Zuca Sardan nasceu no Rio de Janeiro, em 1933. Estudou arquitetura e, entre 1963 e 1965, fez o curso de preparação para Carreira Diplomática no Instituto Rio Branco, em Brasília. Nos anos seguintes serviu, como diplomata, na Alemanha, Argélia, Nicarágua, EUA, Peru, URSS, Holanda e Tailândia. O poeta vive hoje em Hamburgo, na Alemanha.Se tomarmos sua idade e o início das atividades poéticas do autor carioca na década de 50 como fatores, poderíamos ligá-lo ao período histórico em que surgiram poetas como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Mario Faustino ou Affonso Ávila. Em 1958, publica Operetta inachevée, seguido em 1969 dos Poemas Zum, editado enquanto o poeta trabalhava no Japão. As publicações se intensificariam na década de 70, fazendo com que seja frequentemente associado ao "Grupo do Mimeógrafo", especialmente por haver sido incluído na antologia 26 Poetas Hoje (1976), na qual o também "veterano" Roberto Piva figurava entre os jovens (quase todos radicados no Rio de Janeiro) que surgiam naquele momento, como Eudoro Augusto, Ana Cristina César, Cacaso, Chacal e Waly Salomão. Sua obra poética inclui ainda os livros Aqueles Papéis (1975), Os Mystérios (1980), Visões do Bardo (1980), Osso do Coração (1993), entre outros.
No entanto, o trabalho de Zuca Sardan elide classificações estanques, seja o de geração ou movimento. Assim como alguns outros poucos poetas do pós-guerra brasileiro, cada um à sua maneira, seja Hilda Hilst ou Paulo Leminski, o trabalho de Zuca Sardan transita entre diferentes gêneros literários, movimentando-se entre o poema, o texto-em-prosa-de-fábula e o diálogo dramatúrgico, sem mencionarmos os trabalhos marcadamente visuais, em seus desenhos e caricaturas. Neste aspecto, poderíamos mencioná-lo ao lado do poeta mineiro Sebastião Nunes, ambos pertencendo à tradição poética de autores como o inglês Edward Lear, o brasileiro Qorpo-Santo, o alemão Christian Morgenstern ou, mais claramente a partir do século XX, de poetas ligados a DADA, como Kurt Schwitters.
Apresentamos nesta postagem alguns dos textos-em-trânsito de Zuca Sardan, assim como uma série de 8 desenhos recentes.
TEXTOS DE ZUCA SARDAN
PIRRAZZA
(oraklos – zuca sardan - o9)
VAPORETTO
Aviso aos navegantes o Vaporetto
partirá pra Cithera o Capitâo
chama o cozinheiro chinês
o cozinheiro chinês chama o avestruz
o avestruz bota um ovo o chinês
parte o ovo traz um jornal o vento
venta o chinês faz da casca
o casco o chinês faz do jornal
a vela o Capitâo reclama o chinês
faz do cachimbo do Capitâo a cha-
miné o Vaporetto apita o vento
venta que venta que venta
CASTELO
Viagem atribulada foi-se
ao vento o boné do Capitâo
o Vaporetto empina faz pirrazza
faz cavalo-de-pau quase
enfia o casco nos cornos
da torre do castelo
de Dona Sofia
rodopia rodopia
parece uma folia
de viúvas d’operetta
quase atropela o velho taxi
Packard do seu Cafunga
CITHERA
Em audaz desafio
às arengas do Bispo
o vento sopra propício
céu violeta luar de Watteau
melancolias de mandolina
sonatina de Pierrot
beicinhos de Colombina
levantamos âncora
o Vaporetto s’embalanga
nas brumas grenat
rumo a Cithera
Partir ! Partir ! Partir !
§§§
>> BUS-REBUS <<
( remix - zuca sardan – 09 )
>> BUS <<
Bus Obus
Xevô Xamô
Artixô
Rebus Remix
Rien ne va plus !
>> CARAVELA <<
Caravela
Calavera
Saravaca
Caravaca
<< JARARACA <<
Jaca
Jacaré
Jararaca
Pororoca
Perereca
§§§
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DALVITA
(DALVITA)- Ventiladores giram na taberna de Madrid... oh decadência sublime !.... O garçom trouxe na sopa a mariposa afogada
(GOYA)- Que dizes lá, Dalvita !... mariposa na minha sopa ?...
