domingo, 11 de Janeiro de 2009

Obituário: Inger Christensen (1935 - 2009)

Este ano teve, como em 2008, a morte de um poeta como um de seus marcos de início. No ano passado, deixamos de compartilhar o oxigênio com Henri Chopin, morto logo a 3 de janeiro. Você pode ler a nossa postagem-homenagem ao poeta francês da respiração AAQQUUII.

Este ano apressa-se em diminuir nosso número logo a 2 de janeiro, com a morte da poeta dinamarquesa Inger Christensen.

O trabalho mais conhecido de Inger Christensen é o poema-em-série/livro Alfabeto, de 1981, em que a poeta usa as letras do alfabeto de A a N, e a chamada seqüência de Fibonacci, para conduzir um dos belos poemas daquela década. Esta prática a encaixava na gaveta da "poesia experimental", ainda que as constrições formais de Christensen funcionem de forma bastante diferente do que vemos nos poetas dos grupos OuLiPo e L=A=N=G=U=A=G=E. Vale dizer que seu último trabalho importante foi um ciclo de sonetos.

Infelizmente, o Brasil segue faminto por poetas traduzidos. Não se trata sequer dos poetas mais "obscuros", mesmo em seus países de origem, como Pierre Albert-Birot, Umberto Saba ou Jack Spicer. O país passa ao largo até mesmo do que no mundo poderia ser chamado de "estrelato da poesia", com aqueles nomes mais famosos e conhecidos. Mesmo poetas como Czeslaw Milosz, Derek Walcott e Joseph Brodsky, que foram "estrelas" da poesia do pós-guerra, não têm volumes expressivos de poemas traduzidos no Brasil, com as exceções de pequenos livros e estudos, publicados por editoras universitárias. Hoje em dia, poetas contemporâneos muito conhecidos, como o estadunidense John Ashbery, o russo Yevgeny Yevtushenko ou o esloveno Tomaž Šalamun, continuam inéditos ou pouquíssimo divulgados no Brasil.

Buscamos algo de Inger Christensen em português, para podermos postar aqui, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., como homenagem à poeta dinamarquesa, um dos grandes nomes da poesia européia do início deste século. Nada encontramos em português, pelo menos até agora.


(Sound project - audio only - using Danish poet Inger Christensen's long poem "It", as translated by Susanna Nied. Section 1 of Prologos : 66 Voices reading a 66 line stanza.)

O poema-em-série "Alfabeto", em dinamarquês, começa assim: "1. abrikostræerne findes, abrikostræerne findes / 2. bregnerne findes; og brombær, brombær / og brom findes; og brinten, brinten". Vai aqui o início do poema em inglês, seus 7 primeiros fragmentos, como homenagem e tentativa de divulgação de seu trabalho:

Alphabet

1

apricot trees exist, apricot trees exist



2

bracken exists; and blackberries, blackberries;
bromine exists; and hydrogen, hydrogen



3

cicadas exist; chicory, chromium,
citrus trees; cicadas exist;
cicadas, cedars, cypresses, the cerebellum



4

doves exist, dreamers, and dolls;
killers exist, and doves, and doves;
haze, dioxin, and days; days
exist, days and death; and poems
exist; poems, days, death



5

early fall exists; aftertaste, afterthought;
seclusion and angels exist;
widows and elk exist; every
detail exists; memory, memory's light;
afterglow exists; oaks, elms,
junipers, sameness, loneliness exist;
eider ducks, spiders, and vinegar
exist, and the future, the future



6

fisherbird herons exist, with their grey-blue arching
backs, with their black-feathered crests and their
bright-feathered tails they exist; in colonies
they exist, in the so-called Old World;
fish, too, exist, and ospreys, ptarmigans,
falcons, sweetgrass, and the fleeces of sheep;
fig trees and the products of fission exist;
errors exist, instrumental, systemic,
random; remote control exists, and birds;
and fruit trees exist, fruittherein the orchard where
apricot trees exist, apricot trees exist
in countries whose warmth will call forth the exact
colour of apricots in the flesh



7

given limits exist, streets, oblivion

and grass and gourds and goats and gorse,
eagerness exists, given limits

branches exist, wind lifting them exists,
and the lone drawing made by the branches

of the tree called an oak tree exists,
of the tree called an ash tree, a birch tree,
a cedar tree, the drawing repeated

in the gravel garden path; weeping
exists as well, fireweed and mugwort,
hostages, greylag geese, greylags and their young;

and guns exist, an enigmatic back yard;
overgrown, sere, gemmed just with red currants,
guns exist; in the midst of the lit-up
chemical ghetto guns exist
with their old-fashioned, peaceable precision

guns and wailing women, full as
greedy owls exist; the scene of the crime exists;
the scene of the crime, drowsy, normal, abstract,
bathed in a whitewashed, godforsaken light,
this poisonous, white, crumbling poem


Alphabet, de Inger Christensen, traduzido para o inglês por Susanna Nied.

