quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Fugas recentes de poetas brasileiros da Alcatraz da Página




Fugas recentes de poetas brasileiros da Alcatraz da Página

Reuben da Cunha Rocha (cavaloDADA) - "sol cabeça de coruja" (2014).

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Marília Garcia - "a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente" (2013).

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Dimitri BR & Victor Heringer (Os Misantropicalistas) - "não existe silêncio" (2014).

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Luca Argel - "diversão para os soldados no deserto" (2014).

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Marcello Sahea - "a um recém-nascido" (2013).

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Marcelo Ariel & Scherzo Rajada - "Salmo para Palestina" (2014).

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Domeneck & Nikolaus - "Animal sentinels" (2014) ::: Texto de Ricardo Domeneck, música de Markus Nikolaus (com batidas adicionais de Louis McGuire).

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 e a brasileira adotiva:


Matilde Campilho - "Conversa de Fim de Tarde Depois de Três Anos no Exílio" (2014).

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terça-feira, 22 de Julho de 2014

Carta aberta de Pier Paolo Pasolini a Italo Calvino (1974)


Reproduzimos abaixo a tradução de Alexandre Pilati, publicada em seu Horizonte Cerrado, para uma carta de Pier Paolo Pasolini a Italo Calvino, publicada na imprensa italiana em 1974.




Caro Calvino,

Maurizio Ferrara diz que eu tenho saudade de uma “idade de ouro”, você diz que eu tenho saudade da “Italietta”: todos dizem que tenho saudade de alguma coisa, conferindo a esta saudade um valor negativo e, portanto, tornando-a um alvo fácil.

Isto de que sinto saudade (se é que se pode falar em saudade) expus claramente, até mesmo em versos (Paese sera, 5-1-1974). Que outros tenham fingido não me entender é natural. Mas me espanto de que você (que não tem razão para fazê-lo) não tenha desejado me compreender. Mas então você não leu nenhum verso das Cinzas de Gramsci ou de Calderón, não leu uma só linha dos meus romances, não viu um só enquadramento dos meus filmes, não sabe nada de mim! Porque tudo aquilo que eu fiz e que sou exclui, pela sua natureza, que eu possa ter saudade da “Italietta”. A menos que você me considere radicalmente mudado: coisa que faz parte da psicologia miraculosa dos italianos, mas que exatamente por isso não me parece digna de você.

A “Italietta” é pequeno-burguesa, fascista, democrata-cristã; é provinciana e às margens da história; a sua cultura é um humanismo escolástico formal e vulgar. Você deseja que eu tenha saudade de tudo isso? Por aquilo que me compete pessoalmente, esta “Italietta” foi um país de militares que me prendeu, processou, perseguiu, atormentou, linchou por quase duas décadas. Isto um jovem pode não saber. Mas você não. Pode ser que eu tenha tido aquele mínimo de dignidade que me permitiu esconder a angústia de quem, por anos e anos, esperava todo dia a chegada de uma citação do tribunal e tinha terror de olhar as bancas de revista para não ler, nos jornais atrozes, notícias escandalosas sobre a própria pessoa. Se tudo isso posso eu esquecer, entretanto, você não pode…

De outra parte, esta “Italietta”, por aquilo que entendo, não acabou. O linchamento continua. Talvez agora quem o organize seja o Espresso; veja a notinha introdutória (Espresso, 23-06-1974) a algumas intervenções sobre a minha tese (Corriere della Sera, 10-06-1974): notinha na qual mofa de um título não dado por mim, extrapola lepidamente o meu texto, naturalmente deturpando-o horrendamente, e, enfim, lança sobre mim a suspeição de que eu seja uma espécie de novo Tribuno da Plebe: operação da qual até agora cri que fossem capazes apenas os delinquentes do Borghese.

