sábado, 25 de abril de 2015

"Ódio e diáspora" - William Zeytounlian escreve sobre o Genocídio Armênio

O poeta e tradutor armênio-brasileiro William Zeytounlian escreve sobre o genocídio armênio.

Crianças armênias em campo de refugiados
no Líbano (c. 1923).



Ódio e diáspora


I. Ódio

Em 24 de abril de 1915, sob ordem expressa dos Paxás, iniciou-se o processo de eliminação sistemática das populações armênias nos territórios do império turco-otomano. Hoje comemoramos o centenário da sobrevivência. Assim começamos o século XXI, este século de centenários: relembrando os escolhidos para o esquecimento.

O genocídio armênio pode ser entendido como um processo de oito etapas.

Elas foram:

1) Perseguição: todos os armênios que ocupavam funções públicas como juristas, burocratas, professores de escola ou universidade foram demitidos e afastados do serviço público.

2) Decapitação: de forma deliberada, rápida e sistemática 250 notórios intelectuais armênios foram decapitados no dia 24 de abril de 1915. A variedade e disparidade de função das vítimas revela justamente a faceta mais particular do genocídio: a redução de todos os indivíduos a um único denominador comum, no caso, a identidade étnica.

3) Deportação. A partir de maio de 1915 populações de vilarejos e cidades inteiras foram deportadas para o sul. As famílias eram deslocadas especialmente para o deserto da Síria, Deir-ez-Zor, deixando tudo para trás.

4) Expropriação: toda riqueza e propriedades que os armênios deixavam para trás eram transferidas para o Estado e particulares turcos. Essa espoliação foi fator decisivo para a ascensão de famílias turcas inteiras.

5) Assassinato em massa. Com consentimento e participação do Estado Otomano, grupos de extermínio atuaram na aniquilação em massa de homens, mulheres, velhos e crianças.

6) Assimilação forçada. O ataque à identidade cultural do povo odiado visou inviabilizar o estabelecimento de laços que identificassem as pessoas ao povo. Crianças eram separadas de suas famílias, muitas vezes convertidas a outra religião, proibidas de falar armênio. Muitas mulheres se tornaram escravas, marcadas com tatuagens, brutalizadas e forçadas a dar filhos a turcos.

7) Crime de fome. Os armênios deportados para o deserto da Síria foram privados de pão durante a caminhada, de modo que morressem de exaustão. Essa “grande fome” foi artificial.

8) Destruição da cultura material. Esse processo se estendeu até algumas décadas depois dos massacres. Ele consistiu na destruição da memória da existência armênia na Turquia e de seu patrimônio cultural: igrejas, cemitérios, livros, documentos, edifícios, monumentos etc.

E assim padeceram 1,5 milhão de almas.


§


II. Diáspora

Era 1896
e o poeta Hovhannes Tumanian
olhou o céu do norte da Armênia.
Um pássaro voou e fez pensar
que sua terra era
um ninho destruído.
Fez um poema.

Seu poema esperava na voz de todos
o momento de se tornar pleno –
por pouco não faltaram bocas que o cantassem.
               O poema esperou de novo
               até que nós chegássemos.
               Tornamo-nos, enfim,
               os emissários da saudade.

Di-áspora:
sêmen somos e óvulo
lançados novamente à terra –
        um dia duvidaram do gérmen:
        hoje somos bifurcação incontável.

Di-áspora:
como um auspício,
Tumanian leu o futuro
no voo de um grou.
             Mas teria ele imaginado
             que entre bananeiras e arranha-céus,
             entre as catedrais góticas e os rios de leite da Califórnia
             um dia seríamos um povo a perscrutar apenas com a memória
             todo o deserto da Síria?
     Teria ele imaginado
     que chegaríamos para buscar o que fosse,
     lasca de osso,
feixe de cabelo?

                    Esta foi nossa vingança
                    e deverá ser esta apenas.

É verdade:
em cada palavra de ternura que uso em um poema sobrevivemos;
                       e sobrevive-se em cada maço de ar que inalamos
                       e que,
                                   talvez, virará palavras.

Sobrevivemos a cada vez que minha avó fecha os olhos azuis
para dormir numa tarde tranquila;
e a cada instante em que alguém insiste em aprender este alfabeto
         [ancestral.

