terça-feira, 3 de março de 2015

Donato Ndongo-Bidyogo


Donato Ndongo-Bidyogo é um ensaísta, prosador e poeta da Guiné Equatorial, nascido em Niefang em 1950. É autor dos livros El Sueño (contos, 1973), Cántico (poesia, 1974) e Las Tinieblas de tu Memória Negra (romance, 1987), entre outros. A tradução do conto El Sueño, que dá título a seu livro de 1973 e é um de seus mais conhecidos, foi feita por Nina Rizzi, assim como as notas de apresentação abaixo, a quem agradecemos pela oportunidade de publicar o autor.

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Apresentação de Nina Rizzi

Conheci Donato Ndongo-Bidyogo, escritor da Guiné Equatorial radicado na Espanha, no III Griots - Colóquio Internacional de Culturas Africanas, onde ele fez a conferência de abertura Donato Ndongo-Bidyogo. Sua conferência nos deixou a todos comomvidos diante tanta a lucidez, beleza e a dor; destaquei essas notas:

1. quando o Lula venceu as eleições no Brasil, o nosso país, todo continente africano, vibramos, era a liberdade, a libertação que nos chegava como também uma promessa, um exemplo; depois, ele - e também Dilma recentemente - visitaram nosso país, e se abraçaram ao tirano, e a todos tiranos dos países africanos visitados.

2. pra que escrever literatura num país onde grande parte da população é analfabeta e os leitores são uma elite? A literatura, ela também liberta [...], e também, Dostoiévski e Cervantes e Victor Hugo e Dickens não foram lidos em sua época, nem por isso não escreveram e não é razão de não os lermos hoje. 

--- Nina Rizzi

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CONTO DE DONATO NDONGO-BIDYOGO

O sonho
Donato Ndongo-Bidyogo
tradução de Nina Rizzi

Sou jovem. Apenas se cumpriram os - vinte e cinco? - anos da circuncisão. Se eu me perguntasse o que faço aqui, com a água até o pescoço, me chamaria o homem mais estúpido do mundo. Meu avô, o velho Diallo, sempre tem razão: “jovem demais para saber demasiado”. Faz - vinte e cinco? - anos que fui circuncidado em uma aldeiazinha sem importância, à margem do Casamança. Nesse rio correu meu sangue, nesse rio aprendi a nadar. Águas quentes, outras águas, águas como espelhos, que refletiam com toda nitidez os peitos eriçados das moças do lugar. Desconheço exatamente a razão, nem sequer recordo a época; o certo é que fui arrancado de minha aldeiazinha para ir à escola de Bignona. Ali passei quatro anos, quatro anos de uma vida qualquer.

Quando pude aguentar os mosquitos e a fome sem reclamar demais, quando fui considerado um bom negro apto para o trabalho, fui transferido a um plantador branco. Nós cultivávamos o arroz para o amo branco. Nós cultivávamos um arroz que jamais catamos. E os anos voltaram a passar, uns anos que acrescentava eu meu interior o desejo de sumir, de escapar da miséria. Eu queria me casar com a negra Traoré, mais bonita que a noite escura, mas eu não tinha as doze vacas que devia entregar como dote. Doze vacas. Doze vacas que foram minha perdição.

Eu tinha quatro vacas. Queria que ela confiasse em mim, que visse que eu trabalhava, que era capaz de qualquer coisa, de qualquer sacrifício por ela. Meu primo Tello havia ido à Gâmbia para fazer fortuna e voltou com vinte vacas e dois bois. O outro primo, Lamine, havia ido para o país dos mandingas, lá ao norte, atravessando o rio Senegal, e havia regressado com uma coisa a que chamava bicicleta e que dizia que valia mais que todas as vacas do mundo. Eu nunca quis acreditar. O que nesta vida pode valer mais que uma vaca? Eles emigraram e eles perderam a fé no povo. E povo deixou de contar com eles. O avô Diallo, que ainda recordava ter visto navegar o barco encalhado na areia da praia de Joal, no país mandinga, havia lhes dito que nenhuma mulher das nossas se casaria com eles, por as terem renegado e desonrado perseguindo as brancas com o olhar. Eu havia aprovado em meu interior a decisão do avô Diallo. Como se pode comparar uma bicicleta a uma vaca?

