segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Carlito Azevedo


(Carlito Azevedo lê os poemas "Vaca negra sobre fundo rosa", "Sobre portas" e "Uma tentativa de retratá-la")

.


Carlito Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. É editor da revista Inimigo Rumor e coordenador da coleção de poesia contemporânea Ás de colete da editora Cosac Naify. Publicou os livros Collapsus Linguae (1991), As Banhistas (1993), Sob a Noite Física (1996) e Versos de Circunstância, em 2001, ano em que reuniu a maioria de seus poemas na antologia Sublunar (1991-2001).

Collapsus Linguae é tomado, em várias narrativas historiográficas sobre a poesia da década passada, como um dos marcos daquela que seria pouco a pouco estabelecida como a primeira geração de poetas a surgir após a retomada democrática brasileira, ainda que sejam poetas herdeiros dos embates ideológicos que definiriam o debate est-É-tico a partir da década de 70. O livro de estréia do poeta carioca viria a ganhar o prêmio Jabuti e se unir a outras obras do período, importantes para a formação da narrativa da sensibilidade hegemônica do início da década, com desdobramentos que chegam a nossos dias.

Quanto à pluralidade de propostas da década de 90, o próprio Carlito Azevedo escreveu, em um artigo publicado no Jornal do Brasil, sobre uma possível contextualização historiográfica do trabalho poético dos autores de sua idade a partir da passagem de um momento histórico de bipolaridade a um contexto político de pluripartidarismo, que seria lido na multiplicação de propostas consideradas viáveis para os poetas ativos na década. Neste aspecto, seria também interessante pensar em um acontecimento daquele período que marcaria de forma triste o surgimento de uma nova geração de poetas na década de 90: a morte de Paulo Leminski em 1989, um dos poucos poetas que tentaram resolver o aparente duelo entre o construtivismo dos grupos brasileiros de retomada das estratégias das vanguardas na década de 50 e o "informalismo" de certa poesia brasileira da década de 70, unindo-os numa obra que se faz relevo em cicatrização destes dualismos. A narrativa oficial que procura entender a poesia surgida a partir da década de 70 como uma queda-de-braços entre pós-concretistas e marginais cariocas é conhecida demais para que seja necessário retomá-la aqui.

A busca por esta pluralidade poética e o estabelecimento de seu discurso tornaram-se comuns e essenciais durante a década de 90, vistos como saída para as contendas pouco saudáveis que entrincheiraram a crítica entre os anos 70 e 80, estabelecendo reputações e silenciando a voz dos poetas que não se encaixavam confortavelmente no discurso historiográfico de então.

Durante a década de 90, esta sensibilidade hegemônica viria a basear-se em certos conceitos de objetividade e concisão, lidos na obra de poetas como João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos, e unidos a ideais de autonomia estética perante o social e político. Após décadas de erros, durante o século XX, na tentativa de estabelecer uma poética de implicações éticas que pudessem guiar uma Estética sem distorções ideológicas, parecia saudável, naquele início de década, que os poetas e artistas se entregassem a um trabalho com a linguagem em que o ato ético mostrava-se na própria separação e dissociação do artístico e do político, recorrendo a uma tradição tal qual foi relida pelos poetas do chamado Alto Modernismo. Poderíamos ver nesta postura a resistência política pela negatividade e não-aceitação do tempo caótico presente, como propõe Theodor Adorno no ensaio "Lírica e sociedade", sendo esta autonomia do estético, porém, o que Fredric Jameson viria a chamar de conceito fundador do "modernismo como ideologia", ou seja, uma ideologia em si.