No sofrimento solitário por pessoas e lugares que não conhecemos;
quando minha tia Sônia, já morta, apareceu em sonho para mim;
na voz de Gomitas Vartaped que sai dos fones do meu ipod;
em cada caixão que carrega alguém morto no momento errado da vida;

                          em cada palavra
                          em cada sopro
                          em cada instante
                          nossos antepassados
                                          estão
                                          entre nós.


--- William Zeytounlian, 24 de abril de 2015.

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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Daniel Varoujan (1884-1915)


Daniel Varoujan foi um poeta armênio, nascido nos arredores de Sivas, então Império Otomano, em 1884. Em 1896, durantes os massacres hamidianos, foi enviado para Istanbul, então ainda Constantinopla, para seus estudos. Após terminar seus estudos na Itália e Bélgica, retornou a sua vila, onde lecionou por três anos. Em 1914, em Constantinopla/Istambul, fundou o grupo literário e revista Mehian, com Gostan Zarian, Hagop Oshagan, Aharon Parseghian e Kegham Parseghian. Publicou os livros Tremores (Սարսուռներ, 1906), O coração do povo (Ցեղին սիրտը, 1909) e Canções pagãs (Հեթանոս երգեր, 1912).

No dia 24 de abril de 1915, há cem anos, Daniel Varoujan e outros escritores, poetas, jornalistas, intelectuais (como seu colega Kegham Parseghian e o poeta Ruben Sevak) foram presos pelo governo turco-otomano. Logo seriam todos executados. Estava iniciado o Genocídio Armênio. Há cem anos.

O último livro de Daniel Varoujan, Canção do pão, seria publicado postumamente em 1921.

§

POEMA DE DANIEL VAROUJAN

Campo maduro

A minha terra é dourada...
Parece chama.
O grão se queima
e não se consome.

A minha terra é dourada...
o céu é de fogo,
o solo é imóvel
sob as estrelas.

A minha terra é dourada...
As espigas em quatro filas
revestiram-se
de sombra e sol.

A minha terra é dourada...
Passam como relâmpagos,
no meio das espigas,
as abelhas e os zangões.

A minha terra é dourada...
Do mar, das ondas de ouro
voa o pardal
levado pelo vento.

Dorme, terre dourada,
dorme, campo maduro,
colherei o teu ouro
com a foice de prata.

(Tradução de Carlos Freire, in Babel de Poemas, editora L&PM, 2004)

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Agradecemos a Daniel Dago pela transcrição do poema.

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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Poema inédito de Reuben da Rocha





Ornette Coleman desceu a este planeta 1dia
c/ 1criança despida de espécie no colo
soprando o ar agudo da trombeta solo
marulho lança das noites acesas
dançando à beira dos buracos negros
sendo capaz de sugar impurezas as
energias cabulosas estranhas
Ornette Coleman desceu a montanha
vestido em roupas d’água + cascas d’árvore
certos sinais
cristais comuns
flores crespas
seguro dos poderes amplos da empatia
a criança contempla +
a onça aconselha



§


§

sobre o autor

cavaloDADA vulgo Reuben da Rocha (São Luís do Maranhão, 1984) publicou os livros Miragem no olho aceso e As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV. Vive em São Paulo.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Frank Keizer



Frank Keizer é um poeta, editor e tradutor holandês, nascido em Leeuwarden em 1987. Coordena a série de poesia experimental em tradução para a editora Stichting Perdu, e é editor ainda na Leesmagazijn, sendo responsável em ambas as casas por trazer à Holanda autores contemporâneos como o russo Kirill Medvedev, a alemã Monika Rinck, a norte-americana Chris Kraus ou o francês Thomas Piketty.

Estreou com o livro Dear world, fuck off, ik ga golfen (2012), seguido de Mijn eigen problemen (2015).


Frank Keizer, Mijn eigen problemen (2015).

É fundador e coeditor da revista Samplekanon, e traduziu, com Samuel Vriezen, o livro Disaster Suites, do poeta norte-americano Rob Halpern, entre outros. Frank Keizer vive em Amsterdã.



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POEMAS DE FRANK KEIZER
traduções de Ricardo Domeneck


Começando a incomeçável
obra que é o mundo.
Nós já o encontramos aí. Dessarte nós
temos sorte. Alguém consome
espaço, desenovela mínima e farfalhante
contra-revolução
ao ritmo
de Trigion,
especialistas em segurança
em Heerenveen.

:

Beginnen bij het onbegonnen werk
dat de wereld is.
We vinden alles al hier. Daarom zijn we
fortuinlijk. Iemand consumeert
ruimte, draait een kleine ritselende
contrarevolutie
af op het ritme
van Trigion,
beveiligingsexperts
te Heerenveen.

