sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Mairéad Byrne



por Dirceu Villa - especial para a Modo de Usar & Co.


Mairéad Byrne nasceu em 1957, em Dublin (reside atualmente nos EUA), e seu primeiro livro, Nelson and the Huruburu Bird, de 2003, reúne três chapbooks anteriores. É professora de inglês na Rhode Island School of Design e publicou também James Joyce – a clew (1981), livro sobre a obra do escritor irlandês. Em seguida, publicou Vivas (2005), An Educated Heart (2005), SOS Poetry (2007) ::: tenha acesso ao e-book no site ubu.com clicando AAQQUUII)::: e Talk Poetry (2007). Mantém o blog Heaven.

Sua poesia é formalmente muito variada, e nela convivem as formas já canônicas do modernismo mais militante (ready-mades, o poème trouvé, a colagem, a referência deslocada, a polissemia sintática, o uso estrutural da página, etc.) com formas arcanas da poesia (como a poesia aliterativa, no tour de force que é “The Pillar”, por exemplo, além de recursos de rima em quadras, adivinhas, o poema em prosa, a poema narrativo, epigramas, etc), para um efeito que inclua as duas coisas. E inclui mesmo a desconstrução das formas poéticas, com apropriações estruturais de outras formas de registro escrito, como o roteiro, ou o dicionário, que são incorporados aos poemas de um modo exclusivo, elaborado para uma só aplicação específica, normalmente como humor ou paródia.

Pode-se observar o cuidadoso engenho, por exemplo, em um poema como “Três Poetas Irlandesas”, que se põe a docemente ridicularizar os estereótipos críticos muito recentes de nacionalidade, autoria, gênero e filiação vanguardista, através da remoção de seus usos irrefletidos para dentro de um discurso poético que os revela como generalidades, ou meras fichas de identificação. Ampliando o círculo de interpretação com o que nos é oferecido na última linha, podemos ler uma indagação sobre a própria identidade na literatura, nos termos em que se discute atualmente: a voz como um construto condicionado do autor, ou, por oposição, uma etiqueta que esconde processos coletivos; ou outras hipóteses, em desenvolvimento.

Nos livros mais recentes, nota-se na poesia de Byrne um aproveitamento técnico dessa variedade de registros da percepção. Quando Mairéad Byrne utiliza determinada forma, como no longo poema narrativo que é “The Pillar”, o faz de um modo impossível ao período que a antecede, na verdade supondo-o; e não o faz por desperdício de técnica como exibicionismo: suas formas ajustam-se à necessidade e ao escopo do poema escrito. Alguns revelam uma pequena lírica quase imagista, sem subterfúgios de comentários que auxiliem o desenho da cena, de grande simplicidade auto-explicativa. Por exemplo, em “Assim caminha o mundo”, de An Educated Heart, sentimos o tom brechtiano no emprego da estrutura de diálogo para a ilustração do absurdo de uma situação de guerra.

Recentemente, já nos EUA, sua poesia passa por mais metamorfoses: SOS Poetry, que incorpora plaquetes mais antigas, e Talk Poetry, de 2007, escrito num estilo que traz o poema em prosa para a forma objetiva e irônica da stand-up comedy, em poemas que são literalmente quadros inteligentes & mordazes, naquela tradição em que o comediante com um microfone produz um ato composto de grupos de breves histórias cômicas, de efeito pontual, com um engenho no fim para o riso, ou para uma interrogação desconcertante.

Aqui temos outro desses poemas de Talk Poetry, “America”, no qual Byrne utiliza um denso registro coloquial, com gírias e um estilo de afirmações confusamente patrióticas que se colam sem desenvolvimento de raciocínio: imitando propaganda patriótica recebida sem crítica e sob a exaltação de se ser parte do melhor dos mundos possíveis, reverte essa atitude sem fazer discurso. Byrne demonstrou a mesma habilidade sagaz em poemas que incidiram sobre a guerra do Iraque, antipanfletários e enérgicos.

Complexa e sem preconceitos de linhagem, a poesia de Mairéad Byrne está viva, numa época em que se perde tempo discutindo os termos de uma crise da crítica & da arte, sem armistícios à vista. Como Brossa, ela ri disso. E ri por último.

