sábado, 20 de Setembro de 2014

Octavian Paler (1926 - 2007)


Octavian Paler foi um poeta e jornalista romeno, nascido na cidade de Lisa, Romênia, a 2 de julho de 1926. Formado em filosofia pela Universidade de Bucareste, foi perseguido pela polícia secreta de Nicolae Ceauşescu por suas atividades contra o regime comunista. Publicou, entre outros, Umbra cuvintelor (Sombra de palavras, 1970), Mitologii subiective (Mitologias subjetivas, 1975),  Polemici cordiale (Polêmicas cordias, 1983) e Viaţa ca o coridă (Vida como toureiro, 1987), Don Quijote în est (Don Quixote no leste, 1993) e Autoportret într-o oglindă spartă (Autorretrato ante o espelho quebrado, 2004), do qual foi extraído o poema abaixo, em tradução de João Monteiro.

Dedico esta postagem a minha amiga romeno-brasileira Dorothy Lenner, que me apresentou o trabalho do poeta.

--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE OCTAVIAN PALER

Autorretrato ante o espelho quebrado [Autoportret într-o oglindǎ spartǎ]
Octavian Paler

Quando finalmente seriam os sonhos mais tangíveis, dei-me conta: também as paixões envelhecem. Não sou capaz de assegurar minhas próprias vontades. Não me faltaram, decerto, metas falsas e entusiasmos pueris. Jamais minha imaginação concebeu um mundo sem ti. Ainda que não assumas o comum e paranóico orgulho de imaginar-te ao centro do mundo, algo sempre duro de admitir, faltou-te inteligência ou capacidade para aceitar que ninguém ensina o que quer que seja, exceto retratos amarelados, velhas fotos lançadas à lixeira tão logo partas. Aos outros, somos marionetes bufas, personagens melhores [ou atuantes patéticos]. Todas as certezas que já tive esvaíram-se, sem ressalva alguma. Também as alegrias passadas assumem tom melancólico na lembrança. O passado é vivo, integra o presente e o influencia na proporção do conflito diário. “Daqui a pouco” transforma-se em “mais tarde”. Comecei a perceber que, de atores em cena, tornamo-nos figurantes. E a memória revolve-se em perdão. A lembrança tem um dom estivo, dá-nos o verão como estação de destino. Hoje, sobram-me dúvidas; fito o céu apenas com a esperança de um guarda-chuva, como todos aqui em Bucareste, que, sob nenhum lirismo, admiram e respiram fumaça [quando chove, inevitavelmente pisamos em poças múltiplas]. Associando-me a outros, a atmosfera, de tão dura, não me permite integrar, e acabo sempre só. Porque busco alguma coisa [pouca coisa mas algo] e sou errante num mundo de tudo que te dá nada. A humanidade tomou o lugar do próprio homem. Hoje, preciso apenas de um muro para levantar e, por não o encontrar, eis o desespero. Uma vida medíocre é justificável. A mediocridade das ilusões, todavia, é inescusável. E continuamos sonhando, mais e mais [sem limites]. Por quê? Talvez, possa-me abandonar sobre a imagem quebrada do espelho, sem o temor do pecado. Soube que há uma língua atualmente falada por um homem apenas. Como discutir? O mistério mais sutil é a banalidade. Nesse cotidiano, guardo contigo meu segredo supremo. Seria a criação do universo uma obra banal? As estrelas apontam, todas as noites, nossa morte [ou vida constelada emudecida]. Deus criou o homem e confiou ao diabo a tarefa do desfazimento. O diabo não tem limites. Seria a linguagem o extremo dessa falta?

Atentei-me demais ao detalhe, perdi o foco?
[vou reescrever]


(tradução livre João Monteiro)

(in Autoportret într-o oglindǎ spartǎ, Ed. Albatros, Bucareste, 2007)

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segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

al-Khansā’ (século VII)



Tumāḍir bint ʿAmr ibn al-Ḥarth ibn al-Sharīd al-Sulamīyah, melhor conhecida como al-Khansā, foi uma poeta árabe do século VII. Nascida em Néjede, hoje na Arábia Saudita, é uma das mais importantes autoras do século e foi contemporânea de Maomé, convertendo-se eventualmente ao Islã. Famosa por seus cantos fúnebres, venceu várias competições públicas, especialmente com os que escreveu aos irmãos mortos em guerra, Ṣakhr e Muʿāwiyah. 

