
Marcus Fabiano nasceu em Santana do Livramento, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, em 1973. Cedo transferiu-se para Porto Alegre e é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre e Doutor em Teoria e Filosofia do Direito, prepara doutoramento em antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Morou também em Florianópolis e Natal. Radicado na cidade do Rio de Janeiro, é atualmente professor da Universidade Federal Fluminense. Estreou em livro com O Resmundo das Calavras (2005), e sua segunda coletânea, intitulada Arame Falado, será lançada este ano.
O trabalho de Marcus Fabiano já havia aparecido neste espaço, mencionado com seu poema "Oração do favelado" no artigo "Das fatrasies medievais a DADA, do Sapateiro ao Rilke shake", que discute as possibilidades da poesia satírica e alguns exemplos deste trabalho em certos contemporâneos, ligando-os à tradição da poesia medieval que vai mais tarde desaguar na poesia do nonsense britânica e na dadaísta germânica, por exemplo. Poética que tem no Brasil dois excelentes representantes em Gregório de Matos e Sapateiro Silva.
Apresentamos abaixo quatro poemas inéditos de Marcus Fabiano, extraídos de seu Arame Falado, a sair ainda este semestre. A postagem se completa com dois textos extraídos do livro de estreia do gaúcho.
--- Modo de Usar & Co.
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POEMAS INÉDITOS DE MARCUS FABIANO
Agulha e palheiro
quem ao palheiro se desse
munido apenas de um ímã
e dali tirasse a tal agulha
que ninguém garimpa
afeito ao tato da cegueira
quem nem a detectasse
por essa magnética patrulha
da improvável coisa miúda
mas sim a resgatasse cravada
feito uma seringa na nádega
como quem podendo a luz do mercúrio
garimpasse afinal sua pepita no escuro
e assim descobrisse pela agulha
o sentido de uma outra procura:
achar no ordinário do palheiro
a dádiva da palha, o aconchego.
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Diário de bordo
um tanto de arroz
acautela a avareza da miséria:
uma cara mansa e rubicunda
de olhos trêfegos
mergulhados na tigela
o sorriso cínico ainda mercadeja
a dúvida dos céticos no bosque dos afetos
e um aleijão mendiga a piedade da repulsa
ostentando o seu falso caroço de corcunda
contudo, recorda-te:
anos 1800 – Gibraltar represa o Mediterrâneo
e a China dorme o ópio dos britânicos
anos 1900 – Celan pula da ponte da vida
sem perguntar ao carpina
o quanto verga sem quebrar
a severina compleição judia
anos 2000 – a árvore da vida desfolha
e em seu diário de bordo Noé anota:
afogado noutro dilúvio compulsório
ainda exerço os ofícios da memória.
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Shukran
a Mahmoud Darwish
no armazém das migalhas
ser o chefe dos almoxarifes:
mesmo nos grandes negócios
jamais pechinchar seu bakshish
só pelo prazer de dizer shukran
aos deuses que falam ídiche.
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A máquina do fundo
a pesca escassa, o rio poluído, a cotação do dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas
na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo
a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango
reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva a ave da linguagem nessa arca de sucata
une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível
coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas
observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha
chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.
::: poemas inéditos de Marcus Fabiano, incluídos em seu livro Arame Falado (no prelo) :::
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Oração do favelado
pai nosso
que nos deixa ao léu
santificada seja a nossa fome
venha a nós o vosso treino
e seja feita a vossa vontade
aqui na guerra
como entre os réus
o pão nosso de cada dia
roubai hoje
e perdoai a nossa imprensa
assim como perdoamos
as migalhas que nos têm oferecido,
não nos deixeis cair na transação
mas livrai-nos do sistema penal,
amém.
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Panifico e construo
sou em regra cortês
mas jamais peço licença sinhô
ou permiso señor
pulo a cerca corto o arame
arrombo a porteira cavo túnel
construo pontes improviso canoas
adivinho o segredo do cofre
salto contorno roubo a chave das algemas
me refugio em incertos algures
apago os rastros do meu paradeiro
disfarço-me em padeiro e pedreiro
panifico e construo
e meus pães eu distribuo
como quem oferece pedras
em uma ceia de banguelas
vim vi e vivi:
não vigiem minha viagem
vim vi e viciei:
não vasculhem minha bagagem
vim vi e vibrei:
não vomitem por minha beberagem
:::: poemas extraídos do livro O Resmundo das Calavras (Porto Alegre: WS Editor, 2005) ::::
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Seleção e postagem: Ricardo Domeneck.
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1 comentários:
Parabéns, pelo incentivo a leitura, especialmente pela poesia e pela arte!
Muitas bençãos em tua vida!
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