quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Sobre a edição recente de peças de Gertrude Stein no Brasil




Reproduzimos abaixo carta enviada pelo Departamento de Teoria de Teatro da Unirio e do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Unirio ao jornal O Globo, acerca da matéria publicada no dia 11 de abril sobre as peças de Gertrude Stein que foram recentemente reunidas em volume e que, segundo o jornal, seriam todas inéditas no Brasil.

Iniciamos em 2010, neste blogue, um ciclo crítico com a intenção de tornar acessível e reunir parte do material de Gertrude Stein já publicado em português, e convidamos os leitores a relerem o material já postado, dentre os quais algumas das peças citadas abaixo. 


Os editores

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Carta enviada pelo Departamento de Teoria de Teatro da Unirio e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Unirio ao jornal O Globo.


Srs.,

Foi com espanto e indignação que lemos no Segundo Caderno de O Globo, em 11/4/2014, matéria sobre Gertrude Stein, na qual, em meio a outros equívocos, veicula-se a informação inverídica de que as dezoito peças recém publicadas pela Editora Iluminuras seriam inéditas em tradução brasileira.

Não deixa de ser curioso, aliás, que, num corpus vasto como o das "peças steinianas", esta edição contenha nove textos (“A Curtain Raiser”, “Ladies Voices”, “Every Afternoon”, “Capitain Walter Arnold”, “Please Do Not Suffer”, “I Like It To Be A Play”, “Counting Her Dresses”, “The King Or Something (The Public is Invited to Dance)”, “Bonne Anne”) já traduzidos e amplamente conhecidos pelos estudiosos de Stein no Brasil. Cinco delas foram traduzidas por Inês Cardoso Martins Moreira - todas encontram-se online, ao lado de outras traduções, desde 2007, na tese "Aqui há uma margem" (divulgada integralmente online). E uma destas - "Contando os vestidos dela" - foi publicada anteriormente, ainda, na Coleção Moby Dick, da 7 Letras, em 2001. As quatro peças traduzidas por Júlio Castañon Guimarães (e retraduzidas na edição da Iluminuras) foram publicadas, em 2000, na revista O Percevejo ano 8 n.9, do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Unirio.

Com os mecanismos de busca da plataforma Lattes e do Google acadêmico é praticamente impossível hoje alegar desconhecimento da produção contemporânea. É só realizar uma busca simples que as informações aparecem. Nesse sentido, escrevemos solicitando que se faça a correção necessária ou que se divulgue esta carta - pois a matéria nos parece prejudicial ao trabalho de dois tradutores e pesquisadores importantes e dedicados há mais de uma década ao estudo sério de Gertrude Stein.

 (abril, 2014)

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terça-feira, 22 de Abril de 2014

"As Hiper-Mulheres" (2011), filme de Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette


O poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves postou este filme nas redes sociais, chamando-o de "um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos." Assisti ao filme imediatamente e digo a vocês, com certeza, que se trata de um dos filmes brasileiros do novo século. Chamado de documentário, retratando a vida dos Kuikuro durante os preparativos do Jamurikumalu, o maior ritual de dança e canto femininos do Alto Xingu, o filme tem uma força narrativa que vai além da usual linguagem documental. 

Interessa-nos também por mostrar a poesia cantada dos Kuikuro (em breve poderemos ter as traduções de Bruna Franchetto, que vem trabalhando com os textos). Recomendo o filme fortemente.

--- Ricardo Domeneck

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As Hiper-Mulheres (2011), filme de Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette

"Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamurikumalu, o maior ritual feminino do Alto Xingu (MT), para que ela possa cantar uma última vez. As mulheres do grupo começam os ensaios, enquanto a única cantora que de fato sabe todas as músicas se encontra gravemente doente."
Nome original:
As Hiper Mulheres
Diretor:
Carlos Fausto, Leonardo Sette, Takumã Kuikuro
Roteiro:
Duração:
80 min.
Ano:
2011
Data da estreia:
Classificação:
16 anos
País:
Brasil
Produção:
Carlos Fausto, Vincent Carelli
Cor:
Colorido
Distribuidora:
Vitrine Filmes


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domingo, 20 de Abril de 2014

"Mulheres e revolução", de Maria Velho da Costa


Mario Viegas e Lia Gama vocalizam o texto "Mulheres e revolução", de Maria Velho da Costa.


Mulheres e Revolução
Maria Velho da Costa

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

in Cravo (1976).

