
Contemplando em retrospecto a poesia argentina do século passado, Juan L. Ortiz avulta e agiganta-se como um dos seus poetas mais fortes e importantes, um mestre, o grande modernista ao lado de outro poeta como Oliverio Girondo ou autores múltiplos como Jorge Luis Borges e Macedonio Fernández, mesmo que ainda não devidamente reconhecido ou amplamente divulgado. Um dos aspectos a influir nesta apreciação tardia talvez seja que, ao contrário dos três últimos poetas mencionados, Juanele (como é chamado) não nasceu em Buenos Aires nem atuou em seus círculos literários. Viveu uma vida discreta na cidade de Paraná, contemplando e escrevendo sobre o rio que lhe dá nome.

Abaixo, mostramos uma nota de apresentação e a tradução de Idelber Avelar para o poema “Sí, las escamas del crepúsculo...”, tradução e nota que o crítico literário e professor de Literatura Latino-Americana da Universidade de Tulane em Nova Orleans gentilmente permitiu reproduzíssemos. Idelber Avelar é tradutor ao português de autores como o romancista argentino Tununa Mercado - Em estado de memória (Rio de Janeiro: Record, 2011) - e autor do estudo (importante para o debate est-É-tico contemporâneo no Brasil) Alegorias da derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina (2000), além de The Letter of Violence: Essays on Narrative, Ethics, and Politics (2004). Trabalha no momento no livro Rethinking Masculinity in Contemporary Brazilian and Argentinian Literatures.
Encerramos a postagem com uma tradução inédita de um dos editores da Modo de Usar & Co. para o poema "Fui al río...".
--- Modo de Usar & Co.
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Juan L. Ortiz, um poema
Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a uma única tarefa: tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Debutou em 1933 com El agua y la noche. Seus primeiros dez livros – todos publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro – seriam reunidos a outros três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Há uma pequena amostra da obra de Juanele disponível na internet.
O poema que traduzo abaixo, “Sí, las escamas del crepúsculo...”, abre o volume De las raíces y del cielo (1958). Ignoro se é o primeiro poema de Juan L. Ortiz a ser vertido ao português.
--- Idelber Avelar
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POEMA DE JUAN L. ORTIZ
Sim, as escamas do crepúsculo...
Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
(tradução de Idelber Avelar)
:
Sí, las escamas del crepúsculo...
Juan L. Ortiz
Sí, las escamas del crepúsculo
en el filo, último?, de Noviembre sobre el río:
o el éxtasis de los velos de Noviembre
fluyendo hasta la noche, y más allá?...
increíble de ecos
y de fugas y pasajes
de no se sabe ya
qué despedida o qué llamado...
Sí, el fluido profundo, sobre oro,
que nimba la barranca
e inscribe místicamente un árbol alto,
y radia, hasta cuándo?,
unos vagos pétalos de iris...
Sí, sí,
el verde y el celeste, revelados,
que tiemblan hacia las diez porque se van
y en la media tarde se deshacen o se pierden
en su misma agua fragilísima...
Sí, sí, sí...
Pero vino la luz, estaba sólo la luz
detrás de las persianas de la mañana íntima:
vino la criatura eterna, el sentimiento de las estrellas,
la eucaristía de los mundos, el alma primera
antes, antes del prisma,
con esa flauta blanca, inefablemente blanca, siempre impuesta
sobre el caos…
Vino la luz, vino la niña esencial,
imposiblemente pura de las hojas y de sus propias alas,
hasta un olvido lleno de ella
como de la mirada, única, de un estío nunca visto…
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PEQUENO ANEXO COM TRADUÇÃO INÉDITA
Fui ao rio...
Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.
Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Fui al río...
Juan L. Ortiz
Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.
Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!
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2 comentários:
Parabens
hace algunos años, quizá diez o más, haroldo de campos publicó algunos poemas en la folha de sao paulo, junto a un ensayo, que después se incluyó en el arco iris blanco, me parece. felicidades por esta nueva traducción. iván g.
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