terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Fabiana Faleiros - "Eu durmo comigo" - sobre poema de Angélica Freitas


Fabiana Faleiros vocalizando o poema
"eu durmo comigo", 
de Angélica Freitas.

eu durmo comigo
Angélica Freitas

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado

§

De Fabiana Faleiros, você pode ler poemas 



Fabiana Faleiros nasceu em 1980 na cidade de Pelotas, RS, como Angélica Freitas (n. 1973). Atualmente, Faleiros vive em São Paulo, onde cursou mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. É escritora, artista visual e performer, apresentando-se como Lady Incentivo. Em 2007 publicou seu primeiro livro, com poemas feitos para fotografias do banco de imagens publicitárias gettyimages. Desde 2010 desenvolve a Coleção Autobiografia, com os livros Tudo o que escrevi durante um mês e Casa/Trabalho (publicações independentes). No mesmo ano publicou o livro Como se escreve uma imagem?, resultado de uma oficina ministrada na 29 Bienal de São Paulo. Em suas performances, realizadas em espaços urbanos, galerias de arte e festas, costuma criar improvisações com bases eletrônicas a partir de situações sociais específicas. Dentre suas exposições recentes destaca-se a performance My Wall Fell no Festival Camp/Anti-Camp: A Queer Guide To Everyday Life, realizada em 2012 no Teatro HAU-2, Berlim, junto com o artista Rafael RG. Veja outros vídeos seus no Youtube.

.
.
.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Ederval Fernandes vocaliza e comenta poemas de Eurico Alves e Manuel Bandeira

Retornamos ao projeto Empreste sua voz a um poema mortoEderval Fernandes (Feira de Santana, 1985) lê os poemas "Elegia para Manuel Bandeira", de Eurico Alves (1909 - 1974), e a resposta de Manuel Bandeira (1886 - 1968), "Escusa", e tece também um comentário sobre o diálogo dos dois autores.




Sobre ser da roça e sobre ser da cidade

por Ederval Fernandes


Ao que tudo indica, Eurico Alves escreveu “Elegia para Manuel Bandeira” no calor da leitura do recém lançado Libertinagem, de 1930.  Passados alguns anos do período heroico do movimento modernista, na década de trinta Bandeira já se estabelecera como um dos pilares da poesia moderna brasileira, e gozava de alguma admiração e influência entre os poetas mais novos. O poema chegou às mãos do autor de “Evocação do Recife” por intermédio de outro poeta baiano, Carvalho Filho, também membro do grupo modernista (assim como o feirense Eurico Alves) que se unira em torno da revista Arco & Flexa. Estimulado por “Elegia”, Bandeira compôs “Escusa”, um poema breve, melancólico e irônico, no qual declina o convite do poeta feirense por julgar-se “um homem da cidade”:

Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.

O que mais me chama a atenção nesse diálogo poético é a maneira como a ironia (ou a sua ausência) estabelece uma grande diferença entre os tons dos poemas, e como essa diferença está intrinsecamente ligada ao fato dos poetas viverem em ambientes opostos: a roça e a cidade.

Se no poema de Eurico Alves a voz é francamente de celebração (“elegia” está no título, certo?), uma voz em tom maior, sem nenhuma modulação irônica, a voz de “Escusa” (a começar por este título lacônico em oposição ao título do poema-convite) é irônica, melancólica, e sussurra suas lamentações em tom menor.

Enquanto Eurico escreve na “Elegia” 

Perdi completamente a melancolia da cidade
e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem

num ato de exteriorização da sua força, e principalmente num ato de comunhão com o seu torrão natal (Feira de Santana – que é o meu também), Bandeira, um homem da cidade, reage de modo inverso: ele precisa interiorizar a dinâmica urbana, e isso o faz ambíguo, irônico, melancólico. Os verbos “virar” (no sentido de transformar) e “aprender” dos versos abaixo não são nada gratuitos. Eles indicam essa “reconfiguração” forçosa que o homem precisa ter para viver na cidade.

(...) Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o gás [carbônicos das salas de cinema.

Se vivo estivesse, Eurico Alves estaria aturdido com o rápido processo de urbanização de Feira de Santana. Certamente seus versos teriam, agora, uma boa quantidade de melancolia e ironia, assim como os versos de Manuel Bandeira. Aquela Feira rural é, hoje, apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!


Feira de Santana, Bahia - novembro de 2014

§

Elegia para Manuel Bandeira
Eurico Alves

Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...
Serra de São José das ltapororocas,
afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificada no sol se o dia gargalha.
Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens
tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade
e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.
Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.
Manuel Bandeira, a subida da serra é um plágio da vida.
Poeta, me dê esta mão tão magra acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria
e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.
Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeal em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada.
Visto os couros do vaqueiro
e na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.
Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.
Que poeta nada! Sou vaqueiro.
Manuel Bandeira, todo tabaréu traz a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.
Feira de Santana! Alegria!
Alegria nas estradas, que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio,
alegria masculina das vaquejadas, que levam para a vida
e arrastam também para a morte!
Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!
Que lindo poema cor de mel esta alvorada!
A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.
Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana
e venha comer pirão de leite com carne assada de volta do curral
e venha sentir o perfume de eternidade que há nestas casas de fazenda,
nestes solares que os séculos escondem nos cabelos desnastrados
         [das noites eternas
venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e como o tabaréu até se parece com Nosso Senhor.

§

Escusa
Manuel Bandeira

Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito.
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade. Meus pulmões viraram máquinas inumanas
       [e aprenderam a respirar o gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata. Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores
      [das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano, Não sou mais digno de respirar o ar puro
      [dos currais da roça.