Eu sei bem, caro Calvino, como se desenvolve a vida de um intelectual. Sei porque, em parte, é também a minha vida. Leituras, solidão no escritório, cercado em geral de poucos amigos e muitos conhecidos, todos intelectuais e burgueses. Uma vida de trabalho e substancialmente honesta. Mas eu, como o doutor Hyde, tenho uma outra vida. Ao viver esta vida, devo romper as barreiras naturais (e inocentes) de classe. Romper as paredes da “Italietta”, e impelir-me, então, para um outro mundo: o mundo camponês, o mundo subproletário e o mundo operário. A ordem em que elenco estes mundos respeita a importância da minha experiência pessoal, não a sua importância objetiva. Até poucos anos este era o mundo pré-burguês, o mundo da classe dominada. Era só por meras razões nacionais, ou, melhor, estatais, que tudo isso fazia parte da “Italietta”. Para além desta pura e simples formalidade, tal mundo não coincidia de fato com a Itália. O universo camponês (a que pertencem as culturas urbanas subproletárias, e, precisamente até pouco tempo, aquelas minorias operárias – que eram verdadeiras e legítimas minorias, como na Rússia de 1917) é um universo transnacional: que, ademais, não reconhece as nações. Tudo isso é o avanço de uma civilização precedente (ou de um acúmulo de civilizações precedentes todas muito parecidas entre si), e a classe dominante (nacionalista) modelava tal avanço segundo os próprios interesses e os próprios fins políticos (para um natural da região de Lucca – penso em De Martino – a nação era estranha, foi primeiro o Reino Borbônico, depois a Itália do Piemonte, depois a Itália fascista, depois a Itália atual: sem solução de continuidade).

É deste ilimitado mundo camponês pré-nacional, e pré-industrial, que sobreviveu até pouco tempo atrás, que eu me sinto saudoso (não por acaso passo o maior tempo possível nos países do Terceiro Mundo, onde ele sobrevive ainda, apesar de o Terceiro Mundo estar também entrando na órbita do assim chamado Desenvolvimento).

Os homens deste universo não viveram uma idade de ouro, pois não estavam envolvidos, senão formalmente, com a “Italietta”. Eles viveram aquela que Chilanti chamou de a idade do pão. Eram, isto sim, consumidores de bens extremamente necessários. E era isto, talvez, que tornava extremamente necessária a sua pobre e precária vida. Aqui fique claro que os bens supérfluos tornam supérflua a vida (isto para ser extremamente elementar, e concluir com este argumento).

Que eu sinta ou não saudade deste universo camponês, isto é, de qualquer modo, problema meu. Isto não me impede, de fato, de agir sobre o mundo atual, assim como na minha crítica: ou antes, tanto mais lucidamente quanto mais dele me destaco e quanto mais aceito vivê-lo apenas estoicamente.

Disse, e repito, que a aculturação do Centro consumista destruiu as várias culturas do Terceiro Mundo (falo agora em escala mundial, e me refiro também às culturas do Terceiro Mundo, às quais as culturas camponesas italianas são profundamente símiles): o modelo cultural oferecido aos italianos (e de resto a todos os homens do globo) é único. A conformação a tal modelo se acha antes de tudo no vivido, no existencial; e, portanto, no corpo e no comportamento. É aqui que se vivem os valores, não ainda expressos, da nova cultura da civilização do consumo, isto é: do novo e do mais repressivo totalitarismo que jamais foi visto. Do ponto de vista da linguagem verbal, se tem a redução de toda língua a língua comunicativa, com um enorme empobrecimento da expressividade. Os dialetos (os idiomas maternos!) estão afastados no tempo e no espaço: os filhos são coagidos a não falá-los mais porque vivem em Turim, em Milão ou na Alemanha. Lá onde esses dialetos são falados agora, eles perderam sua potencialidade inventiva. Nenhum rapaz das periferias romanas seria hoje capaz de, por exemplo, compreender a gíria dos meus romances de dez ou quinze anos atrás: e, ironia do destino!, ele seria obrigado a consultar o glossário anexo como um bom burguês do Norte!

Naturalmente, esta minha “visão” da nova realidade cultural italiana é radical: observa o fenômeno como fenômeno global, não as suas exceções, as suas resistências, as suas sobrevivências.

Quando falo de homogeneização de todos os jovens, segundo a qual, desde o seu corpo, desde o seu comportamento e desde a sua ideologia inconsciente e real (o hedonismo consumista), um jovem fascista não pode ser distinguido de todos os outros jovens, enuncio um fenômeno geral. Sei muito bem que existem jovens que se distinguem. Mas são jovens pertencentes à nossa própria elite, e condenados a ser ainda mais infelizes que nós: e, portanto, também provavelmente melhores. Digo isso devido a uma alusão (Paese sera, 21-6-1974) de Tullio de Mauro, que, depois de ter se esquecido de convidar-me para um congresso linguístico de Bressanone, reprovava-me por não ter a ele comparecido: lá, disse ele, eu teria visto alguns jovens que contradizem a minha tese. É como dizer que, se algumas dezenas de jovens usam o termo “eurística”, quer dizer que tal termo é utilizado por cinquenta milhões de italianos.