§

Ressurreição de um affectus que se cria morto: eu
grito.
Como se privatização só lidasse com a venda de serviços públicos
e não com a subsunção de tudo sob o mesmo denominador.
Até mesmo a pele coisa desempregada, rebaixada.

:

Heropleving van een doodgewaand affect: ik
schreeuw. 
Alsof privatisering alleen de uitverkoop van overheidsdiensten
betreft en niet de subsumptie van alles onder diezelfde noemer.
Het vege lijf een werkloos ding, afgewaardeerd. 

§

Porque desejamos o mundo
livre de distorções,
um donde, um onde
nos encaixamos.

:

Want wij willen de wereld
vrij van vervorming,
een daar, een waar
wij behoren.

§

A autonomia resoluta do poema
é um exercício de poder
executado nos condomínios exclusivos
de Dronten.
Poesia é fricção,
eu creio, e busca momentos de candor,
anti-ontologia
nas larguras das ruas.
Alegria lançada sobre gramados.
Em terrenos levemente ondulados
as trincheiras são talhadas,
com o trabalho das quais
nós nos
recompomos.

:

De resolute autonomie van het gedicht
als machtsuitoefening
gerealiseerd in een exclusieve woonomgeving
in Dronten.
Poëzie is frictie,
geloof ik, en zoekt momenten van teerheid op,
anti-ontologie
in brede straten.
Geluk dat op gazons is neergestort.
In licht ondulerend terrein 
worden loopgraven gehakt, 
met welke arbeid
we onszelf
opnieuw componeren.

§

Es gibt kein richtiges Leben im Falschen
ensina-me Adorno, e logo em seguida
fiquei em silêncio por um tempo
você continuou vivendo
como posso tagarelar tanto
enquanto me afundo
escrevo a minhas afeições
que elas me machucam
e pergunto por que se recusam a mudar-me
e então faço uma pesquisa rigorosa no Google
que também não sabe como é o sentimento
de viver no início do século XXI,
quer dizer, significa ao menos tentar,
chocando-se em relações e maleabilidade,
como se sente isso?

:

Es gibt kein richtiges Leben im Falschen
leer ik van Adorno, en daarna heb ik
een tijdlang gezwegen
en toch doorgeleefd
hoe kan ik zo veel lullen
in mijn vastlopen
ik schrijf mijn affecten
dat ze me pijn doen
en vraag ze waarom ze me niet willen veranderen
daarna heb ik veel gezocht met Google
dat ook niet weet hoe het voelt
leven in de eenentwintigste eeuw
bedoel ik, dat is iets proberen
je stoten aan verbanden en buigzaamheid
hoe voelt dat?


§

Notas do tradutor:

As traduções acima foram feitas com o auxílio do autor e de versões em língua inglesa.

1- Trigion é uma empresa de segurança holandesa.
2- Heerenveen é uma pequena cidade holandesa onde, segundo o autor, há infames campos de golfe, em referência ao título de seu livro de estreia, Dear world, fuck off, ik ga golfen / Dear World, fuck off, estou jogando golfe.
3- A citação de Adorno poderia ser traduzida como "Não há vida verdadeira na falsificação", do livro Minima Moralia (1951).

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domingo, 12 de abril de 2015

Das poéticas vocais: Ghédalia Tazartès



Ghédalia Tazartès é um músico e poeta sonoro francês, de origem ladina, nascido em 1947. Em "Merci, Stéphane", ele recorre a dois poemas do grande francês.





[Rien au réveil que vous n'ayez]
Stéphane Mallarmé


Rien au réveil que vous n'ayez
Envisagé de quelque moue
Pire si le rire secoue
Votre aile sur les oreillers

Indifféremment sommeillez
Sans crainte qu'une haleine avoue
Rien au réveil que vous n'ayez
Envisagé de quelque moue

Tous les rêves émerveillés
Quand cette beauté les déjoue
Ne produisent fleur sur la joue
Dans l'oeil diamants impayés
Rien au réveil que vous n'ayez

§

[Si tu veux nous nous aimerons]

Stéphane Mallarmé


Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire 
Cette rose ne l'interromps 
Qu'à verser un silence pire

Jamais de chants ne lancent prompts
Le scintillement du sourire
Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire

Muet muet entre les ronds 
Sylphe dans la pourpre d'empire 
Un baiser flambant se déchire 
Jusqu'aux pointes des ailerons
Si tu veux nous nous aimerons.



