Terça-feira, 19 de Julho de 2011

Vasko Popa (1922 - 1991)


Vasko Popa foi um poeta sérvio, nascido na vila de Grebenac em 1922, no território que àquela altura era conhecido como Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, rebatizado em 1929 como Reino da Iugoslávia sob o reinado de Alexandre I. O poeta estudou psicologia na Universidade de Belgrado e mais tarde na Universidade de Bucareste e na Universidade de Viena. Durante a Segunda Guerra Mundial uniu-se a um grupo de partisans (guerrilheiros) lutando contra a ocupação nazista e, ao ser capturado, foi enviado a um campo de concentração em Zrenjanin. Após a guerra, estudou filosofia e passou a editar revistas literárias em Belgrado. Estreou em livro com o volume Casca (Kora, 1953), ao qual se seguiram O Campo do Desassossego (Nepocin-Polje, de 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vucja Só, 1975), Carne Viva (Zivo Mesó, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuca nasred druma, 1975) e Corte (Rez, 1981).

No Brasil, seu trabalho foi traduzido por Aleksandar Jovanovic, um dos maiores tradutores da literatura do Leste Europeu no País. O linguista e professor da Universidade de São Paulo organizou para a editora Perspectiva a antologia Osso a Osso (São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1989), da qual retiramos os poemas abaixo. Jovanovic foi responsável ainda por outras importantes antologias de poesia europeia, como Céu vazio: 63 poetas eslavos (São Paulo: Hucitec, 1996) e Caracol estrelado: poesia sérvia contemporânea da segunda metade do século XX (Poesia Sempre. 15. ed. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2008). Também traduziu Velimir Khlébnikov, Milorad Pávitch, Zbigniew Herbert e Darinka Iêvritch, entre outros.

Vasko Popa foi um dos poetas europeus mais populares do pós-guerra. Contemporâneo de autores como o romeno germânico Paul Celan (1920 - 1970), o brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999), o italiano Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975) ou o americano Robert Creeley (1926 - 2005), apontando para a grande diversidade poética do pós-guerra, sua poesia apresenta uma característica marcante, que Haroldo de Campos (1929 - 2003), amigo do poeta sérvio, chamaria na orelha da antologia Osso a Osso de "materialismo ôntico", após alinhar a obra de Vasko Popa ao que ele chamou de coisismo, reconhecendo-o na poesia de William Carlos Williams, Francis Ponge e João Cabral.

Talvez por via do expressionismo alemão e do surrealismo francês, este materialismo ôntico poderia ser visto como herdeiro da relação poética dos Românticos com a natureza. Na poesia moderna, talvez possamos encontrar grandes exemplos nos Novos Poemas de Rilke, com sua capacidade de transportar-nos à manifestação ontológica de suas panteras e torsos de estátuas. Mas, como Haroldo de Campos nota, isto se manifesta em Vasko Popa unido a um minimalismo em que até mesmo o epos submete-se à elipse. Tal minimalismo é ligado pelo paulistano ao construtivismo plástico, mas temo que nosso poeta tenha talvez naturalmente lido com certo exagero suas próprias obsessões na obra do servo-croata. Tendo vivenciado os horrores da Segunda Guerra, seu minimalismo parece ser mais uma operação em silêncio, mais próximo da concreção minguante de um Giacometti que das abstrações puras de um Mondrian, a não ser que o liguemos ao construtivismo de caráter místico de um Kandinsky.

É que Popa parece operar mais em nome de uma pobreza de recursos que uma pureza de expressão. Pessoalmente, eu ligaria tal míngua a um impulso mais est-É-tico que formal, tal qual no que já ousei chamar de biominimalismo em artistas brasileiros como Arthur Bispo do Rosário (1909 - 1989), Lygia Clark (1920 - 1988) e José Leonilson (1957 — 1993). Eu adoraria aqui e agora mencionar que são artistas brasileiros que, por questões como cor da pele, gênero, sexualidade ou parâmetros como "saúde mental", estiveram de maneiras diversas à margem da sociedade brasileira e, desta margem, desconstruíram muitos dos dogmas do construtivismo que se estabeleceu como hegemônico na percepção crítica da arte e poesia brasileiras da segunda metade do século XX... mas ainda é muito difícil discutir tais questões sem despertar certas fobias críticas no País, que acabariam apenas desviando a atenção do cerne do debate.

