
Gerard Kornelis van het Reve foi um poeta e romancista holandês, nascido a 14 de dezembro de 1923 em Amsterdã, Holanda, e falecido a 8 de abril de 2006 em Zulte, Bélgica. A partir de 1973, com vários livros já publicados, passou a assinar seus textos como Gerard Reve, nome com o qual é conhecido hoje em seu país, onde forma, ao lado de Harry Mulisch e Willem Frederik Hermans, a chamada "Grande Tríade" da literatura holandesa do pós-guerra. Estreou com o volume de poemas Terugkeer (1940) – cujo título pode ser traduzido como "retorno" ou "restituição", seguido em 1947 do romance De avonden (Os entardeceres). Gerard Reve publicaria então os volumes de prosa Werther Nieland (1949), De ondergang van de familie Boslowits (A decadência da Família Boslowits, 1950), Tien vrolijke verhalen (Dez histórias felizes, 1961) e Vier Wintervertellingen (Quatro contos de inverno, 1963).
Foi, no entanto, com os livros Op weg naar het einde (A caminho do fim, 1963) e Nader tot U (Mais perto de ti, 1966) que Gerard Reve, a esta altura ainda conhecido como Gerard Kornelis van het Reve, tornou-se conhecido e bastante controverso em seu país de origem, por sua homossexualidade declarada (algo inédito para intelectuais na Holanda de então), e o uso que faz da sexualidade para um desnudamento do fracasso e violência nas relações entre todos os humanos, em oposição à relação com o Divino. O seu é um misticismo altamente carnalizado, sua religiosidade é erotizada e política. Neste aspecto, talvez possamos ver nele um parentesco com diversos autores do pós-guerra, cada um à sua maneira, como o italiano Pier Paolo Pasolini, a brasileira Hilda Hilst ou o francês Georges Bataille.
Descobri o trabalho de Gerard Reve há poucos dias através do jovem escritor alemão Emanuel John, com quem preparei as traduções abaixo, e a descoberta desencadeou uma obsessão fulminante. Com o conhecimento da língua alemã, que me permite arranhar a superfície do holandês, passei os últimos dias pesquisando o trabalho dele, principalmente o poético, ainda que Reve pareça ser, como Hilst, um mestre do embaralhamento dos gêneros literários. Esta será uma postagem crescente, que acompanhará meu mergulho no trabalho do holandês. Abaixo, minhas traduções para algumas das "Canções espirituais", que encerram o romance epistolar Nader tot U (Mais perto de ti, 1966), com a assistência de Emanuel John e correções de Arnaud de Schaetzen. Encerro a postagem, por ora, com um vídeo em que se pode ver e ouvir o próprio Gerard Reve em uma entrevista dos anos 60.
--- Ricardo Domeneck
§
POEMAS DE GERARD REVE
das Geestelijke Liederen / Canções espirituais,
incluídas ao final do romance Nader tot U (1966)
Canção da bebida
Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas.
:
Drinklied
Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.
§
Poema para o Doutor Trimbos
"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.
:
Gedicht voor Dokter Trimbos
"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.
§
Confissão
Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.
(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.
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Bekentenis
Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.
§
Paraíso
Eu era um urso muito grande que era muito amável.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.
:
Paradijs
Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.
§
Para o Anjo
Se me guiaste até o fundo do poço,
Volta, peço-te, e fica com O Moço.
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Aan de Engel
Als gij mij tot het eind toe hebt geleid,
Keer dan terug, en blijf bij Teigetje.
(Nota do tradutor: "Teigetje" era a forma com que Gerard Reve se referia a seu namorado, o estilista holandês Willem Bruno van Albada. Tomei minha liberdade transcontextualizadora de traduzir "Teigetje" por "O Moço").
Cenas de um documentário sobre Gerard Reve
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