Contou-me o compositor palestino Samir Odeh-Tamimi, ao recomendar a mim o trabalho da poeta, que ela não descansou até que seus irmãos fossem vingados. É uma das mais famosas poetas da língua. Os poemas foram extraídos do livro Vozes femininas: gêneros, mediações e práticas da escrita, com organização de Flora Süssekind, Tânia Dias e Carlito Azevedo, mais precisamente de um texto de Alberto Mussa sobre a poesia árabe feminina.

Mesmo em tradução, percebe-se a força da linguagem de al-Khansā, seu coisismo e precisão de vocabulário, a força afetiva que não desanda em choramingo, mas alça-se em potência vingativa.

Dedico esta postagem a meu amigo Samir Odeh-Tamimi.

--- Ricardo Domeneck


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POEMAS DE AL-KHANSA


28.


Se não és capaz de controlar tua emoção, nem de 

                 te consolares
Eis inúmeras viagens noturnas de Yalban até al-Uqda, 
                 em lombos jovens de camelas magras
Disse eu a um companheiro assustado: presta atenção 
                 nos cavalos
E chama por um dos grandes quando tiveres alcançado 
                 o ponto mais alto do mirante, então observa:
Verás de imediato, logo abaixo, um cavaleiro vagando.
Enfia então os açoites nos flancos arredondados desse 
                 puro-sangue, tal uma camurça de cor cinza;
E corre; e afunda nele as pernas até que a água brote e 
                 transborde, como da vasilha carregada pela 
                 mão esquerda.


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31.


Filhos de Sulaym! Quando deparardes os homens de Faqas 

                  num lugar estreito e de difícil acesso
Cumprimentai-os com vossos sabres, vossas lanças e uma
                  saraivada de golpes, na noite negra de alcatrão.
Fazei deles hordas debandadas, à memória de Sakhr, cuja
                  morte ainda não foi vingada,
E à de nossos cavaleiros, mortos lá embaixo, numa batalha
                  decidida apenas pelo destino.
Ele enfrentou Rabia no combate, e este lhe mergulhou no 
                  peito
Uma lança reta, de nós flexíveis, de ferro aguçado como a 
                  cabeça de um abutre.
E Rabia, neste mesmo instante, salvou-se, não interrom-
                  pendo a corrida desvairada.
Um cavalo esbelto e delgado levou-o para longe das lanças
                  de ferro cortante, como uma águia que abando-
                  na o ninho
De Khalid nos apoderamos, mas Awf o protegeu e libertou,
                  por sua própria conta.
Se em relação a Khalid houvessem seguido nosso conselho,
                  não continuaria ele a infligir tão duro tratamento 
                  aos cavalos, até o fim dos tempos.


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quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

"Copacabana Mon Amour" - Rogério Sganzerla


Copacabana Mon Amour (1970) - direção de Rogério Sganzerla.


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segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Michelle Mattiuzzi



Michelle Mattiuzzi é uma escritora, pesquisadora do corpo e performer brasileira, nascida em São Paulo, em 1980. É mestranda do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia. Criadora de performances como Merci Beaucoup, Blanco! (2012) e Pérolas aos porcos (2013), colabora ainda com os coletivos GIA (Bahia) e OPAVIVARÁ (Rio de Janeiro), além de ser residente permanente da Baluar7e Casa de Arte-BA.



Participou da III Mostra de Performance na Galeria Cañizares, da Residência Capacete, do 3º Encontro das Redes das Artes Visuais no Recôncavo, do Perfor1 - Fórum da Performance no Centro Cultural da Espanha, e ainda do projeto da artista Paula Carneiro, série “Para o herói: experimentos sem nenhum caráter - Corpo Sobre Papel”. A artista vive e trabalha em Salvador.



Conheci a artista em Salvador, em minha última passagem pela cidade, num acaso que não pode ter sido acaso. Começo a entrar no universo de suas poderosas intervenções agora, e esta postagem será um trabalho-em-progresso.

Leia abaixo o texto "Breviário sobre uma ação performática: só entro no jogo!", de Michelle Mattiuzzi, extraído de sua página pessoal.