No entanto, isto possibilita a alguns dos poetas da primeira metade da década de 90 uma leitura da tradição e das melhores lições de poetas como João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Paulo Leminski e Ana Cristina César, assim como poetas estrangeiros traduzidos naquele momento, para criarem caminhos e preocupações distintas das que ocuparam os poetas das décadas imediatamente anteriores. Possibilita a eles a produção de parâmetros de qualidade que gerariam alguns dos livros importantes do período, como (cito apenas 4 autores como exemplos, sem qualquer pretensão de lista canônica) o já citado Collapsus Linguae, de Azevedo; Ar (1991) e Corpografia (1992), de Josely Vianna Baptista; Festim (1992), de Ricardo Aleixo; ou Os dias gagos (1991) e Saxífraga (1993), de Cláudia Roquette-Pinto. Este último é publicado no mesmo ano em que Carlito Azevedo lança seu belo As Banhistas, que eu, pessoalmente, vejo como um dos momentos e pontos mais altos atingidos a partir destes parâmetros. Pertence a este livro um dos poemas mais conhecidos de Carlito Azevedo, o texto "Nova passante":

Nova passante

1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
……………..te dedicaria
um concerto
…………………para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteiro de silêncios
………esta salva de arrepios)


Este poema é um exemplo do excelente trabalho imagético na poesia de Carlito Azevedo, e As Banhistas é, de forma justa, considerado um dos livros mais bem cuidados da década. No entanto, a partir deste livro, Carlito Azevedo passa de certa forma a questionar muitos dos parâmetros críticos hegemônicos do momento, coincidindo com o início de suas atividades como editor de poesia na revista Inimigo Rumor. Talvez por perceber que este ideal de autonomia estética, ligado naquele momento a um conceito equivocado de "trans-historicidade" que alguns passam a confundir cada vez mais com sincronia histórica (apregoada, a partir de meados da década de 80, pelo que chamo de "manifesto do poema pós-utópico", de Haroldo de Campos), levava a uma crescente "estetização da experiência", Carlito Azevedo passa a buscar novos parâmetros, em que o ético e o estético novamente se unissem, prezando o que eu chamaria de “consciência contextual” e um trabalho com a linguagem que se assume e expõe honestamente como artifício e deliberação, longe de certa ingenuidade objetivizante que passa a grassar pela poesia daquele momento, em poemas meramente descritivos. Eu tomaria dois poemas de Carlito Azevedo como exemplos desta nova sensibilidade: "Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno" e "Do livro de viagens", em que o autor permite a entrada "wittgensteinianamente" honesta do sujeito contextualizante e incontornável, assim como a criação poética exposta como artifício consciente, "jogo de linguagem."

Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno

O carro avariado junto à moita de espinheiros
logo após a derrapagem, eis a circunstância.
Mas
......... – é claro –
..................havia um amor fazendo
tudo doer. E, no banco de trás, a nuvem de
conhaque e marijuana de onde emergiam,
iluminados, sépia, os rostos de K. e
da jovem índia.
..........."Estranho a coisa toda não
parecer um pesadelo", dizia Aníbal, "com
tanta lua, a world music dos animais de
beira de estrada."
.............Mas o poema ia crescendo,
como a ferrugem nas pontas espinhentas da
lataria, junto à moita de espinheiros,
logo após a derrapagem.


Neste poema, vemos a invasão/filtragem contextual que Carlito Azevedo evitara em muitos poemas de seus dois primeiros livros, tornando-se cada vez mais presente a partir do livro Sob a Noite Física. Além disso, a técnica de leitura que Azevedo passa a usar para seus textos quando os oraliza, demonstra também uma compreensão das exigências distintas entre a poesia como manifestação literária e como performance oral, sem hierarquias, como no arquivo de som que mostramos abaixo, da oralização que o poeta fez na Universidade Federal Fluminense no ano passado:

Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno - Carlito Azevedo
(Oralização de Carlito Azevedo para seu poema “Sobre uma fotonovela de Felipe Nepomuceno)

