
Rui Pires Cabral nasceu em 1967, em Macedo de Cavaleiros, Portugal. Licenciou-se em História e Arqueologia na cidade do Porto e, atualmente, vive em Lisboa, onde é tradutor. Publicou, entre outros, Música Antológica & Onze Cidades (1997), Praças e Quintais (2003) e Oráculos de cabeceira (2009), seu livro mais recente. É um dos autores a integrar a antologia Poetas Sem Qualidades, organizada por Manuel de Freitas e lançada em Portugal em 2002, amplamente discutida. Reproduzimos abaixo cinco das onze cidades que figuram em seu livro de 1997, acima mencionado, Música antológica e onze cidades, além de poemas de Oráculos de cabeceira (Lisboa: Averno, 2009).
--- Marília Garcia e Ricardo Domeneck
§
POEMAS DE RUI PIRES CABRAL
de Oráculos de cabeceira (2009).
«Não quero saber de ti«
Faz meses que não escreves
e aquele postal em branco
que chegou da tua terra
não tinha remetente
nem resposta, só a imagem
no verso: um verão genérico
com muitas flores de estufa
e um fundo imaculado
de varandas e relvados.
Não queres saber de mim,
mas eu posso confessar-te
que passei todo o inverno
entre as tropas de Massena,
na fronteira, no Buçaco –
e enquanto eles avançavam
reino adentro, de capítulo
em capítulo, para ganhar
ou perder outra batalha, eu
ficava cada vez mais para trás,
nas colinas, entre os mortos,
nos plainos abandonados,
entre rascunhos de versos
à paisagem em destroços.
Olha a grande novidade.
Nota: O título “Não quero saber de ti." foi extraído de William Beckford, Diário de William Beckford em Portugal e Espanha, tradução de João Gaspar Simões, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, p. 123.
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«And so on, and so forth.«
Mas vejam que miséria quando o clube
perde em casa, quando chove no molhado
do recreio a tarde toda, quando o carteiro
faz greve e o outono se insinua –
vejam que miséria este défice de razões
para pôr em movimento a roda perra
do dia, esta pomba trucidada pela ambulância
que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta
transfigura – mas vejam que miséria
quando a arte não resgata e a orquestra
não anima e o amor torna mais árdua
a triste faina da vida.
Nota: O título “And so on, and so forth." foi extraído de Christopher Isherwood, Lions and Shadows, Minerva, Londres, 1996, p. 148.
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«We are flint and steel to each other.«
Ontem choveu sem descanso
e fizemos tudo mal. São dias
de pedra e aço – alguém sabe
onde nos levam? Dão-nos
um amor volúvel que lisonjeia
os sentidos, mas não podem
consolar-nos da penúria
de existirmos, tu e eu, cada um
na sua pele, no seu áspero
lugar. E lembram-nos a todo
o instante do que já estava perdido
no escuro de uma gaveta
antes de ter começado,
como um verso interrompido
nas costas de um envelope
ou uma velha cassete
que mal chegámos a ouvir,
hora e meia de remorso
e distorção. Não te salvo,
não me salvas – nem é certo,
quando o medo demora,
que haja ainda o que salvar.
Contra o frio que nos ronda,
resta o lume que ateamos
por ternura, desfastio
ou vontade de vingar
o dissabor de viver.
Nota: “We are flint and steel to each other." extraído de A. J. A. Symons, The Quest for Corvo, The New York Review of Books, Nova Iorque, 2001, p. 87.
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«Recuar para onde?«
Assis Pacheco,
só se vêem betoneiras
e estes versos não me têm
na melhor disposição.
O bairro fecha ao domingo
e são tão tristes as luzes
nos vidros do multibanco
quando não passa ninguém.
O lixo do fim-de-semana
já extravasa os contentores
do ponto de reciclagem –
um plástico que há-de durar
até o termo do século
e voltar sob outras formas
para assombrar outras vidas
e durar ainda mais.
Abro o teu livro ao acaso
e à pergunta que me assalta
não tenho o que retorquir,
sou o tipo de inquirido
que não sabe/não responde
num universo de anónimos
de segura opinião.
O caminho é para a frente,
dizem eles a cada passo,
se a ocasião se oferece.
E por estranho que pareça
não vacilam, têm pressa,
como se a meta não fosse
aquela que já sabemos.