No entanto, parece-me ainda importante notar que este objetivismo de Popa, se seguirmos as palavras de Haroldo de Campos, está distante do objetivismo que guiou a poesia brasileira do final do século XX, muito marcada pelas obras de João Cabral de Melo Neto e Robert Creeley, por exemplo. Pois faltava a este objetivismo (e não se trata aqui de acusação crítica, sendo uma escolha est-É-tica com implicações precisas) justamente este materialismo ôntico, de caráter romântico talvez – algo visto como negativo naquele momento, e que deixou mais uma vez à margem o trabalho de poetas que se distanciaram do construtivismo reinante do momento, determinando a recepção tardia das obras de poetas como Hilda Hilst (1930 - 2004) e Roberto Piva (1937 - 2010), ou, ainda hoje, a pouca atenção à obra de poetas mortos há muitos anos, como Henriqueta Lisboa (1901 - 1985), ou a daqueles que ainda estão felizmente entre nós, como Leonardo Fróes. Na poesia contemporânea, produzida nos últimos anos, eu ousaria reconhecer este materialismo ôntico em poetas como a argentina Lucía Bianco (n. 1979) e o brasileiro Wladimir Cazé (n. 1976), entre alguns outros.

Deixamos vocês com a série "Osso a osso", que dá nome à antologia organizada por Aleksandar Jovanovic, e alguns outros poemas. Talvez algumas destas questões fiquem mais claras à luz dos poemas de Vasko Popa. É difícil ler a série "Osso a osso" sem pensar na poesia elegíaca em que autores do pós-guerra tentaram dar voz aos mortos daquela Catástrofe que ainda nos acusa, como no caso da poesia de Nelly Sachs ou Paul Celan. A imagética dos poemas nos leva dos campos de Bergen-Belsen ou Treblinka às ruínas de Stalingrado e tantas outras cidades e campos devastados pela Segunda Guerra.

Desconhecendo a língua servo-croata, é impossível julgar as traduções de Jovanovic. Mas uma coisa me parece certa: ele nos doou belos poemas em português, que funcionam como poemas em nossa língua.



--- Ricardo Domeneck


§


POEMAS DE VASKO POPA
extraídos da antologia Osso a Osso (São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1989), traduções de Aleksandar Jovanovic.


Osso a osso


§ - No começo

Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne

O que faremos agora
Diz algo

Talvez queiras ser
A espinha do raio

Diz algo mais

O que direi
O osso pélvico da tempestade

Diz outra coisa

Nada mais sei
Costela celeste

Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa



§ - Depois do começo

O que faremos agora

Realmente o que faremos
Agora jantaremos a medula

Comemos a medula no almoço
Agora o oco dói em mim

Pois toquemos música
Gostamos de música

O que faremos quando os cães vierem
Eles gostam de ossos

Entalaremos em suas gargantas
E gozaremos



§ - Sob o sol

É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne

Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu

Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos

Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido



§ - Debaixo da terra

Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo

E o que faremos agora

Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol

E então o que faremos

Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade

E depois o que faremos

Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo

Espera só o bocejo da terra


§ - Sob a lua

O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse

Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada

Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível

Sabes o quê?
Será que ousas ladrar


§ - Diante do final

Onde iremos agora

Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos

O que faremos lá

Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada

De que lhes servimos nós

Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos


§ - No Final

Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais

O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também

Onde estou agora

Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira

Será que me ouves

Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós


§


Quartzo


Sem cabeças sem membros
Aparece
Com o emocionado pulso das ocasiões
Move-se
Com o passo atrevido dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço

Tronco liso branco exato
Sorri com a sobrancelha da lua


§

Caracol estrelado

Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata

As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha

O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol

Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada

Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais

E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata


§

Dente de leão

Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão

Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra

Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu

Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido

Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita

E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo


§

Trepadeira


Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos


§

Musgo

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela


§

No suspiro

Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés

Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo

Lábios invisíveis
Apagaram o campo

A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas


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1 comentários:

Gavine Rubro disse...

Belo blog

perdi-me no tempo positivamente a ler um pouco do que aqui é partilhado,

voltarei,
uma vénia,

Gavine Rubro
www.celularubra.blogspot.com