sábado, 24 de Janeiro de 2009

Sainkho Namtchylak


(Sainkho Namtchylak no Festival Internacional de Poesia de Medellín)

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Sainkho Namtchylak nasceu em 1957, em uma pequena vila da República de Tuva, uma das repúblicas autônomas da Federação Russa, ao norte da Mongólia. A poeta estudou na Universidade de Kyzyl e na Academia de Música de Moscou, na década de 80. Seu trabalho está ligado à tradição xamânica de sua terra natal, onde o trabalho poético e musical de vários povos e línguas colidem e unem-se, manifestando-se no canto difônico de Sainkho Namtchylak, ao qual a poeta une elementos experimentais do jazz e do canto gutural. Em 2006, ela publicou a coletânea de poemas em livro intitulada Karmaland, que acompanha um disco em que a poeta performa muitos dos poemas.

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Night Birds 7:05 - Sainkho Namtchylak
(Sainkho Namtchylak - "Night birds")

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No pós-guerra, muitos poetas começaram a questionar com força a hegemonia literária sobre o poético, ligando-se a algumas das pesquisas de certas comunidades de poetas das primeiras vanguardas. Vêm à mente o zaum de Velimir Khlebnikov e Aleksei Kruchenykh, entre os futuristas russos, assim como os lautgedichte de Hugo Ball e Kurt Schwitters, entre os dadaístas germânicos.

No pós-guerra, esta pesquisa retornaria com força na retomada das estratégias das primeiras vanguardas, com poetas como Isidore Isou e Gil J. Wolman entre os Lettristes parisienses, assim como vários outros poetas; pensando em Sainkho Namtchylak, seria interessante fazer um paralelo com o francês Henri Chopin, que radicalizaria a pesquisa poético-sonora ao abandonar por completo a semântica, concentrando-se na respiração do poeta e outros sons corporais. Em Henri Chopin, porém, tal recusa da semântica assume caráter político de resistência - em suas próprias palavras: "Não é possível, não se pode continuar com a Palavra todo-poderosa, a Palavra que impera sobre tudo. Não se pode seguir admitindo-a em toda casa, e ouvi-la em todos os cantos descrevendo-nos e descrevendo eventos, dizendo-nos como votar, e a quem devemos obedecer..."

A preocupação com a respiração do poeta viria a aparecer também em escritos de Charles Olson sobre o projective verse e a composition by field, que teriam grande influência entre os New American Poets, que vêm questionar a hegemonia literária sobre o poético, tal como era pregada pelos New Critics da década de 40 e 50 americanas.

No caso de Sainkho Namtchylak, a pesquisa poética baseada na voz surge com naturalidade para uma poeta nascida em uma região onde a base vocal e oral da poesia seguiu ciclicamente saudável, fluindo paralela à tradição acumulativa poético-literária da cultura oficial russa.

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Dream of Death 6:20 - Sainkho Namtchylak
(Sainkho Namtchylak -"Dream of death")

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Além da retomada de certas estratégias das primeiras vanguardas por parte de poetas europeus e americanos do pós-guerra, é importante citar também o colapso de certa ideologia colonialista e etnocêntrica, que por séculos dominou o cânone literário e mesmo o poético ocidental. Poetas como Jerome Rothenberg, nos Estados Unidos, assim como Antônio Risério no Brasil, passam a colher e editar trabalhos poéticos baseados em tradições não-literárias, mas sincronicamente ligadas às pesquisas experimentais de poetas visuais e sonoros ocidentais.

O uso que aqui faço do conceito de sincronia, porém, de maneira nenhuma implica qualquer forma de abolição do tempo histórico. Muito pelo contrário: como a conceituo neste espaço, sincronia HISTÓRICA demonstra a consciência contextual de cada poeta, dando a ele a liberdade de reselecionar, no arcabouço poético mundial, os trabalhos e conceitos que lhe parecem úteis e necessários para o seu momento presente. É a tentativa de instituição de parâmetros de qualidade eternos (ou, usando a palavra da moda, trans-históricos) ou essências imutáveis que acaba por gerar o engessamento diacrônico, quando seleções anteriores (ou mesmo as de um poeta contemporâneo, quando este tenta impor a sua seleção como ÚNICA) tentam inscrever-se como LEI. A sincronia histórica nos doa um cânone em performance, mutável e mutante, tanto em sua listagem de nomes (que perdem a aura de eleitos, auríficos), quanto nos parâmetros de qualidade hegemônicos de cada novo momento.

--- Ricardo Domeneck

3 comentários:

Mario Sagayama disse...

Domeneck,

Esta citação do H. Chopin é do Poésie Sonore Internationale?

Abraços!
Mario Sagayama

modo de usar & co. disse...

Mário,

creio que sim, não tenho certeza agora de onde traduzi. Se não me engano, também está no ubu.com

Abraço,

Domeneck

mario disse...

Ah, Certo!

Até mais!