Christian Hawkey é um poeta contemporâneo norte-americano, nascido em 1969, que vive entre Nova Iorque, onde leciona no Departamento de Inglês do Instituto Pratt, e Berlim, onde vive parte do ano com sua esposa, a poeta contemporânea alemã Uljana Wolf (n. 1979). Os dois estão entre os mais respeitados e premiados poetas de suas gerações em suas respectivas línguas e países, colaborando em traduções do inglês para o alemão e vice-versa.
Christian Hawkey estreou em 1999, com o volume Hues for the Watchman, mas chamou a atenção da crítica e estabeleceu-se como uma das vozes mais fortes de sua geração com seu segundo livro, The Book of Funnels (2004), ao qual se seguiu a plaqueta HourHour, com desenhos de Ryan Mrozowski, em 2005. Seu último livro, do qual foi extraído o poema abaixo, foi publicado em 2007, intitulado Citizen Of (Seattle: Wave Books, 2007). Na Alemanha, uma antologia de seus poemas foi publicada pela editora Kookbooks, sob o título Reisen in Ziegengeschwindigkeit (2008), com traduções de Steffen Popp e Uljana Wolf.
A sensibilidade poética de Hawkey parece ligá-lo tanto à chamada Escola de Nova Iorque, com poetas como Frank O´Hara, John Ashbery e Ted Berrigan, como a alguns dos experimentos dos poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E. Mas estas classificações provavelmente não ajudam muito a compreender o que poetas de sua geração, à qual poderíamos incluir e mencionar a poeta Juliana Spahr, por exemplo, têm feito ao buscar uma poesia lírica que seja analítica e crítica, como preconizaram alguns mestres do século passado, mas que voltem a cumprir certas funções milenares da poesia e restabeleçam um contato com o público.
--- Ricardo Domeneck
§
POEMA DE CHRISTIAN HAWKEY
Relatório do Subsecretário de Inquéritos
Sexo: indeterminado. Idade:
antiquíssima. Olhos: subdimensionados.
Nariz: quebrado. Pescoço: conectado.
Cabelo: de esqueleto. Peito: em pausa.
Sexo: lacuna. Testa: lascada,
talvez por estrelas ou aparato estrelado,
tal cabeça de parafuso Phillips, ainda que
a língua, trançada, há pouco localizada
dentro da bochecha direita
o saúde, claramente
como sombras saúdam o amor do sol
por entardeceres em árvores no inverno
desfolhadas como a palavra galhos.
Estou acordado. Estou acordado. Minutos
mais alguns minutos &
um rosto que a manhã belisca
até mover-se está piscando. Onde
está o cocar de guerra? O céu despassarado.
Azul é um buraco em minha cabeça que você
entra voando, sussurrando, questionando.
Língua emplumada de um gato. Suas paciências.
Primavera. Fontes em bobina. Eles puxaram
o rio de dentro do corpo
chamado hoje, terça-feira,
você conhecia o olhar dela, amplo, plano
& a forma como se movia
ou certas coisas movem-se, como se
viessem do fundo, a terra fora de vista, como
o ombro de um touro tem que fluir de repente
para o lado por uma mosca. Flecknoe
é seu nome. Ele vive sob o signo
dos Pelicanos Tristes, fáceis
de encontrar já que suas bolsas gulares
dilatáveis, feito couro curtido pelo tempo,
desdobram-se com um pouco de vento
como céus cinzentos, nublados. & o que houve
eu perdi o raciocínio. Você é
uma tímida senhora. Calcedônia jade-cinza
cobre seu pescoço, que é longo
e curvado, & carrega
como uma coluna de líquido carnoso
sua cabeça por salas, janelas, paredes
feitas de névoa retroiluminada. Alguém
pode me dizer quem foi Phillips? Toda vida
é uma ferramenta. Seguramos nossas
próprias mãos. Estamos girando
em câmera lenta, fixados por alguns
parafusos, este pulso, uma terça-feira, luz
permitindo todos os desenhos e como eles
se embaçam para dentro de você, sendo você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Report from the Undersecretary of Inquests
Christian Hawkey
Gender: indeterminate. Age:
ancient. Eyes: undersized.
Nose: broken. Neck: connected.
Hair: mostly air. Chest: at rest.
Gender: pending. Forehead: dented,
perhaps by stars or star-shaped devices
such as a Phillips head, although
the tongue, twisted, recently located
inside the right cheek
salutes you, clearly
as shadows salute the sun’s love
of late afternoons in winter trees
leafless as the word branches.
I’m awake. I’m awake. Minutes
more a few minutes more &
a face the morning twitches into
movement is blinking. Where’s
my war bonnet. Birdlessly the sky.
Blue is a hole in my head you
fly into, whispering, questioning.
A cat’s feathered tongue. Its patiences.
Spring. Coiled sources. They pulled
the river out of the body
called today, Tuesday,
did you know her wide, flat gaze
& the way it moved
or certain things move, as if
from beneath, unseen the earth, like
a bull’s shoulder must flow suddenly sideways
for a fly. Flecknoe
is his name. He lives under the sign
of The Sad Pelicans, which are easy
to find since their leathery,
weather-beaten distensible gular pouches
unfold with a little wind
as grey, overcast skies. & what’s with
I lost my thought. You are
a coy mistress. A jade-gray chalcedony
curtains your neck which is long,
& curving, & carries
like a column of flesh-colored liquid
your head through rooms, windows, walls
made of mist, backlit. Can anyone
tell me who Phillips was. Each life
is a tool. We’re holding
our own hands. We’re turning in slow motion
held together by a few screws,
this wrist, a Tuesday, light
allowing all the patterns
& how they blur into you, as you.
from the book Citizen Of (Seattle: Wave Books, 2007)
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1 comentários:
outstandingly moving!
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