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POEMAS DE MAIRÉAD BYRNE
em tradução de Dirceu Villa e originais em inglês.


PEQUENA ESCULTURA 1

A família toda no sofá
Com cintos de segurança.

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SMALL SCULPTURE 1

On the couch the whole family sits
Strapped in with safety belts.



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ASSIM CAMINHA O MUNDO

O soldado encontrou a mulher no meio do caminho.
“Você matou a minha filha”, ela disse.
“É, me desculpe”, o soldado respondeu.
“ Mas você lembra de que quando pedi água
Você recusou―
Não é jeito de tratar nem um cachorro.
Então me desculpe por sua filha ―
Espero que se desculpe pela água, também”.
“Não é a mesma coisa”, disse a mulher.
“Talvez não seja pra você”, disse o soldado.
“Mas quem sabe como a outra pessoa se sente?”
“Você estuprou e matou a minha filha”, disse a mulher.
“Não estuprei. Foi consensual”.
“Ela tinha seis anos”.
“Olha, tem erros dos dois lados.
A gente tem que viver com isso.
Sua filha se foi, é passado.
Agora você podia me arranjar um pouco d’água.”

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THE WAY OF THE WORLD

The soldier met the woman half-way.
“Yu killed my daughter,” she said.
“Yeah, I’m sorry about that,” the soldier replied.
“But do you remember when I asked you for water
You refused me—
You wouldn’t treat a dog like that.
So I’m sorry about your daughter —
I hope you’re sorry about the water too.”
“It’s not the same thing,” said the woman.
“Not to you maybe,” said the soldier.
“But who can account for hw another person feels?”
“You raped and killed my daughter,” said the woman.
“I didn’t rape her. We had consensual sex.”
“She was six.”
“Look, there are mistakes on both sides.
We both have to live with that.
Your daughter is gone, get over it.
What I could use from you right now is water.”

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AMÉRICA

A América é a maior cara. A gente tem todo esse espaço & democracia & tudo mais & meu a melhor música. Tipo Chuck Berry & Buddy Holly & Elvis & Bob Dylan & Bob Marley & Van Morrison & os Beatles & Vivaldi & tudo mais. Tipo assim que da hora. E poetas—ó por exemplo como é o nome Anne Bradstreet & Emily Dickins & Charles Dickinson & Walt Whitman—WALTER A GENTE TE AMA—& Yeats & Keats & todos esses caras & Langston Hughes & RUMI! Esse é o MELHOR país! EU AMO ISSO! VOCÊ NÃO AMA? CÊ TEM QUE AMAR! A gente tem PATINADOR DE GELO! A gente detonou o ÁTOMO! A gente tem CONÍFERAS! A gente foi PRIMEIRO pro espaço! A gente tomou o DESERTO DE GOBI! A gente tomou a MONGÓLIA! E o NIÁGARA! E o GRAND CANYON! E as PIRÂMIDES! Você não vai me pegar com essa de que a civilização começou com o Mayflower! Sem essa merda—tipo como que os caras CONSTRUÍRAM essas coisas. AS PIRÂMIDES. Tipo o povo ainda não manjou a física do lance. Tinha que ter umas roldanas um troço assim. Quê, o Rei Tut é americano roxo. Americano que nem o Barbão Lincoln. Sabia que rolava uns ESCRAVOS? Não é louco?? Ô, passa o globo de neve aí. YEAH!

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AMERICA

America is just the greatest man. We got all this space & democracy & everything & just the greatest music. Like Chuck Berry & Buddy Holly & Elvis & Bob Dylan & Bob Marley & Van Morrison & The Beatles & Vivaldi & everything. I mean how cool is that. And poets — look at what’s her face Anne Bradstreet & Emily Dickins & Charles Dickinson & Walt Whitman — WE LOVE YOU WALTER — & Yeats & Keats A all those dudes & Langston Hughes and RUMI! This is the GREATEST country! I LOVE IT! DON’T YOU JUST LOVE IT? YOU GOTTA LOVE IT! We got ICE-SKATERS! We bust the ATOM! We got CONIFERS! We were FIRST in space! We got the GOBI DESERT! We got MONGOLIA! And NIAGARA! And the GRAND CANYON! And THE PYRAMIDS! You’re not going to catch me saying civilization with the Mayflower! None of that shit — I mean how did those guys BUILD those things. THE PYRAMIDS. I mean people still don’t understand the physics of it. They had to had rollers or something. No, King Tut is as American as anyone in my book. As American as Abe Lincoln. Did you know they had SLAVES back then: Isn’t that the weirdest?? Hey pass me that snow globe will you. YEAH!