As vacas são mais difíceis de conseguir. Já me demorava muito para consegui-las, e a muito negra Traoré ameaçava deixar de me esperar e ir com outro mais dedicado. Eu sou muito pobre, que vou fazer, e no mesmo dia que fui entregar a quinta vaca, me devolveu as outras quatro. E tive que pagar a ela o capim que as quatro vacas comeram!

Então emigrei. Começava a ver as vantagens da bicicleta. Ao menos ela não come capim. E comprei uma. Trabalhava numas plantações de amendoins, no país mandinga. O amo era negro, tão negro como a luz do dia. Eu preferia o branco dos arrozais, mas o negro pagava melhor, e nas grandes cidades as moças já não queriam vacas, mas bicicletas, e às vezes até nada.

Quando minha mãe morreu voltei a ver as margens do Casamança. E vi de novo aquela menina, que três anos antes nem sequer havia notado. É a lei da vida. Preferi me casar como fez meu pai, não com bicicletas, ou com nada. Que respeito te guardará uma mulher pela qual não deu nada? E mais uma vez me vi envolto com a encrenca das vacas. E emigrei para ainda mais longe. Cheguei até Dacar, a maior cidade que já tinha visto. Quando escrevia para Dikate, dizia que viveríamos sempre ali, em um desses apartamentos que parecem colmeias onde os homens são abelhas, mas nos quais tudo fica mais cômodo. Claro que Dikate tinha que aprender muitas coisas ainda! Nem sequer sabia andar de bicicleta.

Em Dacar se ganhava bem a vida, mas não tão rápido. Eu não queria que Dikate me deixasse como havia feito a muito negra Traoré. Tinha que conseguir logo as doze vacas. Se fracassasse dessa vez, todos lá nas margens do Casamança pensariam que não sou homem suficiente para casar, e como a vida valerá a pena se um homem não é um homem?

As más companhias! O avô Diallo sempre me preveniu contra elas. Quando emigrei para Dacar, que era como ir ao céu ou ao inferno, mas muito longe e para sempre, o avô Diallo me disse que esses lugares são como uma mescla de céu e inferno. Quanta razão tinha o avô! Ele conhecia os homens muito bem: tinha visto nascerem todos os varões de minha tribo, tinha visto chegar os homens brancos a bordo daquele barco encalhado nas areias de Joal.

A negríssima Dikate me apressava cada dia mais. E tive que fazê-lo. Uma má companhia me falou de um porto, chamado Las Palmas, onde se podia ganhar o equivalente a sete vacas em um ano. Não pensei muito, essa é a verdade. E tal como dizia o avô Diallo, se não se pensa uma vez, duas tampouco. E assim fiquei dois anos em Las Palmas, trabalhando no maior porto que tinha visto até então. Muito maior que o de St. Louis, muito maior que o de Dacar. Mas meus bolsos não se enchiam. É verdade que ganhava bem mais que no país mandinga, mas aqui, no entanto, o dinheiro me escapava das mãos. A primeira culpa era daquele branco sujo que me obrigava a lhe dar metade do que ganhava. É verdade que ele me ajudou a cruzar o mar de noite em seu barquinho; é possível que sem ele nunca tivesse chegado aqui. Mas era claro que o preço pago por seus serviços era muito alto. A segunda culpa, aquela irresistível tentação de ir me esfregar com as brancas do porto. Gastava um dinheirão nisso, mas não podia deixar de fazê-lo. Era superior à minha vontade.

Foi então quando aquele mandinga limpo e perfumado nos propôs ganhar muito dinheiro, nos transportando para França. Estávamos encantados com a ideia. Não há nada como ser ignorante. Como não pensamos nisso antes? Se Dikate soubesse que ia passear pelas ruas de Paris, que veria com meus olhos negros a Torre Eiffel, e que veria o presidente da República, e que falaria com Napoleão... Isso valia mais que todas as vacas do mundo! Paguei ao mandinga tudo que havia economizado até então. Cheguei a lhe prometer as cinco vacas que tinhas às margens do Casamança. Por sorte ele não comia carne de vaca.

