Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Começa hoje o Festival de Poesia de Berlim, edição 2011 - artigo com amostragem de poesia


Hoje à noite, no Teatro Maxim Gorky da cidade de Berlim, ocorre a abertura da edição de 2011 do tradicional Festival de Poesia de Berlim (Poesiefestival Berlin), considerado o maior da Europa. Trata-se da décima-segunda edição do evento, que traz a cada ano um ou dois focos, línguas ou poéticas nas quais se concentra: este ano, trata-se do mundo poético árabe, escolha certamente inspirada pelos acontecimentos recentes no Egito, Líbia, Síria e Bahrein, entre outros, com vários poetas convidados destes países; e ainda tem como foco de discussão a relação entre texto e música dentro da tradição poética, com convidados especiais dentre poetas-escritores que trabalham também como poetas-cantores. A noite de abertura, chamada Weltklang - Nacht der Poesie (algo como "Som do mundo - noite da poesia") traz em geral as estrelas do evento unidas a poetas mais jovens que têm chamado a atenção da crítica, lendo em suas línguas, enquanto o público pode acompanhar com uma pequena antologia em alemão, distribuída todos os anos ao público.

As estrelas do evento este ano são, com certeza, o francês Yves Bonnefoy (n. 1923), considerado por muitos o maior poeta francês vivo, e o norte-americano Billy Collins (n. 1941), desconhecido talvez fora de seu país mas certamente um dos poetas mais populares e famosos dos Estados Unidos hoje.

A noite de abertura traz, além destes, a sul-coreana Kim Hyesoon (n. 1955) e os alemães Kathrin Schmidt (n. 1958) e Marcel Beyer (n. 1965), assim como os poetas sonoros e cantores Silvio Rodríguez (Cuba, 1946), Iva Bittová (República Tcheca, 1958) e o poeta holandês Tsead Bruinja (n. 1974), acompanhado do músico Jaap van Keulen.


Alguns poetas já traduzidos e divulgados aqui na Modo de Usar & Co. estão entre os convidados do evento: poetas sonoros como o catalão Bartomeu Ferrando e o austríaco Jörg Piringer, que participam ao lado de Eugen Gomringer e Friedrich W. Block de eventos dedicados à poesia experimental, e ainda as poetas alemãs Sabine Scho e Odile Kennel. Também já escrevemos aqui sobre o americano Billy Collins.

Este que vos escreve (Ricardo Domeneck) - feliz coeditor da Modo de Usar & Co. -, tem a alegria de participar do evento pela terceira vez, este ano com uma leitura e uma performance. No sábado, 18 de junho, leio no ciclo tradicional Poets´ Corner, no qual todos os anos poetas residentes em Berlim fazem leituras em locais de seus respectivos bairros. O segundo evento em que participo é novo e foi chamado de Dichtraum/Denkraum, o que poderia ser traduzido aproximadamente como "espaço para poetar/espaço para pensar": quinze poetas residentes na cidade de Berlim foram convidados a ocupar um espaço na estação de metrô do Portão de Brandemburgo (Brandenburger Tor), fazendo uma rotação em que cada um ocupa o espaço por duas horas e entra em contato com o público passando pela estação. A ideia é mostrar o poeta em ação, escrevendo, compondo, ou simplesmente mostrando poesia sonora e em vídeo no telão e nas caixas de som à sua disposição.

O festival traz ainda debates e leituras com poetas do mundo árabe, como o palestino Hind Shoufani, o líbio Abdouldaim Ukwas e o egípcio Hend Hammam, entre outros, como o rapper El General, da Tunísia. Haverá entrevistas e conversas ao vivo especiais com Yves Bonnefoy, Billy Collins e Silvio Rodríguez. A estreia de dois documentários: sobre a poeta alemã Hilde Domin (1909 - 2006), completamente desconhecida no Brasil, mas já estabelecida no cânone da poesia alemã do pós-guerra; e sobre o grande tradutor dos alemães na Inglaterra, o poeta/tradutor Michael Hamburger (1924 - 2007), responsável por algumas das mais importantes antologias em língua inglesa de poetas alemães do século XX. Haverá também um ciclo de debates dedicados à obra de Christian Morgenstern (1871 - 1914).


O evento dedicado à poesia digital traz os convidados Ondřej Adámek (República Tcheca), Sjón (Islândia), Mark Barden (Estados Unidos), Zakaria Mohammed (Palestina), Eliav Brand (Israel), Michael Stauffer (Suíça), Dmitri Kourliandski (Rússia), Stanislaw Lwowski(Rússia) e Rozalie Hirs (Holanda).

Um ciclo de leituras discutirá ainda a situação de poetas migrantes, que vivem e escrevem fora de seus países, com a participação, dentre outros, de Ghayath Al Madhoun (n. 1979), nascido na Síria e vivendo da Suécia; Jazra Khaleed (n. 1979), nascida na Chechênia mas vivendo na Grécia; Abbas Khider (n. 1973), nascido no Iraque mas vivendo como refugiado político na Alemanha; ou ainda Fiston Mwanza Mujila (n. 1981), nascido na República do Congo mas vivendo na França.

