
Mary Jo Bang é uma poeta contemporânea norte-americana, nascida em Waynesville, estado do Missouri, em 1946. Estudou sociologia na Northwestern University e Columbia University. É hoje professora na Washington University, na cidade de St. Louis. Seus poemas já foram publicados em revistas como New American Writing, Paris Review, The New Yorker, The New Republic, Denver Quarterly e Harvard Review.
Estreou em livro em 1997, com o volume Apology for Want. A ele seguiram-se Louise in Love (2001), The Downstream Extremity of the Isle of Swans (2001), The Eye like a Strange Balloon (2004), Elegy (2007) e o seu mais recente, The Bride of E (2009). Na Alemanha, foi publicada há pouco uma antologia bilíngue de sua poesia, traduzida por Barbara Thimm e intitulada Eskapaden (Wiesbaden: Luxbooks, 2010), com ilustrações de Matt Kindt – a mesma editora alemã que lançou a antologia bilíngue dos poemas de Angélica Freitas.
A natureza de seu lirismo liga seu trabalho ao de norte-americanas como Lorine Niedecker (1903 - 1970) e sua contemporânea exata Rae Armantrout (n. 1947), já traduzidas e discutidas aqui (veja lista de poetas publicados ao lado). No Brasil, seria um exercício crítico interessante o de ler seu trabalho à luz da poesia de autores como Lu Menezes (n. 1948), Jussara Salazar (n. 1959) e Juliana Krapp (n. 1980), por exemplo.
Abaixo, a tradução de seu poema "In this Business of Touch and Be Touched", extraído do seu livro de estreia, Apology for Want (1997).
--- Ricardo Domeneck
§
POEMA DE MARY JO BANG
Neste negócio de tocar e ser tocado
É superdeterminado, o corpo –
soma de fronteiras tesas. Nervos em filamentos
aquilinos circundando pontas de dedos sem corte.
Um galho dorsal
ramificado na tenra cama de pregos, cada
tendão e fibra presos em espera e expectação.
O coração quer livrar-se, os pulmões querem ar.
Eles nunca dizem o suficiente.
A boca libera o que quer que ali se forme –
ts e ds grampeiam os incisivos esmaltados.
O cérebro, intracraniano e envelopado
em teia de aranha
sabe tudo sobre o desejo.
Sabe que o que acontece acontece
com você, por você.
A cabeça é quase uma ilha, nos limites
extremos o imaginado encontra o real,
sedimento de um abraçando o arrecife do outro.
O teste da verdade é se o tecido deixa marcas
onde a pele espremeu-se. Ontem à noite,
uma mancha de vinho tinto virou a cabeça
de quem o ergueu, a filha adulta
do tecelão; seu cabelo beijou minha mão
direita, palma cheia de terminações nervosas
idênticas às que abraçam a tíbia de uma lebre
cobrem a língua de um pato. Do outro
lado da sala, a sombra de um homem roçou a minha.
Cicatrizes formam-se de tais abrasões:
o querer coberto em sudário de bochecha e ombro
que braços não alcançam, a garganta recusa-se a pedir.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
In this Business of Touch and Be Touched
Mary Jo Bang
It´s overdetermined, the body –
a sum of rigid limits. Filament nerves
swan-necked around blunt fingertips.
A dorsal branch
ramified at the tender nail-bed,
every sinew and fiber held at wait and want.
Heart wants out, lungs want air.
They never say enough.
The mouth gives up whatever is formed there –
t´s and d´s clip the enameled incisors.
The brain, skullbound and wrapped
in spider´s web
knows everything about desire.
Knows that what happens happens
to you, for you.
The head is almost an island,
at the outer edge imagined meets real,
silt of one embracing the other.
The test of truth is whether fabric leaves a mark
where skin pressed itself.
Last night, a red wine stain bent the head
of the one who lifted it,
the weaver´s grown daughter; her hair kissed
my right hand, a palm full of nerve endings
identical to those that hug the tibia of a rabbit
coat the tongue of a duck.
Across the room, a man´s shadow grazed mine.
Scars are formed by such abrasions:
the shrouded want of cheek and shoulder
that arms can´t reach, throat refuses to ask.
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