Transportou-nos de barco até Algeciras e de trem até Barcelona. Eu não posso te explicar, negra Dikate, o que são esses países de brancos. Quando pisei em Paris, quando vi com meus olhos o Sena – que deve ser maior que o Casamança – tentarei te explicar como é. Bem.

Nunca poderá fazer ideia, por mais que queira, do quão grande, da quão luminosa, do quão... que sei eu? O que é Barcelona. Dois dias depois de chegar nos puseram para trabalhar em uma grande estrada, longe da cidade. Nas horas de descanso, não podíamos ficar todos juntos. Obrigavam-nos a passear de dois em dois ou três em três. Segundo nos dizia o mandinga limpo e perfumado, era para o nosso bem. Quanto ao salário, entregavam ao mandinga. Ele administrava tudo e nos dava uma mirrada ração para nossos gastos.

Eu não quero contar mais. Pensando nas excelências de Paris, tinha até esquecido as vacas. O que é nosso povoado comparado ao mundo inteiro? O que são doze vacas se nada vale a pena depois de tudo? O que é você senão minha perdição? Voltarei sequer a te ver?

Passamos seis meses em Barcelona. Dormíamos três em uma estreita rede fedorenta que picava as costas nuas. Não fomos nem uma só vez à cidade. Não pude me esfregar com nenhuma mulher do porto. Quase - quase não podíamos fazer nada à vontade.

Levaram-nos de trem até a fronteira. Ali nos disse o mandinga que alguém se encarregaria de nós e que não nos abandonaria até pisar em terras francesas. O coração me saltava de alegria. Todas as misérias se resolveriam umas horas depois. Talvez, se encontrasse trabalho, poderia buscar logo você, teus pais, nossos irmãos...

O homem veio esta noite. Não pode imaginar o frio que todos sentíamos. Não sei se pode fazer uma pequena ideia do que significa inverno. Amontoava-nos na estação de trem, ponto de encontro, tentando comunicar algo de um calor inexistente. Por fim, quando apareceu, podemos comer algo mais que caldo na cantina da estação.

Antes de começar a andar, sob o pretexto de que não precisaríamos agora, nos arrancou todo o dinheiro espanhol. No meio do caminho, entre florestas frondosas, no escuro, quase a tatear, nos tirou os passaportes. “Devolverei na França”, nos disse. E chegamos ao rio. Não sei como se chama, nem onde estou. Imagino que deve ser a fronteira franco-espanhola. Amanhecia. Estava cansado. Tivemos que esperar cerca de duas horas. Por fim umas luzinhas. É a senha. O barquinho se aproximou.

Com o coração encolhido, conscientes de nossa clandestinidade, íamos remando. Eu sonhei alto! Subitamente uma detonação. O barco virado. A água gelada, amor. Estou congelado. Sei que não conseguirei chegar a qualquer das margens. Percebo que isto se acaba. Sem mais vacas, minha última lembrança é para estas ilusões desfeitas. Não sei se ouvirá, ali no outro rio, o grito da minha morte. Já não creio muito em nossos espíritos, mas rogarei ao avô Diallo por ti. Eu...

De repente despertei. Ela dormia junto comigo. Seu semblante era risonho. Seus sonhos não eram da natureza dos meus. Sonhos de branca. Sentia o frio nos ossos. Sentia a compulsão na garganta. Sentia que ia morrer. Lenta, delicadamente, a despertei. Precisava estar seguro de que não tinha morrido, de que tudo era um sonho. Ela me olhou surpresa.

- Agora? – me disse
Era preciso ir então e só então.
Eu voltava à vida.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Allan Jonnes


Allan Jonnes é um poeta e performer brasileiro, nascido na cidade de Lagarto, Sergipe, em 1990. Venceu em maio de 2013 o ZAP Slam edição especial com poetas do Brasil, onde foi convidado a participar do projeto “Autores em cena”, que aconteceu dentro da Balada Literária (SP), sendo dirigido pelo grupo Bartolomeu de Depoimentos em performance de récita eletrônica.


