sábado, 31 de janeiro de 2015

João Bosco da Silva



João Bosco da Silva é um poeta português, nascido em Bragança a 2 de maio de 1985. Aos 9 anos, a família mudou-se para a vila de Torre de Dona Chama, onde cursou o secundário. Desde então, passagens pelo Porto e Coimbra. Publicou os livros Os Poemas de Ninguém (2009), Disse-me António Montes (2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (2011), Saber Esperar Pelo Vazio (2012) e Destilações (2014). Colaborou com as revistas Inútil e Enfermaria 6, e tem poemas na antologia Voo Rasante (2015), da editora Mariposa Azual, que traz poemas de autores brasileiros e portugueses. A mesma editora lançará este ano seu novo livro, Trepanação de Jerónimo Bosch (no prelo). João Bosco da Silva vive e trabalha em Turku, na Finlândia.


--- Ricardo Domeneck

§

(Nota do editor: João Bosco da Silva trabalha com o verso longo, sálmico, impossível de manter nesta página. Não me pareceu resolver o problema encher todos os poemas com colchetes. Adotei a solução de outras revistas que publicaram o autor português: simplesmente deixar os versos correr, mas adicionando um pequeno espaço para indicar a continuação do verso. O leitor leve o fato em consideração)


POEMAS DE JOÃO BOSCO DA SILVA

A Macieira Dos Insones

Disseram-me que arrancaram a macieira porque secou, também
         eu sequei e nunca ninguém
Me conseguiu arrancar as raízes, mesmo que tenha sido muitas
        vezes estrangeiro em casa
E preferir a solidão do granito e o desolamento das ruínas dos
        verões quando a cinza já
Assentou à força da chuva, o lameiro tem tão pouco do que trago,
         parece mais pequeno
Apesar de terem derrubado a cerca que o dividia, enterraram um poço,
         o cão já se tinha
Lá afogado, de certeza também a capacidade de ser feliz com um
         bocado de pão caseiro
Com tulicreme que a tia preparou, a inocência como o amor, cega,
         mas uma cegueira por
Ausência, a cegueira de quem tem as mãos vazias e está cheio de
         sonhos, a cegueira
De quem confia na vida como na mãe e é para sempre e capaz de tudo
         menos de traição,
Cega para a maldade, com os sentidos livres e limpos para receber a
         felicidade, ou apenas
Estar e ser, ignorando que se é, aquela macieira em cuja sombra me
         deitei e senti
A novidade da erva seca nas costas como a primeira vez em que li
          Walt Whitman, frescura
Viva que mais tarde se transformou no cheiro a mijo cristalizado das
          folhas amarelecidas
Pela experiência e o tempo, sentir o mesmo de forma inversa ao sentir
          o aroma azedo
Da cerveja estragada no fundo das garrafas quase vazias e a companhia
          pouco simpática
De outras barbas, eu quase, sentado a consumir-me em copos de
          plástico, tremendo com as
Chamas das velas ao vento das saudades e uma quase hipocrisia por
          falar sozinho com a
Memória de quem, espero, me dê o adiamento e a força inata, já que
          nasci de pouco
E para quase nada, para acabar numa noite de luar, longe disto tido,
          no lameiro
Daquela macieira onde me arrancaram, hoje tenho amigos poetas,
          pouco me conheço,
E tenho dias em que quando acordo, demoro horas a encontrar-me
          por entre os papéis
Manchados pela chuva e pelo carvão do sofrimento adiado pelo
          medo de mais um
Momento inútil e perdido, para sempre, ao lado do lugar onde
          esteve a macieira, para nunca
E até sempre, numa garrafa de vinho bordeaux, lá para os lados
          de Django Reinhardt e dos tios
De França, porque tantas vezes o que procuras é apenas o
          inesperado, como o sabor daqueles
Gauloises à beira do rio da aldeia, de madrugada, com os pés cheios
           de vinho tinto e língua
Destravada, pronta para confissões lançadas para a fogueira
           purificadora da felicidade.

