domingo, 4 de Janeiro de 2009

Marcelo Sahea



Marcelo Sahea nasceu no Rio de Janeiro, em 1971. Após alguns anos em Brasília, o poeta hoje vive e trabalha em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Seu trabalho como artista da linguagem espraia-se pelos meandros da poesia escrita, sonora, visual e em performance, sendo hoje, entre os poetas surgidos nos primeiros anos deste século, um dos exemplos mais plurais da pesquisa poética de expansão do conceito do "verbivocovisual", entre os poetas que venho também chamando de "multimedievais", por abraçarem parâmetros críticos que alargam as fronteiras da poesia para além das alfândegas da literatura e da escrita, como entre os trovadores medievais, antes da hegemonia literária sobre o pluralismo poético. Se o seu trabalho visual liga-o ao trabalho do Grupo Noigandres e a Augusto de Campos em especial, assim como a Sebastião Nunes, o que mais aprecio em seu trabalho é o vigor e a consistência com que vem pesquisando as possibilidades verdadeiramente vocais do verbiVOCOvisual. Seus poemas sonoros estão entre as mais interessantes peças produzidas na poesia brasileira contemporânea que se interessa por esta pesquisa, pesquisa que conta com poetas como Ricardo Aleixo, Arnaldo Antunes, Gláucia Machado, André Vallias, Márcio-André, entre outros.

Em poemas como "2415", que mostramos abaixo, Sahea pesquisa as possibilidades vivificadoras da voz sobre um texto literário, que subsistiria por si só na página, mas que encontra seu charge of meaning to the utmost degree, como queria Pound, através da pluralização de sentidos do sonoro e sintático sobre o semântico, ligando-o ao que na Europa muitas vezes é chamado de "textualismo", entre os poetas que preparam textos para a página e para a performance, como o francês Bernard Heidsieck e o alemão Michael Lentz, entre outros.


2415 - Marcelo Sahea
(Marcelo Sahea, "2415", poema sonoro, 2008)

Este "texto" poderia "funcionar" na página, mas ganha outra potência de significação ao ser oralizado pelo poeta, com sua voz assumindo-se também como parte do campo semântico. Em um poema sonoro como "Palmantra", mostrado abaixo, os elementos sonoros sobrepõem-se ao campo semântico/lingüístico, fazendo deste poema pesquisa sonora acima de tudo.


palmantra - Marcelo Sahea

Em suas performances, todos estes elementos: escrita (trabalho semântico-sintático), som (voz e intervenções musicais) e imagem (visualidade da materialidade sígnica, mas também o gestual do poeta, figurino e encenação) formam um conjunto que me leva a incluir seu trabalho entre os pesquisadores mais inquietos da expansão do verbivocovisual e instituição de um parâmetro "multimedieval", como no vídeo que abre esta postagem, fragmento de sua performance "Pletórax".

Assim como em seu trabalho sonoro, em que Sahea faz uso do semântico sonorizado, investigando a materilidade sígnica do verbivocal em "textos para performance" (como em "2415") e também entrega-se ao sonoro-em-si (como em "Palmantra"), em sua poesia visual o poeta usa o semântico visualizado, investigando a materialidade sígnica verbivisual em poemas como "Le Fou", entregando-se em outros poemas, como "Anzolhos", a uma pesquisa estritamente visual. Neste aspecto, seu trabalho aproxima-o, como já mencionei acima, de Augusto de Campos e Sebastião Nunes. Em poemas como o fantástico "Guardar", Marcelo Sahea encontra um equilíbrio entre a imagem e a palavra, num círculo de significação em redemoinho entre o semântico e imagético.

Sahea 1
(Marcelo Sahea, "Le Fou")

Sahea 2
(Marcelo Sahea, "Anzolhos")

Sahea 3
(Marcelo Sahea, "Guardar")

O trabalho de Marcelo Sahea inclui ainda a publicação de livros gráficos e eletrônicos, exposições de poesia visual e participações em encontros de poetas-performers. Entre outras, destacam-se as mostras Poesia Visual - dentro da MOSTRA SESC DE ARTES - 08 e as Bienais Internacionais de Poesia de Belo Horitzonte e de Brasília. Marcelo Sahea publicou os livros Leve (edição do artista: Brasília, 2006); carne viva - e-book e livro de poesia (edição do artista, Santa Maria, 2003); e ‘ejs - e-book de poesia (Hotbook, 2001).

Abaixo, mostramos três poemas literários de Marcelo Sahea, "como lua", em que encontramos ecos belos e supreendentes do Vinícius de Moraes (que será um dia visto como pioneiro da expansão poética para além das fronteiras literárias) de "O poeta e a lua", e os poemas "inepto" e "por que não?", encerrando o círculo desta postagem dedicada à pesquisa pluralizante de Marcelo Sahea, naquilo que chamamos de poesia e poderia também ser chamada de "language art".

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE MARCELO SAHEA

como lua

como lua
sendo sua?

como ponto
tendo pontas?

como branca
se menstrua?

como santa
sendo tantas?

como nua
sendo manta?

como esfria
se estua?

como grão
se se agiganta?

como sua
sendo lua?

§

inepto

por um músculo tocado
pelos astros regido
pelos carros levado
por DNA definido

pelos santos guiado
pela pele impelido
pelos ais adestrado
pelos pais concebido

por vozes habitado
pela moda inserido
pela arte exilado
pela dor comprimido

pelas palmas vaiado
pela vaia aplaudido
pela vida escolado
pelo acaso esquecido

§

porque não?


porque assim
do útero ao caixão?

porque não
outro percurso?

porque não
na contramão?

porque não
ser inconcluso?


§§§

Mais de Marcelo Sahea?

AAQQUUII - Página pessoal do poeta e AAQQUUII - Mais poemas sonoros.

4 comentários:

paulo de toledo disse...

muito bom ver meu camarada sahea por aqui. o cara sabe das coisas. e parabéns pelo blog. aquele abraço.

Linaldo disse...

interessante e aprofundada análise sobre um poeta que tem muito a dizer. parabéns.

Anónimo disse...

Que delícia saber um pouco mais sobre sua poieses. Beijo grande da carol Lara

Gabi disse...

parabéns pelo blog,abraço