Joaquim Cardozo nasceu no Recife, Pernambuco, em 1897. Engenheiro civil, trabalhou com Oscar Niemeyer e Lucio Costa na construção de Brasília, e é frequentemente incluído na linhagem lírica pernambucana dos poetas, digamos, secos (como dava prazer dizer nos anos 90 do século passado) e lacônicos, como Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, com Sebastião Uchôa Leite como "representante" no pós-guerra. Apenas alguns poucos anos mais jovem que os poetas dos primeiros grupos modernistas, Joaquim Cardozo viria a publicar o primeiro livro (como Dante Milano) somente em 1947, intitulado Poemas. Mais tarde, publicaria o importante Signo Estrelado (1960) e reuniria sua produção pela primeira vez em 1971, no volume Poesias Completas. Joaquim Cardozo morreu em Olinda, em 1978.Tarde no Recife
Joaquim Cardozo
Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.
Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.
§
Meditar sobre a "posição" de Joaquim Cardozo na poesia brasileira moderna levanta algumas questões interessantes. Muitas vezes mais lembrado, ao menos no sul do país, como o poeta a quem João Cabral de Melo Neto dedicou vários poemas, esta relação nem sempre ajuda a recepção e compreensão de sua obra, que merece ser lida e estudada fora do âmbito de nota-de-rodapé biográfica para outros poetas ou arquitetos. A produção de Cardozo foi pequena, mas bastante plural, incluindo a lírica cristalina do volume Poemas, os textos dramáticos e longos de Signo Estrelado, assim como poemas visuais e textos-para-performance dos últimos anos de sua vida.
Imagens do Nordeste
Joaquim Cardozo
Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.
Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.
Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.
És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
– Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.
E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.
Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.
A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.
Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.
Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.
Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.
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Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.
Terra crescida, plantada
De muita recordação.
§
Em minha opinião, ao meditar sobre a recepção crítica de sua obra, vejo o desmascarar da falsa sincronia que se acredita seguir no Brasil, onde ainda impera o linear-unívoco na narrativa histórico-literária. Ainda que livros importantes dos primeiros modernistas tenham surgido no pós-guerra (os melhores poemas de Joaquim Cardozo e de Henriqueta Lisboa, por exemplo, assim como livros extremamente importantes de Carlos Drummond de Andrade), o conceito de cânone no Brasil ainda soterra as obras que não se encaixam na falácia teleológica das narrativas históricas lineares. Cânone deveria ser teia, não corrente. Há, em cada momento histórico, est-É-ticas variadas, em conflito e fertilização recíprocas, e a narrativa linear do cânone expõe seu caráter de estabelecimento de hegemonias, já que grupos específicos muitas vezes acabam por monopolizar "as vagas da década". Penso, por exemplo, nas duas últimas décadas do século XIX, quando estavam em atividade, no Brasil, escritores tão diversos quanto Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas, "fundação realista", é publicado em 1881), Joaquim de Sousândrade (incluído entre os românticos, publica a primeira edição d´O Guesa em 1884) e Cruz e Sousa (o "iniciador do Simbolismo no Brasil", escrevendo poemas exemplares como "Litania dos pobres" antes de morrer em 1898), sem mencionar Qorpo-Santo, contemporâneo de Cruz e Sousa, Machado de Assis e Sousândrade, que morre em 1883. Na narrativa linear do cânone, estes poetas são alinhados uns após os outros como se "tomassem o poder", numa noção de cânone que o faz parecer uma "peleja pelo trono".
Joaquim Cardozo estava atento, obviamente, aos debates est-É-ticos de cada um dos momentos de sua vida, contribuindo para a criação de uma poesia brasileira moderna, baseada na fala regional, assim como uma tendência construtivista natural de engenheiro, manifesta em poemas exemplares como “Arquitetura Nascente & Permanente”. Este poema, no entanto, demonstra uma preocupação construtivista que não nega o corporal e o transitório, encarando também o corpo humano como arquitetura delicada. Neste aspecto, parece-me interessante notar certo poema visual de Joaquim Cardozo, que se entrega ao caligráfico dos vestígios corporais.

Poderíamos mostrar aqui os poemas daquela "luz-Velázquez" de que fala João Cabral de Melo Neto em um de seus poemas dedicados a Joaquim Cardozo, mas gostaríamos de chamar a atenção para um texto especial de Joaquim Cardozo, um dos poucos poemas-para-vozes ou textos-para-performance dentre os modernistas, chamado "Poema para uma voz e quatro microfones", em que Joaquim Cardozo apresenta um texto experimental e cheio de implicações políticas, um poema-da-historicidade, sem perder por qualquer segundo a alta qualidade poética que caracteriza seus textos líricos. O poeta mineiro Ricardo Aleixo foi quem chamou minha atenção para este texto há algum tempo, a quem dedico esta postagem.
Passamos por um momento histórico em que várias est-É-ticas (muitas vezes conflitantes) buscam encontrar uma narrativa apropriada, assim como estratégias de intervenção política. Estudar o trabalho de poetas como Joaquim Cardozo, e como ele lidou com os problemas do seu tempo, pode ajudar-nos a resolver os nossos.
--- Ricardo Domeneck
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(clique nas imagens para aumentá-las)
"POEMA PARA UMA VOZ E QUATRO MICROFONES", DE JOAQUIM CARDOZO:


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