§

Comparação Da Dimensão Do Espaço Depois Da Subtração Da História

“You can´t escape the past in Paris, and yet what´s so wonderful about it is that the past and presente intermingle so intangibly that it doesn´t seem to burden.”
                                                         Allen Ginsberg

Tens razão quando dizes que Montmartre é como a aldeia
           do meu pai, mas a aldeia do meu pai
Sempre comeu e bebeu  o que o suor e a terra lhe deu,
           lá se plantava e lá se colhia, em Montmatre
Há uma vinha cujo vinho quase ninguém prova, mas tanta
           gente conhece e viu, não me parece
Que comam as heras que crescem na paredes das casinhas,
           nem vi galinhas a correr pelas ruas
Ou debaixo das mesas dos cafés, vi sim uma ou outra pomba,
           aves citadinas essas, que raras vezes
Vi na aldeia do meu pai a pedinchar um pedaço de pão, na aldeia
            do meu pai não há pedintes
De nenhum tipo, só portas abertas e a partilha do pouco que se tem,
            mas Montmartre respira
Ainda, mesmo que o sangue seja vinho daqui ou dali, as casas
            brilham e no seu tamanho são
Maiores do que o desprezo dos descendentes que herdaram telhas
            que apodrecem e cedem
Tudo, colapsando todas as noites à lareira, todos os gemidos nos
            partos em colchões de palha,
Todos os gatos que entravam por buracos pequenos em baixo das
            portas, como o frio
Entrava nos ossos da gente, Montmatre tem ainda luz, tem olhos,
            tem gente, gente que
Procura nas ruas a presença de quem já lá não está, mas tens razão,
            as ruas são tão largas
Num lugar como noutro, apesar da macadamização ser bem recente
            num lado e estar
Já bem polida noutro, falta gente e uma cidade inteira aos pés para
            se poder comparar,
Mas mesmo assim, não sei onde me sinto mais em casa, se onde
            as memórias são minhas,
Se onde as memórias são as que queria que fossem minhas, noutros
            tempos, as mesmas pedras.

§

Fuck You All – Happy New Year From Frances Farmer

como te percebo Sebastião,

Deixa lá, ao menos estiveste bem para ti, já foste
            demasiadas vezes
Nos outros e agora, nem um contágio de ti neles,
            deixa-te morrer para o mundo,
Mesmo enquanto te olhas no espelho, não te merece,
            mantem-te nesse teu
Universo, dorme muito, sonha mais, o resto é ruído
            e fome e medo e carne,
Não dês mais oportunidades a comparações, és irrepetível,
            até o padrão
Estrela do teu cu é único, querem é foder-te com os
            olhos e fingir-te invisível,
Não te dês mais, escreve sobre os tempos em que eras
            capaz de te interessar
Pela podridão e davas dentadas em maçãs demasiado
            maduras para a época,
Deixa lá, a cama é o teu trono, os teus dedos a tua
            memória mais fiel,
O copo o teu melhor amigo, mesmo que te mate
            aos poucos,
Também a vida sem copo te mata aos poucos, sonha,
            acorda tarde se puderes,
Pode ser que lá encontres os teus amigos, te encontres
             a ti, a caminho da escola,
E possas roubar umas uvas ou uma sombra ao lado de
             um silvado,
Morreste há tanto tempo que nem deste conta que agora,
Estás só a apodrecer, nada em ti resta além da saudade
             e Agosto ainda tarda
E não é mais o mesmo, podias muito bem ser os ossos
             do teu cão morto,
O caixão do familiar que nunca encontraram, mas ainda
              incomodas,
Ainda invertes o copo cheio e tornas a página vazia numa
              circunvolução
Enquanto a consomes no esquecimento, em cuecas, porque
              nada mais.

