
Publicado nos Estados Unidos em 1996 com o título Wittgenstein´s Ladder, este livro de Marjorie Perloff é um trabalho crítico inteligentíssimo e apaixonado, extremamente útil para a discussão das possibilidades e desdobramentos est-É-ticos das últimas décadas. Unindo-se ao seu The Poetics of Indeterminacy (infelizmente ainda inédito no Brasil), Perloff dedica-se nele a uma investigação das mais interessantes poéticas contemporâneas sob o signo do pensamento lingüístico de Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951).
Para isso, ela toma dois eixos temporais:
§ - o período de redação do primeiro livro de Wittgenstein, o Tractatus Logico-Philosophicus, iniciado antes da Primeira Guerra Mundial (este divisor de águas para as primeiras vanguardas), sua mutação durante a guerra, em cujas trincheiras Wittgenstein luta, e sua publicação em 1922: o anno mirabilis dos Modernismos Internacionais. Para os que temem o "biografismo" e a tendência a eclipsar o estético diante da manifestação de uma ênfase biográfica, o ensaio que abre o livro é uma lição de inteligência em como um crítico pode usar elementos da vida do autor para entender a redação de um trabalho literário, poético e filosófico como o Tractatus. Perloff argumenta que, sem a experiência de Wittgenstein nas trincheiras, o Tractatus teria sido o que ele primeiramente projetou: um ensaio sobre Lógica. É com a vivência e contemplação da morte e destruição na guerra que Wittgenstein inicia seu questionamento sobre a natureza do sentido da existência, com uma espécie de lucidez mística em suas proposições em face de Deus e da morte. Perloff então estuda contemporâneos de Wittgenstein como Gertrude Stein, que não poderia ter conhecido a obra do judeu homossexual austríaco.
§ - o segundo momento é o período de redação da obra final de Wittgenstein, as Philosophische Untersuchungen (Investigações Filosóficas), publicadas em 1953, dois anos após a morte de seu autor. Também redigidas com uma guerra como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial, Perloff estuda este trabalho e a obra de escritores e poetas em quem a sensibilidade da poética que se depreende dos escritos de Wittgenstein começa a se fazer sentir, ainda que de forma "inconsciente." Perloff estuda autores que iniciaram suas obras na década de 50, como Robert Creeley, Samuel Beckett, Ingeborg Bachmann e Thomas Bernhard.
Os últimos capítulos são dedicados a escritores que escrevem claramente sob o signo da "filosofia" de Wittgenstein, como Rosmarie Waldrop e seu livro The Reproduction of Profiles ou o trabalho de um poeta conceitual como Joseph Kosuth.
A Escada de Wittgenstein é indispensável para qualquer jovem poeta que esteja interessado em uma atitude crítica diante do trabalho poético. É um exemplo do trabalho crítico que gosto de chamar de "cúmplice", como The Pound Era, de Hugh Kenner ou O Ser e o Tempo da Poesia, de Alfredo Bosi, entre outros exemplos de críticos que assumem o risco proposto por Walter Benjamin: o de tomar partido. Crítica que se posiciona também como manifestação histórica, ideologicamente consciente.
Este livro de Perloff fornece ainda perspectivas interessantes para a abordagem crítica do trabalho de certos poetas brasileiros contemporâneos, como Marcos Siscar e Marília Garcia.
Melhor ainda se este livro de Marjorie Perloff também incitar os jovens poetas brasileiros a lerem o próprio Ludwig Wittgenstein, o pensador mais interessante para a criação e compreensão de uma "poética de inplicações" nos dias de hoje, assim como Wittgenstein é o melhor estudioso de uma poética de contextualização e de nossa necessidade de uma Est-É-tica.
§
Jovens poetas, agarrem o livro.
A ESCADA DE WITTGENSTEIN :
A Linguagem Poética e o Estranhamento do Cotidiano
de PERLOFF, Marjorie
trad. BERNARDINI, Aurora Fornoni ; LEITE,Elisabeth Rocha
EDUSP
ISBN: 8531410215
Formato: 16x23 cm
Nº de Páginas: 306 pp.
--- nota de Ricardo Domeneck
3 comentários:
Li ontem num texto do Caetano que numa biografia do wittgenstein que a Carmem mirandos eria uma das cantoras favoritas dele. engraçado, né?
oi Ricardo, tudo bem?!
Então, valeu pelos 'elefanets" lá no pesa...
lembrava dos outros, mas não me lembrava do Max...
abração!!!
É um livro delicioso desde a escolha dos livros a serem observados: nada que achei do Creeley até hoje me pegou tanto quanto os trechos que ela cita do livro Away dele.
Recomenda-se fortemente!
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