--- Ricardo Domeneck

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TEXTO DE MICHELLE MATTIUZZI


Breviário sobre uma ação performática: só entro no jogo!

por Michelle Mattiuzzi

Escrever sobre as experiências, impressões e pensamentos é um exercício de vida, uma ação que me contextualiza no tempo/espaço. Aprecio quando essa escrita deriva de situações informais como conversas de mesa de bar e dos encontros furtivos, onde os devaneios transformam-se em produção de subjetividade. Valorizo também as palavras que me saem como uma escrita automática, despojadas de nexos de sentido, pois elas borram e tracejam fragmentos do que penso como ação, performance e vida. A escrita é uma maneira de confabular com os meus (dís)pares sobre performance art e entender seus deslocamentos e diálogos nas conjecturas lançadas. Para isso abordarei impressões e etapas do processo de criação sobre a minha maneira de pensar a performance.

Começo a contar sobre a minha existência na Bahia.

Salvador, Vinte e Oito de Fevereiro de Dois mil e Doze. Oito horas da manhã é verão. Meu corpo transpira na cama, essa transpiração é como uma gosma que cola no lençol. Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Começa a minha angústia, acordo assustada me levanto. Meu corpo nesse momento palpita como um sino que acaba de badalar; ando de um lado para o outro. Andar naquele momento fazia meus pensamentos se deslocarem, como o meu corpo, de um lado para outro. Era importante andar para refletir, refletir em movimento. A casa tinha sensação térmica de um forno à 210°C, um calor imenso. Nesse momento, vivo na comunidade Vila Eliseu, no centro de Salvador; sou uma forasteira nesse lugar, fazem menos de seis meses que vivo aqui, qualquer movimento/ação/intenção que muda o cotidiano provoca alteração no espaço e aumenta a capacidade de diálogo/comunicação com as pessoas que vivem nele.

Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou... Quais seriam as ações que efetuaria naquela cidade? Como produzir um diálogo? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou, não vou!? Vou...

As ações começam a serem esboçadas, a performance é lançada no papel da vida. É assim que construo todos os dias, uma camada de vida que diz muito sobre a minha subjetividade  e também sobre as minhas escolhas na performance art. Além de compor com intenções ideias e experiências, é assim, amontoando vida e performance que ando por espaços que constroem e destroem meus afetos, lapidam minhas memórias e bagunçam minhas escolhas. Meus pés ocupam as frestas, eles sentem cada passo; somente a experiência do meu corpo pode dar conta de tudo isso que vivo durante as ações performáticas e principalmente diante a vida/arte ou arte/vida. Meu corpo modifica-se a cada instante de tempo. Meu corpo pulsa. Meu corpo age, meu corpo performa. Como efetuar deslocamentos de ações? Como relacionar corpo, estética e política através de micro-ações? Como criar poéticas com micropolíticas?  Como não falhar, sabendo que isso pode acontecer a qualquer momento. Essas questões são propulsoras para o planejamento das minhas ações em arte e vida. Elas pulsam a todo minuto, a todo momento as respostas saem como outras questões.E muitas vezes elas tornam-se ações. Será que existe apenas uma resposta para a mesma intenção?

Tinha certeza que praticaria performance e que seria um momento de lançar minhas questões sobre arte , vida e política. Essa é a maneira que estabeleço um diálogo, sendo  assim pressuponho, que  posso dinamizar nossas relações e maneiras de pensar com  o corpo seu contexto e fortalecer uma das potências da performance: ação em tempo real. Não sabia muito sobre o meu destino, sabia que haveria a terceira edição de um encontro (FIAR – 3º  Festival de Intervenções e Artes do Recôncavo) ; conhecia pouco a cidade de São Félix, mas já havia apreciado sua vida noturna em outra ocasião. Com tenacidade lancei-me a ação de andar com peruca e óculos escuros. Esse é um dos meus programas . Ação performática como possibilidade de experimentar estados, provocar contaminações, reinterar o caos e gerar instabilidades de diversos graus. Eu acreditava que poderia provocar uma intervenção no espaço, mas não sabia que a minha provocação seria recebida com tanta intensidade.  Ao sair de casa a vizinhança intriga-se com olhares curiosos e soltando algumas piadinhas, os moradores da comunidade manifestam-se  com a minha presença:  “Que porra é essa?”; “Que que isso?”; “Por que você está fantasiada, se acabou o carnaval?”; “Pra quê você vai sair vestida desse jeito?”; “Qual a função dessa peruca?”; “Isso né mulher ...” – esses foram os ruídos que apareceram durante a primeira aparição na rua,ou melhor, na comunidade em que morava. Ali começo construir a ação.