Sua discografia inclui Diasporas (1979), Une éclipse totale de soleil (1982), Tazartès (1987), Voyage à l’ombre (1997), Les danseurs de la pluie (2006), Jardin au Fou (2007) e Ante Mortem (2010).



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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Excerto de "Deus-dará", romance em curso de Alexandra Lucas Coelho

A Modo de Usar & Co. publica com exclusividade um excerto de Deus-dará, romance em curso de Alexandra Lucas Coelho, lisboeta nascida em 1967 e autora dos romances E A Noite Roda (Lisboa: Tinta-da-China, 2012) e O Meu Amante de Domingo (Lisboa: Tinta-da-China, 2014).


Deus-dará (excerto)

                                                                    15:00, Cosme Velho


Gonadotrofina coriônica humana, anota Noé, céu branco de onde ela o vê, quase à altura do Corcovado. Coisa de favela mesmo: chiado de rato, um calor de matar e a melhor vista do Rio de Janeiro.
Ela já anotara vários nomes até chegar a esse: a hormona que só um embrião gera, detectável na tirinha ensopada, uma linha, negativo, duas linhas, positivo, qual a menina que não foi na farmácia com a amiga, esperou a urina da manhã, ficou lá no banheiro, copinho na mão, todo o peso nos joelhos, 240 mil imagens na cabeça, um filme acelerado dez vezes. Poema-foda tem que ser o filme na cabeça dessa menina, pensa Noé, ainda segurando o folheto do teste de gravidez, camiseta com versos de Leminski à altura do umbigo


(Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além).



Está a escrever um filme desde ontem à noite, quando a segunda linha apareceu na tirinha dela, nem esperou a urina da manhã.
Desde Setembro que só pensava na chacina dos seis garotos na Baixada Fluminense, Christian, Douglas, Glauber, Josias, Patrick, Victor Hugo, auxiliares de pintores e de pedreiros entre 16 e 19 anos: num sábado saem de um campeonato de pipa para uma trilha de cachoeira que além de tatus, pacas e guatiricas está cheia de traficantes; confundidos com membros de uma facção rival, são sequestrados, torturados, mortos e enterrados; os corpos aparecem nus, de mordaça na boca, enrolados em lençóis; têm cortes no pescoço, marcas de pancada com objectos, cada um levou três a cinco tiros; para o funeral embrulham-nos em bandeiras tricolores. Porque isso de o Flamengo ser o clube do povo é quando é, eles eram fanáticos do Fluminense e moravam no bairro de Cabral, Nilópolis. O que há de mais notório sobre Nilópolis é ser sede da Beija-Flor, a escola que ganhou o Carnaval de 2011 com Roberto Carlos de azul e branco no cimo do último carro


(Meu Beija-Flor chegou a hora

de botar pra fora a felicidade

da alegria de falar do Rei!).


Centenas de milhões sambam com a Beija-Flor; televisões, cervejas, bancos facturam milhões; depois sambistas, passistas, porta-bandeiras, toda a bateria, umas quatro mil pessoas no total, voltam a Nilópolis para viver o resto do ano, cruzam-se na rua com os Christian, os Douglas, os Glauber, os Josias, os Patrick, os Victor Hugo, eles são os garotos do vizinho, do tio, do primo, do irmão, os próprios filhos. Onde estava no Carnaval de 2011 aquela mãe que no sábado da chacina foi procurar o filho e ouviu de um jovem trafica: “Tia, vou ser sincero, o Foca enterrou ele na mata.” Fora recém-chegados, todo o mundo se conhece num bairro de Nilópolis, nome tão brasileiro quanto Moisés ou Washington, e que garoto não gostaria de ressuscitar Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira?


(O futebol é a quadratura do circo

é o biscoito fino que fabrico

é o pão e o rito o gozo o grito o gol

salve aquele que desempenhou

e entre a anemia a esperança

a loteria e o leite das crianças
se jogou
com destino e elegância dançarino pensador

sócio da filosofia da cerveja e do suor

ao tocar de calcanhar o nosso fraco a nossa dor viu um lance no vazio herói civilizador

(o Doutor))