Considero também o poema "Do livro de viagens" uma espécie de prisma privilegiado para compreendermos uma sensibilidade est-É-tica que passa a se tornar mais clara a partir da segunda metade da década, já presente, de certa forma, na poesia de Carlito Azevedo e Aníbal Cristobo, mas estrutural na "lírica analítica" de Marcos Siscar e na poesia de autores dos últimos anos, como Marília Garcia e Juliana Krapp. Neste poema, a alegria do trabalho poético como artifício e jogo de linguagem, sem pretensões ingênuas de objetividade (que mascaram, em muita poesia que se quer "objetiva", um subjetivismo desonesto e calcado na percepção monolítica do poeta), em um poema que não é celebração da presença nem lamento da ausência, mas linguagem em performance, fazendo-se fronteira que une e institui concreto e abstrato, realidade e língua.

Do livro de viagens

Liliana Ponce não esqueceu o seu casaco no salão de chá
Liliana Ponce nem estava de casaco
(No Rio de Janeiro fazia um belíssimo dia de sol e dava gosto olhar cada ferida
...........[exposta na pedra)
Liliana Ponce, conseqüentemente, não teve que voltar às pressas para a casa de chá
(a garçonete com cara de flautista da Sinfônica de São Petersburgo não veio
...........[nos alcançar à saída acenando um casaco esquecido)
Desse modo Liliana Ponce chegou a tempo de pegar o avião
Partiu para a Argentina

Seu trabalho, a partir daí, busca um equilíbrio e existência na fronteira entre a objetividade de uma lírica analítica e o salvaguardar de uma possível subjetividade em meio às obrigações políticas do poeta, e Carlito Azevedo é hoje um dos poetas mais ativos do país como autor, tradutor e editor. Seus poemas inéditos têm sido publicados por diversas revistas, incluindo a Modo de Usar & Co., que publicou em seu número de estréia os inéditos "Sobre portas" e "Uma tentativa de retratá-la", que Carlito Azevedo oraliza no vídeo exclusivo da Modo de Usar & Co. mostrado no início desta página, junto de seu conhecido e belo "Vaca negra sobre fundo rosa". Temos o prazer de encerrar esta postagem sobre Carlito Azevedo com um texto inédito, publicado aqui com exclusividade, chamado "O tubo".

--- postagem preparada por Marília Garcia e Ricardo Domeneck.

Vídeo e arquivo de áudio: Marília Garcia.
Texto de apresentação: Ricardo Domeneck.

§

POEMAS DE CARLITO AZEVEDO
incluindo o inédito O TUBO:



Vaca negra sobre fundo rosa


Até os cinco anos de idade jamais havia visto um trem de carga;
e até os oito jamais um meteorologista.
...........A garota com sombrinha chinesa
foi um dia a minha garota com sombrinha chinesa, e a este
que brinca na areia da praia chamamos nosso filho, pois
é o que é, como a bola azul em suas mãos é a bola azul
em suas mãos e o verão é outra bola azul em suas mãos.
As coisas são o que são e sei que antes de precisar
outra vez barbear-me já terão voltado para o frio
de seu novo país. E talvez em meus sonhos
voltem a fazer falta as três dimensões
desse mundo espesso, sublunar, como
uma vaca negra sobre fundo rosa.


§


Sobre portas


"Atravessando cidades populosas
(como disse Walt Whitman traduzido por Konrad Tom)"
Czeslaw Milosz



Quando este mundo com cara de Goya
(como disse Lawrence Ferlinghetti traduzido por Leminski)
dissolve sabe-se lá que matéria impura do fundo mais espesso de
seu centro incandescente e ergue, batendo-as, portas de ferro contra
nossas caras e pretensões democráticas, não há nuvem que não deslize
pelo seu como uma irisada serpente de gás, não há estrelas que
não esboce o gesto de reter a própria luz, mas tudo o que
vemos, tudo o que podemos ver por trás de nosso
humilde balcão pós-metafísico é a hesitação do
encanador e da pantera frente às duas portas
paralelas que se dublam no jogo de
espelhos das boates com as
seráficas setas do Damas
e do Cavalheiros.

