(Sainkho Namtchylak no Festival Internacional de Poesia de Medellín)
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Sainkho Namtchylak nasceu em 1957, em uma pequena vila da República de Tuva, uma das repúblicas autônomas da Federação Russa, ao norte da Mongólia. A poeta estudou na Universidade de Kyzyl e na Academia de Música de Moscou, na década de 80. Seu trabalho está ligado à tradição xamânica de sua terra natal, onde o trabalho poético e musical de vários povos e línguas colidem e unem-se, manifestando-se no canto difônico de Sainkho Namtchylak, ao qual a poeta une elementos experimentais do jazz e do canto gutural. Em 2006, ela publicou a coletânea de poemas em livro intitulada Karmaland, que acompanha um disco em que a poeta performa muitos dos poemas.§
Night Birds 7:05 - Sainkho Namtchylak
(Sainkho Namtchylak - "Night birds")
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No pós-guerra, muitos poetas começaram a questionar com força a hegemonia literária sobre o poético, ligando-se a algumas das pesquisas de certas comunidades de poetas das primeiras vanguardas. Vêm à mente o zaum de Velimir Khlebnikov e Aleksei Kruchenykh, entre os futuristas russos, assim como os lautgedichte de Hugo Ball e Kurt Schwitters, entre os dadaístas germânicos.
No pós-guerra, esta pesquisa retornaria com força na retomada das estratégias das primeiras vanguardas, com poetas como Isidore Isou e Gil J. Wolman entre os Lettristes parisienses, assim como vários outros poetas; pensando em Sainkho Namtchylak, seria interessante fazer um paralelo com o francês Henri Chopin, que radicalizaria a pesquisa poético-sonora ao abandonar por completo a semântica, concentrando-se na respiração do poeta e outros sons corporais. Em Henri Chopin, porém, tal recusa da semântica assume caráter político de resistência - em suas próprias palavras: "Não é possível, não se pode continuar com a Palavra todo-poderosa, a Palavra que impera sobre tudo. Não se pode seguir admitindo-a em toda casa, e ouvi-la em todos os cantos descrevendo-nos e descrevendo eventos, dizendo-nos como votar, e a quem devemos obedecer..."
A preocupação com a respiração do poeta viria a aparecer também em escritos de Charles Olson sobre o projective verse e a composition by field, que teriam grande influência entre os New American Poets, que vêm questionar a hegemonia literária sobre o poético, tal como era pregada pelos New Critics da década de 40 e 50 americanas.
No caso de Sainkho Namtchylak, a pesquisa poética baseada na voz surge com naturalidade para uma poeta nascida em uma região onde a base vocal e oral da poesia seguiu ciclicamente saudável, fluindo paralela à tradição acumulativa poético-literária da cultura oficial russa.
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Dream of Death 6:20 - Sainkho Namtchylak
(Sainkho Namtchylak -"Dream of death")
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Além da retomada de certas estratégias das primeiras vanguardas por parte de poetas europeus e americanos do pós-guerra, é importante citar também o colapso de certa ideologia colonialista e etnocêntrica, que por séculos dominou o cânone literário e mesmo o poético ocidental. Poetas como Jerome Rothenberg, nos Estados Unidos, assim como Antônio Risério no Brasil, passam a colher e editar trabalhos poéticos baseados em tradições não-literárias, mas sincronicamente ligadas às pesquisas experimentais de poetas visuais e sonoros ocidentais.
O uso que aqui faço do conceito de sincronia, porém, de maneira nenhuma implica qualquer forma de abolição do tempo histórico. Muito pelo contrário: como a conceituo neste espaço, sincronia HISTÓRICA demonstra a consciência contextual de cada poeta, dando a ele a liberdade de reselecionar, no arcabouço poético mundial, os trabalhos e conceitos que lhe parecem úteis e necessários para o seu momento presente. É a tentativa de instituição de parâmetros de qualidade eternos (ou, usando a palavra da moda, trans-históricos) ou essências imutáveis que acaba por gerar o engessamento diacrônico, quando seleções anteriores (ou mesmo as de um poeta contemporâneo, quando este tenta impor a sua seleção como ÚNICA) tentam inscrever-se como LEI. A sincronia histórica nos doa um cânone em performance, mutável e mutante, tanto em sua listagem de nomes (que perdem a aura de eleitos, auríficos), quanto nos parâmetros de qualidade hegemônicos de cada novo momento.
--- Ricardo Domeneck
3 comentários:
Domeneck,
Esta citação do H. Chopin é do Poésie Sonore Internationale?
Abraços!
Mario Sagayama
Mário,
creio que sim, não tenho certeza agora de onde traduzi. Se não me engano, também está no ubu.com
Abraço,
Domeneck
Ah, Certo!
Até mais!
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