sexta-feira, 13 de Março de 2009

Soror Violante do Céu (1602 - 1693)

Dirceu Villa - especial para a Modo de Usar & Co.


Violante Montesino (1602-1693), freira dominicana portuguesa, que um curioso gesto de ambigüidade religiosa determinou chamar-se Violante do Céu, com o soror à frente, foi a autora (o quanto nos permite dizer a ficção biobibliográfica) de alguns poemas engenhosos, como convinha à sua época ― e à sua inteligência poética (foi alcunhada hiperbolicamente de a Décima Musa). Suas Rimas varias se publicaram em Rouen, na França, em 1646.

Assim como hoje o pressuposto da poesia é o constante reinventar-se, o permanente ab ovo da nossa ansiedade metropolitana e eletrônica do século XXI (que herda a ansiedade do novo dos modernos do século XX), no século XVII interessava que a poeta ou o poeta estivessem dispostos a e capazes de uma manipulação de formas e discurso para agradar à expectativa milimétrica do uso da chamada agudeza, num código retórico preestabelecido.

Pouco lida atualmente, a poesia de Violante do Céu, como a de um bom número de ilustres desconhecidos do respeitável público, oferece alguns episódios de muito interesse para o que seria uma educação literária em língua portuguesa, se me perdoam o uso da cabeluda educação onde esperamos a radiante espontaneidade.

Após cinco anos de curiosidade exploratória em sebos, a idéia de revisão do cânone mais imóvel do ocidente, o de língua portuguesa, me parece não só necessária no sentido de sabermos de que é feita essa poesia, como também de simpática justiça poética com aqueles excelentes poetas que foram soterrados pela preguiça antológica, tanto de críticos como de poetas, que se acostumaram em repetir o conhecido e o fácil, que ressaltaram o típico, mas não o melhor.

Não porque proponha em troca o desconhecido e o difícil, nem sequer porque pense em termos absolutos, como o de “troca”: mas porque a própria evidência da qualidade de muitos autores esquecidos ou à sombra de famosos medíocres pede o cuidado e a leitura. E porque o “cânone”, esse nome desgracioso e pejorativo, de incômodo matiz religioso com os santos em permanente odor de rosas, existe de qualquer maneira, independente do exercício da nossa vontade liberal ou, espero, anarquista: ele se encontra sem piedade no desastre ridículo dos currículos escolares.

E estou, de qualquer forma, muito longe de ser o primeiro a apontar pequenos problemas de memória ou leitura literária: já houve Manuel Bandeira, Rodrigues Lapa, Andrade Muricy, os irmãos Campos, João Adolfo Hansen, Flora Süssekind, Nelson Ascher, Sebastião Uchôa Leite, Antonio Medina Rodrigues, Paulo Franchetti, entre uns tantos outros.

Violante do Céu não é dos mais esquecidos: é pouco lida, também porque se lê pouquíssimo no Brasil, mas comparece sempre para dar uma força à definição de manual, estreita, das “características” do “movimento barroco”, como o “conceptismo”. Nosso hábito escolar tem sido reduzir toda arte poética a um clichê citável numa prova rudimentar de alternativas numeradas.


É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça a seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.


A cidra é uma planta de fruto azedo, como supõe-se seja o ciúme; mas isso não bastaria ao engenho, pois é comparação direta, por atributos; então, de cidra extrai-se o monstro antigo, a hidra, que é uma serpente, e da serpente toma-se, para o poema, o veneno do ciúme. Um dos tópicos antigos é que o amor é uma loucura, porque coisa sobre a qual não se tem controle. A cidra ao lume (fogo) é amarela e pontuda, como o ciúme, doentio, que queima e fere. Mas já ao fogo ela muda, como sugere-se que mudem-se amantes zelosos (celos, de onde zelo, é espanhol para ciúme) ou ciumentos, no zelo de Deus. Não deve passar despercebido também esse outro jogo com zelo, quando escreve “zelo de Deus”: Deus troca ciúme em cuidado.

É um poema religioso, ou digamos que sua conclusão é religiosa. São notáveis os jogos de sentido com as palavras e o modo de proposição, todos tomados de uma experiência com a palavra que julga apropriado oferecer o mundo de uma maneira que chamaríamos poética, por imaginar todas as coisas imersas numa rede de contigüidade de sentido: “ciúme”, “cidra”, “hidra” e “zelo” pertenceriam, assim, ao mesmo núcleo de sentido agudo e conciso, que os aproximou por uma virtude do discurso, que sabe, é claro, que todas as coisas retêm essa proximidade ancestral que as faz combináveis pela habilidade de lê-las interpretativamente, descobrindo as relações pelo engenho.

Escrever o poema de Violante do Céu significa crer muito numa versão específica de Deus, que é sobretudo passada, mas é igualmente crer muito na palavra, de um modo passado mas semprevivo (como escreveu Baudelaire, lembrando que toda arte é feita de duas partes: a história, que se perde ou vira necessário cuidado antiquário, e a outra que permanece, indefinível). Nós, por oposição, desconfiamos da palavra, sobretudo da poética; pensamos com acerto e erro que trata-se de mero truque a nos enredar maliciosa ou ingenuamente: mas me parece que ainda podemos aprender melhor do que isso.


--- Dirceu Villa

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POEMAS DE SOROR VIOLANTE DO CÉU


Canção

Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,

Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.

Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.

Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.

Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o coração, porque é passado.

Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.

Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.

Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.

Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.

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Ao Padre António Vieira, pregando
do nascimento de N. Senhora
no Convento da Rosa


Silva

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

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Dirceu Villa nasceu em São Paulo, em 1975. É autor dos livros MCMXCVIII (São Paulo: Selo Badaró, 1998), Descort (São Paulo: Hedra, 2000) e Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008). Escreve semanalmente no Demônio Amarelo.

1 comentários:

Anónimo disse...

gostaria de saber mais sobre violante do ceu,sou estudante de letras.