Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

Olivier Cadiot


Olivier Cadiot nasceu em Paris, em 1956. Nos anos 90, coeditou, com Pierre Alféri, a Révue de Littérature Générale. O poema que reproduzimos abaixo, “blá-blá-blá”, é um excerto de L’Art poétic’, seu primeiro livro, publicado em 1988, texto que encena uma espécie de tratado poético todo construído a partir de usos, frases e tics da língua francesa. Ao colar e listar enunciados comuns em um único texto, sua arte poétic’ vai produzindo um estranhamento na leitura e dando a ver, de forma muito bem humorada, as possibilidades e funcionamentos da língua.


Capa da Révue de Littérature Générale


Na tradução, algumas nuances da língua de partida desaparecem, como o uso dos tempos compostos no francês (fazendo com que o EST, por exemplo, esteja presente em muitas frases, em tempos verbais diferentes, repetindo-se sem parar). No site da P.O.L. Éditeur podemos ler as primeiras páginas do L’Art poétic’.

Cadiot publicou também vários romances, como Futur, ancien, fugitif, com heróis diferentes em cada um deles, mas sempre chamados de Robinson, por poderem encarnar, com esse nome, um arquipersonagem, isso é, um personagem que constrói novas relações e novas histórias a partir dos escombros do seu mundo naufragado.


--- Marília Garcia


§


POEMA DE OLIVIER CADIOT


Blá-blá-blá [excerto]

Os passageiros embarcaram/ o navio embarcou os passageiros
O céu escureceu/ as nuvens escureceram o céu

(1) A doente está perdida
(2) A bolsa foi perdida pela minha filha
(3) O mar está agitado

Pierre, encontrando
.............................. ou Encontrando o que buscava, Pierre está feliz

Os olhos1 estavam voltados para ele, os olhos2 estavam voltados para ele... os olhosn estavam voltados para ele → Os olhos estavam voltados para ele


Eu faria qualquer coisa para qualquer um

..................... O papel é amarelo

................................ Mas a sequência
.......................................................... O sol faz o papel amarelo
............. ..... ........................ torna-se:
...................... ................................... O sol amarela o papel

Que Pierre esteja doente, eis o que causa um adiamento de meus projetos → Pierre doente, eis o que causa um adiamento de meus projetos

(Aquele que causa aflição em alguém, aquele que aflige)






A criança 1 está doente, a criança 2 está doente, ... a criança n está doente


......................... ...................................O papel amarelou
......................................... ..resulta de:
.......................................................... ..O sol amarelou o papel

..................................................................(eu quero) silêncio → silêncio!

É preciso viver aqui!

................... ......................................A mata não pode flutuar
.............. ...........................................Esse projeto não pode viver
........... ..............................................Esses insetos podem machucar
............. ............................................Essa ideia não pode ser compatível
............... ..........................................com a minha

Eu quero que isso seja silêncio

......... .........................................[krwa]
......... .........................................[krwa]

Quando ele chegar, vou lhe dizer

Esconda-se atrás dessa rocha → Está vendo essa rocha, esconda-se atrás dela

Pierre, encontrando o que ele buscava, está feliz
Pierre, a encontrar o que ele buscava, está feliz

............. ............................................Uma doença é curável
..................................................... ....Um doente é incurável

[...]


(tradução de Marília Garcia)

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