§

Férias De Natal Revisitadas

À espera estava a geada nas couves e nos ramos descarnados
              do marmeleiro,
O cão escondido do nevoeiro dentro de um bidão, hoje o bidão vazio,
Sem companhia no dia da festa à hora dos foguetes da tarde,
À espera a lareira, com a dança hipnótica das chamas, na sala
A um canto o chão coberto de musgo e palha e figuras de barro
Pintadas à pressa com o rigor devoto a um deus dependente do tempo,
Ao lado os embrulhos do costume, cada vez mais transparentes,
No quarto transferia-se a roupa do saco para o guarda-fatos,
Agora, abre-se a mala, tiram-se os livros para acompanhar
A lareira e deixa-se aberta, chegar começou a confundir-se com partir,
Agora nem se chega a tempo de ouvir a música, soldada
Algures numa fábrica escura da China, das luzinhas de Natal,
Que se guardavam sempre para o próximo e nunca aguentavam
A sua inutilidade no resto do ano, à espera estavam os serões
De roupão, os dias inteiros de pijama, o leite com chocolate
Quando se toleravam infantilidades mamíferas, à espera
Estava o ainda ter o futuro pela frente, o ainda não é para já,
Ainda se acreditava no nunca mais e no potencial de uma caixa vazia,
Escreviam-se poemas iluminados pelo crepúsculo incendiado
Na mesa da cozinha em folhas A4 roubadas da velha impressora,
Antes da mãe fazer o jantar e ainda havia aquela sensação
De ser algo especial, aquilo, aquela folha que era nada
Tornada poema, aquela emoção que era muda, um grito,
O cheiro das rabanadas salpicadas com canela e Enya do rádio
Que foi a prenda da irmã uns natais atrás, os caixotes do lixo
Temendo a avalanche que lhes cairá no dia de Natal,
O avô que não se julgava ser o último e afinal, os lábios roxos
Do vinho nunca mais se mostrarão contentes por estarmos
Todos juntos, nunca mais estaremos todos juntos, tudo se rasga
Como um embrulho, para se revelar o amanhã, e a surpresa
Perde-se para sempre e é impossível voltar a embrulhar o amanhã
E torná-lo no lugar onde tudo é possível, o gato deixa de estar
              vivo e morto,
E se está morto nunca poderá estar vivo, nunca mais, na vida ao menos
Sempre se têm duas hipóteses, mesmo que não hajam certezas,
Antes de se entrar, a lareira estará sempre acesa, o gato estará a
               fazer de cão,
E o jantar não tardará, por isso tenho que acabar esta geada nas couves
E nos ramos do marmeleiro, lá longe, onde me mora o Natal.

§

Após Cinzano E Evangelhos Segundo Anos 90

Os dedos depois cheiram a azedo e o copo de vinho tinto
              com as luzes apagadas
Não se vê até se sentires as meias molhadas se te descalçaste
              antes de entrar,
Se não, é porque não entraste em casa de botas de elástico
              ou no norte,
O resto é apenas fascínio ou tendência pelo relativamente
              mórbido,
Já morres-te, perguntar-te-ão, e o teu tamanho dependerá do
              tamanho do silêncio,
Em vida, houve gente que teve o trabalho de me transcrever,
              não foi mau,
A maioria morre sem que um pensamento seja transferido seja
              da forma que for,
Mas há os génios que são inventados por necessidade ou
              pura propaganda,
A Rússia está a acordar, outra vez e é Inverno, o Napoleão
              e o amigo não-alemão
Ainda se lembram, só os pequeninos cheios de tomates
              aguentaram a pastilha
Pesada da massa, no fundo todos procuram apenas uma rima,
              ou uma cona,
Que não lhes lembre da mãe, precisam de encontrar uma
              vagina mutagénica,
Bandeira branca, um dia, sentirás deus nas cuecas e o
              cemitério será
Tão excitante quanto um caixote do lixo ou um saco de
              estrume,
A tua própria morte será demasiado pesada com o peso
              do infinitamente
Não tu, depois dos vinte e mais que sete e oito, mais uma
              punheta será
Uma vitória barata, menos uma nota roxa também não
              será assim tão mau
Se embalares o míssil em direção à erudição transcendental
               da foda
Sem idioma comum, percebes, não, não leias mais, santa
                purificadora
Das tuas frustrações ao lado do autoclismo, engole então
                os sofismas,
Admira as eulógias de quem sempre conheceu paralelos,
                continua
A evitar o poder de quem caminhou no sangue e corpo
                do golem,
Tu que por bruxa, sempre te quiseste freira ou uma merda
                mórbida qualquer.
A estas horas não acordes, continua a fumar e a escrever
                para a admiração
Dos hereges, convencidos do seu lugar ao lado de lado
                nenhum na verdade.