§

Uma tentativa de retratá-la


Num dancing é mais difícil
pela chuva ácida dos reflexos,
íris hipnótica e sentidos desfolhados
na viagem circular absoluta pela
pista. Mas o século 21 preservou
ainda as bibliotecas, sistema de
sistemas que nos permite pressupor
que em sua bolsa convivam,
como dois faunos se encarando,
Lancôme e La Celestina.
Mas bibliotecas são também
esforços infinitos, fluxos imparáveis,
luminescentes, olhos em
zig-zag, vibração de mãos
pousando em páginas antigas,
com mandíbulas de bolor, e
todos os relâmpagos que há nisso.
Um derradeiro "motivo" seria o da
Jovem Em Um Carro Veloz
Falando Ao Celular; clausura
móvel onde soletrar palavras de
amor e perder tudo, manipular
as intermitências do desejo (e
perder tudo), imolar violetas
retardatárias. O planeta também
imola seus retardatários. Entre
operários na calçada, no frio,
aguardando a sirene da mudança
de turno? Talvez, talvez. De
certo modo ela se parece cada
vez mais com o que escreveu
o seu poeta favorito:
"Piccolo, sempre piú piccolo.
Pigmeo, sempre piú pigmeo."
Por isso nem dancings, nem
bibliotecas nos bastam. Nem
a balada do automóvel insone.
Isso, e nem a cama alta onde
agora, contudo, sorri
esse shakespeariano animal
que logo existe.

§

POEMA INÉDITO DE CARLITO AZEVEDO

O tubo

Parte 1: Paraíso

Foi quando a luz
voltou e vimos
o rosto da jovem
que se picava junto
à mureta do Aterro,
a camiseta salpicada,
a seringa suja.
“Nenhum poema
é mais difícil
do que sua época”,
você disse
em meu ouvido
sem que eu soubesse
se era a ela que se
referia ou se ao livro
que passava das mãos
para o bolso
da jaqueta.
Distinguimos
lá longe
a Ilha Rasa,
calçamos
os tênis
e seguimos
sem atropelo
sentido enseada.




Parte 2: Purgatório

...........(nas paineiras)


eu disse: você
podia por favor
responder mais uma
vez àquela minha questão?
eu disse: vamos aproveitar
esse sol frio, belo,
que furou as nuvens,
essa boa caminhada
até o estacionamento,
e conversar mais um
pouco sobre aquilo?
eu disse: eu entendi bem
o que você disse
mas depois acabei
me distraindo, me
distraí com alguma
coisa, não sei bem
o quê, talvez
a coragem daquelas
mulheres sob a
queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo
ou o que gritavam
aquelas mulheres sob
a queda da água
tão fria que explodia
rochedo abaixo,
talvez os lagartos
que, assustados,
disparavam espavoridos
rochedo acima,
espessura a dentro.
eu disse: os lagartos
mudavam de cor.
eu disse: o fato é que eu
queria que por
favor você me
repetisse aquilo
que me disse.
será que você poderia
repeti-lo? eu disse:
às vezes
eu sonho com
um grande acidente.
e eu às vezes sonho
com átomos se reunindo
para gerar aquilo
que podemos chamar de
o grande acidente,
the big one,
com que cada um
cedo ou tarde
vai ter que se
enfrentar e ver.
eu disse: e é sempre
como um país
se dando conta
de que entrou
em guerra, um dia
um país se dá conta
de que a guerra
de que todos falam é
a sua guerra, o
país é o seu
país, e o que chamam
de a guerra é a
sua vida. eu disse:
por exemplo,
abra os olhos e veja:
num zeptossegundo
não há mais lagartos
agora, nem rochedo
agora, ou queda
d'água tão fria
agora, ou mulheres
gritando agora
as coisas mais
singulares
e irrepresentáveis,
e tudo se passa
em uma espécie
de videostream ou
“uma lacuna na
vida ou na linguagem
por onde penetram
nossos antagonistas”.
eu disse: viu?
é exatamente assim
que ocorre
em meus acidentes.


