terça-feira, 4 de Março de 2008

John Cage (1912 - 1992)

"One does not make then just any experiment but does what must be done" John Cage



John Cage nasceu, John Cage morreu, as datas são 1912 e 1992. Compositor, poeta, apaixonado por Thoreau e Duchamp, ensinou na Black Mountain College, colaborou com Merce Cunningham, escreveu alguns dos livros de poesia mais vivificadores da segunda metade do século XX (influência que foi sentida em todos os campos, da música às artes visuais e à poesia, incitando-as à performance), continua sendo ignorado em praticamente toda antologia de poesia norte-americana ou internacional. Seus textos tornaram-se, no entanto, centrais para a compreensão de grande parcela da poesia contemporânea. Como Wittgenstein, que também escreveu livros dificilmente compreendidos por uma taxinomia de gêneros engessada e que segue ditando "formas poéticas" de contextos passados, impostas como "essências eternas" para a poesia de qualquer tempo, Cage doou-nos com uma generosidade enorme uma poética de implicações, de incertezas, de borrar da fronteira que separa arte e vida, de quebra de valores hierárquicos entre sons, palavras, materiais, fazendo música e poesia com o quotidiano (patos de borracha e receitas culinárias para o preparo de cogumelos, "pianos preparados" e textos de James Joyce). Como Wittgenstein queria que a "filosofia" melhorasse a vida diária de uma pessoa e a levasse a tomar decisões práticas (do contrário, segundo ele, para que serviria?), Cage também parecia querer que as implicações de seus métodos de composição (tanto de música quanto em poesia) fizessem as pessoas mais felizes. "Delight the heart of men", disse Ezra Pound da função primeva da poesia. Quando Cage compõe sua "Lecture on nothing", é totalmente lícito que poetas posteriores a louvem por sua "forma", por sua "concisão e economia de meios", mas é também lícito que outros poetas prefiram ver implicações est(É)ticas diferentes em um poema que começa com as palavras: "I have nothing to say / and I am saying it / and this is poetry". Sua entrega ao acaso é uma aceitação da vida humana tal qual ela é, como queria Wittgenstein, que disse: "...pode-se pensar que a Estética é uma ciência dizendo-nos o que é belo... suponho que ela deva incluir também que tipo de café é gostoso...". Ou, nas palavras de Cage: "The first question I ask myself when something doesn't seem to be beautiful is why do I think it's not beautiful. And very shortly you discover that there is no reason." Eles estão entre os que se rebelaram contra a dicotomia entre linguagem quotidiana e poética, ou linguagem comum e sublime, dualismos que seguem ditando o trabalho de muitos poetas, que ainda resenham livros de poesia a louvar os "poetas que buscam dizer o indizível...", este clichê inútil, obscurantista e sem sentido. Nota de Ricardo Domeneck

Poesia de John Cage:














































("2 Pages, 122 Words on Music and Dance",
do livro
Silence, de 1961)


2 Páginas, 122 Palavras sobre Música e Dança


tradução de Ricardo Domeneck:

(Para obter o valor / de um som, um movimento, / meça do zero. / Preste /atenção ao que ele é, /// Um pássaro voa. /// tal qual ele é.) /// Escravidão é abolida. /// as matas /// Um som não tem pernas com que andar. /// O mundo transborda: qualquer coisa pode / acontecer. /// movimento /// som /// Atividades que são distintas / ocorrem em um tempo que é um espaço: /// Pontos no / tempo, no / espaço. /// cada um central, original. /// amor /// alegria /// o heróico /// surpresa /// placidez /// As emoções // estão com o público. /// medo /// raiva /// O telefone toca. /// angústia /// nojo /// Cada pessoa está no melhor assento possível. /// Guerras começam a qualquer momento. /// Há um copo de água aqui? /// Cada agora é o tempo, o espaço. /// luzes /// inatividade /// Abrem os olhos? /// ouvidos? /// Onde o pássaro voa, voe.)

(publicada no número de estréia da revista Modo de Usar & Co.)



"quando escuto o que chamamos de música, me parece que alguém está falando, falando sobre seus sentimentos e suas idéias de relacionamento. mas quando escuto o tráfego, o som do tráfego, aqui na sexta avenida, por exemplo, não tenho a impressão de que alguém está falando. tenho a impressão de que o som está agindo e amo a atividade do som. o que ele faz é ficar mais mais forte ou mais fraco, mais alto ou mais baixo, e mais longo ou mais curto, faz todas essas coisas com as quais estou completamente satisfeito. não preciso que um som fale comigo."

*

"as pessoas esperam que escutar seja mais do que escutar. então às vezes falam de escuta interna ou do significado do som. quando falo sobre música, finalmente as pessoas compreendem que estou falando sobre som, que não significa nada, que não é interno, mas apenas externo. e essas pessoas que finalmente compreendem me perguntam: você quer dizer que são apenas sons? pensando que é inútil algo ser apenas um som. mas eu amo os sons como são. não preciso que sejam mais do que são, não quero que sejam psicológicos, não quero que um som faça de conta que é um balde, ou que é o presidente, ou que está apaixonado por outro som (risos).eu só quero que seja um som. mas não sou muito burro, havia um filósofo alemão muito conhecido, immanuel kant, e ele disse que há duas coisas que não precisam ter significado: uma é a música e a outra é o riso (risos). não têm de significar nada, isto é, para que nos dêem profundo prazer. "

tradução de Angélica Freitas para trechos desta entrevista com John Cage:






Música de John Cage:





(Water Walk: John Cage em uma performance na TV,
música com chaleiras, baldes, rádios desligados,
um pato de borracha, etc)





(In the name of the Holocaust, com a pianista
Margaret Leng Tan num piano preparado)






(Imaginary Landscape No. 1)


sele
ção e tradução: Angélica Freitas e Ricardo Domeneck
Nota biográfica: Ricardo Domeneck

1 comentários:

Jarko disse...

Hello i like your site despite of fact that i dont understand any word:) but probably u will have same feeling on my blog.. greetz!!!