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Maria Velho da Costa é uma poeta e prosadora portuguesa, nascida em Lisboa a 26 de junho de 1938. Publicou, entre poesia e prosa, os volumes O Lugar Comum (1966), Maina Mendes (1969), Novas Cartas Portuguesas (1972) - com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, volume que seria imediatamente proibido pelo regime salazarista, Desescrita (1973), Cravo (1976), Português; Trabalhador; Doente Mental (1977), Casas Pardas (1977), Da Rosa Fixa (1978), Corpo Verde (1979), Lucialima (1983), O Mapa Cor de Rosa (1984), Missa in Albis (1988). Recebeu o Prêmio Camões em 2002.

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sexta-feira, 18 de Abril de 2014

En Hedu'anna (2285 – 2250 a.C.)



A princesa, sacerdotisa e poeta acádia En Hedu'anna é o mais antigo autor no mundo que conhecemos por nome, autora dos belos Hinos a Innana, há mais de 4.000 anos. "En" dá-nos sua denominação como sacerdotisa, "Hedu" significa "adorno" ou "beleza", o que poderia ser compreendido como "sacerdotisa das belezas de Nanna", a deusa da lua entre os sumérios. Seu nome sobrevive porque, assim como Catulo, Arnaut Daniel ou François Villon milênios depois, ela própria era personagem de seus hinos, mencionando-se por nome. Viveu em Ur, uma das mais antigas e primeiras cidades-estado no mundo. Filha do rei Sargão da Acádia e da rainha Tashlultum, escreveu os Hinos Templários Sumérios, considerados uma das primeiras tentativas de sistematização teológica, e de poemas devocionais à deusa Nanna. Durante o reinado de seu irmão, rei Rimush, envolveu-se em turbulências políticas e acabou expulsa da cidade, relatando os acontecimentos e seu retorno à posição de sacerdotisa algum tempo depois no poema "Exaltação a Innana". Selos com seu nome e cópias de seus textos datadas de séculos depois de sua morte foram encontrados tanto na Tumba Imperial de Ur como escavadas em cidades-estado vizinhas, como Nippur, demonstrando a importância de sua obra para os sumérios. Os hinos abaixo foram vertidos a partir de suas traduções para o inglês.

É nossa matriarca. E irmã de Safo, e da princesa Wallâda bint al-Mustakfî, e das trobairitz – como Beatriz de DiáAzalaïs de Porcairagues, e de Gwerful Merchain, e de Emily Dickinson, e de Else Lasker-Schüler, e de Henriqueta Lisboae de Maria Ângela Alvim. E precursora de todos os homens e mulheres que lançam, cinzelam e marcam palavras na pedra, na cerâmica, no papel ou na tela digital.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE EN HEDU'ANNA

Inanna e a Essência Divina

Senhora de toda essência, luz plena,
mulher generosa vestida em radiância,
amada pelo céu e pela terra,
amiga templária de An,
tu vestes grandes ornamentos,
tu desejas a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos tomam as sete essências.
Oh minha Senhora, guardiã de toda essência,
tu as colheste e penduraste
nas mãos.
Tu recolheras as essências sagradas e as vestiste
tesas em teus seios.

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Inanna e An

Como um dragão encheste a terra
de veneno.
Como trovão, quando ruges sobre o mundo
árvores e plantas caem diante de ti.
Tu és a enchente descendo a montanha,
Ó primeva,
deusa da lua, Inanna, do céu e da terra.
Teu fogo explode ao redor e cai sobre nossa nação.
Senhora montada sobre uma fera,
An dá-te os dons, ordens sagradas,
e tu decides.
Tu estás em todos os nossos grandes ritos.
Quem pode te compreender?

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Inanna e Enlil

Tempestades doam-te asas, destruidora de terras.
Amada por Enlil, tu voas sobre nossa nação.
Tu entregas os decretos de An.
Oh minha Senhora, ao ouvir teu som,
montes e colinas curvam-se.
Quando nos chegamos diante de ti,
aterrorizados, tremendo em tua clara luz intempestiva,
recebemos justiça.
Nós cantamos, ficamos de luto, choramos diante de ti
e caminhamos em tua direção ao longo de uma vereda
a partir da casa dos enormes murmúrios.

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terça-feira, 15 de Abril de 2014

Maura Lopes Cançado (1929 - 1993)

A convite da Modo de Usar & Co.Daniela Lima, biógrafa de Maura Lopes Cançado, preparou este texto introdutório ao trabalho da autora mineira, apresentando-nos ainda alguns de seus poemas e o conto "O Quadrado de Joana" (1958).




