Ismar Tirelli Neto nasceu no Rio de Janeiro, em 1985. Chamou a atenção pela primeira vez com algumas publicações eletrônicas, especialmente com a divulgação de seu poema "Ansiedades quanto a uma academia", incluído em seu livro de estreia, Synchronoscopio (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008), no qual demonstrava seu talento para uma prática poética em que o lírico e o narrativo se mesclam. Ainda que seu livro de estreia seja bastante irregular, em alguns poucos poemas o jovem carioca demonstrava já uma imaginação poética incomum, especialmente flagrante nesta área há décadas inexplorada na poesia brasileira, o terreno limítrofe entre o narrativo e o lírico, habitado por alguns poucos poetas lusófonos desde o fim de década de 70 e a partir dos 80, como a brasileira Ana Cristina Cesar e a portuguesa Adília Lopes. É interessante notar que esta mescla de gêneros já estava talvez anunciada no próprio título do livro, remetendo ao instrumento que indica se dois ou mais movimentos periódicos e paralelos estão sincronizados, como, por exemplo, os dois motores de um avião.
Ismar Tirelli Neto acaba de publicar agora, pela mesma 7Letras, seu segundo livro, intitulado Ramerrão, em que o salto qualitativo é evidente. Trata-se de um belo livro. Seu título remeteria a uma poesia do cotidiano, com os significados possíveis de ramerrão (som monótono e continuado; salmodia, litania, ladainha; rotina), mas o poeta não se entrega à mera descrição de uma vida cotidiana. Pois esta costumeira, em nossa época posterior ao borrar pop dos níveis e substratos da dita Cultura, essa rotina balança-se entre o prosaísmo de uma existência em luta pela sobrevivência num mundo capitalista de seleção social, e os nossos delírios e sonhos fílmicos impregnados de imagens hollywoodianas e palavras de canção popular, canções que mesmo sem querer acabam embasando este mesmo mundo, entre a resistência e a legitimação. Se lidamos com nossas cidades-selva a caminho do emprego onde nos alienamos, nós buscamos e sonhamos manter nossa individualidade ouvindo as canções que nos salvam, e mesclamos à percepção do vazio de nossa própria vida rotineira a imaginação do glamour das vidas imaginadas. À constatação da vivência de que a canoa do amor se quebra no cotidiano, como diz o verso de Maiakóvski, damos a nossa vida amorosa ares e cores de tragédias gregas e elisabetanas lidas e imaginadas. Entramos no ônibus com um verso cantado por Maysa nos ouvidos, seja no walkman ou iPod, descemos do ônibus imaginando-nos personagens de um filme de Woody Allen ou Pedro Almodóvar.
É esta sensibilidade que Ismar Tirelli Neto esposa e à qual pertence. Seu ramerrão de imagens baças é pontilhado pelos holofotes luminosos das referências ditas eruditas e pop que todos nós carregamos. O cotidiano que seu livro ilustra é o de uma calçada, mas a que separa da rua ... um cinema, por exemplo, ou uma porta de bar onde regamos nossas desilusões e ilusões, onde comentamos os últimos filmes vistos, onde cantarolamos uma canção de desamor.
Uma das características que mais me interessam em seu trabalho é como sua composição, nos melhores momentos, parece oscilar entre hipotaxe e parataxe, entre o linear e o desconexo, criando um encadeamento de imagens e ideias que surpreendem, mas ao mesmo tempo encaixam-se com uma naturalidade da voz, mas a voz dos bons de papo. Eu poderia remeter o leitor aqui à ideia de Marjorie Perloff e sua poética da indeterminação, e as referências de Ismar Tirelli Neto são realmente distintas das que guiaram a poesia brasileira nos últimos 30 anos. Ele pertence a uma geração de poetas que começou a se importar menos com a precisão que com a imaginação, voltando-se para autores da Escola de Nova Iorque, como Frank O´Hara, John Ashbery e Ted Berrigan (poetas, aliás, que Ismar Tirelli Neto tem traduzido de forma esparsa), e talvez fazendo de santos de seus altares muito mais Rimbaud e Verlaine que Mallarmé ou Valéry. Não estou tentando criar mais oposições em um país apaixonado por elas. São estratégias distintas e escolhas com consequências para o trabalho poético.