Você dirá: os homens sempre foram conformistas (todos iguais uns aos outros) e sempre existiram elites. Eu respondo a você: sim, os homens sempre foram conformistas e o mais possível iguais uns aos outros, mas segundo a sua própria classe social. E, no interior dessa distinção de classe, segundo as suas particulares e concretas condições culturais (regionais). Hoje, ao contrário, (e aqui reside a “mutação” antropológica) os homens são conformistas e todos iguais uns aos outros segundo um código interclassista (estudante igual operário, operário do Norte igual a operário do Sul): ao menos potencialmente, na ansiosa vontade de uniformizar-se.

Enfim, caro Calvino, gostaria de fazer-lhe notar uma coisa. Não como moralista, mas como analista. Na sua apressada resposta às minhas teses, no Messagero (18 junho 1974), escapou a você uma frase duplamente infeliz. Trata-se desta frase: “Os jovens fascistas de hoje não conheço nem espero ter ocasião de conhecê-los”. Todavia: 1) certamente você não terá nunca tal ocasião, também porque se, numa cabine de trem, na fila de uma loja, na rua, em uma sala de visitas você encontrasse jovens fascistas, não os reconheceria; 2) felicitar-se por não encontrar nunca jovens fascistas é uma estupidez, porque, ao contrário, nós devemos fazer de tudo para identificá-los e para encontrá-los. Eles não são os fatais e predestinados representantes do Mal: não nasceram para serem fascistas. Ninguém – quando eles se tornaram adolescentes e ganharam capacidade de escolha, segundo qualquer razão ou necessidade – colocou neles de modo racista a marca dos fascistas. É uma atroz forma de desespero e neurose a que precipita um jovem a uma escolha como essa; e talvez bastasse uma só experiência diversa na sua vida, um simples e só encontro, para que o seu destino fosse diverso.

Pier Paolo Pasolini

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Notas do tradutor:

[1] A tradução toma como base a versão publicada em: PASOLINI, P.P. Scritti corsari. Milano: Garzanti, 2013. Prefazione di Alfonso Berardinelli. Settima ristampa.

[2] Publicado em “Paese sera” com o título “Carta aberta a Italo Calvino: aquilo de que sinto saudade”.

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segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Maurice Blanchot (1907 - 2003)


Maurice Blanchot (França, 1998, 57 min).
Direção de Christophe Bident e Hugo Santiago. 


Reproduzimos abaixo um texto de Karl Erik Schøllhammer, publicado no jornal O Globo a 04 de junho de 2011, por ocasião do lançamento dos livros de Blanchot no Brasil, O espaço literário, em tradução de Álvaro Cabral, e A parte do fogo, em tradução de Ana Maria Scherer, ambos pela editora Rocco.


A essência da literatura, segundo Blanchot
Karl Erik Schøllhammer

A reedição no Brasil de dois célebres livros do escritor francês Maurice Blanchot, falecido em 2003, traz para o debate atual questões fundamentais de “por quê” ou “para quê” a literatura? Os ensaios reunidos sob os títulos “A parte do fogo” e “O espaço literário”, editados originalmente em 1949 e 1955, e traduzidos para português em 1997 e 1987 respectivamente, convidam à reflexão sobre a real necessidade da criação literária. Não se trata de interrogar as diferentes motivações individuais que levam alguém a se tornar escritor, ou a eventual funcionalidade da literatura do ponto de vista da sociedade, Blanchot dribla essas falsas justificativas e insiste na pergunta: por que “a literatura” continua a existir? Num momento em que se discute sua relação e dependência a fatores alheios ao literário, como o mercado, a mídia, a tecnologia, a educação e a cultura em geral, Blanchot recoloca na ordem do dia a necessidade de se refletir sobre o que só a literatura é capaz de realizar e o que ela é em sua essência. 

Importante questionador da noção de “obra”, Blanchot aborda a escrita no que ela tem de fragmentário, dinâmico, incompleto, dialógico, intransitivo e exterior ao discurso funcional e comunicativo. Esse questionamento radical tem sua contrapartida na rejeição da ideia moderna do “autor” como centro expressivo da linguagem. A escrita literária não é resultado da vontade do autor, da sua intenção ou da sua sensibilidade. Pelo contrário, a dinâmica neutra da escrita conduz ao apagamento da figura do autor, ao anonimato necessário, à solidão essencial e ao estranhamento anti-lírico diante do mundo. Neste sentido, Blanchot é um precursor do anti-humanismo de Foucault e da ideia da “morte do autor” desenvolvida por Roland Barthes que, até os últimos cursos de 1978 e 1979, perseguia a determinação neutra que se impõe na emergência da literatura.

