segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas nasceu em 1972, no Vale de Santarém, mas vive e trabalha desde 1990 em Lisboa. Estreou como poeta no ano 2000, com a coletânea Todos Contentes e Eu Também. Desde então, publicou inúmeros volumes de poemas, entre eles O Coração de Sábado à Noite (Lisboa: Assírio & Alvim, 2004) e A Flor dos Terramotos (Lisboa: Averno, 2005). No Brasil, foi recentemente publicado um pequeno volume intitulado Poemas de Manuel de Freitas (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2007). É co-director da revista Telhados de Vidro e seu nome tem chamado a atenção da crítica portuguesa, não apenas por sua produção poética como por sua intensa atividade crítica. Organizou e publicou, em 2002, uma antologia polêmica com o título de Poetas sem Qualidades (Averno). Seu último livro chama-se Juros de Demora (Lisboa: Assírio & Alvim, 2007).


--- postagem de Fabiano Calixto.

§§§


POEMAS DE MANUEL DE FREITAS


Pedaços de vinil com lama

Devia ser o disco mais ouvido:
a Quinta Sinfonia, numa gravação
de Klemperer. As manhãs
e as tardes auguravam um futuro
melhor, prendados costumes
que depressa perdi. Já então olhava
para a taberna da Ana,
enchendo a janela do meu quarto.
Tinha medo da sombra, do silêncio,
adivinhando em cada passo o monstro
que me habitava. E lia, para não pensar,
desacreditados escritores franceses.

Um dia, de tanto o amar,
peguei no disco e quebrei-o
em pequenos pedaços de vinil
– para doerem mais, melhor.
Mantive, não sei bem porquê,
a dura capa de cartão,
essa fúnebre alegoria da infância.
E o que sobrou do disco foi parar
ao ribeiro junto à casa dos meus pais.

Mais tarde, o ribeiro com hortas
de domingo à volta foi sufocado pelo terror
de um aldeamento, versão provinciana
de condomínio fechado, num mundo
em que são cada vez mais as portas.
Beethoven, esse, quase deixou
de me comover, soterrado como as rãs
pelas mãos invisíveis de quem mata.

O que me comove, passado tanto
tempo, é perceber que fiz a esse disco
o mesmo que faço e volto a fazer
aos corpos que julgo amar:

parti-los, muito devagar, para
que doam sempre um pouco mais.


§§§


Opus 78


para a Graça e o José Carlos



I. Molto Moderato Cantabile



Não saberíamos de melhor lugar
para os primeiros contos de fadas,
coisas de meninas apenas.
A casa cor-de rosa, as avós,
nessas tardes infinitas
em que a antena dois te ensinava
a reconhecer os nomes de Schubert,
Chopin, quase nenhum Bach.
Aprendias, sem querer, a morte,
o que mais se opõe à música.


Tudo isso, escusado dizer, participava
de um flagrante anacronismo.
Quem, da tua idade, terá lido (e lido
com paixão) as páginas tão baças
do Cavaleiro Andante? E tu ali,
cavaleiro parado, vítima precoce
de sono nenhum ou, anos mais tarde,
da ruína. Refreia, para já, a comiseração;
estava tudo certo, sob o langor das tardes,
na rima quase perfeita de duas avós
viúvas e irmãs. Das altas janelas
da sala, podias ver os laranjais, os cavalos,
o primo autista que amava sobretudo os gatos
— enquanto Fischer-Dieskau, na rádio,
cantava Ständchen como nunca mais.



II. Andante


É um enredo banal: morreram. Aquela
que arde no Lied dizia preferir
a masculina voz e que não terá expirado,
como sempre desejou, escutando a Sexta
de Beethoven. mas também a outra,
a mais firme avó, que te ensinou apenas
um absoluto silêncio (porventura o maior
dos dons). Com elas, ou por elas,
se perdeu a imprecisa criança que
pressentia já não ter ofício nem lugar
para além das laranjeiras e da música
que se colava ao ardor das páginas,
quando finda a tarde e o mundo.


Regressaste hoje à aldeia. Não reconheces,
de obesos que ficaram, os que na escola
se sentavam ao teu lado — e é isso,
também, a morte. Não consegues
perceber porque fecharam as tabernas.
Nem uma sobrou para contar a história,
aliás perfeitamente inútil, da tua adolescência.
Fechada ainda, quem sabe se para sempre,
está a imensa casa cor-de-rosa, entregue
ao pó do último silêncio e ao acaso lento
das aranhas. Do sótão, lembras-te?, via-se
a aldeia toda, muito antes de ser vila.
Agora, porém, só nos degraus do poema
podes procurar a ida, a morte inteira,
a música tão calada de quem fosse.



