sábado, 5 de Abril de 2008

Homenagem a Josée Lapeyrère (1944 - 2007)


Josée Lapeyrère nasceu nos Pirineus franceses em 1944 e faleceu nos últimos dias de dezembro de 2007, em Paris, um mês após publicarmos dois poemas seus no número de estréia da Modo de Usar & Co. Prestamos aqui nossa homenagem a esta poeta com a publicação de um excerto inédito do livro 1/0. Josée Lapeyrère sempre transitou entre a escrita e as artes plásticas, chegando a participar do movimento MADI, surgido no pós-guerra, que trabalhava com uma arte geométrica de traços menos rígidos. Seus trabalhos foram expostos, entre outros lugares, no Musée National d'Art Moderne au Centre Pompidou, em Paris. Publicou seu primeiro livro de poemas Là est ici em 1976 pela editora Gallimard, ao qual se seguiram outros treze livros. Médica e psicanalista, Lapeyrère viveu seus últimos anos em Paris.


Começa


começa quase sempre com um traço

uma palavra.... uma mosca que voa ou

um leopardo que atravessa o avesso

da janela ....de um salto.... e entre o arco

de suas patas estiradas ....eu vejo o homem

que lava os vidros ....ele não viu

a fera assim como os outros sentados

em seus escritórios.... diante das telas azuis

começa com um traço...... um índice

leve uma mosca que voa ....ou

uma tatuagem como a de um sol que

surge da dobra do cotovelo do lutador

as linhas negras saindo em leque

em direção a um bíceps para sempre matinal ou


o ruído da cadeira raspando

o ladrilho .....que desperta.... gritando

seus quatro pés...... um peso essa cadeira

a cadeira vermelha por que você já vai

por que não vai ..........vem

aqui me dá um beijo....... me deixa uma marca

a marca dos dentes ......ou das garras

a marca do chicote .......ou do vôo

da mosca ......a marca de um traço no ar



(tradução de Marília Garcia,
publicada no número de estréia da Modo de Usar & Co.)


cela commence: cela commence souvent par un trait / un mot une mouche qui vole ou / un léopard qui traverse la largeur / de la fenêtre d’un bond entre l’arche / de ses pattes étirées je vois le laveur / de carreaux lui n’a pas vu / la bête tout comme les autres assis / à leur bureau devant les écrans bleus / cela commence par un trait un indice / léger une mouche qui vole ou / un tatouage celui d’un soleil qui / jaillit de la pliure du coude du lutteur / les noirs rayons partent en éventail / vers un biceps à jamais matinal ou // le bruit de la chaise raclant / le carrelage qui réveille en hurlant / ses quatre pieds lourde est la chaise / las chaise est rouge / pourquoi tu bouges / pourquoi tu ne bouges pas viens / vers moi embrasse-moi fais-moi une marque / la marque des dents ou celles des griffes / la marque du fouet celle du vol / de la mouche celle d’un trait dans l’air



excerto do poema "1/0"


4.


você se lembra você se lembra que primeiro
dançamos sobre o vulcão mas onde
deixamos as frutas? ali onde tombou
a carta eu finalmente cedi ao fim
eu cedi eu terminei por ceder eu cedi e foi
delicioso
eles desapareceram em uma limusine
negra eu desviei de um beijo para a vida foi
o que ela disse oh! não precisa


falar disso eles não vão suportar ela ainda
por cima põe este vestido que parece continuar
a pele eles construíram sua vida como
um teatro no campo é um trabalho duro
manter o jogo o máximo de tempo


possível antes que tudo desmorone e deslize
para fora do campo mas ele gosta de pôr fogo é um
peixe que morde as maçãs e ela é uma galinha sim
uma galinha que dá alfinetadas nele


hoje é outra coisa que vai me dar
prazer há gestos que surgem
entre as duas portas eles não foram
previstos e as pequenas cortinas nas janelas
o espaço das paredes azuis levarei apenas
algumas sacolas e meus livros de estudo
a primeira flecha foi um
mal entendido melhor que todos os outros
ela saiu do grande movimento


giratório imediatamente perdi a
idéia da possessão


(tradução inédita de Marília Garcia)


souvenez-vous souvenez-vous d'abord
nous avons dansé sur le volcan mais où
avons-nous laissé les fruits? à l'endroit où la lettre
est tombée j'ai finalement cédé à la fin
j'ai cédé j'ai fini par céder j'ai cédé c'était
délicieux ils ont disparu dans une limousine
noire j'ai basculé du baiser vers la vie voilà
ce qu'elle a dit oh ! il ne faut pas


parler de ça ils ne vont pas le supporter elle a
encore mis cette robe qui semble continuer
la peau ils construisent leur vie comme

un théâtre en campagne c'est un rude métier
de tenir le jeu le plus longtemps


possible avant que tout ne bascule et ne glisse
hors du champ mais c'est un incendiaire c'est
un poisson qui mord les pommes c'est une poule oui
une poule qui sait faire jouer ses couteaux à lui
aujourd'hui c'est autre chose qui me ferait
plaisir il y a des gestes qui naissent
entre deux portes ils n'étaient pas

prévus et des petits rideaux aux fenêtres
le long des murs bleus je prendrai seulement
quelques valises et mes livres de classe


la première flèche fut
un plus beau malentendu que tous les autres
elle est sortie du grand mouvement


giratoire j'ai de suite perdu
l'idée de la possession










0 comentários: