Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Alfredo Prior



Alfredo Prior nasceu em Buenos Aires, em 1952, onde vive até hoje. Teve sua estreia como artista plástico nos anos 80 e, desde então, participou de diversas exposições em vários países. Publicou, dentre outros, o livro de contos Como resucitar a una liebre muerta.

--- Marília Garcia


§

POEMAS DE ALFREDO PRIOR

Um artista chamado

Um artista chamado.
Um artista chamado A pintura é algo muito valioso para deixá-la
..................[nas mãos dos pintores.
Um artista chamado Voltarei e serei Luiz XV.
Um artista chamado Luiz XV (e Luiz XVI même).
Um artista chamado O pequeno pavilhão entre as plantas de melão.
Um artista chamado Sansão e Dalila.
Um artista chamado O artista do martelo.
Um artista chamado Meu estilo é um martelo poderoso mas não posso
..................[usá-lo porque seu cabo está em brasa.
Um artista chamado O palhaço de Deus.
Um artista chamado O deus dos palhaços.
Um artista chamado Palhaço.
Um artista chamado O estúpido reflexo da maçã na janela.
Um artista chamado Toda opinião é uma bula.
Um artista chamado Desejo.
Um artista chamado Descansarei o primeiro dia.
Um artista chamado E descansou o primeiro dia.
Um artista chamado Entrega a domicílio.
Um artista chamado Me deu dólares, receberá do(lo)res.
Um artista chamado Receberei Dolores.
Um artista chamado Muralha da China.
Um artista chamado A cuadrícula do estado.
Um artista chamado Um quadro chamado Joãozinho.
Um artista chamado Música de seus olhos Ambrósia
..................[de minhas orelhas.
Um artista chamado A vernissage permanente.
Um artista chamado Dá ao César o que não cessa.
Um artista chamado Presente etrusco.
Um artista chamado O escravo mudo.
Um artista chamado O caminho para Berlim está ornado com corações
..................[gestálticos.
Um artista chamado O olho do gado engorda o dono.
Um artista chamado A função do galerista é converter o sorriso
..................[da mãe no bolso do pai.
Um artista chamado Meu bingo não é fácil.
Um artista chamado Meu bingo é seu.
Um artista chamado Meu bingo não é seu bingo.
Um artista chamado Bingorreareia.
Um artista chamado A hora dos bingos.
Um artista chamado O pout-pourri permanente.
Um artista chamado Ondulação permanente.
Um artista chamado A vingança dos deuses.
Um artista chamado Um artista olhando quase para o Sudeste.
Um artista chamado Uma modesta idéia da paixão.
Um artista chamado Aproximadamente.
Um artista chamado há quase dois mil anos + dois.
Um artista chamado Morrerei em Madrid sem conhecer Barcelona.
Um artista chamado Morrerei em Madrid mas vou a Pamplona.
Um artista chamado L’honorabilitá do bom pigmento.
Um artista chamado Caguei para o pigmento.
Um artista chamado Pigmeu.
Um artista chamado O grande Pigmeu.
Um artista chamado Pigmeu Jr.
Um artista chamado Semi Jr.
Um artista chamado Um artista chamado Bis.
Um artista chamado Um artista poeticamente incorreto.
Um artista chamado Tormenta e roubo.
Um artista chamado O gordo Pereira Carvalho.
Um artista chamado Prior Restany.
Um artista dado.
Um artista chamado Pascualito Perez, um lance de dedos
..................[não abolirá o acaso.
Um artista chamado David, jurarei por seus Horácios.
Um artista chamado A Cabra de Picasso.
Um artista chamado O idiota de Dostoiévsky.
Um artista chamado Oficina de Rubens.
Um artista chamado Mate Cozido.
Um artista chamado Mate frio.
Um artista chamado Palha brava.
Um artista chamado Zero a zero.
Um artista chamado Matarás duas vezes sua galerista antes
..................[que o galo cante.
Um artista chamado O galo não cantou.
Um artista chamado Cômicas andanças de um crítico em apuros.
Um artista chamado O MoMA dos deuses.
Um artista chamado Oriente é Ocidente.
Um artista chamado O penico dos deuses.
Um artista chamado Bala.
Um artista chamado Das Kapital.
Um artista chamado Um pintor semi-abstrato.
Um artista chamado Um artista júnior.
Um artista chamado A ética do porco é a estética do frigorífico.
Um artista chamado O embutido prestigioso.
Um artista chamado O artista da fome.
Um artista chamado O monstro do som.
Um artista chamado O comitê do sentido
Um artista chamado A polícia da forma.
Um artista chamado A Polícia da Forma é a Polícia do Conteúdo.
Um artista chamado Lady Marx.
Um artista chamado O duplamente grato.
Um artista chamado O violino de Ingres.
Um artista chamado O solfejo é a probidade da música.
Um artista chamado A escova de dentes do agnóstico.

Um artista não chamado.

(tradução de Marília Garcia)


§


Jackson Pollock no Himalaia

Um elefante parado
em um dado de marfim.
A brisa sorri
nos bigodes do leão.

(...) mas se o destino da obra,
assim como o sonho,
é ser inconcluso, interminável,
em direção a um movimento infinito que se abre,
este jogo insensato de pintar.
(Pelo aplauso de uma única mosca não-euclidiana coroado,
adentro numa floresta estilhaçada, cheias de vozes ainda as
folhas
tingidas de ferrugem, esfarrapadas.
Cila em sicília um esquilo grita
e o grasnido dos corvos torna-se cada vez mais próximo:
negra chama através da neve – Caríbdis? –
Caríbdis? –
o som dos meus passos antecipa meus passos
e a distante cabana, o caminho sinuoso
que a ela me conduz.(1)

Bramidos como festões
na pista de uma tigresa no cio.
O lento discorrer das sáurias – prisioneiro de
toda estupidez? –
ou atento ao estalido das garças,
leques imprevistos, no reservatório?
Não é clara nem fria
a clara e fria luz esta manhã.
Novembro em Nova Iorque
– e no entanto –
o Zoológico de Bombaim berrando em meus ouvidos. (2)

(Epifanias tontas, mergulho de rã
uma pirâmide de areia coroa o dromedário
Pausa entre os chiados,
plaf,
o que ouço já foi ouvido: ibdis?
...ibdis?
Libélula no paraíso,
a cauda azul,
umbigo protuberante! (3)
que incursão se adia através de colinas aéreas e
cipós dançantes?

Uma sombra recortada na indiferente chuva de gelo:
a silhueta taciturna de um careca cor de açafrão – um
monge
ou o que restou de um monge? (4)

A lembrança de outras sedas impulsionam estas
escórias,
as migalhas por vir de festas não celebradas,
tão próximas, no entanto, como este trago de
gim
e o brilho da garrafa.

Chiados do cristal
tudo o que diante dos olhos se desfaz
– em manchas, moscas, em miragens de
coques de carbono,
poço sem fundo névoa.

No momentâneo e inseguro espelho da onda, detido,
como um grande artista fracassado,
salvo no espaço branco de todas as cores.




1.“Gostaria de ter falado com Leonardo, eu lhe diria que talvez sejamos todos seres de um universo inimitável acossados no embuste infernal que o tempo reproduz. (“Diálogos del horto, monsenhor Ferrari”)

2. “O pintor, enlameado no caminho dos seus erros, não poderá ser salvo pelos presságios enganosos mas sim pelos fulgores de sua memória” (Idem).

3. Com muita folga se fez o silêncio. (Idem)

4. “Com memória de galo que não se lembra que já cantou, me disse:
mas quem é este que está do seu outro lado?” (Idem)


(tradução de Marília Garcia)


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