Rogério Rôla nasceu em Maputo, Moçambique, em 1961. A infância dividiu-se entre a Europa e a África, até que sua família se fixasse em Lisboa, alguns anos antes da Revolução dos Cravos. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa e trabalha como professor de Português do Ensino Secundário, na capital portuguesa, onde o poeta reside. Entre o que ele chama de "influências de eleição", encontram-se "os recontos em segunda mão da mitologia greco-latina com base nas Metamorfoses de Ovídio e das epopeias homéricas e das Mil e uma Noites, os filmes de animação `expressionista´ de Walt Disney, banda desenhada erótica de cordel, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Pessoa, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Bandeira (a poesia e a maravilhosa tradução de Macbeth), Eça de Queirós, Kafka, Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Flaubert, Marcel Proust, Virginia Woolf, as Emilys (Brontë e Dickinson), T.S. Eliot, Sylvia Plath, Philip Larkin, Dante, Dostoievski, Mishima, Tanisaki, Kavafis, Ingmar Bergman, Murnau, Visconti, Caravaggio, Goya, Paula Rego, J. S. Bach, Laurie Anderson, Pina Bausch, gatos de infância, fauna dos trópicos, arraiais de aldeia, feiras populares, as montras iluminadas e as ruas nocturnas de Lisboa..."
A revista portuguesa aguasfurtadas publicou seis poemas de seu livro inédito, Os Lapsos, antecedidos de uma introdução de Margarida Vale de Gato, dos quais mostramos aqui um dos poemas, além de um texto inédito.
POEMAS DE ROGÉRIO RÔLA
Habitação de corvos
Ronda o meu copo de cerveja e eu compro-o.
Acende cigarros. Abandona-se
de olhos fechados e sonha com ostras.
A pele dura e cicatrizada. As tatuagens.
O pénis – repasto de aves de rapina.
Dedos moldam o peito raso procurando
avolumá-lo à imagem dos sonhos. Demora-se
em redor do arco da entrada. O sexo
é a sua riqueza. Bem amestrado,
não o abate o prazer. Assim é melhor
menos perigoso. E como um aplauso
o meu orgasmo aprova o serviço.
Desaparece mas regressa
sempre. Incomoda como uma culpa.
Desço a escorregadia ladeira e levo uma ausência
sob o luto do meu guarda-chuva.
Uma folha de plátano acenou devagar
sobre o pano aberto que me envolvia.
Outras pernas me aguardam na estação.
E eu sacudi aquela mão escura.
(inédito)
§
Dou-me mal com o que sou mas não mudo
Os stôres queixam-se da minha letra:
estes gráficos do coração
às vezes nem eu próprio entendo.
Os joelhos quase não me cabem debaixo
da carteira velha,
o tampo entalhado de pesadelos.
As mãos começam a não caber nos bolsos
e quando as abro espero e não sei
muito bem o que fazer com elas.
Rapei completamente o cabelo no inverno.
E se no verão as botas não me caem dos pés
é porque calço seis pares de meias.
Volto da escola pelo trilho mais longo
a falar alto e a fazer heroísmos.
Deito-me às escuras com a tv ligada.
No canto espreita um espião: o olho verde
da aparelhagem. E no hálito do chamon
derreto a última pastilha elástica.
Estas olheiras logo de manhã
são aquilo que os meus pais mais censuram.
Mas doente como estou, já nem me dizem.
Fechado à chave na casa de banho
sem respeito pelos outros
morro longamente várias vezes por dia.
(publicado originalmente na revista aguasfurtadas)
§
Interrupção
Sonhos que se repetem, não continuam.
Figuras levadas em escadas rolantes.
Ninguém sabe quem. Lugares de passagem.
Manequins afogam-se em cabines telefónicas.
Aqui vejo lábios além tornozelos.
Expostos, à venda. Bonecos perigosos.
Misturo-os a objectos que logo se desfazem.
Encontram maneira de não se destruírem.
Aqui vejo lábios, além tornozelos.
O momento fecha a sala de espera.
Não se alugam quartos. Cuidado com o cão.
Lembro. A tua boca é uma sala de espera.
O momento tropeça no momento seguinte.
Repete-se e cai. Não continua.
(publicado originalmente na revista aguasfurtadas)
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