(Giuseppe Ungaretti lê seu poema "Inno alla morte", do livro Sentimento del tempo)
Inno alla morte
Amore, mio giovine emblema,
Tornato a dorare la terra,
Diffuso entro il giorno rupestre,
É l'ultima volta che miro
(Appiè del botro, d'irruenti
Acque sontuoso, d'antri
Funesto) la scia di luce
Che pari alla tortora lamentosa
Sull'erba svagata si turba.
Amore, salute lucente,
Mi pesano gli anni venturi.
Abbandonata la mazza fedele,
Scivolerò nell'acqua buia
Senza rimpianto.
Morte, arido fiume...
Immemore sorella, morte,
L'uguale mi farai del sogno
Baciandomi.
Avrò il tuo passo,
Andrò senza lasciare impronta.
Mi darai il cuore immobile
D'un iddio, sarò innocente,
Non avrò più pensieri nè bontà.
Colla mente murata,
Cogli occhi caduti in oblio,
Farò da guida alla felicità.
(1925)
HINO À MORTE
Amor, meu emblema de jovem,
Que volta a dourar a terra,
Difuso no dia rupestre,
É a última vez que contemplo
(Ao pé deste barranco, de impetuosas
águas, suntuoso, funesto
De antros) o rastro de luz
Que, como a lastimosa rolinha
Inquieta, meandra no gramado.
Amor, salvação fulgurosa,
Pesam-me os anos do porvir.
Largado o bastão fiel,
Resvalarei para a água sombria
Sem um queixume.
Morte, árido rio ...
Imêmore irmã, morte,
Igual ao sonho me farás
Beijando-me.
Terei teu mesmo passo,
Irei sem deixar traço.
Tu me darás o coração indiferente
De um deus, serei inocente,
Sem pensamentos, nem cuidados.
Com a mente murada,
Com os olhos caídos em esquecimento,
Far-me-ei guia da felicidade.
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
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(Pier Paolo Pasolini em conversa com Giuseppe Ungaretti)

Giuseppe Ungaretti nasceu em Alexandria, no Egito. Seu pai trabalhou na construção do Canal de Suez, fazendo com que a família permanecesse no norte da África por algum tempo. Ungaretti descreveu a mudança da paisagem fluida e mutante do deserto pela das montanhas fixas, imóveis da Europa como um dos grandes choques de sua infância. Escreveu os poemas do seu primeiro livro L´allegria (esse título maravilhoso) quando ainda lutava nas trincheiras da Primeira Grande Guerra, em que morreram tantos poetas do primeiro Modernismo, como Guillaume Apollinaire e August Stramm, seja em combate ou por ferimentos causados em combate, uma guerra que marcaria ainda outro grande texto do início do século: o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein, que é iniciado como um tratado de lógica e transforma-se, durante a Guerra, em uma profunda meditação sobre a natureza do sentido para a existência humana e a possibilidade e limite para o conhecimento humano, através da linguagem, do mundo e de Deus, a partir da experiência da morte e destruição de Wittgenstein durante a Guerra, também soldado nas trincheiras. No caso de Ungaretti, este primeiro livro traria à luz alguns dos poemas mais concisos e enxutos do primeiro Modernismo, em um exemplo claro do que chamo de "minimalismo necessário", a partir de uma experiência vital e interna, e não o luxo lacônico da concisão "externista" de poetas que se dedicam ao paisagismo poético urbano, muito longe do minimalismo de Ungaretti ou George Oppen.
Mattina
M’illumino
d’immenso
Em tradução de Sérgio Wax:
Manhã
Ilumino-me
de imenso
De Haroldo de Campos:
Manhã
Deslumbro-me
de imenso
Outros exemplos poderosos são poemas como estes:
CAMPO
Villa di Garda, abril de 1918
A terra
se cobriu
de tenra
leveza
Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
PRATO
Villa di Garda aprile 1918
La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza
Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre
*
SAN MARTINO DEL CARSO
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
SAN MARTINO DEL CARSO
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
As influências iniciais de Ungaretti incluem Gabriele d'Annunzio, Charles Baudelaire, Jules Laforgue, Stéphane Mallarmé e Arthur Rimbaud, levando o poeta a desenvolver a poesia que o ligaria ao grupo que passa a ser chamado de "poetas herméticos", com Eugenio Montale, Salvatore Quasimodo e outros. Viveu muitos anos no Brasil, onde lecionou na Universidade de São Paulo. Na capital paulista perdeu um filho, tragédia que marcaria os poemas do livro Il Dolore. Publicou ainda os volumes Sentimento del tempo (1925), La terra promessa, (1950), Il taccuino del vecchio (1960) e reuniu seus poemas em Vita di un uomo (1969). No Brasil, seu trabalho foi traduzido por Geraldo Holanda Cavalcanti, Aurora Bernardini e Haroldo de Campos, entre outros. Ungaretti morreu em Milão.
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Os editores da Modo de Usar & Co. agradecem ao tradutor e poeta Geraldo Holanda Cavalcanti pela tradução de "Inno alla morte."
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