7 comentários:

Mario Sagayama disse...

Sobre traduções: a única coisa que me lembro de ter visto do John Ashbery foi a tradução, por Viviana Bosi em tese de doutorado pela USP, do "Self-portrait in a convex mirror".
Uma pena, realmente...

modo de usar & co. disse...

Mário,

eu também conheço apenas o volume de Viviana Bosi. É inacreditável que Ashbery não tenha (pelo menos) uma antologia abrangente de seu trabalho no Brasil. Torna-se mais "compreensível" se pensamos na ideologia estética brasileira das últimas décadas, com sua obsessão por "concisão e economia", que levou a crítica brasileira a simplesmente não entender poetas como Ashbery, que minam estes parâmetros.

Quanto aos outros mencionados, Marília Garcia apontou que Milosz e Brodsky tiveram pequenos livros traduzidos no país. Nada expressivo, no entanto, foram pouquíssimo divulgados e são livros realmente pequenos. De Milozs saiu um pequeno volume pela editora da Universidade de Brasília há poucos anos e de Brodsky um pela 7Letras há cerca de 10 anos.

São apenas alguns exemplos. Não tenho apreço especial por Milozs (dentre os poloneses prefiro Zbigniew Herbert e Wislawa Szymborska), Brodsky (há pelo menos 10 outros russos que eu traduziria antes dele) ou Walcott, mas acho sintomático que mesmo "estrelas" como eles não sejam divulgados no Brasil.

Talvez seja sinal de nossa "saúde", não seguirmos os mesmos "trends", mas infelizmente tampouco somos grandes tradutores de poetas "obscuros". Não é à toa que, no Brasil, quando se traduz um poeta forte, ele/a logo se torne "moda"... basta ver o que Celan e Creeley significaram no fim da década de 90.
Precisamos desesperadamente de mais pluralidade VERDADEIRA. E pluralidade é diferente de ecletismo.

Abraço,

Domeneck

Mario Sagayama disse...

É verdade. A situação é mesmo preocupante: você mesmo mostra no seu texto da Ideologia da Percepção o estado de bibelô da poesia. Há saída, mas a grande maioria se preocupa com o poeta nacional: o mais longe que a discussão vai é escolher entre Cabral e Drummond, como Beatles e Rolling Stones. Os leitores parecem cada vez mais ler somente algo com uma interpretação pré-fabricada. Talvez por isso, no Brasil, Maiakóvski seja tão célebre e Anna Akhmátova não tenha traduções de fácil acesso; ou a tradução de W. Carlos Williams por José Paulo Paes não seja reeditada pois só Eliot e Pound são lembrados quando se fala em poesia americana. Em 2007, na USP, os 140 anos da morte de Baudelaire foram bem lembrados ao passo que, em 2008, acredito que nada tenha sido dito sobre a Internacional Situacionista ou o Letrismo na comemoração de 40 anos do Maio de 68. Houve também a disputa entre se comemorar o centenário de morte de Machado ou o do nascimento de Rosa. E é óbvio que a imprensa se encarregou de fazer uma enquete para definir que m foi o maior. A Academia parece um calendário de aniversários de morte.

Se é pra ser governado pelos mortos, prefiro ficar com Mautner: "os vivos são governados pelos mais vivos ainda".

Estamos vivos.
Grande abraço,
Mário.

modo de usar & co. disse...

Caro Mário,

a situação mostra cada vez mais a forma como a crítica literária é, na verdade, míope e hipócrita na sua recusa em admitir seus condicionamentos ideológicos... e como o cânone (como uma Arca de Noé que cobra ingressos e mais parece uma coluna social de jornal matutino) é guiado ainda por "reputação literária" e não por verdadeira qualidade. Ora, esta reputação depende justamente... da imprensa, que faz suas enquetezinhas de "Best of". Mas aí surge também o problema do condicionamento ideológico dos discursos sobre estes mesmos parâmetros de qualidade. É realmente alarmante, pois se até William Carlos Williams fica de fora, como esperar que o país possa conhecer poetas modernistas obscuros como Mina Loy e Basil Bunting? Onde estão os volumes de textos traduzidos de Gertrude Stein? E estamos apenas na língua inglesa. Como esperar que Tristan Tzara e Pierre Albert-Birot (na língua francesa) ou Hans Arp e Unica Zürn (na alemã) recebam a atenção crítica que merecem, se os preguiçosos preferem seguir a reputação crítica engessada de outros poetas, naqueles mesmos mapas "dos melhores" de sempre? Pound disse: "Curiosidade, curiosidade", mas é necessário também coragem para guiar-se onde não há parâmetros pré-fabricados.

