segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Sebastião Nunes

Sebastião Nunes nasceu em Bocaiúva, Minas Gerais, em 1938. Estudou publicidade e direito, trabalhou como tipógrafo e fotógrafo (todos estes trabalhos e pesquisas viriam a ser usados mais tarde na produção de sua poesia textual e visual), e começa a publicar seus livros de poemas visuais, tipográficos e topográficos, a partir de 1968, unindo-se a uma geração de poetas de uma década de estranhos-no-ninho: Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003), Orides Fontela (1940 - 1998), Torquato Neto (1944 - 1972) e Roberto Piva, entre alguns outros poetas que, como Sebastião Nunes, souberam retirar das lições dos modernistas, e dos grupos de retomada de estratégias das vanguardas da década anterior, as implicações est-É-ticas necessárias para produzirem trabalhos que estão entre os melhores das décadas a caminho.

Escreveu também três romances: Somos todos assassinos (1980), Decálogo da classe média (1998) -, enviado a 120 intelectuais de todo o país dentro de um pequeno caixão de defunto - e História do Brasil — Estudos sobre guerrilha cultural e estética de provocaçam (1991, com reedição em 2000, pela Editora Altana, de SP). É o editor da Dubolso, que já publicou mais de 50 autores, entre eles Carlos Ávila, Rita Espeschit e Glauco Mattoso.

Seus poemas do período 1968 – 1989 foram reunidos nos dois volumes da Antologia Mamaluca e Poesia Inédita, de onde retiramos os trabalhos aqui apresentados, a partir do exemplar da antologia que se pode encontrar no Instituto Ibero-Americano de Berlim, Alemanha. Após a seleção, entramos em contato com o poeta mineiro, que preparou os poemas para esta pequena mostra.

Um dos mais hábeis satiristas da poesia brasileira contemporânea, como Glauco Mattoso, a poesia visual de Sebastião Nunes assume matizes complexos e diversos a partir de sua relação verbal e tipográfica de cada poema com sua página. É tentador ligá-lo primordialmente às experiências do Grupo Noigandres, que foram uma referência importante, mas a poesia visual de Sebastião Nunes liga-o também a outras tradições, tanto das primeiras vanguardas, como DADA e especialmente o Merz de Kurt Schwitters (1887 - 1948), como a certa poesia do secúlo XIX, a de Edward Lear (1812 - 1888) e Christian Morgenstern (1871 - 1914), ou às fatrasies medievais. Sua poesia satírica tem, obviamente, em Gregório de Matos, nas Cartas Chilenas de Tomás Antônio Gonzaga e na obra satírica de Bernardo Guimarães (Sebastião Nunes editou o "Elixir do Pajé") suas raízes brasileiras mais claras.

Uma das maiores lições de seu trabalho para poetas jovens é a qualidade excelente de sua escrita, que não usa o trabalho visual e tipográfico como álibi para fraquejar, mas encontra neles o cenário para seu apurado trabalho verbal, intensificado e contextualizado por eles. Em alguns, os textos sobrevivem e funcionam mesmo se separados do trabalho tipográfico. Em outros, a ligação é tão intrínseca que seria inútil tentar compreendê-los fora de seu contexto visual.

Estas diferenças e sutilezas podem ser vistas nos trabalhos apresentados aqui, em momentos de forte carga lírica (dizia Pound que Only emotion endures), como na linda "Canção para Dolores Duran", ou na grande densidade verbal de um texto excepcional como o do "Tratado geral de levitação":

(Clique nas imagens para aumentá-las. Quando necessário, as imagens são acompanhadas de seus textos, como legendas. Incentivamos os leitores, porém, a buscarem o texto em sua relação visual e tipográfica das páginas.)

Canção para Dolores Duran



Canção para Dolores Duran

Feia como a necessidade.
Cabeça feita. Excessivo amor. O vírus do desespero.
(Amava como um tubarão ao cardume de sardinhas.
Vivia como uma baleia arpoada.)

Um punhado de canções. Apenas um punhado impuro.
Mas estava tudo ali: palpitando como um olho.
(E saber que a roda do mundo se move por merdiotas!)