Nota: O título “Recuar para onde?" extraído de Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e paixões de Benito Prada, Asa, Porto, 2002, p. 138.
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de Música Antológica & Onze Cidades (1997)
Paris
Quando vi o mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.
O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord essa noite.
Budapeste
Frau Szabo está a pôr flores
na entrada, faz estalar a madeira junto ao vão
das portas. Parece-me que já conheço
este lugar, esta espécie de verde
nas paredes, a clarabóia toldada pela fuligem.
Ainda há pouco eu era um forasteiro a olhar
na ponte. Uma criança atirou papéis para o rio
e foi castigada, falava-se uma língua
assustadora.
Vir de tão longe para encontrar a sombra
de uma casa demolida. Jesus com olhos de corça
e o coração à mostra. E na casa de banho
a grande banheira de esmalte, com pés.
§
Münster
Os jovens turcos viviam com desenvoltura
a rotina dos subúrbios, tinham herdado a consciência
do exílio e um bigode etnográfico. Podiam ser vistos
a vender haxixe na zona de Hiltrup, discursando
no seu alemão indeclinável.
À noite vingavam a raça com os carros remendados
nas grandes avenidas, circundavam as rotundas cheias de coelhos
a pular na relva. Diziam caralho enquanto enrolavam
um charro, julgo que em nossa homenagem.
§
Veneza
Falaste a noite toda sobre a vida na Colômbia
com o rastro dos postes intermitindo no teu rosto
atento, quase hierático. Tinha havido a comoção
provocada por Gabriella na cabine dos jugoslavos
e aquele italiano ruivo repetindo pedagogicamente
paesi, castelli, àlberi, uma ladainha para pontuar
o curso obstinado da nossa travessia.
Por fim restava a madrugada sobre a água recolhida
na laguna – por que me senti tão desarmado quando vi
as fachadas de Veneza? E tu disseste que talvez
nos voltássemos a encontrar, eram seis da manhã no silêncio
por onde os canais cumpriam mais depressa
a sua lenta função.
§
Salamanca
À Sónia
Telepizza para a Pensão Albacete, cinco pessoas
num quarto disposto para o teu aniversário
com tequilla e paredes que entortam junto ao tecto.
Aqui somos todos amigos mas nada é tão simples
como parece, o truque é não pensar muito nisso.
No Potemkin já pedrados, o serão inflecte
perigosamente nas esporas da electricidade
e há estilhaços por todo o lado, na boca do estômago,
no campo armadilhado sob os nossos pés.
Não sabemos onde estamos e se calhar é por isso
que nos serve tão bem esta jornada.
§
OUTRO POEMA DE RUI PIRES CABRAL
Diana of Love
Estávamos em Londres naquele dia de Setembro
em que foi a enterrar a Princesa do Povo. Não havia
barulho nos passeios, não havia casa aberta
onde pudéssemos comprar qualquer coisa
para merendar na relva de St James ou Kensington
Gardens: os próprios parques tinham mergulhado
num lutuoso torpor. Sentados à sombra, nós os dois
estávamos exactamente a meio da nossa história.
Para trás, a lenta cadeia de acasos que culminou
no encontro a desoras sob os astros duma gruta;
pela frente, todos os maus passos que, somados,
haveriam de ditar o nosso fim. Mas nessa tarde
de sol e silêncio, enquanto a Inglaterra chorava
aquela que na morte teve o nome do amor,
estávamos juntos ainda – e sei que fomos felizes
na cidade mais triste do mundo. Era sábado,
uma mulher que passava vendeu-me um ramo
de rosmaninho (for remembrance, dear): largos meses
murchou numa gaveta. E quando dele me desfiz
já não era um memento por Diana, mas o último
vestígio de um amor tão morto quanto ela.
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2 comentários:
Outra excelente surpresa. Sempre refrescante encontrar por aqui autores desconhecidos que nós gostaríamos de ter conhecido há muito. Este Rui, por exemplo, que faz o vivido (trágico ou redentor) rodopiar através do ritmo. Parabéns a todos da Modo de Usar e Co.
Num átimo foi
se com a leveza de sua lentidão
contemplando...
ainda nesse veículo veloz
assim possa ser breve
possa ser lento
possa ser fundo.
Viva Rui Pires Cabral
Via seu Modo de Usando.
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