A poeta estadunidense Rae Armantrout nasceu em Vallejo (auspicioso início para um poeta americano), na Califórnia, em 1947. Cresceu e estudou, porém, em San Diego e Berkeley, sendo hoje professora de Poetry and Poetics na Universidade da Califórnia, campus de San Diego.Seu primeiro livro foi publicado em 1978, quando a poeta tinha 31 anos, e chama-se Extremities. Publicou ainda, entre outros, as coletâneas The Invention of Hunger (Tuumba, 1979), Precedence (Burning Deck, 1985), Necromance (Sun and Moon Press, 1991), The Pretext (Green Integer, 2001) e acaba de lançar o livro Versed (Wesleyan University Press, 2009), do qual extraímos o poema abaixo:
Proveniência
É característica de X
posicionar aqui sua ansiedade
entre "tempo"
e "vivo."
O que você pode dar-me
por este relance
e sua proveniência?
Eu tenho um idêntico.
O que me interessa agora
são derivados
de derivados.
A narrativa
que nos resgata
outra vez
é um caminho menos provável.
Ao velejar
de ponta-cabeça no ocaso
retornamos
da terra dos mortos.
(tradução de Ricardo Domeneck)
§
Provenance
It's characteristic of X
to place his anxiety here
between "time"
and "alive."
What can you give me
for this glimpse
and its provenance?
I've got one just like it.
What interests me now
are spin-offs
of spin-offs.
The narrative
that rescues us
once more
in a less probable way.
By sailing
upside down at dusk
we've returned
from the land of the dead.
O trabalho de Rae Armantrout é geralmente associado ao dos poetas que, no fim da década de 70, tinham a revista L=A=N=G=U=A=G=E como plataforma mais famosa, tornando-se por isso conhecidos como language poets, ou, como gosto de traduzir: poetas-linguistas. Seu trabalho se destaca em independência, no entanto. Por exemplo, enquanto muitos dos poetas-linguistas usariam o que Ron Silliman veio a teorizar como "the new sentence", borrando os dualismos entre gêneros como prosa versus poesia, e criando "inter-generic prose forms" (escritas entre as rachaduras da taxonomia de gêneros), Rae Armantrout segue com seu trabalho sintático fortemente marcado pelo uso das "quebras-de-linha" e enjambements como partes estruturais do processo de significância. Neste aspecto, seu trabalho une-se à linhagem de Emily Dickinson, de objectivists como George Oppen e Lorine Niedecker, além de nosso conhecido Robert Creeley.
No entanto, com os poetas Bob Perelman, Barrett Watten, Steve Benson, Carla Harryman, Tom Mandel, Ron Silliman, Kit Robinson e Lyn Hejinian, Armantrout participa do livro colaborativo em prosa The Grand Piano, chamado de "an experiment in collective autobiography".
Seu trabalho é marcado, como no caso de outros poetas do grupo, pela linhagem que remonta a Gertrude Stein e John Cage, em parâmetros críticos que Marjorie Perloff chamaria de poetics of indeterminacy, escrevendo trabalhos que privilegiam a materialidade do signo e a resistência a sua referencialidade, buscando uma poética da não-transparência imediata do significante e contra a leitura como "absorção" inconsciente, nas palavras de Charles Bernstein. A Modo de Usar & Co. já preparou postagens sobre duas outras poetas ligadas a esta est-É-tica: Rosmarie Waldrop e Lyn Hejinian.
A luta destes poetas contra a noção de "naturalidade da linguagem" e a busca da escrita como artifício consciente, contextualizado ideologicamente, faz deles fonte de pesquisa e aprendizado importantes para jovens poetas literários brasileiros ou lusófonos, com uma pesquisa mais adulta e menos maniqueísta do funcionamento do "discursivo" e seu possível "anti-" em resistência, se assim dita a est-É-tica do poeta.
A pesquisa dos language poets, é necessário dizer, faz com que busquem o que há de writerly na poesia, que em sua obra torna-se basicamente escrita. É, porém e talvez por isso, uma das mais consistentes pesquisas poético-literárias contemporâneas.
--- Ricardo Domeneck
§
Abaixo, a leitura de Rae Armantrout para seu poema "The fit", sua tradução e o texto em inglês.
The Fit - Rae Armantrout
O espasmo
Num espasmo de repugnância
cada instante
rasga-se ao meio,
produzindo um gêmeo.
*
Numa história de adolescência
cada sonho
produz-me:
ignorância
à beira da revelação.
*
Estou a uma mesa lateral
num boteco
na Amazônia,
meu olho na porta
por onde uma enchente de estranhos
jorra.
*
A porta ou a janela?
Amanhece.
(tradução de Ricardo Domeneck)
§
The Fit
In a fit of repugnance
each moment
rips itself in half,
producing a twin.
*
In a coming-of-age story
each dream
produces me:
an ignorance
on the point of revelation.
*
I'm at a side table
in a saloon
in Alaska,
my eye on the door
where a flood of strangers
pours in.
*
The door or the window?
It's morning.
§

§
Você pode ler o primeiro livro de Rae Armantrout AAQQUUII.
§
(Leitura de Rae Armantrout na Universidade de Miami, em abril de 2007)
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