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TRÊS POETAS IRLANDESAS

Editores de antologias & números especiais sobre poesia irlandesa anotem: estou disponível para inclusão nessas publicações em três facetas: poeta irlandesa, poeta irlandesa inovadora e, como o campo anda bem aberto, primeira poeta concreta irlandesa*. Forneço coleções completas de poemas para cada identidade, e nomes escolhidos com requinte mas ainda pronunciáveis: Minnie O’Donnell, poeta irlandesa; Clare Macken, poeta irlandesa inovadora; e Bo Doyle-Hund, primeira poeta concreta irlandesa. Amostras disponíveis incluem: “Meu Rádio Transístor”, “Léim an Bhradáin”, “Ritos de Passagem” (Minnie O’Donnell); “Trans/ís/t”, “Apóstrofe para Finnegan”, “Capacidade Eleitoral” (Clare Macken); “ciúnas”, “’”, e “18” (Bo Doyle-Hund). Trabalho numa quarta identidade ― “Poeta Notável Ela-Mesma”. O título provisório da personagem é: “Mairéad Byrne”.


* Sem mais piadas sobre canteiros de obras, por favor.

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THREE IRISH POETS

Editors of anthologies & special features on Irish poetry take note: I am available for inclusion in such publications in 3 guises: Irish Woman Poet, Innovative Irish Poet and, as the field is currently wide open, Ireland’s First Concrete Poet.* I can furnish a complete set of poems for each identity, in addition to sensitively selected yet pronounceable names: Minnie O'Donnell, Irish Woman Poet; Clare Macken, Innovative Irish Poet; and Bo Doyle-Hund, Ireland’s First Concrete Poet. Sample available sets include: “My Transistor Radio,” “Léim an Bhradáin,” “Rites of Passage” (Minnie O'Donnell); “Trans/is/t,” “Apostrophe for Finnegan,” “Electoral Capacity” (Clare Macken); and “ciúnas,” “’,” and “18” (Bo Doyle-Hund). I am working on a fourth identity—“A Remarkable Poet in Her Own Right.” The tentative
title for this character is: “Mairéad Byrne.”


*No further jokes about building sites please.

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Dirceu Villa nasceu em São Paulo, em 1975. É autor dos livros MCMXCVIII (São Paulo: Selo Badaró, 1998), Descort (São Paulo: Hedra, 2000) e Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008). Escreve semanalmente no Demônio Amarelo.

6 comentários:

angélica freitas disse...

viva mairead byrne!

alejandro mendez disse...

Ricardo:

Qué gran descubrimiento Mairéad Byrne. Primera vez que leo algo de ella, y me gustó muchísimo.
Algunos poemas me hicieron acordar a los de Susana Thénon

Un gran abrazo

Alejandro

modo de usar & co. disse...

Queridos,

devemos este descobrimento a Dirceu Villa.

Que bom que vocês gostaram.

Beijos

Ricardo

Heitor Ferraz Mello disse...

aí, também curti muito, apesar de nunca saber qual é mesmo o modo de usar... o modo de usar, acho, é apenas curtir, como o belo ensaio do siscar.

modo de usar & co. disse...

Heitor,
eu diria que "curtir" foi realmente um dos primeiros modos de usar a serem inventados, a terem importância.
"To delight the heart", dizia Pound do motivo pelo qual se fazia e lia poesia.
Bom que você curtiu.
Beijo,
Ricardo

gilson figueiredo disse...

é da perspicácia da inteligência do Dirceu V. que gostamos,
a poeta é interessante, lemos daqui também.