Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Fernando Assis Pacheco (1937 - 1995)

da série “Sintonia de nossa sincronia”


Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra, Portugal no ano de 1935. Estreou em 1963 com o livro “Cuidar dos vivos”, cujo título define, desde a primeira capa, toda uma atitude frente à tradição e o trabalho poético, e é considerado por muitos um livro-marco daquela década na poesia portuguesa. Estudou Filologia Germânica na Universidade de Coimbra e foi redator da revista Vértice e dos periódicos Jornal de Letras, Artes e Ideias, Diário de Lisboa e República. A cultura galega de seu avô materno teria forte influência sobre ele. Dois de seus livros principais são Câu Kiên: Um Resumo, 1972 (republicado em 1976 com o título Katalabanza, Kiolo e Volta) e Variações em Sousa (1987). Sua poesia foi reunida em 1991 sob o título de A Musa Irregular. Fernando Assis Pacheco morreu em Lisboa em 1995, ao sofrer um ataque cardíaco à saída de uma… livraria, o poeta que escreveu que "morrer é mais do que suficiente".

Nas palavras de Fernando Pinto do Amaral, ao escrever sobre Fernando Assis Pacheco: “Uma das mais persistentes confusões quando se fala de poesia tem nascido do equívoco com que por vezes alguns leitores identificam uma suposta "linguagem poética", superiorizando-a perante o que seria a linguagem comum - como se a poesia pudesse sempre definir-se através de uma sobrecarga retórica e metafórica em relação à restante linguagem, cavando assim uma distância que inapelavelmente as separasse.” Segundo Manuel Gusmão, o trabalho de Fernando Assis Pacheco forma "uma poética da deflação do 'pathos' lírico. A expressão julgo que permite, por um lado, não apagar a sua inequívoca dimensão lírica e, por outro lado, dar conta dos processos de 'decapagem' a que ela é submetida, assim como das modulações irónica, satírica ou de 'escárnio e mal-dizer' igualmente manifestas"



Poemas de Fernando Assis Pacheco


O cu de Maruxa


Um cu que se desvela em Agosto em Ourense
redondo para olhar um cu magnificente

um cu como um bisonte

o teu cu Maruxa adivinhado num restaurante
eu rimo tanto cu que trago na memória
o teu fará por certo mais história

é um cu para a glória ó nena impante
rodando na cadeira el’ deixa-nos suspensos

quase presos Maruxa pelos beiços

lembra-me nédio raxo assim forte de febra
lêveda e alva nas Burgas cozinhando

se de soslaio agora se requebra

é como canta Maruxa! igual que um pássaro
ao qual neste mesón péssoro vénia

teu ouriflâmio cu me faz insónia


Chula das fogueiras

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu n
ão me ligavas

pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas

em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas

estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma

tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio

fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado

mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia


A namoradinha de organdi


Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava

cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold

eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!


F.A.P. Fecit


Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste

*

Peçam grandiloqüência a outros
Acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde




(todos os poemas in Variações em Sousa, 1987)


seleção dos poemas: Angélica Freitas e Ricardo Domeneck
nota biográfica: Ricardo Domeneck

1 comentários:

angélica disse...

grande FAP
& grande banana cósmica
invencível!