A metade da janela fechada. O sol recomeça.
Um pé moreno fora do lençol. 29 anos noturnos.
Tudo seria possível se não fosse tarde demais.



Abaixo, o excepcional "Tratado geral da levitação", um dos textos mais poderosos da poesia brasileira do pós-guerra.






Há momentos na poesia de Sebastião Nunes em que o satírico volta-se em ondas e dobras sobre o próprio poeta, em textos e imagens de um lirismo encharcado de self-deprecation, como em "Data vênia":



Data vênia

Sebastião nião choramingou sonetos aos 17 anos.
Bastião nunes tartamudeou contos aos 23 anos.
Sebastunes ião lastimou-se elegíaco aos 37 anos.
Tião nu vaiou-se neste poema aos 46 anos.



Na maior parte dos casos, o trabalho de Sebastião Nunes insere-se na própria linguagem e em sua tradição literária para desestruturá-las por dentro, num trabalho de guerrilha pessoal que está ligado à sua própria atitude como pessoa, longe da egolatria dos círculos literários, vivendo ao mesmo tempo obscuro e iluminado em Belo Horizonte.

Ode ao ponto final



Ode ao ponto final

Tudo o que começa, Mal, termina.
À sombra de um karma cochila outro karma.

Cadê o futuro que estava aqui? Fodeu-se.

(É muito tarde demais pra morrer jovem.
Os deuses desolados fecham a porta.)


Isto está ligado tanto à responsabilidade com que assume seu trabalho como poeta, quanto à atitude pacífica do que não quer cometer o erro da auto-canonização, num discurso de vítima que muitas vezes grassa entre poetas. Prefere satirizar-se a si e à "classe", como na série de poemas do "Poeta como..."








Encerramos com três poemas: "Descrição da vítima", em que o texto e sua tipografia assumem uma relação de significação inextricável, e os poemas visuais "Simples caso" e "Novo caso", que prescindem por completo do verbal. Após um encontro tardio com o trabalho de Sebastião Nunes, passei a considerá-lo, pessoalmente, um dos mestres da poesia brasileira contemporânea. Tomamos sua poesia, com respeito, na sintonia de nossa sincronia.---- nota, seleção e preparação da postagem: Ricardo Domeneck.


Descrição da vítima




Descrição da vítima

sua casa – pedra casca
sua rotina – gelada
salpicada – de boreal
cr – epús – culo
horizontal

a dama
em camisola
(vestal)



Novo Caso



Simples caso

4 comentários:

Paulodaluzmoreira disse...

Viva Sebastião Nunes!!! Tenho quatro livros dele que resgatei de uma biblioteca abandonada na faculdade de arquitetura da UFMG indiferentemente à beira da coleta [na época nada seletiva] do lixo.

eduardo siqueira disse...

e espaço para autores novos (brasileiros)
90's e 00's
a revista reserva?

poderia haver uma seção no site
seria bom conhecê-los/reconhecê-los

.

modo de usar & co. disse...

Eduardo,

não se esqueça que a Modo de Usar & Co. se manifesta de duas maneiras: como revista impressa e eletrônica. Não sei se você conhece o primeiro número impresso da Modo, mas publicamos muitos poetas jovens na revista, alguns deles ainda inéditos.

Por exemplo: Walter Gam, Juliana Krapp, Dirceu Villa, Franklin Alves Dassie, Diego Vinhas, Andréa Catrópa, Danilo Bueno, Rodrigo Ponts, Eduardo Sterzi, Veronica Stigger, Fabrício Corsaletti, Leonardo Martinelli, João Filho e outros.

Mesmo aqui na franquia eletrônica, já apareceram jovens contemporâneos internacionais como Cristian De Nápoli, Sandra Santana, Sabine Scho, Nelly Larguier...

Hoje: Joanna Newsom.

Mas vamos tentar postar mais jovens na Modo.

Abraço dos editores.

eduardo siqueira disse...

jovens contemporâneos internacionais
tenho visto por aqui

mas gostaria de encontrar no site
os brasileiros publicados na revista

.