Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Leónidas Lamborghini (1927 - 2009)

Leónidas Lamborghini nasceu em Buenos Aires, a 10 de janeiro de 1927. Seu trabalho de estreia, intitulado El saboteador arrepentido, foi publicado em 1955, marcando o início de uma longa e produtiva carreira, com livros como Al público (1957), Las patas en la fuente (1965), La estatua de la libertad (1968), El solicitante descolocado (1971), El riseñor (1975), Episodios (1980), Circus (1986), Verme y 11 reescrituras de Discépolo (1988), Odiseo confinado (1992) e El jardín de los poetas (1999). Publicou também romances, como Un amor como pocos (1993) e La experiencia de la vida (1996), e peças de teatro. O papel do humor na literatura ocupou seu pensamento crítico, como mostram os ensaios "El poder de la parodia" ou "El gauchesco como arte bufo". Leónidas Lamborghini morreu em Buenos Aires, a 13 de novembro de 2009.



Praticamente inédito no Brasil, apresentamos aqui algumas traduções recentes de Marília Garcia, poemas de "Esse mesmo", uma seção do livro, ou "poema en cuatro tiempos", intitulado El solicitante descolocado, publicado pela primeira vez em 1957. A edição ao lado é de 2008,
da Paradiso Poesía. Encerramos a postagem com duas traduções de Renato Rezende para os poemas "El solicitante descolocado" e "El saboteador arrepentido", publicados na antologia bilíngue Pontes/Puentes (2003).


--- Modo de Usar & Co.


§


POEMAS DE LEÓNIDAS LAMBORGHINI

Traduções recentes de Marília Garcia

Dados

Como aquele que no café
gira com fúria

os dados
no escuro do copo

para juntar coragem
contra o contra da sorte.

Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro

para juntar coragem
contra o contra da sorte.

Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria

para juntar coragem
contra o contra da sorte.

Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo

como esse
como esse

para juntar coragem
contra o contra da sorte.


§

Bíblica

Como aquele que viu uma vez
o homem
que vende a Bíblia
e escutou sua palavra
em um café qualquer

– Na verdade, na verdade lhes digo

Como aquele que apoiado em sua mesa
quando está
olhando para o vazio
é interrompido
pela palavra deste homem

– Na verdade, na verdade lhes digo

Como aquele que escuta
aturdido
falar de revelação
entre o barulho das xícaras
cercado pela fumaça

– Na verdade, na verdade lhes digo

Como aquele que em seguida
afasta
o rosto desse homem
e volta a olhar
fixamente o vazio

– Na verdade, na verdade lhes digo

Como aquele que fica assim
depois
apoiado em sua mesa
enquanto sua cabeça mistura
a Palavra com o preço
e o Espírito com a encadernação

como esse
como esse

– Na verdade, na verdade lhes digo.


§

Falando sozinho

Como aquele que vai falando
sozinho
pela rua
tratando de se entender

a cidade em seu hospício.

Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.

a cidade em seu hospício.

Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo

a cidade em seu hospício.

Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo

como esse
como esse

a cidade em seu hospício.

§

Lendo o jornal

Como aquele que um dia
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos

e quem sou
e onde estou se pergunta.

Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica

e quem sou
e onde estou se pergunta.

Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece

e quem sou
e onde estou se pergunta.

Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui

e começa a se procurar
e não se encontra

como esse
como esse

e quem sou
e onde estou se pergunta.


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Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)


O solicitante deslocado

Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível

Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.

Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.

§


El solicitante descolocado

Desempleado
buscando ese mango hasta más no poder
me faltó la energía la pata ancha
aburrido hace meses, la miseria
busco ahor atrabajo en la era atómica
dentro o fuera del ramo
si es posible.

Todos los días abro el mundo
un jardín de esperanzas
en la sección empleados
voy clasificándome
atento
este aviso me pide.

Entonces
a escribir con pasión y buena letra
adherido con lealtad
—ser claro—
escucho el ruego del ruiseñor
uniendo lo primitivo a lo culto

la inspiración a la escuela
trato de seducir
con mis antecedentes.
Solicitud detállame
el que suscribe
práctico en desorganizar
está deseando
ganarse un pan en tu establecimiento
hombre de empresa
casilla de correos.


§
§
§

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

§

El saboteador arrepentido

En mi rostro está escrita la aceptada
renuncia
tanto vil ostracismo
después supe
el trabajo es salud, es factor
dignifica
y lo otro es el crimen
la poesía maldita

Yo era el brazo derecho ahora no soy nada

Esta guitarra cae ya
volcada de mi alma
su última nota
espera.



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