domingo, 10 de Agosto de 2008

Nathalie Quintane

Nathalie Quintane nasceu em Paris, em 1964. Publicou romances e coletâneas de poemas, como Chaussure (1997), Jeanne Darc (1998), Début (1999), Formage (2003), Cavale (2006) e o mais recente Grand ensemble (2008), todos pela importante editora francesa POL, que publica há anos os mais interessantes poetas experimentais da língua, como Emmanuel Hocquard, Bernard Heidsieck, Christophe Fiat, entre muitos outros.


Em suas leituras e performances, Nathalie Quintane trabalha com vídeo e poesia sonora, colaborando com outros artistas, como Stéphane Bérard e Xavier Boussiron. No Brasil, a coleção Ás de Colete, dirigida por Carlito Azevedo, publicou o volume Começo. Nathalie Quintane vive em Digne-les-Bains.




A Modo de Usar & Co. apresenta dois trabalhos poéticos de Nathalie Quintane:

1- o vídeo de sua performance no Festival Proposta, de Barcelona, organizado pelo poeta catalão Eduard Escoffet, em 2003. Sua leitura-performance foi feita em francês e inglês, a partir de trechos de seu primeiro livro Remarques (Observações). Uma versão deste texto em francês foi traduzida por Carlito Azevedo e publicada no número 20 da revista Inimigo Rumor. A versão aqui apresentada foi retrabalhada a partir do vídeo por Marília Garcia.

2- logo depois, o poema sonoro "Charlie + le choeur des enfants", com o arquivo de áudio (do álbum de poesia sonora Les Progressistes, de Nathalie Quintane & Stéphane Bérard) e o texto original francês intercalado ao texto em português, como foi traduzido por Adalberto Müller e publicado na revista Inimigo Rumor 16.

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Primeiro trabalho: "Première Partie: Partie Européene"


(leitura no Festival Proposta, Barcelona, 2003)


Primeira parte: parte européia

Eu me chamo Nathalie Quintane.
Olá, meu nome é Nathalie Quintane.

Nasci no dia 8 de março de 64.
Nasci em 1964, em Paris, na França.

Eu moro em Digne-les-bains.
Eu vivo no sul, perto da Cote d’azur.

Escrevo normalmente frases simples.
Meu estilo é simples, mas às vezes complicado.

Publiquei meus primeiros textos em revistas.
Publiquei meus poemas em revistas de vanguarda ou revistas nem tão de vanguarda.

Eu faço leituras em voz alta em bibliotecas ou em espaços públicos.
Posso ler com os lábios ou em minha cabeça se você quiser.

Uma pequena leitura, francês e depois inglês.
As frases em inglês não são a tradução das frases em francês. Compreendem, elas são diferentes.



Percebo melhor a direção das nuvens se paro de caminhar.

Quando mordo uma fatia de melão, ela dissimula minha boca.

Quando eu penso intensamente em alguma coisa, eu deixo de ver aquilo que eu estou olhando.

Ao mexer minhas pernas com força eu espanto a mosca que havia pousado ali.

Quando coço a cabeça sob um gorro de lã o gorro se desloca.

Com um simples movimento de língua, eu desloco um pedaço de amendoim preso entre dois dentes.

Quando caminho, há sempre um de meus pés que desaparece atrás de mim.

Quando eu cheiro um filete de lavanda, o filete pode acabar em uma de minhas narinas

Conforme a parte do corpo que eu coce, produzo um som diferente.

Quando cruzo as pernas embaixo da mesa, às vezes bato com o joelho.

Parado sob o sol, graças à posição de meu ombro, posso, de maneira aproximada, saber que horas são.

Quando eu fecho meu olho esquerdo ou direito e envesgo o outro, posso ver meu nariz.

Às vezes eu quero pousar um cotovelo na mesa e o cotovelo desliza sobre o vazio.

Com um monte de livros nos braços, subo uma escada sem olhar os degraus.

Ao roçar a ponta dos dedos contra os lábios eu simulo um beijo.

Posso produzir um barulho considerável se continuo a sugar com o canudinho o líquido que restou no fundo de um copo.


Tradução de Carlito Azevedo e Marília Garcia.

Nota: O Festival Proposta existiu entre 2000 e 2004, levando à capital catalã poetas experimentais como Jaap Blonk, Nobuo Kubota, Anne-James Chaton, Michael Lentz, Christophe Fiat, Jörg Piringer, Valeri Scherstjanoi, Franz Mon, Amanda Stewart e a própria Nathalie Quintane. A primeira edição do festival previa a participação do poeta brasileiro Philadelpho Menezes (1960 - 2000), impedida pela trágica morte prematura do poeta.