O próprio Blanchot foi uma figura ausente e enigmática para o seu público leitor. Nunca apareceu na televisão e não permitiu a aproximação de biógrafos e jornalistas. Muito pouco se sabe a seu respeito e quase nada sobre sua vida particular. Não encontramos nenhuma autobiografia, nenhum diário e nenhuma correspondência publicados. Nunca se deixou entrevistar e existem pouquíssimas fotos, sempre de má qualidade, de seu vulto misterioso; em uma delas, de 1929, ele aparece com Emmanuel Levinas entre outros amigos, e numa outra vemos apenas um homem idoso cruzando o estacionamento de um supermercado. É inútil procurar a resposta para a obra no autor, explica Blanchot, porque não é lá que ela se encontra. Só na escrita, ela mesma resultado desta procura, pode haver uma pista de algo desconhecido que submete o autor a uma outra lógica.

Blanchot era um escritor e crítico tão enigmático pela singularidade dos seus ensaios quanto polêmico pelas afinidades com a direita na década de 1930. Foi amigo próximo de Georges Bataille e de Levinas e sua influência foi marcante nas reflexões de teóricos e filósofos importantes de Michel Foucault e Gilles Deleuze a Jacques Derrida, Roger Laporte e Jean-Luc Nancy. Os livros e ensaios de Blanchot foram fundamentais para a redefinição pós-estruturalista da literatura como um processo nunca terminado, que mereceu uma formulação teórica por parte dos autores que gravitavam em torno da revista “Tel Quel” — Julia Kristeva, Todorov, Philippe Sollers e Roland Barthes, além de ter preparado o terreno para a desconstrução promovida por Derrida. Para Blanchot, a poesia é um movimento de transgressão que subverte as fronteiras da linguagem comum e referencial bem como das formas convencionais sustentadas pela instituição literária, ou pela lei do gênero, na formulação de Derrida no livro de ensaios — “Parages” (1986) — dedicado a Blanchot. 

Nos ensaios Blanchot desenvolve um estilo crítico poético inconfundível, extremamente denso e rigoroso. Suas leituras partem de um elenco de autores modernos, dentre os quais se destacam Lautréamont, Hölderlin e o Marquês de Sade, seguidos de Rilke, René Char, Mallarmé e Kafka, sendo que alguns deles foram analisados repetidas vezes. Blanchot não se interessa por um tipo de literatura narrativa e imaginosa que discute os problemas do mundo ou cria uma ficção de fantasia alternativa para ele. Não se satisfaz com a negação dialética do mundo e sua substituição pela ficção. Sempre procura uma literatura que interrompe o movimento da negação na afirmação de sua própria existência fora desse mundo. Há, segundo Blanchot, uma espécie de violência na linguagem que suprime a existência do objeto, do gato, por exemplo, deixando na palavra “gato” apenas seu sentido transparente e abstrato.

A linguagem comum se caracteriza por uma confiança nesta substituição em que a não existência do gato é condição para a aparição da idealidade do seu sentido na palavra, e todo o esforço da linguagem será o de eliminar a materialidade do gato e também da própria palavra, considerada uma opaca resistência a esta transparência. Mas na linguagem literária, a preeminência da própria palavra cria uma ambiguidade entre o sentido e a significação, que ressuscita o gato na materialidade da expressão. Encontramos aqui um elemento fundamental na reflexão de Blanchot: por um lado registra o poder mortal da linguagem, que reduz o ser da coisa falada ao não-ser abstrato do seu conceito na palavra, e, por outro lado, articula à literatura a procura da realidade que foi perdida. Sua possibilidade está na materialidade da palavra, no seu aspecto físico: “o ritmo, o peso, a massa, a figura e, depois, o papel sobre o qual escrevemos o traço de tinta, o livro.” Assim a literatura emerge em sua independência, não mais uma expressão do escritor, não mais uma representação do mundo, mas um “bolo concreto de existência”, no espaço entre a linguagem e o mundo, o que ele denomina o “espaço literário”.

