O poeta americano Kenneth Koch nasceu em Cincinatti, Ohio em 1925. Na década de 40, estudou em Harvard, onde viria a conhecer John Ashbery. Com Ashbery, Frank O`Hara, Barbara Guest e James Schuyler, Koch viria a formar a comunidade de poetas que passou a ser chamada de New York School of Poets, a Escola de Nova Iorque, que ainda exerce grande influência sobre a jovem poesia norte-americana. Entre as coletâneas mais importantes de Koch, estão The Art of Love: Poems (1975) e One Train (1994), que venceu o prestigioso prêmio Bollingen, o mesmo que causou polêmica ao ser entregue em 1948, pela primeira vez logo após ser instituído pela Biblioteca do Congresso Americano, a Ezra Pound, por seus Pisan Cantos. Kenneth Koch escreveria ainda romances e várias peças de teatro, tendo impacto na formação de jovens poetas americanos também como professor. Kenneth Koch morreu de leucemia em 2002.--- postagem de Marília Garcia.
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POEMA DE KENNETH KOCH
Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem
[sentimental procure ao seu redor
[o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revista Inimigo Rumor n. 20)
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One train may hide another (sign at a railroad crossing in Kenya)
In a poem, one line may hide another line, / As at a crossing, one train may hide another train. / That is, if you are waiting to cross / The tracks, wait to do it for one moment at / Least after the first train is gone. And so when you read / Wait until you have read the next line – / Then it is safe to go on reading. / In a family one sister may conceal another, / So, when you are courting, it’s best to have them all in view / Otherwise in coming to find one you may love another. / One father or one brother may hide the man, / If you are a woman, whom you have been waiting to love. / So always standing in front of something the other / As words stand in front of objects, feelings, and ideas. / One wish may hide another. One dog may conceal another / On a lawn, so if you escape the first one you’re not necessarily safe; / One lilac may hide another and then a lot of lilacs and on the Appia Antica one tomb / May hide a number of other tombs. In love, one reproche may hide another, / One small complaint may hide a great one. / One injustice may hide another – one Colonial may hide another, / One blaring red uniform another, and another, a whole column. One bath may hide another bath / As when, after bathing, one walks out into the rain / One idea may hide another: Life is simple / Hide Life is incredibly complex, as in the prose of Gertrude Stein / One sentence hides another and is another as well. And in the laboratory / One invention may hide another invention, / One evening may hide another, one shadow, a nest of shadows, / One dark red, or one blue, or one purple – this is a painting / By someone after Matisse. One waits at the tracks intil they pass, / These hidden doubles or, sometimes, likenesses. One identical twin / May hide the other. And there may be even more in there! The obstetrician / Gazes at the Valley of the Var. We used to live there, my wife and I, but / One life hid another life. And now she is gone and I am here. / A vivacious mother hides a gawky daughter. The daughter hides / Her own vivacious daughter in turn. They are in / A railway station and the daughter is holding a bag / Bigger than the mother’s bag and successfully hides it. / In offering to pick up the daughter’s bag one finds oneself confronted by the mother’s / And has to carry that one, too. So one hitchhiker / May deliberately hide another and one cup of coffee / Another, too, until one is over-excited. One love may hide another love or the same love / As when “I love you” suddenly rings false and one discovers / The better love lingering behind, as when “I’m full of doubts” / Hides “I’m I’m certain about something and it is that” / And one dream may hide another as is well known, always, too. In the Garden of Eden / Adam and Eve may hide the real Adam and Eve. / Jerusalem may hide another Jerusalem. / When you come to something, stop to let ir pass / So you can see what else is there. At home, no matter where, / Internal tracks pose dangers, too; one memory / Certainly hides another, that being what memory is all about, / The eternal reverse succession of contemplated entities. Reading A Sentimental Journey look around, / When you have finished, for Tristam Shandy, to see / If it is standing there, it should be, stronger / And more profound and therefore hidden as Santa Maria Maggiore / may be hidden by similar churches inside Rome. One sidewalk / May hide another, as when you’re asleep there, and / One song hide another song: for example “Stardust” / Hide “What have they done to the rain?” Or vice-versa. A pounding upstairs / Hide the beating of drums. One friend may hide another, you sit at the foot of a tree / With one and when you getup to leave there is another / Whom you’d have preferred to talk to all along. One teacher, / One doctor, one ecstasy, one illness, one woman, one man / May hide another. Pause to let the first one pass. / You think, Now it is safe to cross and you are hit by the next one. It can be important / to have waited at least a moment to see what was already there.
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Você pode ouvir este poema na voz de Kenneth Koch AAQQUUII
1 comentários:
eu realmente me empolgo com alguns posts desse blog! conheço bem pouco de poesia de fora do país, mas tenho gostado bastante dos poetas americanos aqui, já peguei para essas férias uma antologia do Frank O'Hara
abraços, e obrigado!
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