tot het eind toe hebt geleid,
Keer dan terug, en blijf bij Teigetje.



(Nota do tradutor: "Teigetje" era a forma com que Gerard Reve se referia a seu namorado, o estilista holandês Willem Bruno van Albada. Tomei minha liberdade transcontextualizadora de traduzir "Teigetje" por "O Moço").



Cenas de um documentário sobre Gerard Reve

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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

O Prêmio Cervantes de 2011 é concedido ao poeta chileno Nicanor Parra



Foi anunciado hoje que o Prêmio Cervantes de 2011, o mais prestigioso da língua castelhana, foi concedido ao grande poeta chileno Nicanor Parra. Celebramos a entrega mais que tardia de tal prêmio a um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX e XXI com esta pequena postagem, que traz um de seus poemas em tradução do poeta português Jorge de Sena. Nas próximas semanas, esta postagem será atualizada e expandida com traduções inéditas e ensaios sobre o mestre chileno.

Nicanor Parra nasceu a 5 de setembro de 1914, em San Fabián de Alico, no Chile. Formou-se em matemática e física em Santiago do Chile no ano de 1938, logo após estrear com o volume Cancionero sin nombre (1937). Sua influência gigantesca e tão saudável sobre a poesia do continente americano começa com o lendário volume Poemas y antipoemas (1954), sem dúvida um dos livros de poesia mais influentes do século XX. A este seguiram-se La cueca larga (1958), Versos de salón (1962), Manifiesto (1963), Canciones rusas (1967), Obra gruesa (1969), Los profesores (1971), Artefactos (1972), Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979), El anti-Lázaro (1981), Plaza Sésamo (1981), Poema y antipoema de Eduardo Frei (1982), Cachureos, ecopoemas, guatapiques, últimas prédicas (1983), Chistes para desorientar a la policía (1983), Coplas de Navidad (1983), Poesía política (1983), Hojas de Parra (1985), Poemas para combatir la calvicie (1993), Páginas en blanco (2001), Lear Rey & Mendigo (2004) e Discursos de Sobremesa (2006).


--- Modo de Usar & Co.


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POEMA DE NICANOR PARRA
em tradução de Jorge de Sena.


"Me retracto de todo lo dicho"

Antes de despedir-me
tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
......................queima este livro
não representa o que eu quis dizer
apesar de ter sido escrito com sangue
não representa o que eu quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
fui derrotado pela própria sombra:
as palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
leitor amigo
que não possa despedir-me de ti
com um abraço fiel:
despeço-me de ti
com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu não seja mais do que isso
mas escuta a minha última palavra:
retracto-me de tudo o que disse.
Com a maior amargura do mundo
retracto-me de tudo o que disse.


(tradução de Jorge de Sena)

:

Me retracto de todo lo dicho
Nicanor Parra

Antes de despedirme
Tengo derecho a un último deseo:
Generoso lector
......................quema este libro
No representa 1o que quise decir
A pesar de que fue escrito con sangre
No representa lo que quise decir.

Mi situación no puede ser más triste
Fui derrotado por mi propia sombra:
Las palabras se vengaron de mí.

Perdóname lector
Amistoso lector
Que no me pueda despedir de ti
Con un abrazo fiel:
Me despido de ti
con una triste sonrisa forzada.

Puede que yo no sea más que eso
pero oye mi última palabra:
Me retracto de todo lo dicho.
Con la mayor amargura del mundo
Me retracto de todo lo que he dicho.


de Obra gruesa (Santiago, Universitaria, 1969)


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DOCUMENTÁRIO (EM 3 PARTES) SOBRE NICANOR PARRA








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