quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Pierre Albert-Birot (1876 - 1967)

Pierre Albert-Birot nasceu em Angoulôme, em 1876. Contemporâneo exato dos dadaístas de Zurique, passa a editar sua revista SIC (Sons, Idées, Couleurs) em 1916, mesmo ano em que Hugo Ball, Tristan Tzara, Hans Arp, Marcel Janco e outros fundam o Cabaret Voltaire, numa revolta estÉtica, rebelando-se contra a situação política da Europa naquele momento e contra a distorção literária (literarizante, deveria dizer) que obnublara a multiplicidade poética de escrita&performance a partir do declínio da saúde poética do medievo. Pelas páginas de SIC, passariam alguns dos poetas mais inovadores do início do século XX, como Guillaume Apollinaire, Tristan Tzara, Pierre Reverdy ou Philippe Soupault.

Segundo escritores como Hugh Kenner e Guy Davenport, o que nós conhecemos como vanguarda desaparece após o naufrágio da Europa na Primeira Grande Guerra e suas conseqüências sociais e políticas posteriores (guerra em que morreram protagonistas centrais das vanguardas, como Henri Gaudier-Brzeska, Guillaume Apollinaire, August Stramm e Georg Trakl, entre outros), ao que poderíamos incluir a decepção dos artistas em plena Revolução Russa, que afundaria em perseguiçoes a escritores e poetas, levando uns ao exílio (como Tsvetáieva), outros à morte em campos de trabalho forçado (como Mandelshtam), alguns ao suicídio (como Maiakóvski e a mesma Tsvetáieva, ao retornar à Rússia), e outros à existência à margem, vendo a prisão e o fuzilamento de familiares, como foi o caso de Akhmátova.


A partir daí, a poesia moderna passa a ser uma reconstrução de escombros sobre escombros. Eliot (“these fragments I have shored against my ruins”) torna-se cada vez mais conservador estÉticamente, o que já estava de certa forma previsto em The Waste Land. Segundo Kenner (em The Pound Era), Ezra Pound entrega-se a (tarefa sobre-humana) construir sozinho o Renascimento que ele previra antes da Grande Guerra, tentativa da qual surgem os Cantos, ainda que esta ânsia civilizatória tenha implicaçoes complicadíssimas, e nós hoje conhecemos os resultados do caso de Pound, em seu equalizar centralização política e renascimento artístico. Pierre Albert-Birot, após criar seus poemas sonoros, seus poèmes à crier et à danser, volta-se para a escritura de seu épico em seis volumes, reunidos mais tarde sob o título Les Six livres de Grabinoulor, desaparecendo em obscuridade. A hegemonia cairia nas mãos de reacionários como Eliot, ou André Breton e seu grupo surrealista, que apascenta a vaca sagrada da poesia-como-franquia-da-Literatura de volta a seu estábulo seguro, distante de poetas como William Carlos Williams e Gertrude Stein, assim como a arte visual de um reacionário como Salvador Dalí sobrepôe-se às invençoes de Raoul Hausmann, Hannah Höch, Hans Arp e Kurt Schwitters. É mais fácil, afinal de contas, vender reproduçoes de quadros de Dalí em cartazes e calendários em lojinhas de museus, do que das colagens de Höch ou Schwitters. Assim como era mais fácil aceitar o freudismo-marxista linear dos surrealistas do que a poesia paratática e polifônica dos dadaístas, que operavam contra a noçao equivocada de exegese em poesia e muitas vezes abandonavam mesmo a semântica, sem as belas imagens pós-românticas do grupo de Breton. As verdadeiras vanguardas, as que sabiam que ética e estética são uma só, como os dadaístas, desapareceram da atenção do mundo até serem resgatadas pelos grupos de vanguarda da década de 50, como os Lettristes, o Wiener Gruppe, a New York School, a Poesia Concreta, os Beats, o British Poetry Revival, cada um destes grupos enfatizando, obviamente, o que interessava à sua própria poética, pois isto é sincronia histórica.




A poesia de Pierre Albert-Birot viria a ser determinante, segundo Marjorie Perloff (em seu livro Frank O´Hara: Poet Among Painters), para os poetas da New York School, no início dos anos 50, através de uma antologia de poesia dadaísta publicada nos Estados Unidos, que se tornaria referência para Frank O´Hara, John Ashbery e James Schuyler, justamente através da poesia de franceses obscuros e esquisitos como Pierre Albert-Birot e Raymond Roussell, assim como Albert-Birot se tornaria importante para poetas sonoros como Henri Chopin (que o inclui entre os mestres da vanguarda sonora em seu livro Poesia Sonora Internacional) e Bernard Heidsieck.

Apresentamos aqui os poemas de Pierre Albert-Birot que publicamos no famigerado número de estréia da Modo de Usar & Co., assim como uma interpretação moderna para um de seus poemas sonoros e alguns trabalhos visuais.


