domingo, 7 de Junho de 2009

Robin Blaser (1925 -2009)



Robin Blaser nasceu em Denver, Colorado, em 1925. Em 1944, o poeta matricula-se na Universidade de Berkeley, onde viria a conhecer duas figuras determinantes, não apenas para sua vida pessoal, como para a poesia norte-americana do pós-guerra: Robert Duncan e Jack Spicer. As atividades dos três poetas, que viriam a produzir corpos poéticos bastante distintos entre si, no final dos anos 40 levariam este pequeno grupo a ser conhecido como Berkeley Renaissance. Com Duncan e Spicer, homossexuais como o próprio Blaser, o grupo iniciaria ainda um trabalho bastante combativo de pesquisa poética do gênero, gender/genre. No mesmo ano em que Blaser chega a Berkeley, Duncan publica o controverso ensaio "The Homosexual in Society".

Ao se mudarem para San Francisco, já nos anos 50, os três poetas unem-se aos autores que se arrebanhavam na cidade, advindos de muitos grupos e cidades diferentes, unidos em geral pelo contato com um mentor comum, o poeta Kenneth Rexroth. San Francisco se tornaria, ao lado de Nova Iorque e da pequena comunidade universitária em North Carolina, a Black Mountain College, um dos centros de atividade poética americana no pós-guerra imediato, com a geração de poetas (muitos deles nascidos entre 1925 e 1927), que inclui poetas como Allen Ginsberg, Robert Creeley, Frank O´Hara e John Ashbery, geração que primeiro ganharia notoriedade em 1960, com a mais famosa antologia do período, intitulada The New American Poetry 1945 - 1960, editada por Donald Allen. Estes jovens poetas, àquele momento por volta dos trinta anos, com o incentivo de poetas mais velhos como o já citado Kenneth Rexroth e ainda Charles Olson, propuseram a retomada das pesquisas est-É-ticas de poetas modernistas como Gertrude Stein, Ezra Pound e William Carlos Williams (este último estava praticamente esquecido naquele momento), contra a est-É-tica centrada nas figuras de T.S. Eliot e W.H. Auden e teorizada por aqueles que ficaram conhecidos como New Critics. Poetas como Robin Blaser, Jack Spicer, Frank O´hara, John Ashbery, James Schuyler ou Allen Ginsberg, recusaram a poética do "orgânico e bem-acabado", preferindo o que se convencionou chamar de obra de arte aberta ou o que, nas palavras de Marjorie Perloff, passou a ser chamado de "poética da indeterminação".

Outra caracterítisca do debate entre os grupos poéticos daquele momento, em território norte-americano e língua inglesa, pode iluminar certos aspectos do nosso debate, em território brasileiro e língua portuguesa: enquanto os poetas "eliotianos" (um exemplo seria Robert Lowell), defendidos pelos New Critics, propunham uma poética que poderíamos chamar também de trans-histórica, que os levava a produzir uma poesia neosimbolista e baseada fortemente na metáfora (como é o caso de alguns poetas brasileiros contemporâneos, ainda que reunidos sob outra neo-alcunha), os poetas reunidos por D. Allen, na New American Poetry, baseavam-se em trabalhos como The Pisan Cantos, de Pound, ou no trabalho de William Carlos Williams e Gertrude Stein, para produzirem uma poesia fortemente consciente de seu momento histórico, com uma linguagem que expunha o poeta, de forma honesta, como compositor, através da linguagem, de uma realidade coletiva, conscientes, em minha opinião, do que escreveu Stein na "Composition as explanation":

"A única coisa que é diferente de um tempo para o outro é o que é visto e o que é visto depende de como todo mundo está fazendo todas as coisas. Isso faz a coisa para a qual estamos olhando muito diferente e isso faz o que aqueles que a descrevem fazem dela, faz uma composição, confunde, mostra, é, olha, gosta do jeito que é, e isso faz o que é visto como é visto. Nada muda de uma geração para a outra geração exceto a coisa vista e isso faz uma composição.

Agora os poucos que fazem a escrita como é feita e é para ser observado que os mais decididos deles são aqueles que estão preparados por preparar, preparados tanto quanto o mundo deles está preparado e se prepara para fazer dessa forma e assim se você não se importa vou novamente dizer como acontece. Naturalmente não se sabe como aconteceu até que já tenha começado por um bom tempo a acontecer.

Cada período da vida difere de qualquer outro período da vida não em como a vida é mas em como a vida é conduzida e isso falando autenticamente é composição. Depois da vida ter sido conduzida de um certo modo todo mundo sabe mas ninguém sabe, pouco a pouco, ninguém sabe desde que ninguém saiba. Qualquer um criando a composição nas artes não sabe também, estão conduzindo a vida e isso faz a composição deles o que é, faz a obra deles se compor enquanto se faz."

--- Gertrude Stein, "Composition as explanation", tradução de Andréa Matheus.

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Voltando a Robin Blaser, ainda que não o tenhamos realmente deixado: seu trabalho não é tão conhecido como o de muitos de seus pares, como Ashbery ou Ginsberg, sendo, no entanto, um dos trabalhos mais interessantes da poesia norte-americana do pós-guerra. Isso explica-se por questões extra-literárias: após a morte de seu grande amigo Jack Spicer, em 1965, Robin Blaser mudou-se para o Canadá, seguindo sua produção poética entre pares canadenses. Sua relação com o trabalho de Jack Spicer seguiria, e Blaser editou em 1975 o importantíssimo The Collected Books of Jack Spicer. Os próprios Collected Poems of Robin Blaser foram reunidos em um único volume em 2007.

Robin Blaser morreu no dia 7 de maio de 2009.


--- nota de Ricardo Domeneck

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Apresentamos aqui a tradução para o português do poema "Romance", de Robin Blaser, seguido do vídeo de uma longa leitura , concedida pelo poeta em um retorno à Universidade de Berkeley, na qual o poeta oraliza poemas de sua autoria, e de amigos como Robert Duncan e Jack Spicer.


POEMA DE ROBIN BLASER

Romance

o oposto de significado não é
insignificância, o que estas grandes
palavras significam em meio ao pânico, bem,
pânico significa coração.....antes de
formarmos isso, era Pã, meu querido
e chumaços de plantas.....antes de
o planejarmos ou beijarmos, antes
de sonharmos as folhas ou as
consequências históricas, antes
do oceano em pinturas e tormentas, antes
da água por toda parte, bêbados e
bronzeados, deter-nos, antes da
rocha de nosso espírito, antes dos degraus
e fontes e fragmentos, antes
de cães e gatos e vilas, as
pegadas infindáveis, antes da doçura
e montanhas, antes do paraíso
e jardins murados, antes
de ruas e manufatura, carros
e luxúria, depois das estrelas
e constelações serem prováveis, nós
o descobrimos

(tradução de Ricardo Domeneck)

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Romance

the opposite of meaning is not
meaninglessness, what do these big
words mean in the panic, well,
panic means heart.....before we had
formed this, it was Pan, my dear,
and tufts of plants.....before we had
planned or kissed it, before
we had dreamed the leaves and
historical consequences, before the
painted ocean and storms, before
the water everywhere, drunken and
sunned, stopped us, before the
rock of our spirit, before doorsteps
and fountains and fragments, before
cats and dogs and cities, the
endless footsteps, before sweetness
and mountains, before paradise
and walled gardens, before
streets and manufacture, cars
and desire, after stars and
constellations are probable, we
found it


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LEITURA DE ROBIN BLASER


(Leitura de Robin Blaser na Universidade de Berkeley, a 6 de novembro de 2008)

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postagem preparada por Ricardo Domeneck

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