*

eu disse:
eu me lembro
que você falou
qualquer coisa que
tinha a ver com
presença e metafísica.
eu disse:
ah, ali está o carro
o 4X4 vermelho
bem debaixo
daquelas árvores,
debaixo daquela chuva
de pétalas amarelas,
roxas, desmanteladas.
outro dia qualquer
antes de sua volta
aprenderei o nome
de todas essas árvores
sobre as quais
você me pediu
informações que
eu não estava
tampouco
apto a fornecer,
está bem? eu disse:
me ocorreu agora
lhe perguntar se você
seguiu em frente
com os escritos?
você gostava muito
dos escritos, de escrever,
como dizíamos,
e você tinha umas
idéias verdadeiramente
luminosas sobre isso,
garota. eu disse:
você não vai me
levar a mal e vai
me fazer esse favor,
de repetir o que
respondeu à minha
questão, não é?
vai significar
muito para mim, sabia?
bem, talvez
você não se lembre
afinal tudo era meio
interrompido
pelas risadas que a
gente dava e pelo
espanto que a gente
sentia ao ver que
nuvens enormes,
as mais gigantescas
da temporada e, de fato,
da cor do chumbo,
da cor da cor do chumbo,
e nem que eu repetisse
isso mil vezes
daria uma idéia de como
eram da cor da cor do chumbo
aquelas nuvens
que cobriam completamente
a paisagem que a gente
tinha feito tanto esforço,
tinha caminhado tanto
tempo para ver,
para achar uma localização
mais alta possível
para ver e acabou
não dando certo
ou melhor,
tudo deu certo se
como você disse
o nosso plano secreto,
secreto até para
nós mesmos,
era procurar
o melhor mirante
das paineiras para ver
as nuvens mais colossais
e cor do chumbo
e cor da cor do chumbo
da temporada cobrindo
o céu e a paisagem, não é?
o que não seria
de modo algum
desprezível
do ponto de vista
do místico que dizia
fumar para pôr
um pouco de névoa
entre ele e o mundo.
eu disse: eu preciso
lhe dizer o que gravei
como sendo o que
aproximadamente
você disse,
mas é claro que
não vai ser o
que realmente você
disse, é apenas
uma adaptação
e que por isso
mesmo só pode existir
embaciando a
informação original,
só se dará como pálida
sombra da coisa
em si brilhante e luminosa:
o seu objeto singular.
e se lhe repito essas
palavras não é para que
você pense que eu
por um instante sequer
imaginei que você
fosse capaz de dizer
uma coisa óbvia,
por favor, não lhe passe
algo do gênero
pela cabeça,
é apenas para que
você saiba do que
estou falando e me
recorde e explique,
devolvendo ao tópico
toda a complexidade
que
a contra-gosto
lhe subtraí.