.
.
.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"Empreste sua voz a um poeta morto" : Italo Diblasi lê Roberto Piva & Carla Diacov lê Sebastião Alba



Retornando ao projeto Empreste sua voz a um poeta morto, com duas contribuições recentes: Ítalo Diblasi (Rio de Janeiro, 1988) lê Roberto Piva (1937 - 2010) & Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975) lê Sebastião Alba (1940 - 2000).

Ítalo Diblasi lê um poema do livro Ciclones (1997), de Roberto Piva.


Este paraíso é assim:
repleto de raças respiratórias.
Nuvens, periquitos, uvas negras
à beira do deboche.

Este paraíso é assim:
relâmpagos & doces de leite,
punhal escapando da bainha
de vértebras.
Menino-acauã dançando
ao sol estrangeiro.

Este paraíso é assim:
folhas de mamona, submarinos
viajando no próprio sangue.
Leveza. Flores frenéticas.
Batuque sussurrando:
também eu
atravessei o inferno.

§


Carla Diacov lê o poema "A um filho morto", de Sebastião Alba.

A um filho morto
Sebastião Alba


Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.


.
.
.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Três poemas de "Os Ilhados", novo livro de Ismar Tirelli Neto

Ainda neste semestre, a editora carioca 7Letras lança Os Ilhados, terceiro livro de Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1985). A Modo de Usar & Co. adianta aqui três textos.



O Pulôver

Este é meu pulôver favorito
sem um retrato
do meu pulôver favorito.
Roçam-se os puídos no trem,
caminho do trem,
parado no cabideiro.

Parado no cabideiro
(ponto
de onde não se pode mais recuar
sem resvalar-se pela metafísica)
ele não faz
vagão,
rampas de concreto
do outono para o inverno,
nada.

Parado no cabideiro,
o pulôver não é senão
uma trama, uma entre tantas.

Neste pormenor, lembra um pouco
uma valise prateada
que me pediram certa vez para olhar.

Sob os pés de outra pessoa,
já não sei que cor teria.

Desnecessário dizer.
Desnecessário dizer.

§

Isto Vai Mal” (Segunda Fantasia Acerca da Dignidade dos Homens)

Os homens continuaram a tomar o bonde.
Extintos os bondes, os homens continuaram
a tomar o bonde.
Extintos os homens, continuaram
com andaimes pendurados,
enfileirando-se ante guichês,
espalhando sobre o balcão os tostões
resfolegantes, cobertos de suor, indagam ainda da saúde de parentes,
amargam a descoberta de que certos bibelôs tidos como
inestimáveis deveres de um eco vão
cotados a preço de banana no mercado de antiguidades,
descobrem que as antiguidades são, antes de mais, mercado,
moram, mercadejam, amam ainda
que extintos os homens, definitivamente extintos
os meus dias de grande salonnière,
posso agora ocupar-me dessa questão:
que espécie de futuro toca aos homens
com andaimes pendurados?
Isto vai mal, isto vai mal.
Cobertas de onça, louras montanhosas
deixam o restaurante, crianças descaram, tossem
sobre a nova fornada de pães,
alguém – um estudante – seria lógico – acaba
de perguntar se a eletricidade já voltou ao campus,
o trocador vai mastigando sua piada de sucuri
até o ponto final,
então despencavam, despencávamos para a rua.
Os homens fazem despencar.
Tudo isto os homens fazem despencar.
Exausta literatura de Vans, ônibus, catamarãs,
exausta literatura de guichês de que
nunca exorbitamos, o abate do hábito –, a outorga do outro –,
dançavam ainda os homens duramente em duros aros,
quando e se dançavam, a tudo despencando,
pelas praças concretadas, ensombravam na entrega,
enganavam-se quanto ao código postal.
Isto vai mal, já não pode haver dúvida, isto vai mal.
Por todo o trajeto de volta
mastigavam fantasmas e ilhas, não se afazem, não conseguem
formular uma hipótese quanto ao que virá depois
de apartamentos, no azul noticiário
jantavam os homens como jantam ainda,
continuaram trocando de canal, continuam
detidos, continuam
detidos diante de uma imagem em câmara lenta,
a imagem de um esquiador a saltar de uma rampa,
continuavam observando o esquiador
e seu salto para além de qualquer contexto,
transferindo para o monitor os belos desusos do homem,
uma ideia de pureza, uma ideia de “gasto”,
pelo canto inferior direito
os homens continuavam reaparecendo, repovoando
a imagem a cada replay,
os homens aplaudiam,
aplaudiam a aterrissagem perfeita,
os homens pensavam “os deveres de um eco

