Ao citar o dito-cujo de Mallarmé em resposta a Degas, de que a poesia se faz com palavras, não com idéias, a ênfase geralmente recai sobre o dueto “idéias/palavras”. Axioma usado ao longo do século XX à maneira do interesse de cada poeta: “The words of a dead man / Are modified in the guts of the living.” Pureza, servindo ao sonho simbolista da poesia/literatura como sistema hermeticamente fechado em si, independente de contextos, reverberações prismáticas que pressupõem a inércia uma vez lançados os dados. Ao mesmo tempo, talvez William Carlos Williams, afirmando que o poeta não diz, mas faz: máquina de palavras de seu poema. Machine à émouvoir? Possível armadilha de uma dicotomia entre o vates e o faber: entre a imagem romântica do poeta que diz o belo/significativo/transcendente e a profissão classicizante do poeta como artesão, craftsman, il miglior fabro?
Imagino a luz incidindo sobre o “faz/faz” e não sobre “idéias/palavras”. Possível uso para esta mallarmada em dias de HOJE seria a recusa do “texto-fantasma” pairando acima/além do texto na página, noção que transforma poemas na mera máscara do discurso de sua exegese, ou expressão pública de experiência privada. Jacques Roubaud: “O poema diz o que diz, dizendo-o”, fazendo da única paráfrase praticável de um poema a repetição do poema. Exegese: ipsis litteris. Aqui (aqui) a realidade da concretude da linguagem: não por crenças de mot juste/precisão, levando à ilusão naive de objetividade lingüística, como em machos dos Modernismos; nem “language charged with meaning to the utmost degree”, levando os desavisados a uma apoteose da palavra nos bem-dotados ou elefantíase semântica nos menos habilitados. Talvez possamos “dizer:escrever – ditar” que o trabalho poético com a linguagem seja coisação sobjetiva. Concretude da linguagem passa a funcionar como não-transparência do signo.
O que fazer, em vista disso, da possível participação política do poeta?
Numa "sociedade de corvos", há quem creia que basta bancar L´Albatros reloaded, poeta caminhando entre os dejetos da urbe num misto de asco e fascínio, crendo-se acima do luxo e do lixo, nacionalizando-se em espécie, ah! os bons poetas mortos, Chrysocyon brachyurus. Poeta bom é poeta morto, dizem os cinqüentões. Mas a ineficiência já comprovada da resistência externa por trincheiras duais de poetas que se crêem "acima de qualquer suspeita", as mãos lavadinhas com sabonete enquanto se acusa Moss de desenhar moustaches na Mona Lisa ou Bündchen de sapecar a bunda de Bastet. Poeta que “atravessa a rua como se atravessasse o Hades.”
Há, porém, a opção de resistência interna, tática de guerrilha lingüística, do poeta que faz, mais que o poeta que diz. Sem entregar-se a outro discurso em meio a discursos (falha do filho de lavouras arcaicas), mas empreendendo um curto-circuito no discurso por uma ação (a filha que despedaça com uma dança a mesa da autoridade, quando o espelho do discurso do pai pelo filho mal arranhou-lhe a superfície da tábua). Poesia-performance, poesia-intervenção. Veja abaixo um exemplo disto no poema “Qaeda, quality, question, quickly, quickly, quiet” de Lenka Clayton. Não me parece à-toa que um dos poemas mais inteligentes dos últimos X anos tenha sido feito por umA artista visual, assim como muitos dos poemas mais eficientes do pós-guerra foram feitos pelo músico John Cage. Não importa, eu creio, se she herself considera este trabalho um poema. Ao recompor em ordem alfabética o discurso de George W. Bush, a britânica Lenka Clayton agiu como poeta. Sem expressar qualquer eu, sem um texto-fantasma que paire acima de outro texto, sem a mera possibilidade de gabar-se por precisão lingüística, ela faz sua intervenção neste poema-performance.
Fragmento "A - Because" do trabalho “Qaeda, quality, question, quickly, quickly, quiet”, de Lenka Clayton:
Terminaria com um quote de Rosmarie Waldrop. Ao ser convidada por Charles Bernstein para um conferência da L=A=N=G=U=A=G=E poetry, na qual Bernsten pediu aos poetas que se concentrassem nas palavras de Percy Bisshe Shelley, de que "poets are the unacknowledged legislators of the world", e de George Oppen, de que "poets are the legislators of the unacknowledged world", ela respondeu:
"Mas eu não fico apenas perplexa como incomodada com nossas duas citações. Soa para mim como uma ressaca dos tempos em que o poeta ocupava uma posição sacerdotal. Mas em nosso tempo, a poesia não tem esta função institucionalizada, e eu tenho que dizer que não me importo. Ou será uma ambição masculina? Eu certamente não tenho o menor desejo de instituir a lei. Em meu ponto de vista, a escrita tem a ver com a descoberta de possibilidades mais que com codificação. Minhas palavras-chaves seriam exploração e manutenção: explorar a floresta, não pela madeira que pode vir a ser vendida, mas para entendê-la como um mundo e para manter este mundo vivo."
But I am not only astonished but uneasy with our two quotes. It sounds to me like a hangover from the times when the poet occupied a priestly position. But in our time, poetry has no such institutionalized function, and I must say I am not sorry. Or is it a male aspiration? I certainly have no desire to lay down the law. To my mind writing has to do with uncovering possibilities rather than with codification. My keywords would be exploring and maintaining: exploring a forest not for the timber that might be sold, but to understand it as a world and to keep this world alive.