Após essas primeiras interferências públicas, meu corpo começa perceber quais os possíveis diálogos,  e se prepara para traçar  uma atitude para defrontar com o desconhecido. Sinto meu corpo palpitar, o tônus se modifica a minha presença no espaço também, parece que foi ativada uma bomba relógio; as sensações corpóreas eram as intensidades que serviam de potência para atitudes e conversas estabelecidas com as pessoas em trânsito e que de alguma forma estabelecia um contato (olhar, falar, seguir, xingar). A memória que cada interlocutor acessava diante dessa figura (eu) deslocada em seu tempo/espaço eram também argumentos para o meu posicionamento, como as pessoas reagiam diante as provocações são os agentes da proposição, esses que ativam a existência e um diálogo eminente no fazer da performance que proponho; um diálogo em tempo real.

  Na rodoviária, no guichê para comprar passagem para São Félix, as atendentes se espantam com o meu visual, elas comentam entre si alguma coisa. Não posso ouvir o que elas dizem, mas os olhares denunciam que não compactuam com a minha imagem, apesar de serem cúmplices da minha ação. Na espera do ônibus para São Felix as pessoas na rodoviária comentam umas com as outras sobre o meu modo de estar. Com peruca branca estilo colonial e óculos escuros, provoquei curiosidade em todos que ali transitavam. A ação performática, como um acontecimento naquele tempo/espaço, modificava a rotina daquele ambiente de chegadas e partidas. Ser e estar deslocada dos padrões estabelecidos pela normatividade social, causava um incomodo geral.

“[...] Pare, reencontre o seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso Corpo Sem Órgãos, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria.” (DELEUZE e GUATTARI 1992, p.11)

Meu corpo vibra. Performar um programa de ações é uma possibilidade de lançar questões, ou melhor, me lanço no espaço,  aproveito todas as fissuras coloco meu corpo em risco diante todos os preconceitos  e questiono todos os adjetivos lançados sobre ele. Provoco o diálogo em tempo real. Nessas ações ressalto meu corpo nu , e incito um posicionamento político e estético diante as normas vigentes. Lanço meu corpo, exibo minhas partes mais íntimas, questiono todos os adjetivos lançados sobre ele de forma artística e convido quem estiver por perto para ser cúmplice da minha ação.                                                      
“Quê que é isso?” – Uma grande fofoca se instala na rodoviária. Meu percurso até São Félix foi movido por interferências de várias naturezas, o diálogo foi estabelecido com os outros passageiros durante a viajem. A cada parada, durante o trajeto, qualquer  pessoa que se deparava com a minha figura  demonstrava estranheza. Ação em tempo real sendo alimentada por todos, a performance  estabeleceu um diálogo, criou relações  e possibilidades de pensar o corpo e seu contexto. Foi a viagem mais divertida que fiz em toda a minha vida.

Ao descer do ônibus em São Felix, sigo caminho ao Centro Cultural Dannemann, até chegar no espaço, percebo e sinto os olhares curiosos das pessoas da cidade. Os olhares eram como metralhadora de guerra, sentia por todos os poros de forma a atravessar minha percepção. Nesse momento, meu corpo se modifica, se apresenta de outra forma.Meu corpo cria uma estratégia de guerra para defrontar com o desconhecido. Minhas mãos suam, meu corpo treme. Ele se impõe no espaço, de forma a confrontar com os padrões. Sigo andando!  “Quê que é isso?”

Só entro no jogo.

Chego ao Centro Cultural Dannemann, é hora de bate-papo. O tema é “As redes colaborativas de arte”, os debatedores são participantes de coletivos, respectivamente na ordem de apresentação: Milena Durante – EIA/SP; Patrícia Francisco – RS e Rosa Apablaza – Desislaciones/Chile. Acompanho as conversas, me distraio. Vejo um olhar, meu rosto está suado e uso óculos escuros. Ouço uma risada. Vejo e finjo que não é comigo, continuo com o mesmo semblante e sentindo meu corpo transpirar, pulsar, tremia de medo. Lançar num ambiente, em que a discussão é intervenção urbana me causou um pequeno desconforto. Sentia os olhares de todos os presentes. Meu corpo se transforma numa bomba de ansiedade, fico roendo unhas. Após a apresentação de cada um dos participantes no bate-papo, houve a abertura para o público ali presente. Aproveitei o ensejo, e fiz algumas perguntas. E ficava um mistério no ar, quem é essa figura de peruca branca e óculos escuros? Porque ela está assim? O que é isso? Pra que serve isso? Isso é arte? – Foram essas perguntas enunciada pelo “senso-comum”, espantadas com a minha presença, e outros tipos de interferência que surgiram na pequena cidade de São Félix - Recôncavo Baiano.