§

Todas as histórias, mesmo aquelas que não vão muito além de seus próprios desvios”

Longo tempo sem compreender a doçura com que me falavam as debacles.

Incrustação de turistas na praça em outrem idioma –, impermeáveis bege, obstinados no outono, ninguém

chegaria a um acordo.

Todas as histórias, mesmo aquelas que não vão muito além de seus próprios desvios, precisam ambientar-se em alguma parte.

A questão que se põe – em que região do olho transcorre esta que acabamos de contar? No branco, no azul?

Uma vez desligado o abajur,

que é feito do homem forte que nos olhava diretamente ao umbigo? Da amiga que, sendo a última a deixar o escritório às quintas, precisa atravessar sozinha os mais longos corredores, cuida

que as sombras não

respinguem?

De uns trens
quando havia dois nadas
dois ou mais nadas
de uns trens que dividiam-no em dois
parentes remotos que viveram e morreram numa estação ferroviária azul

A questão que se põe –

O que fazer o que fazer das memórias de infância daqueles que não nos amam, dos que não alcançamos amar

Senão as mesmas palavras de onde nos lançamos
Todos os dias

repatriadas



§


§

sobre o autor

Ismar Tirelli Neto é um poeta e prosador brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1985. Lançou os livros Synchronoscopio (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008) e ramerrão  (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011). Os poemas acima foram extraídos de Os Ilhados (Rio de Janeiro: 7Letras, no prelo).

.
.
.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Shoah: poemas de sobreviventes

Ontem foi o septuagésimo aniversário da liberação do campo de extermínio de Auschwitz. Não citaremos Adorno. Deixamos aqui apenas alguns poemas de escritores que sobreviveram aos campos, e escritores que, tendo perdido família e amigos neles, também encararam o abismo do horror em textos.

Paul Celan (1920 - 1970)


Fuga da morte

Leite negro da madrugada que bebemos à tardinha
nós bebemos ao meio-dia e de manhã nós bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
cavamos uma cova nos ares onde possamos espreguiçar-nos
Certo homem habita a casa e brinca com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha teu cabelo doirado Margarete
ele escreve e posta-se diante da casa estrelas chamejam ele assovia
                   [quer seus cães a seu lado
ele assovia quer seus judeus à sua frente faz cavarem na terra uma cova
ele ordena desferi os violinos agora chacoalhemos os esqueletos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa e brinca com víboras que escreve
que escreve quando escurece à Alemanha teu cabelo doirado Margarete
Teu cabelo cinzento Sulamita nós cavamos nos ares uma cova onde
                    [espreguiçar-nos
Ele grita pás mais fundo no miolo da terra vós e vós cantai e tocai
ele alcança o ferro na cintura agita-o nos ares seus olhos são azuis
mais fundo com as pás mais alto com os violinos chacoalhemos
                     [os esqueletos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
nós bebemos e bebemos
Certo homem habita a casa teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita ele brinca com víboras

Ele grita dedilhai com mais doçura a morte a morte é especializada
                    [na Alemanha
ele grita desferi azuis os violinos e escalai como fumaça aos ares
assim tereis uma cova nas nuvens onde podeis espreguiçar-vos

