quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Juliana Krapp
Juliana Krapp nasceu no Rio de Janeiro, em 1980, onde ainda vive e trabalha como jornalista, sendo também mestranda em Comunicação Social na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Inédita, sem poemas reunidos em livro, seus textos têm sido publicados em revistas de poesia como Inimigo Rumor, Germina, Poesia Sempre e a própria Modo de Usar & Co. O dossiê de poesia contemporânea brasileira que acaba de ser publicado no Diário de Poesía de Buenos Aires traz, traduzidos para o castelhano, quatro poemas seus, incluindo "Punção" e "Enseada", que a autora oraliza no vídeo acima, preparado pela Modo de Usar & Co.
A poesia de Juliana Krapp está ligada a uma sensibilidade est-É-tica contemporânea que se torna cada vez mais forte entre alguns jovens poetas brasileiros do século XXI, buscando maneiras alternativas de consciência formal da materialidade da linguagem, sem o que muitas vezes acaba por se tornar a mera teatralização visual do signo. Sua pesquisa formal vai além desta noção um tanto superficial de materialidade sígnica, investigando o que acontece entre as palavras e desposando para isso tanto semântica quanto sintaxe, sem privilegiar apenas substantivos, mas entregando-se a uma lírica analítica que parece assumir o questionamento est-É-tico proposto por Susan Howe em seu livro My Emily Dickinson:
"Who polices questions of grammar, parts of speech, connection, and connotation? Whose order is shut inside the structure of a sentence?"
Eis um exemplo de questionamento político e artístico (ESTÉTICO, campo em que arte e política se encontram, em minha opinião: est-É-tico) que não abandona a pesquisa e experimentação formal. Isto parece levá-la a um desnudamento do discurso, "expondo o imposto", sabotagem do discursivo que não vê necessidade em entregar-se ao elíptico, que freqüentemente engendra poemas menos fragmentários que em frangalhos. O "não-discursivo" passa a ser um ato de guerrilha interna para poetas como Krapp, assim como, de maneiras diversas, para Marília Garcia, Angélica Freitas e alguns outros.
Assim, o desenvolvimento de suas sentenças (mais que versos) flui em surpresas a cada quebra-de-linha, ligando-a a brasileiros como Murilo Mendes e, entre os estrangeiros, a poetas como John Ashbery e Emmanuel Hocquard. Como podemos ver, um panorama de referências bastante distinto do que animou a poesia brasileira na segunda metade do século XX, e ainda a animava na virada deste século. A pesquisa poética de autores como Juliana Krapp não é apenas formal, já que envolve, em sua investigação da materialidade sígnica, material, função e contexto poéticos, parecendo eleger parâmetros distintos dos que guiaram a "crítica da qualidade" dos últimos vinte anos, como "secura", "objetividade" e "precisão" de linguagem.
Operando mais naquilo que Marjorie Perloff chamou de "poética da indeterminação", a poesia de Krapp e a de certos poetas jovens parecem questionar justamente a possibilidade destes axiomas de "objetividade", wittgensteinianamente propondo materialidade sígnica e processo de significação baseados no "uso" e no "contexto" das palavras operando entre si. Não deveria surpreender nosso interesse em contá-la entre os colaboradores de uma revista que decidimos chamar de Modo de Usar & Co. Assim, a poesia de Krapp e de alguns outros abandona aquilo que me pareceu a subserviência ao signo da poética brasileira do pós-guerra imediato, ligando-se a uma poética de desconfiança do signo, como a de outras comunidades de poetas do pós-guerra: p. ex., a Escola de Nova Iorque (Ashbery, Frank O´Hara, Barbara Guest, Kenneth Koch, James Schuyler) ou o Grupo de Viena (H.C. Artmann, Konrad Bayer, Gerhard Rühm) que, não à toa, retornaram às propostas dos poetas do Cabaret Voltaire e da revista DADA.