Nem é uma questão de "fazer justiça", pois nós simplesmente PRECISAMOS daquilo que todos estes poetas têm para oferecer. O próprio Williams escreveu: ""It is difficult to get the news from poems, yet men die miserably every day for lack of what is found there."

É por isso que às vezes assumo um caráter quase belicoso na tentativa de instituir um debate est-É-tico mais amplo: não se trata de picuinha entre egos de poetas, mas de questoes com implicaçoes incrivelmente sérias.

Abraço,

Domeneck

Mario Sagayama disse...

Domeneck,

O poder da imprensa de grande porte me faz sempre desconfiado. Se por um lado vocês da M.U&Co e o Carlito Azevedo defendem o "Make it Necessary", a imprensa com seus Top 10 cria o seu "Make it Better". Acho que agora a est(é)tica necessária implica num uso da internet como debate livre e uma virada de costas (com olhos na nuca) ao mainstream. Poetas que sonharem hoje com seus nomes em prova de vestibular ou se enquadram ao "Make it Better" da imprensa; ou torcem para que Antonio Candido faça sócio-resenha de seu trabalho; ou acabam se pronunciando, de forma triste, como Waly Salomão que desejava reconhecimento e prêmios antes da morte.

Tristan Tzara ainda só é conhecido pelo poema de recortes de jornal. Gertrude Stein, por mais Angélica Freitas já a tenha levado à banheira, continua sendo conhecida apenas por "a rose is a rose is a rose". Para não ser injusto, tenho de lembrar que "Três Vidas" foi lançado pela Cosac e bem lembrado pela Folha.

Essa discussão belicosa que vocês fazem a mim é muito útil porque é daqui que sugo a maioria de poetas necessários que de outra forma nunca conheceria.

Abraço,
Mário.

Mario Sagayama disse...

pra fechar o papo: foi publicada a história do encontro do J. Ashbery, Joan Brossa e J. Cabral dia desses na coluna do Antonio Cicero na Folha.

Ricardo Domeneck disse...

Mário,

você tem razão, e aproveito para agradecer as palavras. De qualquer forma, não nos surpreendemos mais com este descaso da imprensa.

Já sabemos há muito tempo que não podemos depender dela para um debate sério. Tampouco creio que devamos usar isso para aquele velho discurso da "crise da poesia"... já expus que, em minha opinião, é só a Literatura na taxononia de gêneros dos séculos XVIII/XIX que está em crise, não a poesia. Problema dos poetas que amarram seu burro exclusivamente sob a sombra da Literatura.

Também concordo com Marcos Siscar que a crise está no cerne da poesia há muito tempo. Não sei que tempo dourado é este a que todos parecem se referir, quando falam da crise contemporânea, como se em algum momento a poesia tivesse tido uma mega-audiência... o próprio Pound, com seus momentos de lucidez, disse que nao se pode esperar de uma década que ela venha a competir com os trovadores, por exemplo, cuja tradição cresceu por séculos... e o Pound, num daqueles momentos hilários de seu ensaísmo, fala sobre a nossa competição com poetas que não tinham rádio nem TV para distraí-los.

Você mencionou meu ensaio "Ideologia da percepção"... nele eu tento justamente pensar naquilo que nós poetas podemos fazer, sem culpar o público ou os críticos apenas. Cheguei a "ousar" incluir uma parte de "propostas", mas esta foi justamente a parte que irritou muita gente e feriu alguns egos, que eu tenha "ousado" fazer propostas. É claro que aquelas propostas são basicamente para mim mesmo, mas eu achei importante nao fazer apenas o discurso de sereia da catástrofe, achei que seria honesto sugerir algumas possíveis saídas, das quais qualquer um pode discordar, obviamente.

O "make it necessary" é outra expressão que causa problemas às vezes, pois pode sugerir a desavisados que eu esteja defendendo alguma espécie de "utilitarismo" para o trabalho poético, como se eu estivesse bancando o "soviético"... tenho grande carinho pelo trabalho de Viktor Shklovsky e sua luta contra as amarras do realismo socialista, e jamais defenderia tais parâmetros políticos... tudo o que defendo é que sejamos contemporâneos, que entendamos o que Gertrude Stein disse em "Conmposition as explanation", de como seria excitante se todos os nossos contemporâneos aceitassem ser nossos contemporâneos.

Beijos

Domeneck