Leite negro da madrugada nós te bebemos à noite
nós bebemos ao meio-dia a morte é especializada na Alemanha
nós bebemos à tardinha e de manhã nós bebemos e bebemos
a morte é especializada na Alemanha seus olhos são azuis
ele acerta teu corpo com balas metálicas acerta na mosca
certo homem habita a casa teu cabelo doirado Margarete
ele atiça contra nós seus cães brinda-nos com uma cova nos ares
ele brinca com víboras e sonha a morte é especializada na Alemanha

teu cabelo doirado Margarete
teu cabelo cinzento Sulamita


(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Todesfuge 

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends 
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts 
wir trinken und trinken 
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng 
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt 
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar 
                 [Margarete 
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeift 
                 [seine Rüden herbei 
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde 
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts 
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends 
wir trinken und trinken 
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt 
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar 
                 [Margarete 
Dein aschenes Haar Sulamith wir schaufeln ein Grab in den Lüften 
                 [da liegt man nicht eng

Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt 
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau 
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts 
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends 
wir trinken und trinken 
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete 
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen 
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland 
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft 
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng

Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts 
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland 
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken 
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau 
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau 
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete 
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft 
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister 
                  [aus Deutschland

dein goldenes Haar Margarete 
dein aschenes Haar Sulamith 

§

Primo Levi (1919 - 1987)



Se isto é um homem

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

(tradução de Simonetta Cabrita Neto)

:

Se questo è un uomo

Voi che vivete sicuri
Nelle vostre tiepide case
voi che trovate tornando a sera
Il cibo caldo e visi amici:
Considerate se questo è un uomo
Che lavora nel fango
Che non conosce pace
Che lotta per mezzo pane
Che muore per un sì o per un no.
Considerate se questa è una donna
Senza capelli e senza nome
Senza più forza di ricordare
Vuoti gli occhi e freddo il grembo
Come una rana d'inverno.
Meditate che questo è stato
Vi comando queste parole.
Scolpitele nel vostro cuore
Stando in casa andando per via
Coricandovi alzandovi
Ripetetele ai vostri figli.
O vi si sfaccia la casa
La malattia vi impedisca
I vostri nati torcano il viso da voi.

§


Charlotte Delbo (1913 - 1985)


Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.


(versão de Luís Filipe Parrado)

:

Prière aux vivants pour leur pardonner d´être vivants

Je vous en supplie
faites quelque chose
apprenez un pas
une danse
quelque chose qui vous justifie
qui vouus donne le droit
d'être habillés de votre peau de votre poil
apprenez à marcher et à rire
parce que ce serait trop bête
à la fin
que tant soient morts
et que vous viviez
sans rien faire de votre vie.


§

Raymond Federman (1928 - 2009)


Diga-lhes

àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Tell them

those traveling
with you now
far in-
side
the unforgivable 
how it was us
[who are with you
always]
pushed you
hard
deeper in-
to
the deep
where you found
our most bitter
dreams
our sweetest
dreams too
and how later
later
back and forth
back and forth
in the hollow of our
inextinguishable names
together we learned to fly
again
to fly away
again
together
in our name

§

Dan Pagis (1930 - 1986)


Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado

Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu

:



§

Rose Ausländer (1901 - 1988)


Ainda estás aqui

Lança teu medo
aos ares

Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures

Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui

Sê o que és
Dá o que tens

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Noch bist du da

Wirf deine Angst
in die Luft

Bald 
ist deine Zeit um
bald
wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends

Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da

Sei was du bist
Gib was du hast

§

Edmond Jabès (1912 - 1991)


Muito cedo, encontrei-me face ao incompreensível, ao impensável,
                  [à morte.
Desde esse instante, eu soube que nada, aqui em baixo, era partilhável
                  [porque nada nos pertence…

Há, em nós, uma palavra mais forte que todas as outras — mais pessoal
                  [também.
Palavra de solidão e de certeza, tão enterrada em sua noite, que mal ela
                  [é audível para si mesma.
Palavra da recusa mas, igualmente, do empenho absoluto, forjando seus
                  [laços de silêncios no abissal silêncio do laço.

Essa palavra não se partilha. Ela se imola.

