segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Leonardo Martinelli (1971 - 2008)

(foto de Rafael Viegas)

Leonardo Martinelli nasceu no Rio de Janeiro, em 1971. O poeta e compositor publicou um único livro, a coletânea Dedo no ventilador (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005), e era membro do conselho editorial da revista Inimigo Rumor há vários anos. Mestre em literatura pela UERJ (escreveu sua tese sobre Julio Cortázar), era professor e pesquisava nos últimos tempos uma poética contemporânea sob o influxo do trabalho de Giorgio Agamben. Alguns de seus textos críticos são referências recentes importantes para o estudo dos autores, como seu ensaio sobre Ferreira Gullar.

Escrevendo sobre o poeta e seu livro de estréia, Lu Menezes viria a dizer: Quando vi Leonardo Martinelli pela primeira vez, no corredor de uma universidade carioca, sua vivacidade fisionômica me fez distraidamente associá-lo a um roqueiro convertido à academia. E por quê? Afinal, a sobriedade externa deste jovem poeta – também compositor, guitarrista e crítico literário – soprava que, no palco, continuaria não atrelável a clichês. Como no livro de estréia. Desde o título, Dedo no ventilador revela a excepcionalidade esquiva a escaninhos com que Leonardo se desloca na contramão da poesia a priori "poética". Distantes das cordas etéreas da lira como os raios X do luar, os aros-linhas de Dedo no ventilador irrompem na carne do real movidos por um pensamento incisivo, despojado não só de ilusões idílicas como das poses narcisistas recorrentes em alguns contemporâneos.

Reproduzimos os dois poemas de Leonardo Martinelli publicados no número de estréia da Modo de Usar & Co., assim como dois outros poemas inéditos em livro, escritos este ano, incluindo o belo "Receitas para engolir e curar o fracasso".

O poeta e amigo querido faleceu este fim-de-semana no Rio de Janeiro.

editores da Modo de Usar & Co.

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QUATRO POEMAS DE LEONARDO MARTINELLI


Receitas para engolir e curar o fracasso

Origem, compra, preparo e sabor

1. Ave sertaneja
de porte médio
fibrosa, rija
de vida noturna

Preços: vinte e
sete contos o quilo
no Mercadão de
Madureira ou

trinta e sete
(ágio de dez paus)
nos açougues febris
da rede Mundial

O jeito é pegar
um 254 na madruga
ou encarar de frente
o trem da Central


2. Embrulhe o fracasso
com jornal de ontem


3. Afogue duas postas numa
panela de barro contendo
dois litros de vinho barato

Salgue e asse
em fogo alto

Enfeite o prato
com uma dúzia de

amóreas secas + 100 g
de fios de óvulos


4. Aí vai ele
numa baixela dourada
ridícula - duas
palavras
em francês fajuto
farão sorrir amarelo

o rapaz de
meia-idade e enrubescer
as bochechas
gentis suburbanas
à mesa

Rende
para uma duas três
mil pessoas


Posologia


Uma vez
hiperdosada
vai-se a bula ao
mar de bile

§§§

Três torres, dois séculos, um dia

A primeira tornou-se mito
ao servir de suporte à loucura
de um poeta farto dos homens
a não ser por certa Susette
falecida quatro anos antes
dele abrir seu prontuário
no manicômio de Tübingen
em 11 de setembro de 1806

As outras chamavam-se Gêmeas
cravadas no centro de Manhattan
bombeando usura aos quatro cantos
da Terra – ainda estariam lá
não fora um tresloucado
do Extremo Oriente Médio
explodir ambas de uma vez
em 11 de setembro de 2001

(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)

§§§

Sweet Lou Reed


Sattelite's gone up to the skies
things like that drive me out of my mind
I watched for a little while
I like to watch things on TV
("Sattelite of Love", 1972)



I. Wild Intro 6:6

Fora de si: Lou Reed
no tranco da heroína
há dias sem comer
remoendo a visão
da planície lunar
diante da TV

II. Portrait of the Artist as a Young Fan 2:5:7

Na década de setenta
enquanto Lou patinava
pelas ruas de Manhattan
torrando pacos de dólares
em seringas e michês

o poeta era um garoto
forçado a ler e escrever
enquanto engolia a escória
da América, via satélite
sentado, em frente à TV


III. Cyber Code 3:4:5

Em noventa e dois
(vinte anos depois)
Lou aparecia
num show da turnê

Zoo TV, cantando
"Sattelite of Love" –
Bono Vox ao centro
do palco, Lou Reed

num telão acima,
ao vivo e a cores –
para milhões de
telespectadores.


(publicado originalmente no número impresso de estréia
da Modo de Usar & Co.)

§§§

Retrato Cubista (para cdcl)

Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e

o amor através -

além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -

do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -

então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -

esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso

(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)

4 comentários:

redni disse...

é realmente uma grande perda de um grande amigo que foi o LEo (o nosso Lou Reed).

Heitor disse...

Nem sei o que dizer. Curtia muito esse cara. Estou triste! Abs, Heitor

Paloma Reyes de Sá disse...

Baba... te amo meu amigo...

Camilla Lopes disse...

Essa foto é linda.
é...o buraco que fica.