 

Foi o campeão também em 2013 do Slam da Guilhermina, venceu a primeira edição do Maior Slam do mundo (RJ) e foi 2° colocado no Slam SP no mesmo ano. É membro fundador do Coletivo Sarau Debaixo, onde colabora com a organização de um sarau de rua todas as terceiras terças-feiras do mês em Aracaju, Sergipe, onde vive e trabalha. Dos poemas abaixo, o primeiro é inédito.
--- Ricardo Domeneck
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POEMAS DE ALLAN JONNES

O SOL NÃO ILUMINA MAIS O OLHO BEGE DE GISELE

O sol não ilumina mais o olho bege de Gisele
nem se pode saber qual dermatite
escama entre os dedos e as covas

das unhas doentinhas
quando Gisele lava os operados

não há sol no mundo que ilumine o caramelo triste
do olho de Gisele
e ela louva coberta de glaucoma

até as putas mais indiferentes destas ruas
curvam suas orelhas à porta da igreja Batista Betel
quando Gisele canta para os Lázaros às segundas

e rasga uma canção tão triste quanto uma criança
débil mental babando a cabeça descosturada de seu elefante 
de pelúcia numa cadeira de rodas na rodoviária do Recife
quarta-feira de cinzas

outro dia sob a marquise de um café em Minas Gerais
bêbado de conhaque e manuseando imaginário
a caixa de controle do seu ex trator
o viciado aponta na camisa a inscrição

a cabeça de Mao é o nosso sol vermelho

Gisele não sabe das revoluções camponesas
de nenhum lugar do mundo
mas vende calculadoras nos ônibus de linha
ao preço de dois reais
para a manutenção dos ídolos que reúne


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DA UTILIDADE PÚBLICA

o senhor Cláudio Pereira
negociante de algodão doce e bexiga
de oxigênio para crianças parou
outro dia a sua bicicleta monark modelo circular
próximo dos arcos da orla
e manifestou a maior indignação da própria vida

não vendi nada até agora mas eu só queria mesmo é que um dia
saísse em qualquer jornal nem precisa ser de televisão
que o pessoal que faz algodão doce não coloca a boca na sacola
para encher essa desgraça de assopro ou de cuspe até que depois
a gente amarra tudo ali com baba e bactéria

nesse mesmo momento pereira pegou uma
das sacolinhas de algodão ao vivo
prendeu cada ponta com dois dedos e girou
girou até encher o saco e depois deu um nó
sendo eu a sua testemunha
que de fato a boca não encosta

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CAMINHO CONTIGO SOBRE A CABEÇA

caminho contigo sobre a cabeça
menos como caminham as roupas
desatentas
na bacia de Nanã
ou como caminham os piolhos satisfeitos
de voltas e voltas no mesmo cacho

caminho contigo sobre a cabeça
como quem descobriu outra geografia
para ladeira
como quem carrega a herdeira Dele
em meio a uma legião de bestas

com o dia em que lambi o teu indicador
da primeira vez
porque é ele o teu melhor dedo
e os teus dentes
níquel por crômio ferro por molibdêmio

caminho com o dia em que você
falou de Eclesiastes
e da ternura que sentiu
quando eu matei um pássaro criança
de tanto ter cuidados

caminho com o dia em que você me limpou
com o seu cabelo
com o dia em que eu enxuguei seu olho sem
saber uma palavra e hoje
da primeira vez
eu estourei o choro
estourei como choram os bichos
chorei biológico
de dizer o nome
e morder as espumas dos cigarros
de querer abrir no mundo
e procurar a sua casa

e porque você me percorreu
eu caminho como um homem percorrido

§

DA PROCURA

não era você
por dentro ali daquele elevador
cor de marrom tapete
uso e capacidade
para oito ou nove
então cabia
cadê?