(tradução de Eclair Antonio Almeida Filho)

:

Très tôt, je me suis trouvé face à l’incompréhensible, à l’impensable, 
                 [à la mort.
Dès cet instant, j’ai su que rien, ici-bas, n’était partageable parce 
                 [que rien ne nous appartient…

Il y a, en nous, une parole plus forte que toutes les autres — plus personnel 
                [aussi.
Parole de solitude e de certitude, si enfouie dans sa nuit, qu’elle est à peine 
                [audible à soi-même.
Parole de refus mais, également, de l’engagement absolu, forgeant ses liens 
                [de silence dans l’abyssal silence du lien.

Cette parole ne se partage pas. Elle s’immole.

.
.
.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Trinh T. Minh-ha


Trinh T. Minh-ha é uma cineasta, compositora e escritora vietnamita, nascida em Hanói. Durante a Guerra do Vietnã, estava no sul do país, com a família, e ainda conseguiu estudar composição musical no Conservatório Nacional em Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Minh. Em 1970, Trinh T. Minh-ha emigrou para os Estados Unidos, onde voltou a estudar composição musical, etnomusicologia e literatura francesa na Universidade do Estado de Illinois. Desde 1994, é professora da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Tornou-se conhecida no circuito de cinema independente norte-americano com seu primeiro filme, Reassemblage (1982), que mostramos abaixo. Filmado no Senegal, o filme lança um olhar crítico sobre sua própria tentativa de olhar crítico e etnográfico. Formado por sentenças soltas de Minh-ha ao longo das imagens, suas asserções não buscam descrever. Ela diz, logo no início, "Eu não pretendo falar sobre, mas perto de."





"Eu vejo vida me vendo."
          Trinh T. Minh-ha


Outros filmes incluem Naked Spaces - Living is Round (1985), Shoot for the Contents (1991), A Tale of Love (1995), The Fourth Dimension (2001) e Night Passage (2004). 

Publicou, entre outros, a coletânea de poemas En minuscules (em francês), e ainda os livros Woman, Native, Other. Writing postcoloniality and feminism (1989), When the Moon Waxes Red. Representation, gender and cultural politics (1991), Framer Framed (1992) e Elsewhere, Within Here: Immigration, Refugeeism and the Boundary Event (2011).

Encerramos a postagem com seu filme Surname Viet Given Name Nam (1989). Trata-se de um ensaio poderoso sobre a condição da mulher no Vietnã, através de entrevistas, canções e a poesia de autores vietnamistas clássicos, como Hồ Xuân Hương (1772–1822) e Nguyễn Du (1766–1820).



.
.
.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Pedro Lemebel (1952 - 2015)


Pedro Lemebel foi um escritor e artista chileno, nascido em Santiago a 21 de novembro de 1952. Foi colunista do jornal La Nación e das revistas Punto Final e The Clinic. Publicou, entre outros, La esquina es mi corazón (1995), De perlas y cicatrices (1998), Tengo miedo torero (2001) e  Zanjón de la Aguada (2003). No Brasil, a editora Cesárea lançou Essa Angústia Louca de Partir (2014). Pedro Lemebel morreu a 23 de janeiro de 2015, em decorrência de um câncer na laringe. Agradeço a Arlandson Oliveira por enviar-nos a tradução de Nina Rizzi para o texto "Manifesto (Falo por minha diferença)" do autor chileno.

--- Ricardo Domeneck

§

Manifesto (Falo por minha diferença)

