
André says we gotta go
por Fabiano Calixto
por Fabiano Calixto
No permitir que se nos desperdicie la gracia de los pequeños momentos de libertad que podemos gozar: una mesa compartida con gente que queremos, unas criaturas a las que demos amparo, una caminata entre los árboles, la gratitud de un abrazo. Un acto de arrojo como saltar de una casa en llamas. Éstos no son hechos racionales, pero no es importante que lo sean, nos salvaremos por los afectos. El mundo nada puede contra un hombre que canta en la miseria.
Ernesto Sábato
Ernesto Sábato
Danny says we gotta go Gotta go to Idaho
The Ramones
The Ramones
O que querem com poemas os autores desse início de século? A resposta me parece tanto óbvia quanto melancólica: muitos querem aparecer. Os outros? querem aparecer mais ainda. Em meio a esse lodaçal, alguns raríssimos fazem de seus poemas um instrumento de reflexão sobre a existência & a própria arte – uma ferramenta de construção do mundo. André Fernandes faz parte deste último time – de poetas que ainda se preocupam em escrever algo que ilumine a cabeça & o coração.
Aqui, em Habitar, habita a ironia da memória. Aqui, mais que nas palavras, a linguagem habita os pequenos edifícios de sentido que compõem o grande painel do pensamento: os cortes ensanguentados, a leitura, o corre-corre da vida, a dor de cabeça, a frustração; & também os afetos. Opera, portanto, na dialética imprescindível deste nosso tempo sombrio. O jovem poeta mexicano Heriberto Yépez, em seu manifesto “Por uma poética antes do paleolítico e depois da propaganda”, escreve que “a origem da linguagem está nas palavras, mas também na carne do cervo e nos cogumelos alucinógenos”. Parece-me que os poemas deste livro habitam essa consciência, acrescentando-se que a origem da linguagem está também nos buracos das ruas & dos dentes, na dor própria & na alheia.
O habitar em Habitar é de passagem, de esguelha, de soslaio. Como um sorriso esquecido na penteadeira velha já sem uso & que, nômade, nos acompanha a memória. Os poemas aqui são fala. A que falta onde se habita. A fala, a circunstância sangrada-sagrada da palavra poética.
Habitar é povoar. A cidade aqui não é mais a cidade do Charles, o das Flores, nem a cidade dos expressionistas, futuristas, dadaístas etc. Agora é que é ela: a cidade do começo do século xxi: a cidade comida por ratos, povoada por tapurus, mal cheirosa, torta, corrupta & escandalosamente desprezada : “bagdá sp idaho” : devastada : anchorage tóquio lagos. A cidade é o habitar aquele pavilhão do câncer de Gottfried Benn: “Nesta fila aqui estão ventres apodrecidos / e nesta está o peito apodrecido. / Lado a lado camas malcheirosas.” A cidade & o corpo. “Vem, olha esta cicatriz no peito. / Sentes o rosário de pontos moles? / Toca, sem medo. A carne é mole e não dói”. O concreto é duro & não dói : a cidade é o corpo... & dói. “(...) Vês as moscas. Às vezes / a enfermeira lava. Como se lavam bancos”. Não à toa, o poeta aqui escreve: “pernas e estômagos guardam uma multidão”. & a multidão se amontoa na cidade. No corpo. Estão todos sós. Todos mudos. Todos absurdos, todos bancos, todos plastificados & uniformes. Melancolia com cheiro de esgoto &, na lapela, o poeta conclui que “apesar do esforço, / há tempos as letras / perderam o poema”. Claro! Um poeta não se faz com versos, & Torquato Neto há muito tempo sabia disso.
Se em Deriva (2007), a “cidade começa na rua”, agora: “atravessar a rua / começo do mar”. & sob as ondas de calor & poluição, sob os olhares mastigados & desconfiados & as multas da morte, o poeta se afoga nas ondas encurvadas & não contente (porque a vida não é pra amadores) bebe o mar, e o deita juntamente.
Sufocar o prazer & cortejar a desgraça é a síntese do brutal utilitarismo contemporâneo – o homem deformado pelo capitalismo. O ter substituiu o ser: morte lenta. A obrigação de sustentar parasitas (a máquina do Estado) com nossos impostos nos leva, além de nosso suor, os prazeres da existência: “Ler ainda é dificílimo / quando não é trabalho”. O trabalho é o que dessignifica o homem & danifica a vida. Mesmo assim, no meio do monturo, despejando infindáveis murros em ponta de faca, o poeta procura a cura (ou acirra a briga) ao meditar, no tempo futuro, sobre a criação de “tratados de amor”. Humor? Ou não...
Penso numa palavra: solidariedade. Penso noutra: afeto. Habitar também é permanecer. Por isso é crucial a diferença do homem que canta a miséria & do homem que canta na miséria. Aqui mora uma riqueza, & nada pode contra ela.
Nomear – “cores são apenas nomes” – toda nossa desolação. & isso são apenas abstrações – & a felicidade. We got nowhere to go... Habitar não é habituar (se). Quem se habitua perde todo o resto.