Esta mescla de registros, entre o culto e o coloquial, as referências que uns chamariam de eruditas, mas misturadas a referências da música popular, assim como a mescla de gêneros, levam a uma poesia que obviamente não agradará a todos. Com o divórcio quase completo entre poesia e prosa no Brasil, algo que testemunhamos a partir da década de 90, muitos poetas têm esposado uma est-É-tica que remete à poésie pure do fim do século XIX e início do XX, e o trabalho de poetas jovens como Ismar Tirelli Neto tem, na contracorrente, reconduzido a um borrar da fronteira entre prosa e poesia, como podemos ver nos poemas "Os arquivos" ou "Enquanto isso", que estão entre os textos – tanto de poesia como de prosa brasileiros – mais divertidos e inteligentes que li nos últimos tempos.
Se em alguns poemas a imagética esgarça-se e perde a naturalidade entre o linear e o desconexo, aproximando-se demais, talvez, da poética de Ana Cristina Cesar (o que não é em si problema), o livro demonstra uma imaginação de caráter bastante individual, eu diria.
Ao ler Ramerrão, é como se um grito jovem de inconformismo ressoasse nas páginas, de um jovem muitíssimo tímido que quisesse, a todo custo, recusar o destino que Rimbaud tão bem expressara ao desabafar: "Oisive jeunesse / À tout asservie, / Par délicatesse / J'ai perdu ma vie", e, no entanto, em meio à resistência insistisse talvez em manter a delicadeza. No poema "O amigo solteiro", ele escreve: "Toda a minha vida eles / costeiam. Cordata, / a vista não deixa entrar. / Fiquei. Rendido às formas / da delicadeza. Esgarço / as teias de aranha para / então bordar as minhas, / acerto pelo horizonte / o luto das molduras."
Certamente será necessário estocarmos papel para acomodar a imaginação caudalosa deste rapaz. Os editores da Modo de Usar & Co. se alegram com seu segundo livro.
Postagem de Ricardo Domeneck e Marília Garcia.
Texto de apresentação: Ricardo Domeneck
Vídeo: Marília Garcia.
Seleção conjunta dos poemas.
§
POEMAS DE ISMAR TIRELLI NETO
Ismar Tirelli Neto. Rio de Janeiro, julho de 2011. Vídeo de Marília Garcia.
Preocupações épicas
I
Nunca andei tão longe sem
ter antes ouvido o tango
no Cabaret
Sauvage, sem ter
ainda escrito os tais
“Poemas da Mudança”, sem
ter belo (belo) bronco
adormecido num postal
desfechado de Oxford,
Lille, São Paulo.
Nunca andei tão longe
que um satélite – no mais
dos casos, materno – não
viesse me apanhar.
Reconheço de nenhum
grado que foi aquela
anedota em que
os vizinhos de Kant
ajustam relógios
à hora de seu passeio
vespertino o verdadeiro
motivo pelo qual
desisti da Filosofia.
Isso tudo porque
também eu
nunca me abalei
daqui. Você foi
toda a extensão
de maio, preservando
as conotações
pertinentes a ambos
os hemisférios. And I
don’t know if I’m ever
coming home.
II
Com os michês
tchecos
a ruína seria certa, não
essa burocracia
infame, & por que
não, Berlim?, poderia
passar (por) uma
temporada com Antônio
& seu marido
fotógrafo, cujo
nome recordo
perfeitamente: por
pleitear, minha
cidadania do mundo.
Perdi para Paris
mais amigos do que
tenho dedos. Descuidei
da “morte feliz” há
um ano, ou dois,
num ponto de ônibus
próximo à Rua
do Ouvidor.
Mas também, é
força admitir,
nunca andei tão
longe, nem tão pouco
familiar.
“Em que
o autor se deixa
montar por uma
pracinha de bairro
como um triciclo”.
III
Peça para móbile
autobiográfico.
As primeiras lembranças
sofrem rasgos
profundos
nos lados
dos indicadores,
cutículas
arrancadas,
Dodge desfeito
em dáctilos.
O menino
põe sangue entre
as ferragens.
Sua Olivetti
gagueja
§
Os arquivos
A solidão havia uns monitores em torno.
No-break. O quadro a largas patadas. Feeria
duma Repartição Pública às 11 da manhã. Agora
os papéis. Não vim aqui para matá-los. Antes
pelo contrário, dar-lhes seguimento. Sou um homem
detrás de seu tempo. Me ultrapassa o que vim
fazer aqui. Uma conjugação imprevista de eventos põe
-me no centro dum acalorado debate sobre o futuro
da Arquivologia. O futuro da Arquivologia está a perigo.