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou uma bicha disfarçada de poeta
Não preciso de disfarces
Aqui está minha cara
Falo por minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão esquisito
Me repugna a injustiça
E suspeito dessa dança democrática
Mas não me fale do proletariado
Porque ser pobre e bicha é pior
Há que ser ácido para suportar
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho desmunheca
É ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
Envelhecidas de limpeza
Embalando de doença
Por maus modos
Por má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E desvia para o socialismo
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
Como no barco do general Ibáñez
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou até à costa
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso as casas de caramba
Brindaram com uma lágrima negra
Aos carneiros comidos pelos caranguejos
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
Não lembra
Por isso companheiro te pergunto
Existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando minha voz fala demasiado doce
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
Nos pajeando e outras coisas
Nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo correrá noite e dia
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
Que tem o sangue frio
E não é medo
O medo foi indo embora de mim
Atacando com facadas
Nos inferninhos sexuais onde andei
E não se sinta agredido
Se te falo dessas coisas
E te olho o volume
Não sou hipócrita
Acaso os peitos de uma mulher
Não o faz baixar os olhos?
Você não acredita
Que sozinhos na serra
Algo nos aconteceria?
Embora depois me odiasse
Por corromper sua moral revolucionária
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
Falo de ternura companheiro
Você não sabe
Como custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é carregar essa lepra
As pessoas ficam à distância
As pessoas compreendem e dizem:
É viado mas escreve bem
É viado mas é um bom amigo
Super-boa-onda
Eu não sou boa-onda
Eu aceito o mundo
Sem lhe pedir essa boa-onda
Mas ainda assim riem
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada da CNI
Eu ia soltar tudo
Não sabe que a masculinidade
Nunca a aprendi nos quartéis
Minha masculinidade me ensinou a noite
Atrás de um poste
Essa masculinidade de que você se gaba
Te enfiaram em um regimento
Um milico assassino
Desses que ainda estão no poder
Minha masculinidade não recebi do partido
Porque me rechaçaram com risadinhas
Muitas vezes
Minha masculinidade aprendi militando
Na dureza desses anos
E riram da minha voz afeminada
Gritando: vai cair, vai cair
E embora você grite como homem
Não conseguiu que caísse
Minha masculinidade foi amordaçada
Não fui ao estádio
E me peguei aos trancos pelo Colo Colo
O futebol é outra homossexualidade encoberta
Como o boxe, a política e o vinho
Minha masculinidade foi morder as provocações
Engolir a raiva para não matar todo mundo
Minha masculinidade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Eu não dou a outra face
Dou o cu companheiro
E esta é a minha vingança
Minha masculinidade espera paciente
Que os machos fiquem velhos
Porque a esta altura do campeonato
A esquerda corta seu cu flácido
No parlamento
Minha masculinidade foi difícil
Por isso não subo nesse trem
Sem saber aonde vai
Eu não vou mudar pelo marxismo
Que me rechaçou tantas vezes
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que vocês
Não vou mudar somente
Pelos pobres pelos ricos
Ou outro cachorro com esse osso
Tampouco porque o capitalismo é injusto
Em Nova Iorque as bichas de beijam na rua
Mas esta parte deixo para você
Que tanto se interessa
Que a revolução não se apodreça completamente
A vocês entrego esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as gerações futuras
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
E eu quero que voem companheiro
Que sua revolução
Dê a eles um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar

(tradução de Nina Rizzi)

.
.
.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cesário Verde (1855 - 1886)


Cesário Verde foi um poeta português, nascido em Lisboa a 25 de fevereiro de 1855. Iniciou o curso de Letras, mas não o concluiu. Morreria em 1886, aos 31 anos, vítima, como tantos excelentes poetas de seu século, da tuberculose. Os poemas que deixou foram reunidos, após sua morte, no volume O Livro de Cesário Verde.



Em alguns de seus poemas, pode-se dizer que foi um dos fundadores da modernidade poética lusófona, ao lado de contemporâneos seus como Sousândrade (1832-1902). É mais contemporâneo nosso que alguns de nossos contemporâneos.

--- Ricardo Domeneck

§

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
          Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
          E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
          E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
          Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
          Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
          Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
          Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
          Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
          Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
          Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
          Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
          Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
          E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
         Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
          Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
          Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
          Que mundo! Coitadinha!

§

Num Bairro Moderno

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estacam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.

Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.

Como é saudável ter o seu aconchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde eu agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.

E rota, pequenina, azafamada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmóreo duma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ela se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.» E muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces duns alperces.

Subitamente - que visão de artista! -
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais?!

Bóiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz às costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E às portas, uma ou outra campainha
Toca, frenética, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum belo cabelo que se ajeite;
E os nabos - ossos nus, da cor dp leite,
E os cachos de uvas - os rosários de olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
«Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantámos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dos excessos de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam as carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.


.
.
.