*

eu me lembro que você
mexeu um pouco esse
seu cabelo tão bonito
e eu me lembro
que ele fez um som
ou
nem era um som
e sim algo que deve
proceder do micromundo
das vibrações sonoras,
e eu fiquei arrepiado,
me arrepiei, a nuca
inteira, de imediato, e
depois você também
espantou uma abelha
acintosa que bordejava
a sua latinha e então
você disse qualquer
coisa assim:
“como não tenho
mais questão alguma
com a metafísica, eu
não fico esperando por
alguma presença para
experimentar o que
experimento, experimento
todos os dias.”
acho que se então
acabei meu distraindo,
me distraí, foi
porque algum tempo
depois – você lembra?
tínhamos dado no
máximo uns vinte
passos sobre o morro –
se abriu um buraco
no meio das nuvens,
um tubo ou coisa assim,
que trouxe até nós,
de cima:
o sol, brilhando
com os seus cem sóis,
e de baixo:
o fundo do abismo,
a cidade,
o torvelinho,
o renque de palmeiras
de alguma rua
irreconhecível
ao menos para mim,
mas que eu gostaria
de ficar olhando por
um longo, indeterminado
tempo de uma tarde
de verão, e por um segundo
fez todo o sentido do mundo
o nosso absurdo ir e vir
por entre atletas,
gramíneas,
quedas d'água e
cães malabaristas,
foi mesmo como se
de repente se rompessem
as cordas podres da
percepção, mas só
porque junto com a
visão daquele sol
e daquele deslumbrante
mundo inferior
com trânsito pesado
e renque de palmeiras
vinha a melodia
pigarreada das
nossas vozes dizendo
o que diziam e como,
e os rumores de tudo ali:
os atletas, os lagartos,
as quedas d'água, os
cães malabaristas e
tudo o que então
poderia
num zeptossegundo
ter sua escala
de grandeza modificada
e sua existência posta
em dúvida num acidente
também colossal.

*

eu disse:
acho que você tinha
que pensar bem
naquilo dos escritos,
eu gostei dos seus
escritos desde sempre,
você sabia?
eu disse:
eu sinceramente não
sei como você conseguiu
chegar de modo tão rápido
e definitivo a algo
que para mim permanece
indefinível e
inesgotável
fonte de sobressaltos.
o que você escrevia
tinha a capacidade
de produzir de imediato
com tão poucas palavras
algo que estabelecia
uma completa relação
entre consciências
desencantadas
que me deixava
absolutamente encantado.
eu disse:
claro que vão deixar
você escrever por lá,
tem cabimento uma dúvida
dessas? eu disse:
ei, para que tipo de lugar
você pensa que está
sendo levada, garota?

*

oxalá eu não tenha
também mais questões
com a metafísica e
a presença, como
você bem disse
e meu caso se resuma
ao fato de que
simplesmente sou
uma pessoa do silêncio,
de sua equipe,
ou melhor,
o silêncio é meu
equipamento.
eu disse:
o silêncio
é meu equipamento.
mas me diga (eu disse)
não era uma coisa assim,
que partia dessa base
que expus de forma
sumaríssima, mas
que em sua voz e
expressão sabia
logo desdobrar
um rol de conseqüências
inesperadas, desfolhar
um jorro de pertinências
agudas, corrosivas,
como as pétalas da
sick rose,
fazer um giro
desregrado
potente e incisivo,
até magnificar-se
em uma formulação
a um só tempo
límpida e biunívoca?

Parte 3: Inferno
.....................povres fameletes
.....................povres hospitaulx
..........................povres gens

..........................povres gensf. villon

Você a reconheceu
como sendo a menina
coreana da Central
de Fotocópias do Catete
aquela com
camiseta salpicada
presilhas fluo
mureta
e hipodérmica pendente
do braço
e me abraçou e
me olhou com um olhar
que me atravessava
e ia atingir
atrás de mim
bem lá na frente
no bazar futuro dos dias
no meio das bugigangas
espelhadas, espalhadas
um outro crepúsculo cinza
uma outra noite chuvosa
e sem luz
em que veríamos
o inferno refletido
nos olhos de um
vira-latas que cruzava
as pistas do aterro
varado pelos
feixes dos faróis
(relâmpagos de
nenhum céu)
dos 4x4
a toda velocidade

10 comentários:

Anónimo disse...

eu acho duca o trabalho de vocês.
parabéns!

Anónimo disse...

por que esse blog não é aberto? pot que o moderador tem de aprovar o que vai ou não ser publicado? ai, ai, os velhos fascitinhas de plantão, sempre mediando o que pode e o que não pode ser visto...

modo de usar & co. disse...

Caro anônimo,

aqui está o seu comentário. Veja que vitória da democracia. Não precisa ter medo, pode assinar e fazer sua inteligente contribuição ao debate. Abraço dos editores.