Não se trata de negar a contribuição (mesmo para estes poetas) do construtivismo que gerou muito da melhor poesia brasileira do pós-guerra, mas de compreender que tanto o que chamamos (sempre no singular) de Alto Modernismo Internacional, como a pluralidade da poesia contemporânea permitem discursos críticos de linhagens distintas, fazendo com que certos poetas atuais aprendam o necessário para suas poéticas com a linhagem de Stéphane Mallarmé, Ezra Pound e João Cabral, por exemplo, tirando de Pound e Cabral, muitas vezes, implicações muito distintas das do grupo Noigandres, e ainda prefiram seguir estas implicações e alinhar-se a linhagens alternativas em que estas se manifestam com força, como a que ligaria Arthur Rimbaud, Hans Arp, Pierre Albert-Birot, Gertrude Stein, John Cage, John Ashbery, Emmanuel Hocquard e Murilo Mendes, alguns destes poetas incluídos justamente na linhagem estudada por Perloff em The Poetics of Indeterminacy. São poetas jovens, hoje, que estão mais interessados em expor e desestruturar o discursivo por dentro do que em combatê-lo em poemas sem sintaxe, exilados em uma linguagem que se quer "pura", ou "fora do mundo dos eventos", como se lê nos primeiros manifestos concretistas. Sua pesquisa exige muitas vezes o que pode acabar ironicamente sendo lido como "discursividade", por críticos educados em parâmetros que estes poetas jovens questionam e decidem conscientemente não seguir. Poetas como Juliana Krapp, Marília Garcia e Angélica Freitas recusam-se a operar naquilo que Wittgenstein chamava de uma "lógica como se existíssemos em vácuo." Poetas que insistem na crença de que a poesia não é escrita nem lida como se "existíssemos em vácuo", como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop e Susan Howe. Definitivamente, "meta" e "trans" não são prefixos de sua predileção.
Privilegiando a metonímia, muitas vezes preferindo esta à metáfora, a imagética de Juliana Krapp afasta-se de qualquer vegetação metafórica ou imagismo neo-simbolista. Sua linguagem parece-me muito mais "semiótica" que "simbólica", o que a une a Orides Fontela, erroneamente chamada, com freqüência, de neo-simbolista. É poesia que busca borrar a dicotomia Linguagem versus Mundo, abandonando um trabalho de substancialização que busca usar a linguagem para atingir uma realidade externa, preferindo fazer da própria linguagem o campo em que o mundo se realiza, se faz presente.
--- nota de Ricardo Domeneck
§§§
Abaixo, apresentamos os textos de Juliana Krapp oralizados no vídeo, seguidos de outros que foram publicados no número impresso de estréia da Modo de Usar & Co.
POEMAS DE JULIANA KRAPP
a estrutura íntima das horas
Acontece apenas no mar
de concreto protendido à beira
da estrada e apenas quando a estrada
tem algo de fogo
ensurdecedor:
um lagarto, osso
de candura, rompe
a respiração da tarde, penetra
em todas as substâncias — as rochosas
e as celestes, os líquidos escuros e
sua pantomima de espelhos
Enquanto tudo ao seu redor é ênfase
(profusão de tecidos
lancinantes),
o seu avesso
é puro vidro
ardoroso: quer partir
entreabrir-se em sulcos
lentos, desdobráveis
Você, ao volante, não percebe
mas isso tudo é como nós dois,
na Cinelândia, às cinco horas
de uma tarde de verão, com uma
caixa de alfajores e vontade de café, quando
há no ar algo de concha,
estiramento, zona cega: a experiência
do precipício
(publicado originalmente no primeiro número da Modo de Usar & Co.)
