Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

Martim Codax (fim do século XIII - início do XIV)


Martim Codax foi um jogral galego, atuante no fim do século XIII e início do XIV. Acredita-se que tenha nascido em Vigo, devido às várias referências ao local nas cantigas que sobreviveram e nos alcançaram. Temos apenas sete de suas cantigas de amigo, encontradas em cancioneiros da lírica galego-portuguesa, como o Cancioneiro da Vaticana, e ainda no chamado "Pergaminho Vindel", onde estão os sete textos com atribuição de autoria. A mais conhecida é "Ondas do mar de Vigo":




Ondas do mar de Vigo
Martim Codax

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai, Deus!, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus!, se verrá cedo!



Suas outras cantigas são "Mandad'ey comigo", "Mha irmana fremosa treydes comygo", "Ay Deus se sab'ora meu amado", "Quantas sabedes amar amigo", "'En o sagrad' em Vigo" e "Ay ondas que eu vin veer".

É um mestre de poesia da qual nasceram galhos fortes de nossa tradição, chegando a poetas líricos dos nossos dias, como Vinícius de Moraes e Tom Jobim.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS LÍRICOS DE MARTIM CODAX





Mandad´ey comigo
Martim Codax

Mandad’ ey comigo
ca ven meu amigo:
E irey, madr’, a Vigo!

Comigu’ ey mandado
ca ven meu amado:
E irey, madr’, a Vigo!

Ca ven meu amigo
e ven san’ e vivo:
E irey, madr’, a Vigo!

Ca ven meu amado
e ven viv’ e sano:
E irey, madr’, a Vigo!

Ca ven san’ e vivo
e d’ el-rey amigo:
E irey, madr’, a Vigo!

Ca ven viv’ e sano
e d’ el-rey privado:
E irey, madr’, a Vigo!



§




Ay Deus, se sab' ora meu amigo
Martim Codax

Ay Deus, se sab' ora meu amigo
com' eu senneira estou en Vigo!
E vou namorada.

Ay Deus, se sab' ora meu amado
com' eu en Vigo senneira manno!
E vou namorada.

Com' eu senneira estou en Vigo,
e nullas gardas non ei comigo!
E vou namorada.

Com' eu senneira en Vigo manno,
e nullas gardas migo non trago!
E vou namorada.

E nullas gardas non ei comigo,
ergas meus ollos que choran migo!
E vou namorada.

E nullas gardas migo non trago,
ergas meus ollos que choran ambos!
E vou namorada.


§





Quantas sabedes amar amigo
Martim Codax


Quantas sabedes amar amigo,
treydes comig’a lo mar de Vigo,
e banhar nos-emos nas ondas!

Quantas sabedes amar amado,
treydes vos migo ao mar levado,
e banhar nos-emos nas ondas!

Treydes comigo ao mar de Vigo,
e veeremo lo meu amigo,
e banhar nos-emos nas ondas!

Treydes comigo a lo mar levado,
e veeremo lo meu amado,
e banhar nos-emos nas ondas!



§



Mha irmana fremosa treydes comigo
Martim Codax

Mha irmana fremosa treydes comigo
A la igreja de Vigo, u é o mar salido
e miraremo las ondas

Mha irmana fremosa treydes de grado
A la igreja de Vigo, u é o mar levado
e miraremo las ondas

Ala igreia de Vigo é o mar salido
e veirà y, madre, o meu amigo
E miraremo las ondas

A la igreja de Vigo é o mar levado
e veirà y, madre, o meu amado
E miraremo las ondas



§





Ay ondas que eu vin veer
Martim Codax

Ay ondas que eu vin veer,
se mi saberedes dizer
porque tarda meu amigo sen mi!

Ay ondas que eu vin mirar,
se mi saberedes contar
porque tarda meu amigo sen mi!



§





Eno sagrado, en Vigo
Martim Codax

Eno sagrado, en Vigo,
Baylava corpo velido.
Amor ey!

En Vigo, eno sagrado,
Baylava corpo delgado.
Amor ey!

Baylava corpo velido
Que nunca ouvera amigo.
Amor ey!

Baylava corpo delgado
Que nunca ouvera amado.
Amor ey!

Que nunca ouvera amigo,
Ergas no sagrad'en Vigo.
Amor ey!

Que nunca ouvera amado,
Ergas en Vigo no sagrado.
Amor ey!



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1 comentários:

Daniela Versieux disse...

Obrigada! É muito legal saber que nosso lirismo tem raízes tão antigas e tão profundas! Como fez-me bem ler estas pérolas do cancioneiro português (galego)! Saber que o chorar de nossa alma, que se revela com toda intensidade e beleza em nomes como Tom Jobim, como vc citou, é tão antigo e tão nosso! Mais uma vez, obrigada!