Caro leitor, convido-o a acender um fósforo & caminhar. &, acima de tudo, não se preocupe, você não vai precisar limpar exageros coloridos destes versos. Abra o livro, “na ordem que quiser, no modo de quiser”.
subsolo
andré fernandes
a beleza pode ser
a transição da primeira
para segunda estação
sem perguntas
--- Fabiano Calixto
§
POEMAS DE ANDRÉ FERNANDES
extraídos do livro Habitar (São Paulo: Hedra, 2010)
conversa – uma praça sem Sade
não disparem/ há espaço para todos/ apesar da ordem/ rapaz/ canibais não são mais onívoros/ especialistas/ auxílio à lista da história/ um pacto/ universitários eternos/ meninos zanzam à beira da mesa/ todos os textos têm lugar/ uma flor nos custaria muito/ meu corpo a vagar/ pijamas/ tv doméstica/ o sol amarelo de inverno/ escreverei tratados de amor/ as brenhas do dia enfrentar/ coloco o melhor casaco e um sorriso/ sem óculos não enxergo ao meio-dia/ bagdá sp idaho/ cidades culturas jovens a zoar/ os padres badalam os sinos/ os meninos fazem a fila/ muita monotonia & discursos vazios/ nem todo mundo gosta de sexo hoje em dia
§
decálogo de um escritor
um. pode-se escrever o que quiser, na ordem e do modo que quiser
dois. querer não basta, é preciso transformar o querer em texto
três. o sentido é o acúmulo, não a história
quatro. texto de história é mau texto
cinco. o texto deve atingir os sentidos, não a cabeça
seis. o fracasso ocorre todo dia, algum dia a mão é feliz
sete. apenas alguns são autores – a maioria morre ou desiste
oito. escrever é ir ao outro
nove. a palavra impressa é o som que deve atrair o silêncio
dez. não é preciso regra, escrever apenas porque é necessário
§
áfrica
atravessar
a rua ou o rio
atravessar
o olhar ou o riso
atravessar
ao chegar
sem fotografar
o ar ou o vazio
atravessar a rua
começo do mar
§
deriva
a.
passo o passo
a perna alcança
o outro lado
na rua
prédios, lojas,
casa sem janela
pessoas passam
o sol ilumina
ângulos retos
de um dia claro
passo o passo
espirro, muxoxo,
desvios
antes de chegar
ao trabalho
assim o livro na mão
cobre a natureza da cidade
à esquerda vem o carro
ando lendo
passo o passo
b.
no carro
ao lado
o motorista
solitário
lê a mensagem
no celular –
provavelmente
trabalho
a cidade
mapas, documentos, cartas
andam velozes na garupa
de uma cg 125
sem rosto, sem contrato
o encontro
entre os dois
é misterioso
e opaco
grafito
da gravata vindo
o boy indo
c.
à frente
a mulher lendo
o banco duro
a saia escarrapachada
o colo cobrado
amiga ao lado
dois corpos
enlatados
massas cinzentas
no vagão do metrô
o aviso da estação brigadeiro
interrompe a leitura
“paulo coelho
me ajudou
ano passado”
d.
a moça olha a tela
do computador
digita rapidamente
e ri
rs
não percebe
passa horas
levanta
às 18h
sem perfume
de flor
para aproveitar
a sexta-feira
§
2008
adolf merckle, um dos homens mais ricos,
não ouviu quando os augúrios diziam que o lehman brothers quebraria
nem de sua família que tudo ia bem em alguma ilha
disseram não haver motivo
para divulgar a causa mortis. não está provada a relação
entre crises financeiras e suicídio. dois dias depois de se jogar em frente ao trem
o empréstimo de 500 milhões foi liberado e permitiu reestruturar suas empresas
russos, indianos, brasileiros, chineses,
que andam a dirigir a locomotiva olhem para frente
lembrem-se de merckle, que em tempos viveu bem como todos vocês
§
mãos firmes
a.
aos 74 anos
o pai não fuma
por causa do coração
se locomove com dificuldade
por causa do Parkinson
e não ouve bem
porque é teimoso mesmo
a cada semana perde alguns gramas
hoje, 27 de março de 2010
disse da última vez que pesou
estava com menos de 50 kg
não gosta de precisar
e apesar de se alimentar bem
o organismo não absorve os nutrientes
ele disse a doença faz o corpo tremer
está lhe faltando a visão, aos poucos,
não sabe mais a profundidade
os sentidos indo embora
b.
na minha cabeça é domingo
a gente de bicicleta até a USP
o pai e a irmã numa caloi cross
de pneus amarelos
aro 20
eu na monark vermelha
dobrável, um pouco menor
(aquele sol claro de verão
terra debaixo das unhas
vontade de ir ao banheiro)
assim, voltamos para casa
no fim do dia –
edifício Alves Mota
rua dos Pinheiros
c.
aos sábados pela manhã
eu e o pai íamos ao messias
na joão mendes, depois ao farah
comprava um ou dois livros
“mais você não vai ler...”, ele dizia –
não lia nenhum, gostava de tê-los
dessa presença criou um amor
pelo livro e seus arredores
menos pela letra, mais pelo silêncio
eram muitas estantes
e não alcançava o topo
eram dois livros e o silêncio
ler ainda é dificílimo
quando não é trabalho
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André Fernandes é escritor e editor. Escreveu dois livros: Deriva (Hedra, 2008) e Habitar (Hedra, 2011). Alguns de seus poemas foram publicados anteriormente nas revistas EntreLivros, Vida Simples e no Almanaque Lobisomem. §
Fabiano Calixto é coeditor da Modo de Usar & Co.. Nasceu em Garanhuns, Pernambuco, em 1973. Publicou os livros Algum (1998), Fábrica (2000), Um Mundo Só Para Cada Par (2001) - em parceria com os poetas Tarso de Melo e Kléber Mantovani, Música Possível (2006) e Sangüínea (2007), assim como o livro de poemas para crianças Pão com bife (2007). O poeta e tradutor vive em São Paulo. Seu próximo livro será lançado no ano que vem..
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