Não é um além do mundo, e também não é o mundo: “é a presença das coisas antes que o mundo o seja, a perseverança das coisas depois que o mundo desapareceu, a teimosia que resta quando tudo desaparece e o estupor do que aparece quando não há nada.” Resumindo, podemos dizer que Blanchot divide a literatura entre duas tendências. Uma, da linguagem comum e da prosa com intenção significativa, voltada para o “movimento de negação, pelo qual as coisas são separadas delas mesmas e destruídas para serem conhecidas, submetidas, comunicadas.” Outra, da literatura autêntica e, principalmente, da poesia depois de Mallarmé, preocupada com a realidade das coisas, com sua existência desconhecida. A literatura, na perspectiva de Blanchot, é a possibilidade de interromper ou adiar por um tempo a angústia do homem e interrogar a capacidade que a literatura tem de escutar o murmúrio inumano da existência e de criar realidades fora desse mundo porém plenamente reais. Em certos autores, por exemplo Lautréamont e Sade, a escrita é conduzida por uma lógica neutra e inumana, nem subjetiva nem objetiva, cuja precisão e clareza não nos leva de volta ao mundo referencial senão a uma outra opacidade, a uma outra noite não iluminável pelo espírito. Blanchot procura na literatura esse momento que a precede e em que a escrita se revela uma força impessoal, uma consciência sem sujeito, uma existência sem ser — um há (il y a; es gibt) — na exterioridade radical da linguagem.

Lendo hoje os seus ensaios fica ainda mais evidente a potência do seu raciocínio e sua capacidade de penetrar na literatura de modo a procurar responder o que a obra em sua essência se propõe e o que efetivamente logra. Uma interrogação que deveria ser obrigatória em toda leitura crítica. 

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KARL ERIK SCHØLLHAMMER é professor da PUC-Rio e critico literário, autor de “Ficção brasileira contemporânea”, entre outros.



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sábado, 19 de Julho de 2014

Martijn den Ouden


Martijn den Ouden é um poeta e artista contemporâneo holandês, nascido em Nieuw-Lekkerland em 1983. Graduou-se pela Academia Rietveld, no curso chamado "Beeld en Taal" (Imagem e Língua)


Leitura de Martijn den Ouden na Holanda.

O poeta estreou em livro com Melktanden (Dentes de leite, 2010), ao qual seguiu-sDe beloofde dinsdag (A terça-feira prometida, 2013). Martijn den Ouden vive e trabalha em Amsterdã.


--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE MARTIJN DEN OUDEN

na escuridão sinto samambaias sob as solas dos pés

ramas
solo solto
grama
asfalto
grama
grade
grama
asfalto
solo solto
ramas
samambaias

eu jamais - olhos fechados e descalço – cruzara uma estrada
como essa


(tradução de Ricardo Domeneck)

:

in dit donker voel ik varens onder mijn voeten

takjes
losse grond
gras
asfaltbeton
gras
een metalen hek
gras
asfaltbeton
gras
losse grond
takjes
varens

nog nooit ben ik zo - met gesloten ogen en op blote voeten - een weg 
overgestoken

:

Martijn den Ouden, De beloofde dinsdag (A terça-feira prometida, 2013)


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Trabalho visual de Martijn den Ouden.

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quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Swantje Lichtenstein


Swantje Lichtenstein é uma poeta alemã, nascida em Tübingen em 1970. Formou-se em Filosofia, Literatura e Sociologia, e escreveu sua tese sobre performatividade e poetologia. Viveu por algum tempo em Nova Delhi, na Índia, e retornando à Alemanha publicou seu primeiro livro, intitulado figurenflecken oder: blinde Verschickung (2006). A este seguiram-se Landen (2009), Entlang der lebendigen Linie. Sexophismen. Ein lyrischer Zyklus (2010), e o sofisticadíssimo Horae (2011). Este último é um dos mais belos livros de poesia alemã dos últimos anos, de difícil tradução, no qual Lichtenstein produz sua poesia serial, na qual som e etimologia se imbricam, ligando seu trabalho a poucos antecedentes, como Unica Zürn (1916 - 1970). Swantje Lichtenstein traduziu ainda, entre outros, o trabalho da poeta conceitual americana Vanessa Place (n. 1968), assim como a coletânea Notes on Conceptualisms, editada originalmente nos Estados Unidos por Vanessa Place e Robert Fitterman. 

 


O poema abaixo não faz parte de seus livros, e foi escrito para o festival Zeitkunst. Nele, a poeta recorre à linguagem dos expressionistas germânicos para pintar um quadro nada delicado do nosso mundo contemporâneo. O poema recorre com frequência à habilidade aglutinadora da língua alemã para formar novas palavras, o que torna difícil sua tradução ao português. Em outros casos, ela usa palavras já aglutinadas pela língua, mas o contexto em que aparecem leva o leitor a, de certa forma, desaglutiná-las, perceber suas raízes distintas. É muito difícil reproduzir estes jogos em uma língua tão diferente do alemão como é o português. Considero esta tradução um trabalho em progresso.

Swantje Lichtenstein vive e trabalha em Colônia, na Alemanha.