perto ali
daquelas buzinas todas
e sirenes todas que diziam
de um homem
que tinha se acidentado de overdose
e outro
que tinha jogado agua sanitária
no olho do homem que era cliente novo
e não pagou o que devia
que era  dezessete reais
e dezessete reais dá para comer tanta coisa e não dá
para comprar uma Sirene

se você tivesse uma sirene
você vinha mais rápido? 
não vinha

não veio nem que suja de fuligem
a porra preta
a borra
o forro que eu peguei
na parede da rua
e no chão perto das casas
que você trazia da rua

suja com essa fuligem toda
que ninguém se esquiva do querosene
nos buracos todos do meu rosto
que ninguém se esconde
dessa agonia preta
que dá às vezes na pessoa
que demora na rua
procurando alguma coisa

§

CANTADA REMIX

Você é mais bonita que a bolinha azul pequena
que vem dentro do cigarro lucky strike

Mais bonita que uma girafa
que um filhotinho de demônio da tasmânia

Você é mais bonita que todos os aviões da boeing
e lembra mesmo é esse último o sete oito sete

que é levinho assim de fibra de carbono
e cabe quase trezentos e cinquenta pessoas passageiras

Você é mais bonita que um jardim que plantaram
num vasinho sanitário tamanho só para crianças

Mais bonita que a Ursula Andress
não, a Ursula Andress é um pouquinho mais bonita que você
e mesmo assim você é dezenove vezes mais bonita que a Ursula Andress

O cara que descobriu o pré-sal tem inveja de mim
porque eu descobri voce

O Niemeyer apagaria o desenho de Brasília pra fazer de novo
se ele tivesse visto o jeito dessa curva diferente
que faz na ponta do seu dedo

O Cristóvão colombo daria quinhentos índios
pra ter descoberto você no lugar da republica dominicana

Você é mais bonita que a bicicleta de marcha mais bonita que tiver em Aracaju
aqui não tem arara e o pessoal fica desenhando um monte de arara na parede
se o pessoal te visse o pessoal ia querer ficar te desenhando

Você é mais bonita que a moça pra quem Ferreira Gullar
escreveu o poema dele que eu roubei, descarado que eu sou, pra fazer esse
mas eu só roubei porque eu sei que você é mais bonita

Ele disse que a outra moça só não era mais bonita que a revolução cubana
e eu não vi a revolução cubana
e muito menos a outra moça

mas eu acho que você ia ser mais bonita
mesmo que ela me aparecesse com um fuzil na mão
e dissesse hay que endurecer corazon toda cheia de ternura

Você é mais bonita que um vândalo
mais bonita que uma pessoa colocando fogo numa coisa
mais bonita que a própria coisa colocada fogo

você é tão bonita quanto uma mulher passeando de um lado pro outro de uma avenida
com um polvo cor de vermelho na cabeça

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Amélia Dalomba



Amélia Dalomba é uma poeta e jornalista angolana, nascida em Cabinda a 23 de novembro de 1961. Formada em psicologia em Moscou,  trabalhou  na Emissora Provincial de Cabinda, na Rádio Nacional de Angola e nos jornais A Célula e Jornal de Angola, em Luanda. Foi também secretária da Missão Internacionalista Angolana em São Tomé e Príncipe. É geralmente agrupada, com autoras como de Ana Paula Tavares, Ana de Santana e Lisa Castel, na chamada "Geração das Incertezas" angolana. Publicou as coletâneas Ânsia (1995), Sacrossanto Refúgio (1996), Espigas do Sahel (2004) e Noites Ditas à Chuva (2005), entre outras. Amélia Dalomba vive e trabalha em Luanda.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE AMÉLIA DALOMBA


Herança de morte

Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança

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A Canção do silêncio

A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo
O olhar de uma santa de barro
A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel
A canção do silêncio

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Na milésima de tempo

A inversão do mundo nos cabelos do infinito
Uma lua apagada de prazer
A razão é um jardim florido pela ilusão
Na milésima de tempo de uma entrega

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Frases feitas

Difícil é cantar comum pensamento
Sombras em frases feitas onde nada é tão antigo
Como chegar e partir

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Mãos

Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mariano Marovatto



Mariano Marovatto é um cantor, compositor e escritor brasileiro, nascido no Rio de janeiro a 1 de abril de 1982. Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, publicou quatro livros de poemas e o quinto, Casa, está previsto para 2015. Gravou quatro discos, entre eles, Aquele amor nem me fale (Bolacha, 2010) e Praia (Maravillha 8, 2013). 