FOX FILM

Ele vem a cavalo dos primórdios do mundo e enfim chega até nós
Seu sorriso brilhante como uma prata nova aparece antes de tudo
Abril antecede maio logo dois sorrisos que se olham formam uma ogiva
Zimmm... ele cruza as cidades atravessa a vida como um golpe de címbalos
Quatro sóis o iluminam por isso não há sombra que o persiga por detrás
Tudo se torna transparente o diabo é triste e gostaria de se matar
Todas as pequenas idéias se tornaram monumentos depois ele as esquece
O Mundo é grátis para os Poetas esses pais do Espaço e do Tempo
A gente deixa pra lá essa figura animal esse uniforme fashion que nos disfarça
E nos tornamos puros como um O os outros os outros estão fazendo fotos
Em nome do Pai eles que se entendam os que não têm nada a perder
Oh oh oh oh oh oh não se meta entre meus versos se você tem medo do fogo
Eles não servem para os que precisam que os dias se interliguem pelas noites
Os nomes que vestem as coisas ficaram no dicionário e tudo surgiu
As coisas então eram apenas nomes é inútil aprender a geografia
Antigamente havia cidades que se chamavam Moscou Melbourne ou Paris

Tradução de Marília Garcia, publicada no número de estréia da Modo de Usar & Co.




FOX FILM: Il part à cheval des premiers temps du monde et voici qu’il arrive sur nous / Son sourrire tout propre comme un sou neuf est meme arrivé avant luis merci / Avril arrive bien avant Mai or deux sourires qui se regardent font une ogive / Zimm il passe au travers de la vie et des villes comme un coup de Cymbales / Quatre Soleils l’éclarent c’est pourquoi il ne laisse pás d’ombre derrière lui / Tout devient transparent le Diable a le spleen et voudrait se suicider / Toutes les petites idées sont devenues des monuments après il saute par-dessus / Le Monde est gratuit pous les Poetes ces peres du Temps et de l’espace / On laisse tomber sa figure animale cet uniforme à la mode qui nous déguise / Et l’on devient pur comme un O les autres les autres sont au photographe / Au nom du Père laissez-les se marcher sur les pieds ceux qui n’ont qu’un soleil / Hou hou hou hou ne vous mettez pas entre mes vers si vous avez peur du feu / Ils ne sont pas pour ceux qui ont besoin que les jours soient interlignés par les nuits / Les noms qui habillaient les choses sont restes dans le dictionnaire et tout est apparu / Les choses n’étaient donc que des noms c’est inutile d’apprendre la Geographie / Autrefois il y avait des villes qu’on nommait Moscou Melbourne ou Paris

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Poemes a crier et a danser: Chant 1-LAvion-Chant III, P.Albert-Birot - Pierre Albert-Birot
(interpretação moderna para poema sonoro de Pierre Albert-Birot)

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Poèmes à l´autre moi
Poemas a mim outro



Décimo-Terceiro Poema

Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia


Tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número de estréia da Modo de Usar & Co.


Treizième Poème

Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour



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Décimo-Sétimo Poema

O tempo do mau tempo está entre nós
Tempo corcunda age em caretas e tudo em garras e longos urros
O inverno ao grande carniçal que nos engole
Bola idiota em buraco
Que fazer no estômago do inverno
Onde não florescem os canteiros de heliotrópios
Tu meu claro outro eu que não te deixas engolir
Envia um pouco de verão no inverno
A fim de anunciar-me a primavera
Deita-me
Nina-me sobre o passado mole em veludo
Onde eu acreditarei ouvir ver e tomar
Tudo o que me prometeste
Ou talvez tudo o que me prometi
Ou tudo o que me deste
Ou tudo o que tomei
No tempo loiro quando acreditamos
Tudo o que dizia
Decalcomania


Tradução de Ricardo Domeneck


Dix-Septième Poème

Le temps du mauvais temps est avec nous
Temps bossu fait en grimaces et tout à griffes et longues hurles
L´hiver à grande goule qui nous avale
Stupide boule au troup
Que faire dans l´estomac de l´hiver
Où ne fleurissent pas les massifs d´héliotropes
Toi mon clair autre moi qui ne te laisses pas avaler
Envoie un peu d´été dans l´hiver
Afin de m´annoncer le printemps
Couche-moi
Berce-moi sur le passé mou velouté
Où je croirai entendre voir et prendre
Tout ce que tu m´as promis
Ou tout ce que tu m´as donné
Ou tout ce que j´ai pris
Dans les temps blond où l´on croit
Tout ce que l´on dit
Décalcomanie

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(clique na imagem para aumentá-la)


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Nada

Ai perdoe as quatro letras a mais
Nem mesmo nada
E já é demais
Haveria que começar a História
Antes de seu começo
Creiamos que ela de fato começou
No branco a preceder este nada

Tradução de Ricardo Domeneck


Rien

Oh pardon c´est quatre lettres de trop
Pas même rien
Et c´est encore trop
Il faudrait commencer l´Histoire
Avant son commencement
Qu´on veuille bien croire qu´elle commence en effet
Dans le blanc qui precède ce rien


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(texto de poema sonoro de Pierre Albert-Birot
)

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