--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE SWANTJE LICHTENSTEIN

A parede assoberba o palco,
beijos penetram em salitre
e eflorescências enegrecem
dos lábios as mordidas.

Pedras adiam a cada dois dentes
atravessados por sustos e medos
a vista das fendas sussurráveis,
penetram a lama e o temporal.

Frases trementes piscam no cimento,
isópodes vencem guerras couraçadas,
no subterrâneo, sós, carros de compra
e sobre os lagos artificiais os caiaques.

Bigatos oviformes em metamorfose
entre os anões de jardim a massagem
e romances de autocomeçomeiofim,
faltam dedos de zumbi para coçar-se.

Medidas ocultas, alôs e mensagens,
forças centrifugais e ritmos à venda
acariciam cardiocapuzes quebrados,
deslocam carburadores aos amantes.

Muram bocas ao estender-se as mãos,
encharcadas de suor as fotos paralelas,
ponderando lisas e delicadas brincam
de úteros felizes e viúvas de comédia.

Depois engancham listas de compra,
encastelam-se detrás de suas portas
e tudo derrubam por fim ao começo
para que sua timidez desperdice tudo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Die Wand läuft über die Bühne
Küsse dringen in Salpeter
und Ausblühungen schwärzen
der Lippen spitze Bisse

Steine verschieben je zwei Zähne
durch Furchen und Ängste hindurch
Sicht auf den durchflüsterbaren Riss
Leim und Schlagregen dringt hinein

Zitternde Phrasen blinken in Zement
Asseln überleben gepanzerte Kriege
im Untergrund stehen Einkaufswagen
und Paddelboote in künstlichen Seen.

Wenden eierförmige Fliegenlarven
zwischen umkämpften Platzhirschen
und automatisierten Linearromanen
es fehlen Zombiefinger putzabkratzend

Versteckte Maßnahmen, Grußbotschaften
Zentrifugalkräfte und Rhythmusgeschäfte
tätscheln die Kapuzenherzen kaputt
verrücken Flüstertüten zu den Liebenden

sie mauern Münder zu reichen  sich Hände
schweißnass als Simultangebilde ähnlich
glatt und im zarten Erwägen spielen sie
freudvolles Gebären und lustige Witwe

Am nächsten Tag hakten sie Einkaufslisten
ab verschanzten sich hinter den Toren
und rissen alles nieder endlich am Anfang
zu sein schüchtern alles zu verschwenden.



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domingo, 13 de Julho de 2014

Alejandro Crotto



Alejandro Crotto é um poeta contemporâneo argentino, nascido em Buenos Aires em 1978. É formado em Direito e Literatura. Estreou com o volume Abejas (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2009), ao qual seguiu-se Chesterton (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2013).



No vídeo acima, o poeta lê em Nova Iorque, ao lado de Mirta Rosenberg (Rosário, 1951), com apresentação de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981).

Com um trabalho formal e métrico firme e sutil, que jamais se impõe à naturalidade da fala, sua poesia expõe com frequência sua crença na sacralidade da matéria, dos corpos vivos, em uma mística delicada da imanência que o une à poesia de autores como Umberto Saba, que o argentino também traduziu de forma bela.


 

O poeta mantém o excelente blogue de traduções Words Words Words, no qual publica suas versões para o castelhano de poetas tão diversos quanto Lucrécio, Guillaume Apollinaire, Pier Paolo Pasolini, Ezra Pound, e mais.

Um dos escritores mais discretos da cena contemporânea, eu o respeito, pessoalmente, como um dos melhores poetas da minha geração. Seus dois livros são pequenas joias.

--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE ALEJANDRO CROTTO

As pombas

É preciso vestir rápido as meias
porque o piso de pedra está frio; na cozinha
tomamos leite no café, pão com manteiga e mel,
então saímos para caçar pombas
com nossa arma de ar comprimido,
meu irmão e eu, com menos de onze anos
e com botas sete léguas, camisa grossa xadrez e projéteis
no bolso – dois ou três,
os próximos a usar, vão é na boca.
Vamos deixando trilhas na geada que começa a derreter-se,
vamos atentos entre os galhos dos plátanos,
os altos eucaliptos, nogueiras, as casuarinas,
os choupos do haras, a piscina,
um tiro cada um, caminhando,
apontando vez em quando as copas do outono.