"O Riso da Morte e a Rosa Recuada"

por Daniela Lima


O fim do homem, o fim dos tempos, já assumiu muitos rostos. Mas, independentemente do rosto, é este o fim, esta ordem à qual ninguém escapa. A morte é uma presença que ameaça no interior de nossas vidas, de nós mesmos. Uma presença descarnada. Sem forma e que parece ser pressentida como um riso constante. Um riso que muitas vezes era confundido com o riso do louco. A loucura seria o já-está-aí da morte. É isso que nos apavora no riso do louco? Ou a percepção de que entre o nosso riso e o riso do louco há pouca – ou nenhuma – diferença?

Para Foucault, o que nos assusta na loucura é que ela seja um saber fechado. Inacessível. Um saber que nos remete a outros saberes que continuam inacessíveis – como parar a morte? O riso do louco seria, portanto, o riso constante de tudo aquilo que parece ininteligível de acordo com o saber instituído. A forma mais usada para lidar com a loucura é levá-la cada vez mais para as margens, para qualquer lugar pouco visível. Desta forma, lembraríamos cada vez menos do que havia daquele riso em nós mesmos. Desta forma, calaríamos o saber da loucura.

Mas em alguns momentos, este saber extravasa e nos mostra o quão gastas são as formas que insistimos em transformar em normas. Este talvez tenha sido um dos principais papeis dos poemas de Maura Lopes Cançado. Maura, que passou parte da vida em instituições psiquiátricas, escrevia e publicava poemas e contos no "Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil, na década de 1960. Os seus poemas nos mostraram que o saber da loucura pode não ser acessado diretamente, mas pode ser sentido. Não mais como um incômodo riso, mas como uma força sem forma, capaz de nos tocar. E de mostrar a beleza daquilo que não podemos acessar, mas que ainda assim pode nos tocar.

Maura nasceu em São Gonçalo do Abaeté, Minas Gerais, em 27 de janeiro de 1929. Foi aviadora, dividiu a redação do Jornal do Brasil com intelectuais, tais como José Louzeiro, Carlos Heitor Cony, Assis Brasil, Ferreira Gullar, entre outros, e passou por inúmeras clínicas psiquiátricas, onde continuou escrevendo e publicando seus contos e poesias. Em 1959, incentivada por Reynaldo Jardim, iniciou um diário: O Hospício É Deus – Diário I, publicado em 1965.

Ganhei O Hospício É Deus em 2010. A minha edição é da década de 1970 e, desde então, o livro não foi reeditado. Comecei, então, a pesquisar os poemas e contos de Maura publicados em jornais e revistas da época, descobrindo algumas raridades, como as que serão publicadas aqui na Modo de Usar & Co. Também estou escrevendo a biografia de Maura, um trabalho que envolve tentar dar voz à loucura, àquilo que tememos e que por vezes se sobrepõe e se mistura à obra de Maura. Esta loucura que, além de um saber, é uma liberdade quase agressiva para criar e viver.


--- Daniela Lima

§

"Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade", trecho de O Hospício É Deus (1965), de Maura Lopes Cançado.

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POEMAS DE MAURA LOPES CANÇADO

1

pausa:

permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.

2

Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?

3

Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.

4.

Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador



Página do "Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil,
de 24 de agosto de 1958,
da qual foram extraídos os poemas.

(clique na imagem para aumentá-la)



§

Poemas em O Hospício É Deus (1965)



Não amo meus olhos negros
Esta noite dancei um balé fantástico, cego.
Meus olhos?
Misturaram-se ao negrume das suas pupilas

(28/10/1959)

§

Meus sapatos amarelos
um passo adiante na minha solidão.
Eu os vi mil vezes através de lágrimas,
na sua ingenuidade gasta, resignada,
Ó, meus sapatos - amarelo-girassol.

(28/10/1959)

§

Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.

(15/01/1960)

§

TEXTO EM PROSA DE MAURA LOPES CANÇADO

O Quadrado de Joana (1958)

Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, o ombro direito junto à parede. Teima em flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante – até o fim da linha onde junta ombro esquerdo e marcha de costas na retidão da parede.

Finalmente, acha-se na metade da quarta vez, todo pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo, o muro. Repete, sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais, porque cumpre um dever.

Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo?

– Ninguém sabe. Nem Joana.

Vê-se parada, imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo, fora de perigo. Perfeitamente integrada, em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado, porque novo. Um novo tempo, nascido duro, sofredor. O quadrado das horas.

No meio do pátio, parada, obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como uma ameaça remota. Um orifício no muro, meio de fuga.

