sábado, 28 de Junho de 2008

Roberto Piva


Roberto Piva nasceu na cidade de São Paulo, em 1937. Sua primeira publicação importante deu-se na Antologia dos novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961), e sua estréia em livro ocorreu em 1963, com o livro Paranóia, um livro criado na linhagem visionária de William Blake, ligado aos experimentos em fanopéia dos surrealistas, e no qual Roberto Piva invoca e alinha-se às figuras dos brasileiros Mário de Andrade e Murilo Mendes, proclamando o desregramento dos sentidos e posturas em sua cruzada pessoal pela cidade de São Paulo.
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Publicou mais tarde os livros de poemas Piazzas (1964), Abra os olhos e diga ah! (1975), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981), Quizumba (1983), Antologia poética (1985) e Ciclones (1997). Com a abertura pluralizante da década de 90 e o arrefecimento da hegemonia construtivista na poética brasileira, ocorre no final da década a valorização da obra de Roberto Piva, assim como a de Hilda Hilst, estabelecendo-os como figuras notáveis e exemplares no início do século XXI, e levando à publicação, por uma grande editora comercial, de suas obras reunidas. Os livros de Roberto Piva foram reunidos em três volumes, publicados pela Editora Globo:
Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e o recém-lançado Estranhos sinais de Saturno.

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Ainda que um livro como Paranóia possa ressentir-se de um certo "tardo-surrealismo", os livros publicados por Roberto Piva entre as décadas de 60 e 80 demonstram uma grande liberdade de espírito e fidelidade a suas próprias convicções poéticas em meio ao silêncio crítico retumbante, que imperou sobre seu trabalho por décadas, lançando-o à margem dos debates poéticos do período. A década de 60 presenciou o surgimento de poetas bastante distintos, e que nos 15 últimos anos passaram a comandar a atenção tanto da crítica como dos poetas mais jovens. Entre os poetas mais fortes surgidos na década de 60 e influentes sobre os poetas de hoje, Roberto Piva assume seu papel constante de estranho-no-ninho, sua vocação maior, entre os outros poetas notáveis do período como, por exemplo, Orides Fontela (1940 - 1998), Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003), Torquato Neto (1944 - 1972) e Sebastião Nunes, o outro sobrevivente, assim como Piva, tanto do silêncio da crítica como das agruras políticas do período.

Não há mais motivos para oposições e trincheiras. Tempo para semear e para colher, sim, mas momentos também para o visionário e momentos para o projetista, para o vates e para o faber, instantes em que precisamos de poetas que nos incitem corporalmente ao embate (a lover´s quarrel, nas palavras de Robert Frost) com o mundo, e instantes em que precisamos de poetas que nos afiem o intelecto. A maioria dos bons poetas é capaz de ambos, ao mesmo tempo. No entanto, se há dias em que necessitamos do lirismo contido-condensado de Lorine Niedecker, George Oppen e Augusto de Campos, há outros dias em que apenas o "expansionismo mítico" de Robert Duncan, Roberto Piva e Hilda Hilst pode servir de fertilizante para os nossos nervos-à-flor-da-pele. Enquanto em lugares como São Paulo, alguns grupos de poetas ainda dedicam-se exclusivamente a garantir sua hegemonia no seio da atenção crítica da década, tentando transformar sua poética em sinônimo de contemporâneo, nada melhor que aprender com Roberto Piva sobre a fidelidade às próprias crenças est(É)ticas.

---nota introdutória de Ricardo Domeneck



A Modo de Usar & Co. apresenta algumas oralizações em vídeo de Roberto Piva para seus textos, além do poema "Piazza I", de 1964. Em seguida, a resenha de Fabiano Calixto por ocasião do lançamento do terceiro volume das obras reunidas de Roberto Piva.



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Piazza I

.......Uma tarde
............é suficiente para ficar louco
ou ir ao Museu ver Bosch
............uma tarde de inverno
...........................sobre um grave pátio
.....onde garòfani .... milk-shake & Claude
....................obcecado com anjos
..........ou vastos motores que giram com
.............................uma graça seráfica
.............tocar o banjo da Lembrança
sem o Amor encontrado ... provado ...sonhado
............& longos viveiros municipais
........sem procurar compreender
..............imaginar
............a medula sem olhos
......ou pássaros virgens
............aconteceu que eu revi
......a simples torre mortal do Sonho
................não com dedos reais & cilíndricos
Du Barry Byron Marquesa de Santos
...Swift Jarry com barulho
.......de sinos nas minhas noites de bárbaro
...os carros de fogo
............os trapézios de mercúrio
...suas mãos escrevendo & pescando
................ninfas escatológicas
pequenos canhoes do sangue & os grandes olhos abertos
.........para algum milagre da Sorte