(DALVITA)- Sim, Goya, quando alegre partiste... bem te lembras !... tu me deste uma sova... Ai, que doeu... Malvado !...
(GOYA)- Eia !... que cantas, Dalvita, tão triste ... quando te passo a correia .
(DALVITA)- Sou tua gata vestida ... Sou tua gata pelada .
CASTELOS
(QUIXOTE)- Meus castelos em Saragossa se esboroam qual borbulhas de pastilha dissolvente em água mineral gasosa... minha gesta de armadura de lata e rocim capenga... não pode parar. Avante, Sancho !...
(SANCHO)- Do desbeiçado almanaque voando vão folhas tantas ...
(QUIXOTE)- As filhas do moleiro, Remédios, Dolores, Rosário, me passaram na mó ... Fizestes-me farelos. moçoilas
MAIS-VALIA
(PREMIER)-Assim, Secretário, onde vamos parar ?... Quantos reis sem coroa e quantos ministros sem pasta... e a rainha Sofia que não sai, por ter o manto poído...
(SECRETÁRIO)- Os proletários não sossegam, Premier... e querem sempre ganhar mais, e mais e mais !... Saem pela rua, cantando bocagens !...
(PREMIER)- E a mais-valia, se já valia pouco, hoje entao... já não vale mais nada.
(SECRETÁRIO)- Que horror, Premier !... Ora pois, onde vamos parar ?...
FUTEBOL
(JACY)-Não repouses na área, Pirata, foste travar da sinistra, furaste a pelota !
(LOCUTOR)-Brada Jacy na torcida da curva, pro Pirata , Evoé... Baco !...
(PROFESSOR)- Isópteros ordem maldita, do pirata lh’acabam coa secular sucupira
da perna de pau. Sic transit bola... eppure... si muove !...
(PIRATA)- Eu qu’era ciclone ... hoje virei jabuti
(PROFESSOR)- Sic transit gralha, craquibus fulgit gloria
PANGARÉ
(PANGARÉ)- Com meu trote singular... eu era um belo cavalo, que seria perfeito, não fosse ter apenas ... três pernas .
(NAPOLEÃO)- Tal peculiaridade contudo, permitia-te caracolar qual perfeita carrapeta, com mysterioso feitiço, oh divinal Pangaré !...
(PANGARÉ)- É verdade, Napoleão... eu dava meia-volta completa girando num casco só, até mesmo dentro do elevador... da Gare d'Austerlitz
SEREIA
(PESCADOR)- És meio gorducha, Sereia, lá isso é verdade. Mas ...
(SEREIA)- O garçom vem trazendo a mariposa na sopa, descascando as asas .
(GARÇOM)- Cheguei !... Muito gentil, a sua sereia, oh Pescador, mas poderia apenas... ser , talvez, um pouco menos gordita, sabe-se lá ...
(PESCADOR)- Mas enfim, ora ora, se eu gosto dela, e ela gosta de mim ...
§§§
MINOTAURO
(zazkript de zuca sardan – 09)
(SAPO)- No cais do porão, o Minotauro levanta-se de seu trono-de-balanço.
(MINOTAURO)- Persecuzione !...crudele persecuzione !... MÚÚÚÚÚÚÚ ...
(CIRCE, surjo, vinda de trás do biombo)- Chamaste-me, Minoto ?...
(MINOTAURO)- Ouves esses guturais grunhidos, essas arfantes imprecações ?
(CIRCE, olho pro cais) – Sim... Talvez haja sereias no rio subterrâneo .
(MINOTAURO)- São os gregos, que me perseguem... E porque ? Porque ???
(CIRCE)- Certamente por inveja, Minoto... Não querem aceitar que sejas um personagem importantíssimo ... Mais conhecido que o Grifo de Megara .
(MINOTAURO)- Nunca ouvi falar desse Grifo de Megara !... Mas eu, sim, estou em todas as enciclopédias... E sou mesmo mais conhecido que o Teseu, malgrado ele achar que me venceu. Venceu, um nabo, coisíssima nenhuma !!! MÚÚÚÚÚÚÚÚÚ...
