segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Michel Deguy


Michel Deguy nasceu em Paris, em 1930. É conhecido como poeta, filósofo e professor de literatura. Foi membro dos grupos responsáveis pelas revistas Poésie, Critique, Les Temps Modernes. Presidiu o Collège International de Philosophie e a Maison des Écrivains. Recebeu na última década dois dos mais importantes prêmios literários franceses, o Grand Prix national de la poésie e o Grand Prix de Poésie de l'Académie Française. Uma antologia de seus poemas foi publicada no Brasil, com tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar, na coleção Ás de Colete, dirigida pelo poeta carioca Carlito Azevedo. Contemporâneo exato da geração brasileira que presenciou o nascimento e maturidade poética de Haroldo de Campos, Hilda Hilst, Ferreira Gullar, Mario Faustino, o poeta francês Michel Deguy publicou, entre outros, os livros Les Meurtrières (1959), Poèmes de la Presqu’île (1961), o maravilhoso Ouï dire (1966), Poèmes 1960-1970, Abréviations usuelles (1977), La Machine matrimoniale ou Marivaux (1982), Choses de la poésie et affaire culturelle (1986), L’Énergie du désespoir, ou d’une poétique continuée par tous les moyens (1998), entre outros.

Abaixo, leitura de Michel Deguy:


(Café Letrado na Maison de France, 
Rio de Janeiro, em setembro de 2007).



“[gostaria de agradecer] em particular a Paula Glenadel e Marcos Siscar, que estão ausentes, porque foram eles que traduziram essas páginas reunidas sob o título A rosa das línguas (SP: CosacNaify / RJ: 7Letras, 2004), título que vem de um poema chamado La rose des langues de Paris, que deu o tom a essas três ou quatro páginas formadas por um tom diferente. Este livro é uma seleção da seleção da seleção e, aqui, eu seleciono.”

Lançados

Lançados se entrelaçam o amor e a comparação!
O amor compara a comparação que ama elogiar
com anáforas
...e a lira sáfica tece
...a incomparável beleza das bordas
...à contraluz de um eclipse do Ser

(ora, afastando-me de barca da ilha-hotel
— aurora que você saudava à janela de Udaipur —
— não tínhamos saído do conto
mas estávamos protegidos, edificados até
por uma constante de Propp mais bela
do que os troféus fotoscópicos)

................Será
sempre cedo demais sempre tarde demais
portanto, .........é agora
tardio demais e demasiado prematuro adeus


(tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar)


Élancés

Elancés ils s’enlacent, l’amour et la comparaison!
L’amour compare la comparaison qui aime louer
avec des anaphores
...et la lyre saphique tisse
...l’incomparable beauté des bords
...à contre-jour d’une éclipse de l’Être

(or m’éloignant en barque de l’île-hôtel
—aube que tu saluais à la fenêtre d’Udaïpur —
nous n ’étions pas sortis du conte
mais protégés, édifiés même
par une constante de Propp plus belle
que les trophées photoscopiques)

...........Ce sera
toujours trop tôt toujours trop tard
donc c’est maintenant......le
trop tardif et trop prématuré adieu

“E, agora, um poema burlesco e satírico. É um poema que foi escrito diante do Centro George Pompidou. A certa altura, ouvimos uma seqüência numérica que data este momento ou circunstância que é da ordem de uma centena de segundo aproximadamente. A palavra luz / lumière que aparece no início não se refere à luz, mas aos irmãos Lumière.”
(a B.D.)

A lua dos Lumière
Em preto e branco repassa
Sobre Beaubourg
Sua versão muda

As legendas-analfabeto
Fazem tradução em desesperanto
Burger Burgerking e Macdo
É o arrasta-pé da noite Retrô

Diga-me Guillaume onde afinal estamos nós
A horrível sentença cronométrica
Faz contagem regressiva do Milênio
3 5 0 0 5 7 2 7 5 7

Mas ela sem cavalos sem cães sem Eumênides
Nenhum navio nenhum pierrô guia
Mas como se pode ser
Tão brilhante e tão cinza

(tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar)


“E agora uma pequena arte poética que se intitula O metrônomo”

O metrônomo

Quem bate
Uma frase de língua
Ao vento do jogo

Neuma do metro
O balancim confia
O tempo à dicção

Ritmo limiar é preciso
Que uma porta de palavras
seja aberta e fechada

Longa breve e pausa
O tempo passa
Ele repassará

Há como no ser
Um ar de família um ar de nada

A corrente de ares
vira as páginas
isso não faz um vinco
mas cinco

Só mais um momento
Senhor leitor
O tempo de uma palavra nua
Entre duas viradas

O que me canta
.......dobra-se
Aos calibres das cores


Traduções de Paula Glenadel e Marcos Siscar
Vídeo e postagem: Marília Garcia.


Os editores da Modo de Usar & Co. agradecem a Marcos Siscar e Paula Glenadel por terem gentilmente permitido a publicação destas traduções.

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