III. Menuetto


Mas faltava alguém, a Noémia.
Criada — mas de quem, ao certo? —
que não matou o gasto coração
dessa tia que foi, ao contrário
da irmã, paciente bisavó de muitos.

Sempre lhe chamou «minha Senhora»
— pouco mais dizia, enquanto atravessava
o frio corredor e conhecia, como só pobres
conhecem, a rate de nada ter. Talvez por isso,
as peúgas que em cada aniversário me oferecia
ofuscavam os brinquedos, outras carícias,
o luxo pouco menos que letal dos primeiros livros.


Tinha barba ou quase, debaixo do sorriso largo
e da muda virgindade de quem se habituara
a perder. Talvez gostasse de mim e eu dela.
O silêncio, neste ponto, permite todas as suposições.
Na cozinha, o luís ajudava-a a migar couves,
cantarolando no seu mundo vagos restos de sonatas.
Era a vítima mais fácil (e mais branda) de quem,
por tanto servir, saboreava o gosto de mandar.


Na outra sala, ou no jardim, envelhecíamos calados,
com a diversa certeza de que a cozinha não era
o nosso reino. Bordávamos, tão longe de tudo,
as flores de uma almofada que perdi ou, no meu caso
(e sem o saber então), a dor inútil destes versos.




IV. Alegretto


Não esperes que te ajude o Cavaleiro
Andante ou — menos ainda — a música.
Cresceste demasiado, o teu corpo
não cabe no teu corpo e o amor
(ah, o amor) ajuda mas não salva.
— Vem comigo partir estes pinhões,
sob o esboroado cor-de-rosa das paredes.
Os cavalos, acredita, não te farão mal.


Depois das laranjeiras havia um tanque,
depois do tanque um jardim. Mas
de pouco te serve dizê-lo, agora que tratas
por tu a mais íntima distância do que foste.


§§§

Poema sumário das tabernas de Lisboa

Rua de São Marçal nº 56, rua de Campo de
Ourique nº 39, rua de São Bento nº
432, rua da Cruz dos Poiais nº 25-A. Calçada
do Combro nº 38-B, rua da Atalaia nº 13,
rua de São Miguel n° 20, rua da
Rosa nº 123. Travessa do Conde de Soure nº 7,
travessa dos Remolares nº 21, rua do
Jardim do Tabaco nº 3, rua da Regueira nº 40,
rua das Escolas Gerais nº 126, rua de Santa
Catarina nº 28. Largo do Chafariz de Dentro nº 23,
rua Sampaio Bruno nº 25, travessa de São
José nº 27, beco dos Toucinheiros nº 12-ª Rua
Cidade de Rabat nº 9, travessa do Alcaide
n° 15-B, calçada de São Vicente nº 12,
rua das Flores nº 6, travessa da Espera nº 54.

Praça das Flores nº 5.


§§§

Volo vivace

Há noites de que perdemos
o rasto, desde a chegada
ao São Luiz a todos os bares
seguintes – geografia,
entretanto, dificilmente verificável.
Chamem-lhe nostalgia, se
quiserem. Não havia
muito mais que nos movesse
a sair de longes terras
para uma cidade com eléctricos.
(E o teu corpo, Liliana, não era
bem uma razão. Nada
que te impedisse de morrer
na sarjeta destes versos, depois
de termos gasto as asas do desejo.)
Por fim, talvez no Gingão,
encostávamos a cabeça
a um muro de garrafas
e sonhávamos ao vivo com
o violino de Blaine Reininger.
Fantasmas
sabendo-se fantasmas.
Mas o assobio de um de nós ficou gravado.


§§§

Cronofobia


Sou contemporâneo de Villon
e escrevo às vezes a Montaigne,
arguto mas demasiado absorto
no renome e na sabedoria instável
dos seus livros anotados.
Ouvi ontem, junto de Lady Nevell,
as últimas composições de Byrd
para virginal e pareceram-me
– a primeira pavana, sobretudo –
uma dádiva excessiva à posteridade.
Escrevo estas linhas agora
outrora, olhando de frente
o crepúsculo e as poucas nuvens
que toldam, por desfaçatez,
o céu irremediável de Janeiro.
Corre entretanto o boato de que
Castela se apossou de Portugal
e houve até um poeta obscuro
que preferiu morrer antes disso,
em versos de imponderável beleza.
Não sei. O vinho cola-se-me uma vez mais
aos lábios, cansados peregrinos do amor,
e um galgo aproxima-se devagar
da mão que nunca lerá José Saramago.

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