
Tatiana Faia é uma jovem poeta portuguesa ainda inédita em livro, nascida em 1986. É licenciada em Estudos Clássicos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prepara a sua dissertação de Doutoramento em Literatura Grega na mesma Faculdade. Edita em conjunto com André Simões e J.P. Moreira a revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens, fundada em 2010. Mantém o blogue Lavorare Stanca e colabora no Origem da Comédia. Escreve mensalmente para a revista eletrônica Imaginário Poético. Tatiana Faia vive em Lisboa.
--- Modo de Usar & Co.
§
POEMAS DE TATIANA FAIA
jerusalém
Electra: No terror one can name —
no suffering of any kind, no not even
affliction sent by a god, is so terrible
that human nature can't take it on.
Eurípides, Orestes
John Peck & Frank Nisetich (trads.)
no suffering of any kind, no not even
affliction sent by a god, is so terrible
that human nature can't take it on.
Eurípides, Orestes
John Peck & Frank Nisetich (trads.)
I
precisavas de uma linha de tempo que fosse
como aquelas rodas imperfeitas que meninos
conduzem em aprumos de aros de arame
por imperfeitas ruas de pedra cada oscilação
o eco de pequenos oráculos prováveis traços
de riscar o chão ecos de apostas mentais
curva de obstinado voo e consequente queda
II
curvas-te de mãos atrás das costas ajeitas no rosto
os óculos narciso curvando-se na direcção
de um espelho branco de água com uma urgência
desesperada com uma urgência com a vida nela
costurada como no quadro de waterhouse
III
a rapariga lê com um livro no colo quem
poderia dizer o que lhe diz o poema
o ar que respiramos e que como cor ou
estilhaço nos atravessa que cor nos espera
ao fim de cada dia penso mãos sobre esta
mesa negra de mármore onde me sento
para escrever outros poderiam entrar
pelos dias dizer que não te chega a tocar
minha mão direita e ela que apodrecesse
jerusalém se eu te esquecesse
IV
mas que consolo haverá na memória de uma cidade
quando já varámos todo o espaço que nos foi dado
tudo o que desejámos e o que nos restava e numa
volta de twisted plot a única coisa que entre as mãos
ainda te corre é já areia se não é cinza essa areia
V
mas na verdade a voz do outro lado do telefone
teima apenas em dizer coisas de rito estudado
tom de voz tão prático que enerva o verso
era grata la voz del agua/ a quien abrumaron
negras arenas desejaste tantas vezes perante
o eco que a resposta fosse sem gratidão
VI
o telefone por vezes é como bomba
com relógio incorporado pode explodir
a qualquer instante assim explodir
nas mãos a tua voz plena de cor
dispersando-se como noite de verão
em parque de diversões as cores
de um fogo de artifício púrpura e amarelo
e vermelho como se a elegia fosse alguém
que se despedisse acenando com um sorriso
um gesto cujo peso não nos pudesse ferir
VII
assim a phala por vezes se converte numa forma
de cabeça contra ombro e olhos fechados
como par que dançasse as pequenas oposições
dos corpos enantiao como diriam os gregos
que quer dizer eu oponho-me eu ofereço
uma pequena resistência aquela que o peso
do corpo sobre o chão permite não mais que isso
VIII
e assim fincarás os pés nas marcas das tuas próprias
pegadas fixarás o olhar nas casas vermelhas na linha
do sol que os teus dedos terão talvez afagado
também esta superstição quase pretensiosa
de que uma parte de nós fica presa fica em suspenso
no que com muita intenção tocamos mas nisto
esconde-se uma forma de noite nunca saberemos
como soam nos corações dos outros as nossas intenções
IX
as conversas no café rodeavam-te como uma luz
quando tornaste a erguer a cabeça e eu pude
finalmente ver o teu rosto isto é vê-lo com toda
a certeza com o peso da matéria que faz os corpos
embeberem-se de memória falo-te desta coisa
que esbate a solidão mesmo quando não podemos
saber que indelével marca deixam os dedos na pele
a única certeza é que nem todas as evocações são
feitas de mármore e que mesmo para essas
sempre haverá aqueles que contra o frio toque
da pedra se debatem sempre haverá aqueles
X
que sabem que sempre haverá uma música
que diga as primícias da primavera onde se prenda
a nossa impressão de familiaridade com as coisas
um rasto de vermelho contra verde na flor
que finalmente floresce a vaga evocação de
um som de uma conversa de alguém que
em sussurro falasse a memória de pouca luz
numa sala mal iluminada
XI
haverá sempre o gesto que te cante mesmo
quando não houver poesia mesmo onde e quando
chegarmos à memória de nada haverá sempre
cama onde te deites o fechar dos olhos o lento virar
do corpo uma última linha de tempo o faiscar da luz
na roda de arame a intacta promessa deste lugar aqui
e agora transferido para um pouco mais tarde
e sabes isto porque também tu chegaste
ao fim de todas as cidades e pudeste regressar
§
estate violenta
para J., pois como disse
Kierkegaard, citado por Agustina,
«Quando alguém escreve acerca dos acontecimentos
da sua própria vida, é regra de delicadeza
não dizer nunca a verdade, mas reservá-la para si
e permitir que só se reflicta de diversos ângulos.»
Kierkegaard, citado por Agustina,
«Quando alguém escreve acerca dos acontecimentos
da sua própria vida, é regra de delicadeza
não dizer nunca a verdade, mas reservá-la para si
e permitir que só se reflicta de diversos ângulos.»