O futuro de nossos papéis. O futuro, coisa sumamente.
Sou um corpo que conjuga eclipses ou algo muito mais
pudorado. Sentia (pregos) a proximidade de um jardim, ou
um terraço, tardava a hora do almoço porque tenho
o estômago fraco para os homens. Que há tanto faltam
nomes. Nenhuma nova. O futuro de nossos papéis está a perigo.
Que sei eu do ludo da língua? O dono da pastelaria berrava
com sua filha em cantonês. Eu sou a filha.
Sorrio quando ele sobe o degrau da calçada ainda
mais estreita de sol, espantando os pombos, voo coxo.
Sou a filha e é preciso não sê-la. Sou involuntária e muda.
Meus pais têm uma pastelaria na Rua São Clemente.
Jamais dominarei o português, mas não tenho faculdades
de saudade, nostalgia, como queira. Tenho a ternura
ingoverna dos que nasceram entre cais. Chamo-me (como
queira). O futuro de nossos Arquivos está a perigo.
§
a distância entre dois
edifícios é insolúvel: poesia,
locus. Quantas
estilhas do percurso?
Este o cerco
do alheio, aquelas
as janelas que não sei
em tudo que se habita
um temporal azul calado. A
distância entre dois edifícios
é insolúvel. Uma garganta
cheia de pontes – Não
estivemos juntos então
§
O amigo solteiro
− Três casas num só ano, e um idioma
em vias de sumir, você disse?
Toda a minha vida eles
costeiam. Cordata,
a vista não deixa entrar.
Fiquei. Rendido às formas
da delicadeza. Esgarço
as teias de aranha para
então bordar as minhas,
acerto pelo horizonte
o luto das molduras.
Aos domingos distribuo
ao povo visitas inesperadas.
Me acompanha?
Aos domingos distribuo
ao povo visitas inesperadas.
Me acompanha?
Assino uma carta, atento
ao som rasteiro & tramador
executado por meu próprio nome.
(Lá as pessoas se perdem).
Aos domingos vou ao cinema.
Gargalha-se como incêndios
em grandes edifícios comerciais.
Volto e percebo
que sigo porejando muito fino
das paredes, desde sempre.
Estavam a bem pouco de inventar o telefone.
Fiquei porque o trem não me apanhou.
§
OUTROS POEMAS
Ansiedades quanto a uma academia
I.
inscrevo-me no plano trimestral
atividades aquáticas:
duas sessões de hidroginástica
e uma de natação
por semana
durante (o que se obvia) três meses
II.
das turmas de natação
(me entregam o demonstrativo na secretaria)
escolho a Medo D´Água
todas as quartas pela manhã
com o professor Tomás
a quem já ouvi chamarem Tômas
o que me constrange
não sei como me dirigir a ele
professor?
III.
a turma Medo D´Água
todas as quartas pela manhã
consiste de mim e de Ada
gaúcha septuagenária
fóbica
cujo desempenho
cotejado com o meu
deixa muito a desejar
(pareço dominar
o conceito de horizontalidade
melhor que Ada)
IV.
Professor Tomás
ou Tômas
me faz pôr os pés de pato
embaixo d´água
pergunta quanto calço
respondo quarenta
na verdade trinta e nove
mas meus pés são gorduchos
V.
tenho medo de tirar os óculos
porque eles fazem um vácuo incômodo
em torno dos olhos
tenho medo de tirá-los
e os olhos juntos
caindo à beira da piscina
ou na própria piscina
assustando as criancinhas que aguardam
perto do chuveiro
e as senhoras da hidroginástica
(Ada desmaiando)
eu nunca mais seria qualquer outra
coisa que não o sujeito cujos olhos
saltaram das órbitas à beira da piscina
sugados pelo vácuo que os óculos fazem
em torno dos olhos
ao serem retirados
meus óculos fabricados na China
VI.
metido nessa sunga insensata
tamanho G
(sinto que decepcionei os funcionários
da loja de artigos esportivos
meu excesso de corpo não se nota assim
à primeira vista
há táticas como se sabe
tons escuros listas verticais)
os óculos que puxam meus olhos
e a touca que me comprime as idéias
pergunto ao professor se ela deve cobrir
também as orelhas
o que já me parece excessivo
Tomás (ou Tômas) recomenda que eu use
um tampão
isso também me parece excessivo
VII.