Ser bom de bola no Brasil é o grande lance contra acabar enterrado pela polícia, pela milícia, por algum tribunal do tráfico antes dos 20. A violência é a principal causa de morte antes dos 20 no Brasil, e a Baixada Fluminense é a região mais violenta do estado do Rio de Janeiro, Noé conhece as pesquisas: grupos de extermínio pagos por empresários que querem segurança, disputas de território pelo que a Olimpíada move, absorção de traficantes em fuga, tudo isso está no que ela tem anotado desde Setembro.
Mas ontem à noite apareceu essa segunda linha na tirinha do teste, e depois a aceleração de partículas que desencadeou o filme, nem pânico nem euforia, uma clareza extrema.
Como a mãe ia dormir cedo para levantar de madrugada, Noé só contou a Gabriel, logo dizendo que não era drama nenhum, faltava um trimestre para a gradução, ele estava mudo. Aí perguntou se era isso mesmo que ela queria, ela respondeu que era a última coisa que planeara, trepada de um dia que parecia sem risco, besteira de pôr e tirar camisinha, nem ficou ligada quando a menstruação atrasou, comprou o teste de farmácia no automático, queria descartar essa hipótese antes de ir ao médico. Mas no momento em que viu a segunda linha teve a certeza, não houvera plano e não havia dúvida: ia ter esse bebé.
Gabriel quis saber se o cara era alguém que ele conhecesse, ela disse que não, galera da PUC, amigo de amigo, tinham-se conhecido numa festa, fumado uns, bebido pra caramba, acabaram na casa do pai dele em São Conrado, um negócio no meio da floresta, ela acordara com um toc-toc na varanda, quando foi ver era um tucano, caraca, nunca vira um tucano no Rio de Janeiro, um tucano batendo na porta com aquele bico, parecia um intervalo no tempo, só ela e o tucano por um segundo, e ele sumiu num abrir de asas como se viesse só para ser visto, nem um rasto no céu. Ela ficou olhando os parapentes descendo da Pedra Bonita, apanhou a roupa no chão sem acordar o cara, um gato, quase grego, lindo demais, foi pela estrada das Canoas até achar um ônibus, e nesse dia mesmo o gato achou-a no Facebook, mandou mil mensagens, ela é que dera um gelo, fazia tempo que não trepava, tinha sido até bom mas não queria ficar trepando. Não queria ficar trepando ou não queria ficar trepando com ele, perguntou Gabriel, ela repetiu que não queria ficar trepando, tirava muita energia dela, estava bom de vez em quando.
Gabriel disse que ela tinha que ter ouvido a conversa que ele tivera antes dessa, ela perguntou se tinha sido com a dama do Cosme Velho, ele disse que a dama parecia nascida para trepar, ela disse maravilha, só não era a sua praia, tanta coisa para fazer. É, disse ele, por exemplo, criar um filho aos 21 com graduação por terminar, mestrado emendando em doutorado, uma arca de poemas na cabeça, fora a revolução.
Noé respirou fundo, perguntou se Gabriel já engravidara alguma mulher além da mãe do filho dele, ele respondeu que sim, duas vezes que soubesse, as duas tinham decidido tirar antes mesmo de falar com ele, ela perguntou onde, ele respondeu uma no Rio e uma em Lisboa fazia pouco tempo, ela perguntou se ele tinha ido junto, ele respondeu que em Lisboa não, a moça tinha família em Portugal e o aborto era legal lá, mas no Rio sim, tinham acabado no Miguel Couto com uma hemorragia depois da abortadeira, a moça morrendo de medo que a denunciassem.
Noé disse que essa era só uma das razões para fazer uma revolução nesse país que vive ligado em sexo mas persegue mulher que aborta e botou na presidência uma ex-guerrilheira que fica puxando o saco dos evangélicos sem coragem de dizer que aborto é questão de saúde pública.
Gabriel perguntou se não seria melhor pensar um pouco, exactamente porque aborto para ela não era uma questão moral, pensar em tudo o que tinha para fazer, em como esse bebé ia ser criado, no cara com quem ainda ia ter de falar, ela não achava? Noé disse que sempre achara que nunca ia engravidar, que talvez por isso tivesse deixado pra lá a camisinha, que se agora tirasse o bebé não correria mais o risco. Portanto talvez tivesse de acontecer agora, esse era o bebé que seria para ela ter. E, sim, ia falar com o cara justo por isso, pra lhe dizer que com ele ou sem ele faria tudo o que era pra fazer, graduação, mestrado, doutorado, filme da chacina da Baixada, a própria da revolução e criar esse filho.
Então vamos lá, pensa Noé, amarrotando o folheto do teste de gravidez, camiseta Leminski colada nas costas


(Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha).


