Fernando Luís Sampaio nasceu em Moçambique, em 1960. Na infância e adolescência, viveu algum tempo em Viseu, e é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa. Estreou com o livro Conspirador Celeste (1981), ao qual se seguiram Sólon, Hotel Pimodan, Escadas de Incêndio e Falsa Partida, este último pela editora Assírio & Alvim, em 2005. Foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, inglês e croata. Foi diretor do Festival Mergulho no Futuro (durante a Expo' 98) e do IPAE (Instituto Português das Artes do Espectáculo, atual Instituto das Artes).--- Modo de Usar & Co.
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POEMAS DE FERNANDO LUÍS SAMPAIO
Polaroid
Pela tarde o céu a terra
e mesmo tu formam uma densa pasta
de nuvens.
Recordo a tua boca, as tuas pernas
em arco sobre o penedo quente.
Os poços entram em colapso,
o verão arrasta multidões
para as ravinas do lugar comum.
O chapéu descaído
protege-te os olhos
que se movem com translúcido torpor.
Agora que passaram séculos
sobre esse único beijo estou
sem vontade de fingir
a relutância
do meu desejo. Esta polaroid, já seca,
encena também a minha morte.
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Na margem do coração
Não voltes a perguntar se é isto
o destino porque não sei o que essa palavra
encobre, ou finta, ou derruba, sei
pouco do mundo para dizer isto ou aquilo.
Esta rua conduz a uma outra
que é cruzada por outra ainda. E
os ventos ali se cruzam, as vidas
também, há sempre engarrafamentos.
Mais abaixo fica o rio, apanhavas muitas
vezes o barco já de madrugada,
na manhã seguinte o percurso inverso.
Por mais que não desejes o infinito
prende-se a estes restos,
vegetação rasteira, inquietações,
e na margem do coração
perguntas de novo por que,
em tudo isso,
ninguém te repete o corpo.
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No parque da cidade
O parque desce sob o meu olhar
instável desce para o lago
onde florescem latas de cerveja, folhas
e a névoa dos namorados.
À superficie das coisas o pó
aquietado da vida, a poalha dos impropérios
da castiça, o fumo do monte branco
a coroar, à hora da bica, a ave da juventude
que assobia canções combatentes.
Muita coisa começou assim, um punhal
a esmagar os sonhos, uma pedra a torcer
o primeiro amor contra o mundo.
Mais tarde, é sempre mais tarde, a morte
de amigos cuspiu de mim toda a cidade,
as ruelas que iam para o fontelo
escureceram também para sempre.
O silêncio, como o inferno, começa sempre
com os outros.
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As moedas, as roupas, a tábua de ardósia
eram arrecadadas.
Com os paus de giz erguera a baforada
de astros, a bicicleta vermelha
no armazém quando o vento
vinha dos mares de inverno.
Então a luz entrançava-se-lhe nos braços,
queimava-lhe as portas,
a camisola, o cabelo cortado à navalha.
O amigo sempre ficava na treva
que a sala retinha.
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O mar, todo ele ainda rente aos dedos, sopra-me
os indícios de leite ardido, esse crepúsculo que
se incendeia ao contágio de águas retaliadas.
Dele também o modo de deter uma frase
abrindo-se numa trovoada de ternura, insurge-se
pelos interiores da linguagem e envolve-se pela
memória.
Num lapso de páginas céu e mar escamoteiam-se,
enfiam-se-me entre os lábios, irrompe
meio lenta a língua nesta luta.
A breve trecho sinto a infância à boca das
vagas, também ela prestes a juntar-se às areias.
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[de noite, encostado à parede]
de noite, encostado à parede,
sentia uma força a penetrar-lhe
nas mãos, um murro espalhando-se
pela carne, afastava
os móveis, e lançava
contra o soalho as estrelas
que lhe saíam dos bolsos.
§
Acendalhas
Era como fechar o dia com as acendalhas, junto ao coração
quase deserto. As mais simples palavras entravam em
desgoverno, a sombra das tuas mãos cobria quase metade da
terra. A meio da sala alguns pratos, incenso, a luz azul do
computador, o sentimento ainda selado por atilhos,
cordames, a música repetia-se cadenciada no cenário
desastrado. E o sol, que desaparecera, e Vénus, que brilhava,
ardiam um no outro como troféus do coração.
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