– Para onde e por quê? 

Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entretanto, não sabe de régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há neste verbo precisar uma sinuosidade que vagamente percebe e isto é uma ameaça. Não poderá admitir contrariando sua posição na vida como verbo poder, neste tempo, fere sua época.

Época de Joana.

Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários.

– Não pensar, em posição de sentido, é a ordem, por enquanto.
E Joana enquadra-se no momento.

Plana – lisa – justa.

Um marco no novo tempo. Cumprido o dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido e o olhar, reto como lâmina sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical.

Ela somente compreende o grande significado disto. Imóvel poupando o corpo, principalmente o rosto que sente duro na parte inferior, sustentando o quadro. Não pode mutilar-se na lisura da curva. Não pode perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade e Joana escuta-o num tom irritado, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes, que como um espelho mostram-se refletidas no corpo de Joana; como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro, sente-se sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo.

Entretanto, está só, num quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. Num tempo quadrado, vive-se sem elas na perfeição das coisas, mas a dança dos sons é característica fútil dum subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio e vê-se refletida no muro cinzento. Uma nova figura, um destino.

Nasceu, inaugurando um tempo. É o marco da nova época. 
Entretanto, um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo das palavras, pensa em números certos, como 44 e 77. Desenha-os mentalmente no muro para a sua sobrevivência, até que estremece na sinuosidade do 60. Ah! Joana não sabe por que, mas o número 60 aproxima-se qual cobrinha traiçoeira. Uma áspide. Também os números têm nome. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças, porque estas chegariam sinuosas, e isto é outro mundo.

– A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra.

Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar, correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significado. Joana ignora, propositadamente, a curva duma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores e espera sons rápidos, retos, geométricos para fazer-se entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidade que tentam atrair-lhe atenção.

– não cede um milímetro para não desmoralizar-se. Deve sobreviver.

Alarmada, sente o suor correr-lhe pela testa, numa linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos.

– Não, não admito bagas de suor.

Haverá sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Porque uma pocinha

seria seu afogamento. 

Foge do círculo. 

– Mas a linha é formada de pontos!

Não no seu tempo, raciocina rápido, quadrando o pensamento.
Joana não pode sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto. Significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma?

– Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente?

Ah! Como faltam instrumentos!

– Joana, saia do pátio, venha para o dormitório. 

Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto, escutou quase contorcendo-se. Não pode responder, que não tem ainda meio de expressão. Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la e nuances, mesmo de cores ou principalmente cores, seriam, a sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do tempo morto. É aí que Joana inveja a estátua imóvel há muitos anos. Não sabe que a estátua perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para cama. A realidade é a pedra.
Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, num tempo certo, num mundo remoto. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor de rosa. Não pode ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar.

Está sozinha neste novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Mas nunca poderá deitar-se que isto é cair escombrada num monte. Tenta observar as regras absolutamente certas, mas não compreendidas. Joana está só. Por exemplo: qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal se vergar-se, perdendo-se. Decididamente não pode deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção.

Será seu destino se for para a cama.

– Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar e a boca no ângulo direito da porta principal.

Os olhos, sim, estes verão as noites enquadradas nos azulejos frente à janela do banheiro.

Sim, porque na melhor das hipóteses, Joana ficará no arranha-céu, mas sem a marcha que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa.
Joana não pode, não deixar-se perder.

– Joana.

Movem-se ao seu redor. Sente que alguém quer forçá-la. Joana, sem virar-se, marcha de costas dois passos para sentir-se hirta ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isso, ruída.

Joana ruiu.

Os olhos enfrentam rostos impacientes.

Fica no ar uma palavra nova:

Catatônica.

Joana gostaria de medi-la:

Ca-ta-tô-ni-ca.

Pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?

§

Sobre a autora da apresentação:




Daniela Lima é biógrafa de Maura Lopes Cançado e escritora, autora de Anatomia (Multifoco, 2012) e Sem Importância Coletiva (e-Galáxia, 2014). Teve contos traduzidos para o inglês e espanhol para a Buenos Aires Review, em 2013.

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segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Henriqueta Lisboa (1901 - 1985)



Henriqueta Lisboa foi uma poeta e tradutora brasileira, nascida em Lambari, Minas Gerais, a 15 de julho de 1901. Contemporânea exata de poetas como Murilo Mendes, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, publicou seu primeiro livro em 1925, chamado Fogo fátuo. A este seguiram-se coletâneas que foram saudadas não apenas pelos melhores críticos do momento, como Sérgio Buarque de Hollanda e Otto Maria Carpeaux, mas também por seus pares, como Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Drummond. Correspondeu-se com vários deles, cartas que vêm sendo publicadas nos últimos anos em belos volumes. Alguns de seus livros incluem A face lívida (1945), Flor da morte (1949) e Montanha viva (1959), e ainda os excelentes e necessários, a meus olhos, Além da imagem (1963), O alvo humano (1973) e Reverberações (1976). Recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.