Que putacalor, Dezembro.


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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Rap brasileiro: Don L - por Ederval Fernandes

A Modo de Usar & Co. inicia aqui um dossiê sobre o rap brasileiro, a cargo de nosso colaborador Ederval Fernandes.

Don L por Ederval Fernandes, especial para a Modo de Usar & Co.



Don L ganhou reputação no jogo do rap quando seu grupo, Costa a Costa (formado em 2005), lançou a mixtape “Dinheiro, sexo, drogas e violência de Costa a Costa”, em 2007. Hermano Vianna, por exemplo, chamou a gravação de “Sobrevivendo no Inferno do século XXI”. O gangsta rap cearense aportou na cena do hip hop aprofundando a crônica da violência, do crime e da injustiça na periferia, ao mesmo tempo que deu voz àquele que procura o dinheiro rápido para viver o melhor da vida, mesmo que este melhor custe, em algum momento, a sua própria cabeça. Sem ética, sem perdão, sem sossego. O lema do disco (dinheiro, sexo, drogas e violência) é repetido à exaustão, como um mantra. É incômodo ouvir, mas é a realidade, é o jogo do “gueto do gueto”, como Don L se refere à Fortaleza, sua cidade.

Numa entrevista à época do lançamento de “Dinheiro, sexo...”, Don L disse: “O velho Rap nacional é baseado na lógica da derrota. Assume a derrota. Aceita a derrota. E o pior… cultua a derrota. (...) Você não vê um rapper americano chorando e dizendo porra, a sociedade é injusta, não me dá oportunidade, a televisão é racista…, mas você pode achar algum deles dizendo, tipo: certo, existe isso tudo, e é difícil mesmo, mas foda-se, vocês vão pagar um pau pra mim agora, porque eu dou audiência pra vocês, gero dinheiro, e em breve vou comprar esse canal de televisão e ser o dono dessa porra toda aqui!” De fato, o rap do Costa a Costa e, posteriormente, do trabalho solo de Don L (Caro Vapor – vida e veneno de Don L, de 2013) está sedento por afirmação, por dinheiro, por poder. Longe do culto à derrota. Apesar de todo o cenário caótico que as músicas descrevem (especialmente as músicas do Costa a Costa), é possível sentir, como observou Hermano Vianna, “aquela espantosa alegria de estar vivo, que pode ser encontrada em todos os guetos, nas situações mais miseráveis”. Ao lado da alegria de estar vivo, há uma sede tremenda de se viver bem. Na lírica de Don L, a vida espiritual e a vida material se amalgamam. É deste enlace que surge uma música como “Sangue é Champanhe” ou “Morra bem, viva rápido”. É a “Vida Premium”, espécie de protocolo do bom viver, no qual o hedonismo está inteiramente imbricado com “os sangues derramados” das injustiças do jogo da vida.

Se Don L fosse um personagem de romance, seria, com algumas poucas ressalvas, Jay Gatsby. Há muitas semelhanças. A primeira é a paixão. Gatsby é apaixonado por Daisy, Don L pela Vida Premium (no disco solo, Caro Vapor, a Vida Premium tem voz feminina em “Denso”). Ambos são perseverantes e lidam, porque têm uma meta, com riquezas perigosas para chegarem lá. Ambos sabem que suas metas só serão alcançadas mediante a riqueza, mas sabem que esta mesma riqueza é mesquinha, quando quer, e pode aniquilá-los. Para Gatsby, a mesquinhez e o aniquilamento vêm através de Tom e Daisy Buchanan (representando toda a elite americana, moralista e cretina); Para Don L, há o crime, a polícia (moralista e cretina, quase sempre). Assim como Nick Carraway acreditou que Jay Gatsby era diferente daquele grupo de ricos mesquinhos, apesar de ter feito tudo para pertencer àquele grupo (A paixão por Daisy não é um pouco a metáfora dessa obsessão?), acredito que Don L também seja diferente. A sua lírica é muito vibrante. Em tempos de ostentação barata, a poesia está aí para separar o joio do trigo. Sem elitismo, é claro. Com o coração.

--- Ederval Fernandes

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sobre o autor



Ederval Fernandes é um poeta e crítico contemporâneo brasileiro, nascido em Feira de Santana, Bahia, a 25 de outubro de 1985. Formado em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana, leciona literatura na Secretaria de Assistência Social da cidade. Estreou com  O Livro Conta Corrente (Feira de Santana: Sarò, 2015).

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