É bom saber que ainda há tanto por fazer.
Ricardo Domeneck
terça-feira, 1 de Abril de 2008
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2 comentários:
...meu caro: há muito leio (e releio) seus artigos. Com certeza, reunidos dariam um bom livro de crítica literária. Em função disto, ao ler este seu último post, sinto-me atraído a propor uma reflexão de sua lavra para uma questão contemporânea: A POESIA FALADA, que vem sendo praticada nos saraus cariocas. Seja no formato de "performance", seja na leitura (decorada ou não), na ordem da FALA o ESCRITO, sendo DITO com respiração e pontuação particulares de cada intérprete, pode ser modificado (improvisado) e editado em tempo real. Ferreira Gullar disse em entrevista recente que a POESIA FALADA contemporânea pode ser um novo "estilo", como a Poesia Concreta, a Poesia Processo, o Modernismo... Vale uma reflexão?
Caro Tavinho,
obrigado pela mensagem. Escrevi um pouco do que penso a respeito da poesia em performance e sonora em um pequeno texto chamado "poesia em fuga da alcatraz de papel", em meu blog pessoal. Você pode acessá-lo aqui:
http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2008/03/poesia-em-fuga-da-alcatraz-de-papel.html
Ali, mostro alguns exemplos de poetas trabalhando neste campo, como Hugo Ball e Henri Chopin, ou Jörg Piringer e Maja Ratkje entre os jovens e vivos. Não creio que possamos dizer que se trata de um estilo novo, já que a poesia sonora em performance é mais antiga que a poesia-escrita. Já cheguei a exagerar em um texto, usando a seguinte analogia: imagine o que aconteceria se todos os compositores deixassem de tocar sua música e passassem apenas a publicar suas partituras. É exagerado, eu sei, mas não deixa de ilustrar, de certa forma, o desenvolvimento da arte poética. As partituras se tornariam cada vez mais abstratas até impedirem sua performance. Pound disse que a poesia atrofia quando se afasta demais da música, e que esta atrofia-se quando afasta-se da dança. Ás vezes, gosto de pensar que a poesia atrofia-se quando se afasta da dança... De Safo a Arnaut Daniel, de Gregório de Matos a Vladimir Maiakóvski, de Thomas Campion a Allen Ginsberg, muitos poetas trabalharam com música e performance (ainda que a palavra "performance" seja tão recente.) A escrita nestes poetas era "tesa/concreta/precisa" para assegurar a qualidade do texto em performance. Não se acredita que a "Odisséia" é a compilação escrita de uma tradição oral? Não há motivo para uma dicotomia. Devo postar em breve aqui na Modo de Usar um arquivo de áudio com Maiakóvski lendo seu "A Plenos Pulmoes", este "monumento", na opinião de quase todo mundo, da poesia ESCRITA. No entanto, para estes poetas, a "performance" não se tornava desculpa para o desleixo literário. O texto bem escrito determinava a qualidade da performance, ainda que haja muitos exemplos de textos que funcionam muito bem na página, mas não "a plenos pulmoes", como já presenciei poetas transformarem textos escritos apenas razoáveis em performances inesquecíveis. Precisamos desta "diversity", como pede Charles Bernstein, permitindo que os poetas explorem vários campos poéticos. Mas precisamos de um debate adulto destas escolhas. Nenhum poeta pode tudo. Portanto, eu creio que seria saudável evitarmos uma trincheira entre a poesia escrita e a sonora. É claro que há poetas trabalhando estritamente em um dos campos, e outros trabalhando na fronteira. Henri Chopin fez poemas estritamente sonoros, abolindo a linguagem e concentrando-se na respiração do poeta, como Gil J. Wolman, e ao mesmo tempo compôs poemas visuais concretos. Ele se considerava um poeta concreto, assim como Bob Cobbing. Temos a sensação de algo "novo" ocorrendo no Brasil por não ser comum no país que poetas organizem leituras de seus trabalhos. Em outros países da América Latina, como o Chile, isto é muito comum. Obviamente, isto traz características específicas para a poesia produzida no Brasil, eminentemente literária. Difícil saber o que vem primeiro. Aqui na Alemanha, onde vivo, um poeta jovem inicia sua "carreira" em ciclos de leituras, para mais tarde publicar os poemas em papel. Ontem à noite assisti aqui em Berlim a uma leitura das poetas Sabine Scho (que vive entre Berlim e São Paulo), Monika Rinck e Ann Cotten, publicadas por editoras importantes, autoras bastante "literárias", mas que participam constantemente de leituras. A poesia sonora no Brasil contou com algumas poucas criaçoes de Augusto de Campos, mas só a partir das décadas de 80 e 90 passou a ser mais praticada, e citaria Philadelpho Menezes, Arnaldo Antunes, Ricardo Aleixo como exemplos conhecidos. Seria interessante que os poetas sonoros ou em performance do Rio e de outros lugares do Brasil divulgassem seus trabalhos pela internet... a escrita "suplantou" a poesia "falada/sonora/performática" pelo fato do papel ser, por muito tempo, a única forma de transmissão para a poesia. Ora, temos hoje tecnologia para mudar o quadro... há os podcasts, portais como o YouTube e o Myspace, mas dificilmente encontro trabalhos de poetas sonoros brasileiros na internet. É uma pena que eles não usem os recursos que têm às mãos.
Abraço,
Ricardo
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