quarta-feira, 24 de setembro de 2008

"A Escada de Wittgenstein", de Marjorie Perloff


Publicado nos Estados Unidos em 1996 com o título Wittgenstein´s Ladder, este livro de Marjorie Perloff é um trabalho crítico inteligentíssimo e apaixonado, extremamente útil para a discussão das possibilidades e desdobramentos est-É-ticos das últimas décadas. Unindo-se ao seu The Poetics of Indeterminacy (infelizmente ainda inédito no Brasil), Perloff dedica-se nele a uma investigação das mais interessantes poéticas contemporâneas sob o signo do pensamento lingüístico de Ludwig Wittgenstein (1889 - 1951).

Para isso, ela toma dois eixos temporais:

O período de redação do primeiro livro de Wittgenstein, o Tractatus Logico-Philosophicus, iniciado antes da Primeira Guerra Mundial (este divisor de águas para as primeiras vanguardas), sua mutação durante a guerra, em cujas trincheiras Wittgenstein luta, e sua publicação em 1922: o anno mirabilis dos Modernismos Internacionais. Para os que temem o "biografismo" e a tendência a eclipsar o estético diante da manifestação de uma ênfase biográfica, o ensaio que abre o livro é uma lição de inteligência em como um crítico pode usar elementos da vida do autor para entender a redação de um trabalho literário, poético e filosófico como o Tractatus. Perloff argumenta que, sem a experiência de Wittgenstein nas trincheiras, o Tractatus teria sido o que ele primeiramente projetou: um ensaio sobre Lógica. É com a vivência e contemplação da morte e destruição na guerra que Wittgenstein inicia seu questionamento sobre a natureza do sentido da existência, com uma espécie de lucidez mística em suas proposições em face de Deus e da morte. Perloff então estuda contemporâneos de Wittgenstein como Gertrude Stein, que não poderia ter conhecido a obra do judeu homossexual austríaco.

O segundo momento é o período de redação da obra final de Wittgenstein, as Philosophische Untersuchungen (Investigações Filosóficas), publicadas em 1953, dois anos após a morte de seu autor. Também redigidas com uma guerra como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial, Perloff estuda este trabalho e a obra de escritores e poetas em quem a sensibilidade da poética que se depreende dos escritos de Wittgenstein começa a se fazer sentir, ainda que de forma "inconsciente." Perloff estuda autores que iniciaram suas obras na década de 50, como Robert Creeley, Samuel Beckett, Ingeborg Bachmann e Thomas Bernhard.

Os últimos capítulos são dedicados a escritores que escrevem claramente sob o signo da "filosofia" de Wittgenstein, como Rosmarie Waldrop e seu livro The Reproduction of Profiles ou o trabalho de um poeta conceitual como Joseph Kosuth.

A Escada de Wittgenstein é indispensável para qualquer jovem poeta que esteja interessado em uma atitude crítica diante do trabalho poético. É um exemplo do trabalho crítico que gosto de chamar de "cúmplice", como The Pound Era, de Hugh Kenner ou O Ser e o Tempo da Poesia, de Alfredo Bosi, entre outros exemplos de críticos que assumem o risco proposto por Walter Benjamin: o de tomar partido. Crítica que se posiciona também como manifestação histórica, ideologicamente consciente.

Este livro de Perloff fornece ainda perspectivas interessantes para a abordagem crítica do trabalho de certos poetas brasileiros contemporâneos, como Marcos Siscar e Marília Garcia.

Melhor ainda se este livro de Marjorie Perloff também incitar os jovens poetas brasileiros a lerem o próprio Ludwig Wittgenstein, o pensador mais interessante para a criação e compreensão de uma "poética de inplicações" nos dias de hoje, assim como Wittgenstein é o melhor estudioso de uma poética de contextualização e de nossa necessidade de uma Est-É-tica.

Jovens poetas, agarrem o livro.

---  Ricardo Domeneck

:

A ESCADA DE WITTGENSTEIN :A Linguagem Poética e o Estranhamento do Cotidiano

de PERLOFF, Marjorie
trad. BERNARDINI, Aurora Fornoni ; LEITE, Elisabeth Rocha
EDUSP
ISBN: 8531410215
Formato: 16x23 cm
Nº de Páginas: 306 pp.

.
.
.


4 comentários:

marcio junqueira disse...

Li ontem num texto do Caetano que numa biografia do wittgenstein que a Carmem mirandos eria uma das cantoras favoritas dele. engraçado, né?

Pesa-Nervos disse...

oi Ricardo, tudo bem?!
Então, valeu pelos 'elefanets" lá no pesa...
lembrava dos outros, mas não me lembrava do Max...
abração!!!

LRP disse...

É um livro delicioso desde a escolha dos livros a serem observados: nada que achei do Creeley até hoje me pegou tanto quanto os trechos que ela cita do livro Away dele.

Recomenda-se fortemente!

Wellington V. Fochetto Jr. disse...

Esse homem (Wittgenstein) era louco. E eu também sou-ou-ou-ou... (risos)