No segundo dia de FIAR, me lancei no espaço de forma excêntrica. Atravessei a cidade de forma sensual, andava rebolando. Usando peruca rosa, óculos escuros e um corpete de oncinha. Seguia sempre andando e rebolando em direção à São Félix, passava pela rua sem olhar as pessoas, mas percebia seus movimentos em relação a minha presença sensual. As pessoas falavam, gritavam. Um grupo de homens que estava sentado em frente a rodoviária me aplaude. É o ápice da interação. Sair na rua usando corpete de oncinha e peruca rosa, tornou-se um acontecimento. Meu corpo é um acontecimento. Meu corpo invadiu aquele espaço, e interviu de forma a atacar o cotidiano das pessoas das cidades de Cachoeira e São Félix. Aqui utilizo a palavra ataque, porque a experiência que estava provocando naquele ambiente  possuía uma força bélica. Meu corpo nesse momento era uma imposição para aqueles que o defrontava.

Todos os dias meu programa de ações alterava-se, pois lançava-me a uma experiência desconhecida, de acordo com a interferência das pessoas meu corpo tomava outra posição no espaço, alterava o tônus. Além disso, esbocei a ação pensando em alternar as perucas com cores e cortes diferentes; corpete de oncinha, óculos e sapato sempre o mesmo. No terceiro dia do encontro, foi a maior sensação intervir nesse espaço que a cada dia ficava mais conhecido para o meu corpo. Estava sendo observada por todos, fazia microações durante esse trajeto. Arrumava a peruca, abria bolsa, acende cigarro, retirava parte do corpete da bunda, enfim “tocava o terror” com pequenas ações. Quando queria interagir com as pessoas, perguntava as horas, ou pedia informações para me localizar na cidade. Nesse dia, aconteceu algo inusitado. Era fim de turno de uma escola, apareceram 50 crianças de aproximadamente 8 à 12 anos de idade que me acompanharam até a rua principal de Cachoeira rindo muito da minha aparência e falando coisas de seu imaginário – “Olha a sereia do mar”, “Credo o cabelo dela é roxo”, “ Que roupa feia”, “Tia, você vai onde assim?”- Foi um dia curioso, não esperava o fim de turno da escola. No terceiro dia, já acostumada com a cidade, tive que lidar  com essa interação inesperada. Meu corpo se reorganiza novamente com essa nova informação, minhas mãos e pés suam. Sempre submeto meu corpo a  situações, confronto meu corpo à reação da audiência; um componente chave dessa experiência na forma de atenção mental ou até mesmo efetiva: tocar na obra (em mim). No momento da caminhada, tive a sensação que poderia ser tocada por uma das crianças. Era muita euforia, era muita interferência sonora, eram olhares.

“O performer não improvisa uma idéia: ele cria um programa e programa-se para realizá-lo (mesmo que seu programa seja pagar alguém para realizar ações concebidas por ele ou convidar espectadores para ativarem suas proposições). Ao agir seu programa, desprograma organismo e meio.” (Eleonora Fabião 2008,p.237)

As interferências das pessoas sobre o meu corpo e as experiências que, no momento da ação, me atravessavam, são as respostas da comunicação que estabeleci durante o  percurso na cidade de São Félix. O meu corpo é a minha fala e o espaço que ocupo compõem os modos de comunicação.
No mesmo dia após atravessar a ponte entre as cidades, me deparo com um grupo de homens sentados em frente à uma borracharia, eles me olham, desejam o meu corpo suado era assim que via os seus olhares, de desejo sobre o meu corpo. Num primeiro momento senti um incômodo, mas segui meu caminho andando, rebolando, provocando mais a situação de ser desejada. Chego ao Centro Cultural Dannemann, ia acontecer o último bate-papo do encontro. Sento numa cadeira de praia coletiva, acho engraçado e logo imagino que é um objeto de intervenção urbana. Chegam mais pessoas, começamos uma aproximação. Conversas sobre o calor, sobre a cidade e as atividades que estavam acontecendo começaram a rolar,  pareciam não ter nexo, tudo o que estava acontecendo ali. Mas era a maneira que as coisas estabeleciam naquele lugar. Nesse instante, um rapaz começa a amarrar uns toneis com cordas, minha curiosidade não permite o silêncio logo pergunto: “O que você está fazendo?” – Ele sorri e se apresenta: “Muito prazer eu sou Piton”- Eu faço um trocadilho e dou risada: “Sem prazer, Michelle.” Em seguida, vejo o grupo de homens na borracharia. Eles estão acenando. Me levanto e vou até lá, eles estavam realmente acenando pra mim.