Anónimo disse...

acho que nosso obscuro comentador foi um pouco infeliz nos seus comentarios, mas foi também pq ja estimulou a resposta do Ricardo, que por sua vez estimulou minha fertil cabecinha. acho maravilhoso o trabalho de vocês, apresentando novos poetas ( não necessariaente novos, mas no minimo novos para mim). o post sobre o carlito foi um dos melhores ate agora. E não só pq eu gosto muito da poesia dele, mas pq a contextualização que vcs fizeram desfez uma serie de mal entendidos que ouvi sobre o Carlito e a poesia dos 90, quando vim morar no Rio em 2006. muito bo mesmo, repito. o poema inedito, é DESLUMBRANTE!!!!! O carlito é sem duvida uma figura fundamental para entender a poesia atual no Brasil, não só por seu trabalho como poeta, mas como editor, incentivador e professor das oficinas de poesia (que nos deu a angelica freitas) e tradução, o único defeito que eu vejo nele é a má vontade em responder a e-mails.

Lucas Nicolato disse...

não saquei qual é a do sr. anonimo...

bom, deixa pra lá.

só queria dizer que sempre sinto falta do arnaldo antunes nesse blog. seria bacana um post sobre ele.

abraço,
lucas

modo de usar & co. disse...

Caro Lucas,

gravei uma das performances de Arnaldo Antunes no Festival de Poesia de Berlim, e já faz um tempo que tento editar o vídeo para preparar uma postagem sobre o trabalho dele. Para entender as novas propostas verbivocovisuais dos últimos anos, há três poetas brasileiros incontornáveis, em minha opiniao: Philadelpho Menezes (1960 - 2000), Ricardo Aleixo e Arnaldo Antunes. Planejamos postagens sobre os três.

Grande abraço,

Ricardo Domeneck

modo de usar & co. disse...

Por insistência de Heitor Ferraz, seu comentário de 10 de outubro de 2008 foi removido deste blog. Este espaço continua aberto para qualquer pessoa interessada em debater o trabalho dos poetas aqui apresentados, assim como a maneira como eles são aqui abordados.

A resposta de Ricardo Domeneck, consequentemente, também foi retirada. Ela será reestruturada como comentário e novamente publicada aqui pelo autor.

Os editores.

Nora disse...

Carlito, que poesia linda esta que fala do passeio nas Paineiras.

Estou sob o impacto, meu dia se recupera nas suas palavras, assim eu posso flutuar um pouco mais feliz.

E é isso, quando a conversa toma tom nítido, vem as impressões, intrínsecas ao que é realmente válido. Afinal, tudo era meio interrompido
por uma distração. Já pensou a delícia que seria qquer conversa assim?


me diz onde você arranja uma abelha
acintosa que bordejava
a sua latinha
é nesse tipo de imagem o pulso do que considero a boa poesia

Bjs

Nora

Anónimo disse...

Foi muito bom para mim tudo o que li de você. Obrigado.
Junto a minha homenagem com:

RECADO PARA ANA

Posso compreender que em ti pouco corresponda ao que gostarias de ser Ana, contudo o teu sorriso é muito bonito
apesar dos óculos, da palidez, da sombra que te faz parecer frágil, desajustada e
entrar à defesa em qualquer relação.

Por isso nos últimos tempos tens evitado
expor-te muito e neste caso
a Internet facilita bastante a imaginação.

A violência sobre ti foi exercida
apenas com palavras, gritos alguns actos
impedem-te agora de te sentires mais serena
e conformada.

A distância tem-te protegido das angústia
de rejeição. Longe ningém pode agravar muito
o que em ti já existia.

A Net é a filha mais nova
da solidão

António Tropa

Queluz Portugal

S.Ribeiro disse...

Carlito é UM POETA. Plenamente isso!
Vai ter talento assim lá em casa...
Abraços.