um lance de escadas aparta
o parque aquático
do vestiário masculino
tenho de ganhar
essa distância
subjugá-la
metido numa insensata sunga
tamanho G
às mãos a touca e óculos
pendendo úmidos
não tenho roupão
o vestiário masculino me apavora
é possível que no longo desse poema
eu não tenha intentado tratar
de outra coisa que não
meu pavor meu absoluto pavor
ao vestiário masculino
coisa que até agora não fiz
VIII.
talvez esse poema seja sobre a nudez
(modalidade do corpo
que não costumo praticar
com muita freqüência)
ou sobre todas as modalidades
do corpo que não costumo praticar
com muita freqüência
todo esse potencial do corpo
que não se realiza
de inopino as mãos do professor Tômas
ou Tomás
em cima de mim
embaixo de mim
e minha cabeça enfiada n´água
já que não estou tendo uma experiência erótica
não absolutamente não estou
IX.
o servente
no vestiário masculino
me olha
de alcatéia
não posso lhe pedir que pare
que pare imediatamente com isso
porque provavelmente não é o caso
estou imaginando coisas
estou sempre imaginando coisas
o servente no vestiário masculino
não me olha de alcatéia
não absolutamente não me olha
(por que um? por que outro?)
mas é com muita consciência
que opto por não tirar a sunga
ao me enxugar
(na rua a marca d´água
na bermuda)
X.
bom trabalho Ismael!
meu nome é Ismar
(de Synchronoscopio. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008)
§
Enquanto isso
I.
à época você era curador-assistente no Museu do Sono & eu
reprovava mais uma vez em Artes Divinatórias, & os meus
começaram a regular o dinheiro dos selos, & foi preciso, por fim,
abandonar a província de K., mesmo na estação, eu me dizia,
[para sempre.
Uma vez na capital, o silêncio se confunde com os descampados
[que já tínhamos
por hábito deixar entre as cartas, & ninguém faz caso
de nenhuma distância. Em poucas semanas comecei a me prostituir
para o Maior Colecionador de Autógrafos da América Latina, &
com os contos angariados foi possível alugar uma caixa-postal.
[Disse-lhe de passagem
que agora morava ali, era pequeno mas satisfazia minha curiosidade
pela vida monástica. Você me escreveu & me escrevia de volta
dizendo ser tudo bonito e igual, mas sobretudo uma palavra
[– como colunata,
ou cinemascópico: cauchemar. Ainda assim, em meu aposento
[metálico
vinham-me malárias só de pensar em você, noite & dia
ladeado por todas aquelas miniaturas resinadas, polidas à tolice
II
“mas talvez seja apenas obra de uma secretária, Camareira Sempiterna
ou Jovem Dama-de-Companhia Aspirante A, talvez sejam todos estes
[nomes
travestis, bom, quem lhe garante?”, & com estas palavras tão-logo
[as enuncio me
acho prontamente no olho da rua, o ar gélido ultramarino da Capital
passa por mim como estação, sai fumaça, & as narinas do trem das sete
doidas face à manhã lilás. Mas é preciso abandonar a província de K., é
o que me digo, mesmo na estação, para sempre, mesmo que o som
dos sinos desfolhando pelos descampados se torne intolerável,
[estarei aqui
e prevenido de quaisquer encomendas trágicas. Ora não diga
nada, sua máquina combustecida por fascinação, imigrante
dum país por demais próximo; as ruas são estas, memorize-as.
Caminhar a noite sem dorso além pontes & monumentos & homens
dos quais nunca me embebedei, “nós não, não nos codificarão em bronze,
mármore nem congelarão os contornos de nosso desejo, ele não
[deve encontrar pouso jamais”.
Mas quem não ficaria horrorizado à vista de prosa tão jovem? Até eu
mastigo a carta, engulo com o café frio & tento
mais uma vez: “A universalidade é impraticável às segundas”.
.
.
.
2 comentários:
Queria ter um blog assim: quanta informação legal! Adorei e voltarei mais vezes, com certeza!
Obrigada pelo comentário, Maíra.
É uma alegria ter leitores interessados em nosso trabalho.
Volte sempre!
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