Chego na borracharia, todos se apresentam pra mim. Não lembro o nome de ninguém, mas lembro da nossa conversa. Eles estavam comemorando aniversário, tomando cerveja e celebrando a vida. Foi quando um deles me perguntou: “Porque você está na rua gostosa, desse jeito?”. Novamente sinto meu corpo palpitar, estava defronte a uma situação delicada não sabia como resolver, e responder imediatamente o que aquele homem havia me perguntado. Isso que descrevo, foram apenas segundos. Pois logo, lancei a resposta. “ Pra saber se os homens sabem se comportar diante uma figura gostosa.”- Todos riem nesse momento, aqueles segundos de tensão é quebrado. Eles me oferecem um copo de cerveja e uma cadeira. “Aproxime-se fica um pouco conversando com a gente, não vamos fazer nada. Só vamos te desejar com os olhos.” Aceitei o convite. Ficamos conversando sobre: a minha roupa, de onde sou, porque sou, e sobre a performance. Foi quando me posicionei diante aqueles homens que me desejavam com o olhar. Como performer, utilizo elementos da minha biografia como situação fundamental. Gosto de lançar meu corpo para o outro, gosto de saciar o desejo do corpo com o corpo do outro. Essa e outras proposições com o meu corpo, evidenciam minhas características, exibem meu tipo, ou melhor, o estereótipo social que cabe a mim dentro das classificações sociais. Esse foi o meu discurso, sem essa formalidade. Realmente um encontro notável, estive sentada em frente à borracharia com corpete de oncinha, peruca e óculos escuros  com um grupo de homens me desejando, eu ali falando sobre a minha experiência de vida e falando sobre a performance. Antes de sair dessa conversa, tirei fotos com todos eles. Foi uma experiência no mínimo curiosa, queria saber o que passava na cabeça dos transeuntes diante aquela situação.Diante a minha provocação.  Após essa experiência, que durou aproximadamente quarenta minutos, voltei ao Centro Cultural Dannemann. Voltei a conversar com os participantes do encontro, continuamos o nosso bate-papo de aproximação. Foi fundamental essa conversa, pois tinha acabado de experienciar uma situação diferente, ou melhor, não convencional. Estar em ação e as pessoas que são cúmplices, participarem dela sem pudor, mas com muita curiosidade. Foi uma novidade. Estava falando sobre performance com os homens da borracharia de forma sedutora, deslocava a fala acentuando as palavras de forma a torná-las sensuais, falava de posicionamento político e o desenvolvimento de zonas de desconforto com ações performáticas: do jeito mais sedutor. Depois dessa conversa, com pessoas que não conhecia muito bem,  quis saber mais sobre esse flutuador (Intervenção Urbana GIA – 2008). Foi assim que descobri quem eram os coletivos GIA-Ba e OPAVIVARÁ-RJ. Iniciei trocas e parcerias com os coletivos, no FIAR. Tudo começou com uma conversa, logo tornou-se parte da intervenção. Com a Intervenção do Flutuador (GIA), no Rio Paraguaçu, me tornei musa. Foi assim, que surgiu a existência da Musa Mattiuzzi na Bahia.

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Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Vol. 3. São Paulo: Editora 34, 1999.

FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Revista Sala Preta. Vol.8, n.1. São Paulo: 2008. http://revistasalapreta.com.br/index.php/salapreta/article/view/263

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domingo, 7 de Setembro de 2014

Sosígenes Costa (1901 - 1968)



Sosígenes Costa foi um poeta brasileiro, nascido em Belmonte, Bahia, a 11 de novembro de 1901. Teve  parte de seu trabalho reunido no volume Obra Poética (1959), mas foram os esforços críticos de José Paulo Paes que trouxeram maior atenção ao trabalho do poeta baiano, quando, em 1978, Paes passa a trabalhar com a obra do poeta. O longo poema Iararana, escrito em 1933, seria editado em 1979, com ilustrações de Aldemir Martins. Em 2001, a sua produção poética foi reunida num volume único, Poesia Completa, publicado pelo Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Sosígenes Costa morreu no Rio de Janeiro, a 5 de novembro de 1968.

Foi contemporâneo de poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles, trazendo algo muito seu à poesia da geração.

Ainda preciso dedicar maior atenção à sua obra, mas intuo haver em Sosígenes Costa uma poesia singular, em que vários aspectos do Modernismo brasileiro parecem encontrar um luminoso ponto de equilíbrio. De passagem pela Baía de Todos-os-Santos, quis prestar esta homenagem a um poeta brasileiro por quem nutro um interesse que vem desde a leitura de textos críticos de José Paulo Paes sobre o autor e a descoberta de alguns poucos poemas disponíveis na Rede. Parece-me um poeta de um coisismo particular, numa linguagem marcada por sua localidade, como no mineiro Dantas Motta, poetas que, ao lado de outros – como o pernambucano Joaquim Cardozo, o paulista Orlando Parolini, as mineiras Henriqueta Lisboa e Maria Ângela Alvim, ou o paraense Max Martins – precisam ser re/lidos e voltar (ou passar) a circular, permitindo-nos enriquecer nossa visão sobre a poesia brasileira moderna.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE SOSÍGENES COSTA

A chuva vem cair na Ingauíra


Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.

Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.

Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.

Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.

Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.

Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.

Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.

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O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

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Duas festas no mar

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.

Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.

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O pôr-de-sol do papagaio

O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.

Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.

Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.

Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.

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A Cabeleira da Musa

No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.

No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.

No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.

No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.

Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.

No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.

Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.

No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.

No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.

No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.

No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.

No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:

Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!

§

do poema longo Iararana

Esse bicho da Oropa tinha parte com o diabo.
Esse bicho da Oropa foi o diabo neste rio

Ele fez guerra com espingarda aos cabocos do mato

tinha corpo de cavalo e andava de quatro pés

Mas ele dava na gente de taca e facão
e ensinou a gente a tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonitão como danado.

(Roda)

E o cacau foi chamado o alimento do céu,
a baba-de-moça comida na lua.
E o cacau ficou na coroa da lua,
e os meninos fizeram a roda na rua,
pedindo à lua manjar do céu.

         Carinha de anjo,
         moça do céu,
         bença, dindinha,
         me dê chá do céu,
         me dê chocolate,
         me dê bombom,
         baba de lua
         com manuê.

         Chá de santinho
         me dê me dê,
         café de anjo
         me dê me dê.

Dindinha, lua,
carinha de anjo,
me dê chá da lua
mais uma broa
pra meu pintinho
que saiu do ovo
que pinta pôs,
vestido de pelo
como um morcego,
feito uma poncã
de pó-de-arroz.

Me dê chocolate,
me dê bombom,
a teobroma
de seu Linneu.

A lua batiza
menino que nasce
depois que o cavalo
andou na lua
botando aquilo
que faz bombom.

         E o retrato do cavalo ficou na lua
         e ainda se vê o bichão na lua
         que está redonda como um botão.
         Não é S. Jorge que está na lua.
         Quem está na lua é aquele bichão.

§


Palhaço verde

Palhaço verde, o mar na areia ruiva
grita e gargalha, salta e cabriola,
como quem sofre, lírico, da bola.

E, querendo assombrar as moças, uiva,
brama, arremete e explode, o mariola,
abrindo uma alvacenta ventarola.

O mar é sempre o mesmo rapazola!
O mar é sempre o mesmo brincalhão
que, todo verde pela areia ruiva,
faz-se palhaço, bobo e valentão.

Vinde ver o bufão de roupa verde,
ver o bobo da corte de Netuno.

Na tarde cor-de-rosa, a roupa verde
do mar parece o tal pavão Juno.

Cai a noite. Do mar a roupa verde
fica de um verde negro, verde bruno.

Crianças, vinde à corte de Netuno
ver o palhaço verde gracejar.

Crianças, vinde ver cabriolar
pela areia amarela o verde mar.