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Arrebentando muros, no olho do furacão

Piva corre – ainda – contra a maré da pasteurização

Fabiano Calixto - Poeta e ensaísta

Estranhos sinais de Saturno, terceiro volume das obras reunidas do poeta paulista Roberto Piva, chega num momento propício: no olho do furacão, onde a poesia brasileira parece não conseguir sair de um impasse. O impasse é o de não saber para onde ir, de não conseguir se renovar. Isso se nota nos infindáveis equívocos transformados em "livros de poesia" que enchem as prateleiras das livrarias do país.
Estranhos sinais de Saturno nos ajuda a compreender esse impasse pelo viés da recepção, de um lado, e da criação, de outro. A poesia vem passando por um processo de pasteurização sem precedentes. Piva é um poeta extremamente copiado por dezenas e dezenas de "poetas marginais" – o que mostra que sua poesia ainda não é compreendida, mas sim copiada, e muito mal. Há os pseudo-vanguardistas, os pseudo-classicistas e também há os pseudo-marginais. Passou-se da forma à fôrma, e quase tudo virou aglomerado de palavras, balbucios inócuos tentando se passar por obras de gênio. (Para salvar a lavoura, existe o improvável: aqueles poetas que procuram estabelecer uma carga de novidade a sua linguagem).

Roberto Piva é o único sobrevivente da lastimável geração de poetas que apareceu em São Paulo nos anos 60. Começou por cima com o surpreendente Paranóia, seu primeiro e melhor livro; e, mesmo jamais tendo alcançado aquele nível, conseguiu manter em sua poesia uma vitalidade necessária para que seja lida com interesse.
Neste terceiro bloco de sua reunião constam os livros Ciclones (1997) e o inédito Estranhos sinais de saturno. Completa-se o volume com seus anárquicos e divertidos manifestos, dois textos críticos assinados por Alcir Pécora e Davi Arrigucci Jr, e um CD com leituras de poemas pelo próprio autor – que dão outra e notável dimensão aos trabalhos.

Poesia de circulação

Ao se imaginar um possível embate entre a cidade (destruída pela caretice, pelo utilitarismo e pelo tédio) e a natureza (locus amenus, antídoto contra a frigidez de cimento e vidro), pensamos logo numa poesia de fácil localização. Obviamente este não é o caso. Esta poesia é menos de habitação que de circulação. Não havendo possibilidade de se orientar no interior de um espaço, a habitação se torna impossível. E, além de impossível, vital. É justamente da força da movimentação da morfologia estética que este "garoto que se masturba nas montanhas" determina suas escolhas e nega habitações práticas e fixas. Nisso, faz com que seu trabalho tenha contundência necessária para ultrapassar os limites de uma poesia que poderia descambar para o palavrório ingênuo. É uma poesia que arrebenta muros de retaguarda.
Ciclones é um livro menor em sua obra. É onde o poeta perde um pouco da vitalidade anterior. Ainda assim há bons momentos como em: "Artaud / Crevel / Blake / & a Signatura Rerum / no signo do poeta / luz caminhando sobre / o luar / transfusão de imagens / se convertendo em flor / & numa dor estranha".

Nos novos poemas, que chegaram à editora "a poucos dias da impressão do volume", é que Piva mostra uma poesia revigorada, forte, obsessiva em si mesma e em seus paradigmas. Seja em peças como o notável "Mostra teu sangue, mãe dos espelhos", um dos melhores poemas já escritos pelo autor: "o mistério lunar da menina / lésbica / linda como um nenúfar / como seu nome de pássaro / levando na mochila / AS CANÇÕES DE BILITIS / uma coruja no ombro / & no sangue os gritos / os náufragos de outrora". Uma espécie de mistério parido por um êxtase feroz e lírico, onde a sensualidade (desordeira presente em toda sua obra) compõe uma lente de onde há uma outra possibilidade de leitura do mundo.

"Depois da morte / onde estaremos? / em que névoa / violeta em que / silêncio?", pergunta em "O rock da Serra da Canastra". Como responder? Na aventura que nos leva aos caminhos do êxtase libertário de uma vida que necessária e incessantemente é filtrada pelo corpo, pelo sexo. "A palavra registrada em livro é a mera extensão (sublimada) do que sobrou da orgia", diz em um dos seus manifestos. É com esse tipo de materialidade orgânica que Piva sempre iluminou os seus poemas.
De tudo fica um pouco, escreveu Drummond em "Resíduo". Da leitura destes Estranhos sinais de Saturno, destes poemas pulsantes que sabem que "inferno, purgatório e paraíso são uma coisa só", fica a sensação de que é com as "labaredas provocadas pelo curto-circuito do desejo" que se incendiará, como antídoto necessário, este "planeta fodido de naftalina".

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