§
enseada
o ipê é como um ferro ele disse
as unhas pensas
no ardume da anunciação
sobre o rochedo
as têmporas afogueadas e o flagrante
da mandíbula irreparável do fim
da tarde (hóstia
em terracota)
nessa praia
as ondas enevoadas arrebentam o branco
........................os barcos
desabotoam a precisão das linhas
............e as ilhotas, desgrenhadas
............atracam visgos de luz
.......aqui, onde
a barbárie já nasce seca
................em seus olhos
§
Pretexto
o olho da rua é seco, sarcástico
do mesmo gênero das abotoaduras
e toucadores
de tudo resta sempre o seu mistério virgem
a beleza de íris os ares encardidos a córnea
tal qual um diadema espavorido
sobre nossas cabeças
então ele cruzou a pista sem qualquer melancolia
e travou o zíper sobre a pele
publicado na Inimigo Rumor 17
§
Punção
campanários. isso sim é uma casa
não aqui
onde os objetos sequer conspiram
onde a pele não se reconhece pele
e não se engendra cápsula de outra cápsula
posse de um único mistério
com seu agravo inabalável. uma casa
requer formas como dormideiras
que se recolham à carícia quando todas as carícias
são íntimas é tão surrado reconhecer
nas paredes que a única propriedade possível
é a fuga e mais ainda o sono profundo e
que sobretudo os mais elaborados sinais de chuva
não passam de sentinelas
resfolegando seu passo de partida
esta casa
não é minha: não se alcança daqui o brejo
afetuoso ao fundo de todas as coisas
não se vê o fosso
translúcido extorquindo das frestas
as esquadrias
tampouco há cantigas
emudecedoras
quando as horas se constrangem ao toque
ou ao contato do antebraço
com o repuxo invisível do acrílico
nesta casa
(assim como em todas as outras)
só resiste a ânsia de um veneno
afogado
em seu desleixo por lãs e puxadores
um veneno tão debilitado e circunstante
inabitável
quanto a certeza de que há ainda
no mundo tanto tremor
por tão pouca terra
publicado na Inimigo Rumor 18
§
Falácia
Você falou que gostava dos nomes que parecem interrompidos
Conrad, Murdoc
Eu disse sic. Não atenda, por favor.
O céu não entende de marte, mas você disse
e marte ficou estranha, um olhinho exasperado
enciclopédico
como o sexo que fizemos depois. De certa forma precoce,
ficou revoando no papel pardo da janela
até encontrar uma fissura - toda vidro, toda alhures
Você falou plâncton, lítio (rocha sedenta)
árduos assassinos de aluguel espreitando nas masmorras
e, num murmúrio: “treliças”
“orquídeas”
arrebite
para que se ache um ponto de fuga, um ósculo rude
boca vulva narinas – orifícios de luxo
espiando de soslaio fluxos
de palavras novas
e líquidos pela metade.
Você falou alcagüete
e adormeceu com a mão um pouco trêmula sobre a minha perna.
§
Limite
Sebe é um acúmulo de varas entretecidas
cerceando
por vezes sim por vezes não
eu sei
do esforço para persuadir
naturezas terríveis
simultaneamente
à graça dos perímetros
que permanecem estanques
(a dor de coabitar
tanto as frinchas quanto os
confinamentos)
Quando rarefeitos, os movimentos
aguardam mais do que a conclusão, preferem
o desdém e o resguardo
ou mesmo esse estalido
(um arquejo)
embalado
pelo embaraço hipnótico
das pequenas sombras
Somente as ventanias são de fato enamoradas
e apenas nelas alijam-se
as imundícias mais profundas
como somente os ramos
estraçalham-se e engravidam-se
num único carretel de músculos em escombros
(um aparelho de tensões
alimentado pelo ritmo
dos sumidouros)
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3 comentários:
Hola,
Estoy hechizada con la poesía de Juliana. Es una de las voces más frescas y raras del dossier de poesía brasilera que salió en Diario de poesía. ¿Cómo se puede hacer para establecer contacto con juliana?
Emma
Saludos,
desde Bolivia
Cara Emma,
envie-nos seu email e poderemos passar a você o contacto de Juliana Krapp.
abraço dos editores da
Modo de Usar & Co.
Hola chicos,
Estaré muy agredecida por el contacto que me pudieran hacer con Juliana. Mi mail es caliope_evr@hotmail.com
Please! Espero respuesta.
Emma Villazón R
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