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sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Centenário de Nicanor Parra, viva o vivo.



Nicanor Parra nasceu a 5 de setembro de 1914, em San Fabián de Alico, no Chile. Formou-se em matemática e física em Santiago do Chile no ano de 1938, logo após estrear com o volume Cancionero sin nombre (1937). Sua influência gigantesca e tão saudável sobre a poesia do continente americano começa com o lendário volume Poemas y antipoemas (1954), sem dúvida um dos livros de poesia mais influentes do século XX. A este seguiram-se La cueca larga (1958), Versos de salón (1962), Manifiesto (1963), Canciones rusas (1967), Obra gruesa (1969), Los profesores (1971), Artefactos (1972), Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979), El anti-Lázaro (1981), Plaza Sésamo (1981), Poema y antipoema de Eduardo Frei (1982), Cachureos, ecopoemas, guatapiques, últimas prédicas (1983), Chistes para desorientar a la policía (1983), Coplas de Navidad (1983), Poesía política (1983), Hojas de Parra (1985), Poemas para combatir la calvicie (1993), Páginas en blanco (2001), Lear Rey & Mendigo (2004) e Discursos de Sobremesa (2006).


--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE NICANOR PARRA
em tradução de Jorge de Sena.


"Me retracto de todo lo dicho"

Antes de despedir-me
tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
                      queima este livro
não representa o que eu quis dizer
apesar de ter sido escrito com sangue
não representa o que eu quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
fui derrotado pela própria sombra:
as palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
leitor amigo
que não possa despedir-me de ti
com um abraço fiel:
despeço-me de ti
com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu não seja mais do que isso
mas escuta a minha última palavra:
retracto-me de tudo o que disse.
Com a maior amargura do mundo
retracto-me de tudo o que disse.


(tradução de Jorge de Sena)

:

Me retracto de todo lo dicho
Nicanor Parra

Antes de despedirme
Tengo derecho a un último deseo:
Generoso lector
                      quema este libro
No representa 1o que quise decir
A pesar de que fue escrito con sangre
No representa lo que quise decir.

Mi situación no puede ser más triste
Fui derrotado por mi propia sombra:
Las palabras se vengaron de mí.

Perdóname lector
Amistoso lector
Que no me pueda despedir de ti
Con un abrazo fiel:
Me despido de ti
con una triste sonrisa forzada.

Puede que yo no sea más que eso
pero oye mi última palabra:
Me retracto de todo lo dicho.
Con la mayor amargura del mundo
Me retracto de todo lo que he dicho.

de Obra gruesa (Santiago, Universitaria, 1969)

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DOCUMENTÁRIO (EM 3 PARTES) SOBRE NICANOR PARRA








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terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Mariana Collares


"Isto" - Direção, poema, voz e teclados: Mariana Collares.
Direção de Arte, Edição e Mixagem: Marcello Sahea.
Música: sample de "I Feel Love" - Donna Summer.
HD video | 4'30"
2014

Mariana Collares é uma escritora e performer brasileira, nascida em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 1972. Publicou Devaneios Literários, Crônicas, em 2010. Publica textos em sites e portais literários no Brasil e exterior. É colunista na revista Benfazeja Comunidade Literária (digital) e desenvolve os projetos Fridas (autorretratos), Eu sou uma outra (multileituras) e performances site specific. Seus vídeos já participaram de mostras de vídeo-poesia e ilustraram revistas digitais. É apresentadora do programa Entre Umas & Outras, da Rádio Elétrica, e prepara o seu primeiro romance - Manhãs de Abril (ainda sem editora).

Sobre o vídeo aqui apresentado, Mariana Collares escreve: "Em outubro de 2013 fiz um convite a algumas mulheres via facebook. Havia escrito um poema que tratava da coisificação da mulher e pretendia ilustrá-lo através de um vídeo, contando com a participação de outras mulheres que tivessem o mesmo pensamento. Daí surgiu o projeto que finalmente encerro, não somente eu, mas com a ajuda e a direção sempre certeira de Marcello Sahea. Agradeço às mulheres que ousaram participar do projeto, enviando fotos de seus arquivos pessoais. Agradeço também a quem, mesmo de longe, compartilha deste nosso anseio de contribuir para o início de uma efetiva conscientização acerca deste tema, ainda tão polêmico, e que hoje encontra seu ápice através de diversas manifestações no mundo todo."






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