Depois, atrás da lavanderia, entre pomares,
as depenamos, limpamos suas tripas:
segurando na esquerda seu peso frágil,
vamos tirando penas com a outra,
as mais longas e duras na cauda e nas asas,
as simples do peito, as curtinhas
e escuras das costas, as mais suaves
na frente, debaixo das asas na axila;
vão caindo nas ervas enleadas na direção do vento,
grudadas nas nossas mãos, suspensas no ar
quando se torvelinha de repente;
depois vamos esvaziando o corpo, muito menor
agora em relação à cabeça: primeiro o bucho,
às vezes com sementes de girassol intactas que se podem comer,
apenas azedas, e enfiando com força os dedos para cima
onde termina o esterno, girando-os
dentro do corpo ainda quente, agarrando e jogando para baixo,
arrancamos os longos intestinos e o papo, tiramos os pulmões
como uma esponja rosa grudada às costelas,
os rins, o fígado, o quieto coração,
que os cachorros pegam sem que cheguem
ao chão; na torneira lavamos as pombas
e cortamos suas cabeças, amarramos
subindo a um banquinho a pata a um arame até a noite.

As mãos queimam com o frio da água,
brilham os corpos no ar, ao sol; a vida
é material, e a matéria
é difícil, sagrada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Las palomas
Alejandro Crotto

Hay que ponerse rápido las medias
porque el piso de piedra está frío; en la cocina
desayunamos leche, pan con manteca y miel,
después salimos a cazar palomas
con nuestro rifle de aire comprimido,
mi hermano y yo con menos de once años
y con botas de goma, camisa gruesa a cuadros y balines
en el bolsillo —dos o tres,
los próximos a usar, van en la boca.
Vamos dejando huellas en la helada que empieza a deshacerse,
vamos alerta entre las ramas de los plátanos,
los altos eucaliptos, el nogal, las casuarinas,
los álamos del haras, la pileta,
un tiro cada uno, caminando,
señalando de a ratos las copas del otoño.


Después, detrás del lavadero, entre frutales,
las desplumamos y las destripamos:
sosteniendo en la izquierda el peso tibio
vamos sacando plumas con la otra,
las más largas y duras en la cola y el ala,
las fáciles del pecho, las cortitas
y oscuras de la espalda, las más suaves
en el flanco, debajo de las alas en la axila;
van quedando en los yuyos enredadas hacia el lado del viento,
pegadas en las manos, suspendidas del aire
cuando se arremolina de repente;
después vamos vaciando el cuerpo, mucho más chico
ahora en relación a la cabeza: primero el buche,
a veces con semillas de girasol intactas que se pueden comer,
apenas agrias, y metiendo con fuerza los dedos hacia arriba
donde termina el esternón, girándolos
dentro del cuerpo todavía caliente, agarrando y tirando para abajo,
arrancamos los largos intestinos y la panza, sacamos los pulmones
como una esponja rosa pegada a las costillas,
los riñones, el hígado, el quieto corazón, 
que los perros atrapan sin que toquen
el suelo; en la canilla lavamos las palomas
y les cortamos la cabeza, las atamos
subidos a un banquito de la pata a un alambre hasta la noche.

Las manos queman por el frío del agua,
brillan los cuerpos en el aire, al sol; la vida
es material, y la materia
es difícil, sagrada.



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No vídeo abaixo, Ezequiel Zaidenwerg lê um poema
de Alejandro Crotto. Gravado no México em 2011. 





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sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Dorothea Lasky




Dorothea Lasky é uma poeta norte-americana, nascida e cresceu em St. Louis, Missouri, em 1978. Formou-se em Estudos Clássicos e Psicologia na Universidade de Washington e mestrou-se em Poesia na Universidade de Massachussets Amherst. Publicou três coleções de poesia através da editora Wave Books: AWE (2007), Black Life (2010) e Thunderbird (2012). Atualmente leciona na Universidade de Columbia.

--- Rubens Akira Kuana

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POEMAS DE DOROTHEA LASKY

Pornografia

Todos os tipos de pornografia são terríveis
Eu acabo de assistir uma mulher foder um empregado
Em sua cozinha de mármore enquanto seus amigos fitavam
O título do filme era Festa Divorcial
E entre seu grande pênis, suas coxas magras
Seus amigos gritaram, Naã garota, agora você está livre

Mas não ela não está ela está em um filme
E agora eu estou chorando
Porque o homem parecia um ex-namorado
Ou meu meio irmão
Meu chefe
Um monstro
Alguém que me deixou no escuro
Alguém que me assombrou
Um milhão de vezes

Eu fodi apenas 7 caras em minha vida inteira
Mas eu assisti mais pornografia do que você
Horas e horas
Uma mulher e um cão
Três mulheres
Uma fruta peluda
Quatro inclinando-se para trás
Vomitar sexo
As preliminares
Amplexas
Em movimento