.
.
.

domingo, 23 de Novembro de 2014

Morre o poeta Bernard Heidsieck (1928 - 2014)


É com grande pesar e tristeza que informamos a nossos leitores que morreu ontem na França o grande Bernard Heidsieck. Nascido em Paris em 1928, foi um dos poetas europeus mais importantes do pós-guerra. Estreou com Sitôt dit (1955), ao qual seguiram-se obras incontornáveis e imprescindíveis da poesia sonora e textualidade experimental nas próximas décadas, como Canal Street (1986), Le carrefour de la chaussée d'Antin (2001) ou o maravilhoso Derviche / Le Robert (1988), do qual mostramos abaixo a seção K. Não há muitas palavras agora, apenas muita tristeza por outra grande perda este ano.




.
.
.

Fragmento de um texto inédito de Ricardo Aleixo


Sou o que quer que você pense que um negro é. Você quase nunca pensa a respeito dos negros. Serei para sempre o que você quiser que um negro seja. Sou o seu negro. Nunca serei apenas o seu negro. Sou o meu negro antes de ser seu. Seu negro. Um negro é sempre o negro de alguém. Ou não é um negro, e sim um homem. Apenas um homem. Quando se diz que um homem é um negro o que se quer dizer é que ele é mais negro do que propriamente homem. Mas posso, ainda assim, ser um negro para você. Ser como você imagina que os negros são. Posso despejar sobre sua brancura a negrura que define um negro aos olhos de quem não é negro. O negro é uma invenção do branco. Supondo-se que aos brancos coube o papel de inventar tudo o que existe de bom no mundo, e que sou bom, eu fui inventado pelos brancos. Que me temem mais que aos outros brancos. Que temem e ao mesmo tempo desejam o meu corpo proibido. Que me escalpelariam pelo amor sem futuro que nutrem à minha negrura. Eu não nasci negro. Não sou negro todos os momentos do dia. Sou negro apenas quando querem que eu seja negro. Nos momentos em que não sou só negro sou alguém tão sem rumo quanto o mais sem rumo dos brancos. Eu não sou apenas o que você pensa que eu sou.


§


§

sobre o autor


Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1960. Publicou, entre outros: Festim (1992), Trívio (2001), Máquina Zero (2004) e Modelos vivos (2010).

.
.
.

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Poema inédito de Luca Argel

Série de inéditos, com poema de Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988).




PERDI 7 AMIGOS EM 5 DIAS PERGUNTE-ME COMO

porque convenceste-me que este universo
é só um grande (ou quem sabe só um pequeno)
mal-entendido; porque fizeste da sua cruz
um espantalho e da minha própria suavidade
uma arma que não perdoa; porque foste
o pêssego só num prato de frutas de cera; e
porque nunca ouviste falar dos hanson nem
do sabonete do snoopy; e depois porque partiste
feliz da vida sem perceber que apenas uma das
sete cabeças da besta está ferida de morte.


§


§

sobre o autor

Luca Argel nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. Produz poesia sonora, visual e textual. Lançou  esqueci de fixar o grafite (2012) e O livro de reclamações (2014). Vive e trabalha no Porto, em Portugal.

.
.
.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Poema inédito de Raquel Nobre Guerra

Hoje, poema inédito da portuguesa Raquel Nobre Guerra (n. 1979).



Se sorrio aos mortos e enterro os vivos
como um objecto escuro por que
rodaram mãos e jeitos de luz? Sim.

Vivo como se não estivesse aqui
roupa leve como acontece na vida.
E vou da primeira à última batida
na respiração de um pulmão vivido.

Lê assim.

Podia arder a uma pouca distância de ti
nessa praceta que é um poema teu
— e as coisas voltariam a mim, meras,
como o ser transportada pelos dias —
mas cairei por aqui.

Meu amor.

Porta no trinco e nada nas mãos.
Há muito que é tudo o que resta.


§


§

sobre a autora


Raquel Nobre Guerra é uma poeta portuguesa, nascida em 1979. Formou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa e tem mestrado em Estética e Filosofia da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Publicou Groto Sato (Mariposa Azul, 2012). O livro recebeu em Portugal o Prêmio PEN para obras de estreia. Faz Doutoramento em Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras. Vive e trabalha em Lisboa.

.
.
.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Poema inédito de William Zeytounlian

Hoje, poema inédito de William Zeytounlian (São Paulo, 1988).



noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida

*
não basta

*

página de
acético ph

quebradiço
o papel como
um biscoito

as
promessas
nunca tardam
nunca tardam
em falhar.

*
não basta

*

banal
holocausto

do século
infausto:

por um
celular

a substância
vacila

entre as
facas
de cozinha.

*
não basta

*

noite fora
de medida

de censura,
vida ou corte:

testa o dia
sua sorte

na cesura
de uma vida

§


§

sobre o autor


William Zeytounlian é um poeta e tradutor brasileiro, nascido em São Paulo em 1988. Formado em História, o autor desenvolve hoje um trabalho de pesquisa sobre a História do século XVII, uma "História dos comportamentos silenciosos", a partir de tratados e máximas morais da época de Luís XIV. Traduziu, entre outros, Samuel Beckett, Jorge Luis Borges, André Pieyre de MandiarguesLeonard Cohen e Gerard Manley Hopkins. Escreve no blogue I beg your pardon. Além disso, faz parte da equipe brasileira de esgrima.


.
.
.