(SAPO)- Ouvem-se, num crescendo, longínquos gemidos ... ÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ...
(CIRCE)- Mas... ele não te venceu, Minoto ?... Em todos os baixo-relevos e esculturas, ele sempre parece te estar cruelmente espancando, subjugando...
(MINOTAURO)- Parece, porque os artistas são gregos, Circe. Eles me boicotam. Só mostram flagrantes do início do combate, quando o Teseu me atacou de surpresa. Mas ninguém mostra quando a seguir, recebendo severas chifradas, o Teseu saiu correndo. E agora, já a salvo, fora do Labirinto, o frascalho conta vantagens.
(CIRCE)- Essa tua versão, mais fidedigna, da luta... ninguém conhece .
(MINOTAURO, furioso)- FINGEM !!! ... ignorar que eu seja um grande estadista... Incentivei a Marinha Mercante, o solfejo, o canto sacro, o pandeiro e a harpa...
(SAPO)- Ouvem-se gemidos longínquos, dolorosos ... ÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ ...
(CIRCE, bocejinho)- Um desenvolvimento sustentado... aumento de exportações...
(MINOTAURO) Afinal, Circe, a origem da Europa foi aqui em Creta !... quando o Júpiter chegou, trazendo a Princesa fenícia, filha do Rei Agenor... O Júpiter estava bonitão, na sua elegante metamorfose, com bela cabeça de touro ...
(CIRCE)- Parecidão contigo, meu bem... (bocejinho, sottovoce)... haja saco ...
(MINOTAURO, desconfiado)- Que murmuraste lá, Circe ?...
(CIRCE, vestalzinha)- Eu ??... não disse nada, mas... (arregalo os olhos)... ouço vozes !... passos que se aproximam !... Vou me esconder por trás do biombo .
(MINOTAURO)- Mas ora essa !... recebe comigo os fiéis peregrinos, Circe ...
(CIRCE)- Que pensariam de nós dois ?... Vou me esconder (sumo atrás do biombo)
(MINOTAURO, sentando-me)- Cá estou eu. Só, irremediavelmente só, no meu rangente trono-de-balanço. (embalango-me) KWEK-KWEK... invenção do Dédalo ...
(SAPO)- Pela porta dos fundos, surgem Dédalo e Ícaro com esquadros e martelos .
(DÉDALO)- Salve, Minoto !... Estou continuando a preparar as asas de cera, pra fugir voando, com meu filho. Projetei este Palácio com tantas quinas, curvas e armários de fundo falso, que eu mesmo não consigo sair. (gesto) A Arte !...
(SAPO)- Continuam a se elevar os gemidos sofridos, pavorosos... ÚÚÚÚÚÚÚÚ ...
(MINOTAURO, inquieto)- Ouves os gemidos, Dédalo ?... (ÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ ...)
(DÉDALO)- Sou meio surdo, Minoto. Mas... (aproximo-me da borda da murada que encaixa o rio subterrâneo) mas... vejo a barca do Caronte, que se aproxima ... (os gemidos vão crescendo ...)... até mais, Caronte. (eu e Ícaro saímos, prestíssimos)
(MINOTAURO, sozinho)- Mas, esperai !... ora ora !... Os gemidos... são meus ... são meus !... era uma treta... Ô-Rô-Rô... (recomeço a mugir)- MÚÚÚÚÚÚÚÚÚ ...
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GIOCONDA
(folhetim – zuca sardan)
(PLUTONE, surdina)- Salvar-se é supérfluo, danar-se é preciso. Eu, Plutone, o Príncipe das Trevas, recebo Professor Fumegas no luxuoso salão de minha Furna Lux, no Hotel Averno. Móveis voluptuosos, tapetes cabeludos e... o quadro mágico da Gioconda.
(FUMEGAS)- Oh, Príncipe Plutone !... Perdoai-me se estou meio intrigado... Mas... a Gioconda deste quadro magistral... me piscou o olho !...
(PLUTONE, leve pigarro)- Parece que ela gostou de ti, Professor Fumegas... és madurote mas ainda tens os teus encantos... de queijo levemente passado. Afinal o Leonardo, com aquelas barbas intermináveis ... nunca achava ...