Dentre os poetas brasileiros injustamente negligenciados nas últimas décadas, Henriqueta Lisboa figura alto em minha lista pessoal. É urgente sua recuperação. Em um artigo dedicado ao trabalho das mulheres na Literatura Brasileira, escrevi sobre a mineira, ao compará-la com sua colega mais famosa, Cecília Meireles:

Pessoalmente, prefiro o trabalho de Henriqueta Lisboa (1901 - 1985), especialmente os dos seus livros da década de 60 e 70, como Além da imagem (1963), O alvo humano (1970) e Reverberações (1976). Além da imagem é um volume ótimo, cristalino, no qual a autora se mostra não mais tão ligada à poética simbolista, mas com uma linguagem mais tesa e consciente de si. Ou, talvez como escreve no poema "Condição", deste volume: "Fecham-se, pois, os reposteiros / do princípio e do fim. / Cessam as vibrações orquestrais / do transcendente, do inefável, / do absoluto."

As páginas de poesia na Rede geralmente concentram-se na obra inicial de H. Lisboa, mais mística e abstrata, dos poemas de A face lívida (1945) e Flor da morte (1949), que foram, no entanto, bem recebidos por críticos inteligentes como Sérgio Buarque de Holanda. Mas a obra final de Henriqueta Lisboa nos entregou uma poeta não apenas consciente de sua condição como mulher, como uma escritoa bastante material.


Modelagem / Mulher 
Henriqueta Lisboa

Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.

in Pousada do Ser (1982)


Publicado pela Editora Global há alguns anos, o volume Os Melhores Poemas de Henriqueta Lisboa, com organização de Fabio Lucas, traz alguns dos excelentes poemas de Além da imagem e exemplos do que há de melhor em poesia minimalista no Brasil, com textos do volume Reverberações (1976), com o qual muitos de nós hoje poderíamos aprender a escrever poesia realmente concisa, sem ser desarticulada. Os poemas destes livros prefiguram o lirismo coisista de poetas como Hilda Hilst e Orides Fontela.

Temos muito o que aprender com a poesia de Henriqueta Lisboa. Uma reedição de sua obra faz-se urgente.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE HENRIQUETA LISBOA

Frutescência

Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.

Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.

Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.

Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.

Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.

de Além da imagem (1963)

§

Calendário

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias

de Reverberações (1976)

§

Confronto

Em relâmpago os bárbaros
no espaço.
Passo a passo os tímidos
no tempo.

Sob os pés dos vândalos
as pedras arrasam-se.
Do chão limpo os pacíficos
erguem torres bíblicas.

Os rebeldes, de árbitros,
destroem os ídolos.
Os dóceis, na dúvida,
valorizam as órbitas.

A fibra dos bárbaros,
a astúcia dos tímidos.

de Miradouro e outros poemas (1976)

 §

Assim é o medo 

Assim é o medo:
cinza
verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.

Da sombra espreita
à espera de algo
que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.

No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.

E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.

Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.

Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,
as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.

As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?

de Além da imagem (1963)

§

Sofrimento

No oceano integra-se (bem pouco)
uma pedra de sal.

Ficou o espírito, mais livre
que o corpo.

A música, muito além
do instrumento.

Da alavanca,
sua razão de ser: o impulso,

Ficou o selo, o remate
da obra.

A luz que sobrevive à estrela
e é sua coroa.

O maravilhoso. O imortal.

O que se perdeu foi pouco.

Mas era o que eu mais amava.

de Flor da morte (1949)

§

Não a face dos mortos

Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.

Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.

Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.

de A face lívida (1945)

§

Séquito

Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia

de Reverberações (1976)

§

Denúncia

Os tresloucados do volante
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.

de Pousada do ser (1982)

§

De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.

O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.

Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.

Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.

Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.

Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.

Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.

Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?

Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)

Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.

de A face lívida (1945)

§

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.

de A flor da morte (1949).

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domingo, 13 de Abril de 2014

"Pan-Cinema Permanente" - documentário de Carlos Nader sobre Waly Salomão


Pan-Cinema Permanente (2008), documentário de Carlos Nader sobre Waly Salomão.



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