I
como no poema de eugenio montale pensas agora
que subiram milhares de escadas de braço dado
imaginas nunca estarás certo quanto baste que dançaram
juntos através de todas as salas vazias destes
palácios desfeitos pela manhã os teus braços
em torno da sua cintura as mãos dela sobre os teus ombros
II
imaginas que talvez tivessem conversado entre intervalos
de música ou que já aí tivesses pressentido que o mar te cercava
que estava em torno de toda a casa que a árdua respiração
do vento àquela hora lançava contra as janelas mãos de areia
que a música te impedia de ouvir mas o que acontecia
era apenas que rapariga pelos ombros te segurava
III
como as marés no princípio das manhãs
as coisas que tememos esvanecem-se vão
para outros lugares tornaremos apenas a convocá-las
mais tarde todo esse exército de soldadinhos de chumbo
que de manhã afundaremos em água e deixaremos bater no fundo
IV
tornaremos a convocá-las apenas em caso de extrema necessidade
mas o que é a extrema necessidade de uma coisa que nos fira
não poderias dizê-lo não é sobre nada vantagem não é conhecimento
não tem a leveza de pés de rapariga que dançassem em
rasos sapatos pretos é um húmus que sobre o nosso chão está
e nada daí poderia ter nascido é uma maneira de escuridão
por isso de noite erras pela cidade atravessas as linhas de comboio
até ao mar em que quarto vazio poderias estar a dançar agora?
V
pensas que terão dançado como as personagens daquele filme
..........[de zurlini
a verdade é que conservamos o corpo depois de ter dançado
já o poema depois de lido como disse leonard cohen contra homero
esvanece-se mas penso que cohen se enganou um pouco porque
em algum lugar deve continuar a ser verdade que desci milhares
de escadas de braço dado contigo em algum lugar o outro verso
de montale tal como o corrompemos continua a fazer sentido
«eu sei que devo perder-te [de novo] e não posso»
pois nem tudo se perde ficará a consolação de saber
que alguns poemas nos explicam
VI
e pensas que é estranho que não te possam exonerar
de sentir dor é estranho que algumas palavras não cumpram
a higiénica função de nos vestir que se limitem a deixar-nos mais sós
mais diante de nós nos espelhos palavras que de toda a porcaria
nos despem e com um empurrão nos ombros nos lançam para mais
perto do coração da vida que como todos sabemos fica no chão
por isso encostas o ouvido ao solo como nos westerns os fugitivos
à espera de ouvir o comboio de antecipar um sinal do que se segue
a angústia às vezes parece-se com isto
coisas que não podemos ouvir nem ver mas que
fatalmente em algum lugar sabemos que nos esperam
como os pés dela nos sapatos pretos baixos contra o chão
quando dançaram como personagens de zurlini ou simplesmente
como gente porque quanto menos significado melhor e o melhor
às vezes é que não nos assemelhemos a nada a ninguém
VII
e podes continuar a sentir-te cercado pelo mar
sem que nenhum mar te cerque podes esgotar
todos os caminhos da noite antes de tudo recomeçar
virá a manhã como um resgate e o café feito de novo
e terás na boca um gosto amargo que há-de desaparecer
à medida que enches de água a cafeteira e deitas café
no filtro e vês na janela uma mulher a estender em cordas lençóis
e todas as coisas que recordas se somem e tu respiras
como se estivesses em casa de novo e pela primeira vez
e nenhuma palavra te tivesse sido escrita na testa
e nenhum sinal pudesse permitir um reconhecimento
futuro e assim deo gratias é tarde terminemos
§
alexandria
Continua a voltar frequentemente e a tomar-me,
sensação amada continua a voltar
Konstadinos Kavafis, «Continua a voltar»
sensação amada continua a voltar
Konstadinos Kavafis, «Continua a voltar»
I
onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste uns quantos
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não
chegaste a rasgar e a coser outra vez
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses furtivamente comprados em estações
de autocarros furtivamente guardados
em gavetas interiores de armários com chave
II
rapariga de cabelo e nome vermelho
de vermelho pintando caixilhos de
janelas mãos de vermelho manchadas
ela emerge à flor da voz mas em
pontas de pés uma prudência tão
ensaiada que não teria como persuadir
outra palavra dita mergulharia no vermelho
III
aquele que conversando pôde apenas
aprender uma forma de ver esse nunca
falou contigo inteligente e cínico calculou
a projecção do próprio eco a conversa
entrou em areia pela noite alastrou
às lanternas ténues fios brancos e estreitas
femininas mãos por engano a luz feriu-te
um pouco acertando-te no rosto tu reclamado
em cor de sépia se a memória fosse um resgate
uma coisa sem fala e sem pena uma memória
calorosamente guardada e esquecida
como coisas que podemos suportar perder
porque nos foram totalmente concedidas
IV
as pequenas nostalgias como fios se prendem
em encaixes de mãos e ombros aquele
que falou contigo junto às vinhas podadas
no dia uma conversa mutilada na mesa
de outono (t. s. eliot) o cheiro de uvas mãos
vermelhas como terias tu provado esse vinho
com que timidez reclamar o que sempre
foi nosso um regresso por hábito à exígua e pobre
divisão da casa às paredes nuas solenidade
de mesa em sala vazia como corda de piano
cuja tecla certa se pressionada certa
V
tu na mesa de outono te sentaste o rigor
do corpo direito as mãos nos joelhos
pousadas como aqueles soldados
que muito tempo longe regressam
quando já ninguém os esperava
com altivez olham o que é deles
e já só podem sentir desdém assim
o modo como atravessas de novo
e de novo a estreiteza de certas ruas
VI
continuarás a voltar a estes quartos junto
aos portos de alexandria como fez kavafis
nos seus poemas o encontro e diálogo com
as coisas será por fim uma pequena variação
de cor na luz do dia será esta forma de
silêncio o ajeitar da última flor no vaso
em que a aprisionaste será como naquele livro
de agustina uma atenção ao mundo muito dada
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