(FUMEGAS)- Alguns críticos, com auxílio de justaposição de imagens de ambos, chegaram à conclusão de que a Gioconda é o próprio Leonardo.
(PLUTONE )- Ora, que infantilidade... Diz-me : a Gioconda tem barbas ?
(FUMEGAS)- Talvez o Leonardo as tivesse raspado pra pintar o auto-retrato.
(PLUTONE )- Crês que Leonardo houvesse raspado as barbas da Gioconda ?
(FUMEGAS)- Uma vez que fossem as próprias dele, porque não ?
(PLUTONE )- E o generoso busto, donde acaso sacou ?
(FUMEGAS, mímica significativa)- O Leonardo usou umas bexigas de couro.
(PLUTONE )- E o avantajado rabo ?... questo capolavoro ...
(FUMEGAS)- Mas Príncipe !... Não se vê o trazeiro da dama no retrato.
(PLUTONE)- Se virarmos o quadro, poderemos apreciá-lo .
(FUMEGAS)- O Leonardo pintou no verso ? Certamente à noite, no Louvre, muito
distraído, ele teria botado a tela de frente pra trás.
(PLUTONE )- ... Ou o de trás pra frente... Esta Gioconda não é a do Louvre .
(FUMEGAS)- Uma réplica extraordinaria !... Meus parabéns ...
(PLUTONE )- A réplica do Louvre ?... Realmente primorosa, visto que foi pintada pelo próprio Leonardo... (giro o anelão de rubi no dedo, pisco o olho)
(FUMEGAS, surpreso)- Mas esta vossa tela tambem é original ?...
(PLUTONE, comprazido sorriso )- Sim, Fumegas, esta é realmente a única original.
(FUMEGAS)- Absolutamente extraordinária, talvez superior à original do Louvre.
(PLUTONE )- Só existe uma tela original. No caso da Gioconda, a original é esta que cá está. As demais são reles cópias, umas delas ridícula, tem até bigode ....
(FUMEGAS)- Mas se o Leonardo pintou esta e a do Louvre, então as duas são originais.
(PLUTONE)- Gioconda mesmo, só tem essa . Não insistas, Fumegas ...
(FUMEGAS)- Tendes razão, Príncipe Plutone !... Esta, e somente esta, é a tela original, a verdadeira, charmosíssima Gioconda !...Oh !, ela tornou a me piscar o olho !...
(PLUTONE )- Gioconda sabe apreciar um abalisado parecer. Ou está... levemente enrabichada pelo erudito visitante ...
(FUMEGAS)- Um agradinho da Divina Dama pra este vão cronista... La Dama é móbile, meu Principe. O Leonardo que o diga... com aquelas barbas ...
(PLUTONE )- Móbile e... deliciosamente fingidinha .
(GIOCONDA, coradinha)- E meu... sorrisinho de esguelha ?... Ih-Hi-Hi ...
(PLUTONE)- É de ... de matar um santo monge ... ao lhe surgir no missal .
(GIOCONDA)- E agora... me requebro, giro, e... mostro o bundão !... Così ... (PLUTONE)- Così... belo !... Ô-Rô-Rô-Rôôôôôôôôôôôôôôôôô !...
§
DESENHOS DE ZUCA SARDAN







3 comentários:
E vale lembrar: "Ás de Colete", que hoje é nome de uma coleção de poesia, que publicou os autores da Modo de Usar, é uma justa homenagem ao grande Zuca. Ele até desenhou as primeiras cartinhas para a coleção, mas que não foram usadas. Um dia escaneio e mando para vocês. Abs, Heitor
Obrigado, gostei dos textos de Zuca.
Ricardo, voce deve conhecer a poesia de Adolf Endler, que tem algo parecido e porem unico na poesia alema, acho.
Quem sabe, voce ja traduziu algo dele para o portugues.
Vocês teriam algum contato do Zuca Sradan na Alemanha? EStou precisando de sua localização para pedir direitos de autor sobre um texto dele. Se puderem me ajudar...
Marco Andrade
marcodeandrade@uol.com.br
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