A oficina de traduções conhecida como Versschmuggel (Contrabando de versos), que todo ano une poetas alemães a poetas de uma língua convidada para traduções mútuas, traz este ano pares de alemães e franceses.

O festival encerra em uma semana, na sexta-feira, 24 de junho de 2011, com performances dos músicos e trovadores modernos Thomas Meinecke, Gustav (Eva Jantschitsch) e Peter Licht.


A Modo de Usar & Co. preparará postagens pontuais dedicadas a alguns dos convidados. Hoje, deixamos nossos leitores com uma micro-amostragem do trabalho de alguns dos poetas presentes no festival este ano.


MICRO-AMOSTRAGEM DA POESIA PRESENTE
NO POESIEFESTIVAL BERLIN 2011



O norte-americano Billy Collins lê sua famosa "Litany".


Litania
Billy Collins, em tradução de Ricardo Domeneck.

Você é a faca e o pão,
o vinho e o Santo Graal...
-Jacques Crickillon

Você é a faca e o pão,
o vinho e o Santo Graal.
Você é o orvalho na grama de manhã
e a roda flamejante do sol.
Você é o avental branco do padeiro,
e os pássaros nas marismas em voo repentino.

No entanto, você não é o vento no pomar,
as ameixas no balcão
ou o castelo de cartas.

E você com certeza não é o ar perfumado por pinhos.
Não há a menor chance que você seja o ar perfumado por pinhos.

É possível que você seja os peixes sob a ponte,
talvez até o pombo sobre a cabeça do general,
mas você não chega nem perto
de ser o campo de centáureas ao pôr-do-sol.

Uma olhada rápida ao espelho mostrará
que você não é nem as botas no canto
nem o barco dormindo na marina.

Talvez interesse a você saber,
falando da riquíssima imagética do mundo,
que eu sou o som da chuva sobre o telhado.

Acontece também de eu ser a estrela cadente,
o jornal vespertino ao vento em uma ruela
e o cesto de castanhas na mesa da cozinha.

Eu sou também a lua nas árvores
e a xícara de chá da mulher cega.
Mas não se preocupe, eu não sou a faca e pão,
sem mencionar o vinho e - quiçá - o Santo Graal.


§


O gavião
Yves Bonnefoy, em tradução de Mário Laranjeira.

Já faz muitos, muitos anos,
Em V.,
Vimos o tempo vir diante de nós
Que estávamos a olhar pela janela aberta
Do quarto acima da capela.
Era um gavião
Voltando ao ninho no oco da parede.
Segurava no bico uma serpente morta.
Quando nos viu
Deu um grito de cólera e de angústia pura
Mas sem largar a presa e, imóvel
Na luminosidade da alva,
Formou com ela o próprio signo
Do princípio, do meio e do fim.

E havia ali
No país de verão, bem rente ao céu.
Muitos vasos, cerrados; e de cada um
Erguia-se uma chama; e cada chama
Tinha uma cor outra, que soava,
Vapor ou sonho, ou mundo, sob a estrela
Dir-se-ia uma faina de almas, esperadas
Num trapiche na ponta de urna ilha.

Pensava estar ouvindo palavras, ou quase
(Quase, seja por falta ou por excesso
Da enferma potência da linguagem),
Passar, como se fosse um tremer do calor
No ar fosforescente que fazia unia
De todas essas cores de que algumas
Me pareciam, longe, ser desconhecidas.

Eu as tocava, elas não queimavam.
Eu estendia a mão, não, não pegava nada
Desses cachos de fruta outra que a luz.


Extraído de Obra Poética, tradução e organização de Mário Laranjeira, publicado pela Editora Iluminuras em 1998. Abaixo, vídeo com leitura de Yves Bonnefoy na Ecole normale supérieure.





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O famoso poema concreto de Eugen Gomringer.


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Silvio Rodríguez canta "El necio".


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Performance de Bartomeu (ou Bartolomé) Ferrando.


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green
Sabine Scho, em tradução de Ricardo Domeneck

alguém quer que eu diga
erva e uma toalha es-
tenda, erva da boa, a pura
opulência dos ruminantes
não é nada, dou voluntaria-
mente a entender, nada mais que
vento nos salgueiros, aptidão
para Marte, macacão azul
lavado a seco, de preferência
fotossíntese, campos de
estromatólitos, quedas de
temperatura em florescência
desértica, paisagem incrustada,
gravura grátis a laser, nem nada
de nada de precipitações



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Performance da poeta vocal e compositora experimental tcheca Iva Bittová.


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Performance vocovisual de Jörg Piringer.


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Performance de Thomas Meinecke.

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1 comentários:

Anónimo disse...

Ojeee, ich bin doch richtig neidisch auf alle die das Festival geniessen können...;-))!

Naja, auf jedem Fall, danke für diese thematischen Posts darüber und ebenfalls danke dafür, dass du als "Dichter-Korrespondent" unsere Augen und Ohren im Festival sein wirst...

Que lo disfrutes mucho!!