Eu assisto pornografia
Porque nunca irei me apaixonar
Exceto por você queridx leitorx
Que pensa que eu me rendo
Mas que diz que esta estrofe não é pornográfica

Calculada e dolorosa
Todos meus amigos dizem que sou livre
E sim, talvez eu seja
Mas você é livre
Não, você nunca será
Eu tenho você ao meu alcance
Eu tenho você bem aqui no meu quarto
Mais uma vez

(tradução de Rubens Akira Kuana)

:

Porn

All types of porn are horrific
I just watched a woman fuck a hired hand
In her marble kitchen while her friends looked on
The title of the movie was Divorce Party
And throughout his big cock, her skinny thighs
Her friends shouted, Nah girl, now you’re free

But no she’s not she’s in a movie
And now I am crying
Because the man looks like an ex-boyfriend
Or my half brother
My boss
A monster
Someone who left me in the dark
Someone who darkened me
A million times over

I’ve only fucked 7 guys in my whole life
But I’ve watched more porn than you ever will
Hours and hours
A woman and a dog
Three women
A hairy fruit
Four bending over backwards
Vomit sex
The underplay
Of tendril
In motion

I watch porn
Cause I’ll never be in love
Except with you dear reader
Who thinks I surrender
But who’s to say this stanza is not porn

Calculated and hurtful
All my friends say I’m free
And yes, maybe I am
But are you free
No, you’ll never be
I’ve got you in my grasp
I’ve got you right here in my room
Once again

§

Um Homem

Hoje enquanto caminhava
Um homem contou-me enquanto passava
Que eu era uma vadia branca (ele era branco)
E para não encará-lo
Caso contrário ele iria "foder o meu rabo"
Eu me afastei
Quem pode dizer
Eu acho que sou uma vadia branca
Minha bunda é grande
Mas eu acredito que o meu cu é pequeno
Esta violência que colocamos sobre as mulheres
Eu não acho isto louco
Alguém que conheço disse
"Ah, aquele homem era louco"
Eu não acho que ele era louco
Talvez ele pudesse dizer que eu possuía um olhar
Que não era mais louco
Talvez ele sentisse o meu sangue frio e selvagem
E isto o assustou
E ele se encolheu de medo
Talvez ele soubesse que eu era igual a ele
Mas que nasci com esses olhos e feições gentis
Privilégios econômicos
E que tal o dia em que eu parti
O que aconteceu então
Ainda assim estou feliz com o que ele disse
Ainda assim estou feliz com a sua crueldade
Que olho amargo sabia que eu tinha uma voz
Para dizer o que homens fizeram comigo
Que tipo de vento rude soprou através de minha mente
Para me fazer falar pelos miseráveis
Para falar miseravelmente sobre os feios
Para tornar meu próprio rosto simples e feio
Contorcer este simples sorriso em uma assustadora canção

(tradução de Rubens Akira Kuana)

:

A Man

Today when I was walking
I had a man tell me as he passed
That I was a white bitch (he was white)
And to not look at him
Or he was going to ‘fuck me in my little butthole’
I wandered away
Who is to say
I think I am a white bitch
My butt is big
But I believe my butthole is little
This violence that we put on women
I don’t think it’s crazy
Someone I know said
‘Oh, that man was crazy’
I don’t think he was crazy
Maybe he could tell I had a look in my eye
That wasn’t crazy anymore
Maybe he could feel the wild cool blood in me
And it frightened him
And he lashed out in fear
Maybe he knew I was the same as him
But had been born with this kind face and eyes
Doughlike appurtenances
What about the day I left
What happened then
Still I’m glad he said that to me
Still I’m glad he was so cruel to me
What bitter eye knew I had a voice
To say what men have done to me
What unkind wind has blown thru my brain
To make me speak for the wretched
To speak wretchedly about the ugly
To make my own face ugly and simple
To contort this simple smile into a haunting song

§

sobre o tradutor



Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina, em 1992. Traduziu poetas contemporâenos de língua inglesa como Sophie Robinson, Lonely Christopher, Ariana Reines e Alex Dimitrov, entre outros. Foi publicado na Modo de Usar & Co. impressa, no Suplemento Pernambuco e tem poemas prestes a sair nas revistas internacionais Babelsprech (Alemanha), Samplecanon (Holanda) e Hilda Magazine. Publica suas traduções e poemas no espaço pessoal AkIraRubens Akira Kuana vive e trabalha em Curitiba, onde estuda arquitetura e urbanismo.

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