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Segundo trabalho: "Charlie + le choeur des enfants"


Charlie Le choeur des enfants - Nathalie Quintane


Charly + le choeur des enfants

Carlito + o coro das crianças

(type choeur antique rappé)


(tipo coro antigo em forma de rap)


CHARLY


CARLITO



Les enfants, j'ai du boulot, je pars pour quelques mois.


Crianças, achei um trampo, fico fora uns meses.



CHOEUR

CORO



Oh mais père

Ah mas pai

tu ne seras donc pas là

você não vai estar na área

la langue de la loi ne pénétrera pas notre enregistrement

a língua da lei não vai penetrar nossos mandamentos

nous ne respecterons plus les réglements

não respeitaremos mais regulamentos

c'est la perte des repères à perpet'

é a perda perpétua de parâmetros

nous aurons des zéros


vamos tirar muito zero

nous irons en retenue


vamos ficar de suspensão

nous passerons des sanctions


iremos da advertência

pédagogiques

pedagógica

en sanctions disciplinaires


à advertência disciplinar

nous irons en conseil

nos mandarão pra direção

nous larderons un camarade de coups de couteau


encheremos um colega de furos de faca

en haut d'un patio

um qualquer panaca

nous importerons des singes magots


traremos bichos feios paca

et des clébards interdits

e cachorros proibidos

nous ferons preuve de désinvolture


daremos prova de desenvoltura

nous ne deviendrons pas citoyens mais rien

não vamos ficar bonitos na foto

et au lieu de glisser dans l'urne notre bulletin

e ao invés de depositar na urna nosso voto

nous attaquerons des supermarchés

atacaremos os supermercados

nous dealerons en bas des marches

e andaremos só com drogados

nous instaurerons des zones de non-droit


criaremos zonas onde tudo se pode

nous y défierons les forces de l'ordre


pra desafiar as forças da ordem

et les représentants de la République

e os representantes da República

nous apprendrons l'arabe littéraire


aprenderemos o árabe literário

nous irons nous entraîner


e nosso itinerário

en Afghanistan au Pakistan


será o Afeganistão ou o Paquistão

en Azerbaïdjan dans le Balouchistan

o Azerbaijão e o Baluchistão

nous ferons des gestes vulgaires

faremos gestos indecorosos

aux éducateurs prioritaires

aos educadores rancorosos

nous aurons comme seul objectif

só teremos por objetivo

de rouler en BX

rodar num carro esportivo

nous irons dans des salles multiplexes


só iremos aos cinemas de shopping

nous saurons des sports de combat

aprenderemos esportes de combate

nous serons multirécidivistes

seremos réus reincidentes

nous aurons une respiration abdominale


nossa respiração será a abdominal

et un sexualité anale

e nossa sexualidade a anal

le théâtre ni la danse ne permettront


nem o teatro nem a dança poderão

de nous réinsérer

nos reeducar

nous ne serons pas anarchistes

não seremos anarquistas

nous ne admirerons pas les situationnistes

não admiraremos os situacionistas



Tradução de Adalberto Müller.

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NATHALIE QUINTANE




postagem preparada por Marília Garcia e Ricardo Domeneck

4 comentários:

Luiz Coelho disse...

Autobiografia ficcional! Contemporâneo até a superfície, aliás, aqui, só há superfície...

Marcio Junqueira disse...

Tenho acompnhado semnalmente o blog e tava na expectativa de quando vcs falariam da Nathalie Quintana. Conheci o trbalhod ela na ultima "inimigo" e fiquei chapado. um unica reclamação, que na verdade nem o é, vcs poderiam ter postado mais textos dela, além desse que ja está presente na "inimigo".
ta foda o blog, sempre materia novo pra exercita meus dentinhos.

modo de usar & co. disse...

Márcio,
acabamos de aumentar a postagem com o texto e áudio do poema "Charlie + Le choeur des enfants", esperamos que você curta.
Procure o volume "Começo", publicado pela Ás de colete, há coisas lindas lá.
Abraço dos editores da MdU&C.

marcio junqueira disse...

Se eu soubesse que era só pedir para ser atendido já teria me habilitado a comentar o blog antes. Esse segundo trabalho dela é uma delicia tb, e a tradução ficou foda (a sacada do nome do carlito como papai, putz, sem comentarios, né?).
vou procurar o "Começo". Valeu pela dica.