terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Mona Hatoum

Mona Hatoum é uma artista visual e da linguagem, de origem palestina, nascida no exílio em Beirute, no Líbano, em 1952. Com o início da guerra civil em seu país de nascimento (onde já habitava com o possível sentimento de exílio carregado por seus pais palestinos), Mona Hatoum fixa residência em Londres, onde estuda artes plásticas e passa a trabalhar com performance, vídeo e esculturas.

Seguindo uma das noções editoriais da Modo de Usar & Co. -- a de ver/ouvir a poesia como "language art", arte lingüística, não apenas literária -- apresentamos e discutimos aqui o trabalho em vídeo "Measures of distance" (1988), em que Mona Hatoum sobrepõe, a imagens de seu corpo, imagens da caligrafia árabe das cartas de sua mãe, as quais a artista passa a oralizar/traduzir para o inglês, justapostas a conversas em árabe entre mãe e filha, gravadas em Beirute.

Este trabalho tem inúmeras implicações interessantes para o debate ([/"propriamente"/]) poético contemporâneo (apontando aqui para o possível uso que mesmo poetas literários poderiam fazer de trabalhos poéticos desta natureza):

§ - a relação entre escrita e oralidade, através da vocalização, feita por Hatoum, das cartas de sua mãe;

§ - a analogia entre tradução e exílio, num ato de contextualização, enquanto Hatoum (em um trabalho intitulado "Medidas de distância") traduz, para sua nova língua - o inglês -, seu árabe de origem;

§ - a possível dissolução ou (ao menos) turvar de dicotomias dogmáticas como as que buscam separar, de forma exata e precisa, o que nós vemos como marés conceituais, como subjetividade/objetividade, ou interno/externo - com suas implicações políticas óbvias para a discussão do conceito de nacional;

§ - nas discussões entre mãe e filha sobre o pai e as relações entre linguagem feminina e masculina, assim como o uso da correspondência entre as duas mulheres, o questionamento est-É-tico do gênero, especialmente em sua frequente associação sub-reptícia na equação GENDER = GENRE;

§ - por fim, a insinuação da escrita como manifestação corporal, tanto na corporalidade de uma escritura em caligrafia, literatura como extensão do corpóreo, como pelo reforço dado a esta idéia pelas imagens do corpo da artista-poeta --- insinuação que poderia substituir parâmetros-de-escultura na discussão crítica da poesia e da escrita, por parâmetros-de-performance.

--- Ricardo Domeneck


§


MONA HATOUM - Measures of distance (1988) - em duas partes:



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