Mariano Marovatto - "A Mutante" (vídeo de Victor Heringer)

Pesquisador e arquivista literário, foi responsável, entre outros trabalhos, pela organização do acervo do escritor e compositor Cacaso e pela pesquisa de inéditos e estabelecimento de texto da Poética de Ana Cristina Cesar. Além disso, é apresentador, roteirista e pesquisador do programa musical "Segue o som" na TV Brasil. Atualmente tem mais dois discos em andamento, um livro sobre As quatro estações da Legião Urbana, outro sobre o poeta Tite de Lemos e mais um sobre sua viagem ao Japão. Toda a sua produção está disponível em sua página pessoal. Os poemas abaixo são de seu novo livro, Casa (inédito).

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE MARIANO MAROVATTO

Lá vem o trem com o nome do seu bairro.
Nós dois apoiados no corrimão.
Essa é a minha melhor camisa para atravessar o vale.
Do outro lado tem uma janela sem casa.
Aqui choramos porque somos destemidos.

Chutes nas garrafas, socos no meu peito.
Nas horas azuis as ruínas não se escondem.
Há toneladas de mensagens, há toneladas de amores.
Uma pílula na sua boca, uma lambida na sua boca.
Ela é loura.

Ela é morena.
Li teu livro todo
naquele mesmo quarto
do alto do viaduto eu olhava
você dormir a tarde inteira
se tivéssemos um filho
você adora cachorros
se comêssemos um pêssego
você parece o outono
já mastiguei um outono.

O verão, não. O verão é gordo.
O verão é coisa imensa e vazia.
Você não manda notícias.
Um prato na varanda
com restos de comida.
Morta a natureza.
Eu estou num quadro,
você está no outro.

Ela tem olhos verdes. Ela tem olhos verdes.
Ela também tem olhos verdes.
O amor brota cedo demais.
O deserto também é uma mentira.

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Imaginemos que sei guiar e que as estradas levam apenas os conversíveis para as praias. Imaginemos que solitário dirijo com a certeza de quem tem um bom livro, de quem tem uma malta e um chapéu, e um violão e um casaco para noites frias, e uma paixão repleta de certezas. O vento amigo do rádio. A noite para descansar, as tardes para beber e olhar o mar. O carro é a casa. Os cigarros e o petróleo em paz com as crianças. Uma roda gigante iluminando a cama. Imaginemos o silêncio de uma janela aberta.


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As manhãs avançam nos romances
por baixo dos olhos inchados
inclinar a caneta para um verso
os teus passos cansados
os dedos de quem levanta e se alastra
tem o sorriso daninho e um mar de navios
sou a praia faminta, talvez seja o feitiço
não tinha o bilhete somente duas sacolas
e mais outro táxi para a casa que não conheço
o verde a perder de vista nos passos firmes
de uma sequência você o fim da sequência
encontrar e dobrar você na cama
ser sua medida exatamente esta paisagem
caberia numa caixa de pedras teus cílios afiados
minha dedicatória nos teus braços penujosos
minha carta é uma listagem de paisagens
seu caminho é a sequência é um catálogo
de pássaros os seus dedos correndo nos meus
braços sobre a cabeça das casas no 13º patamar
nos edifícios há uma vida que comunica-se
os dois não estão na cidade saíram
pelos ônibus insuspeitos que o filme
não resolveu levitam no parapeito
não mais na rua é a onda gigante
de um mar parado o tubarão sem fome
a música sem dono o estado repisado
como um quarto uma bandeira n'areia
a solidão fora dos cantos os homens
dizem que valem mais do que a vista
suponho todo o contrário viver a casa
espelhada em todos os litorais
um telefonema chuvoso o luar não
serve a mesa é o silêncio o ranger da viagem
é o mesmo ranger das estátuas na beira
do mar querem dizer mas não dizem nada

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Lucebert (1924 – 1994)


Lubertus Jacobus Swaanswijk, mais conhecido como Lucebert, foi um poeta e artista visual holandês, nascido em Amsterdã a 15 de setembro de 1924. Foi o poeta do grupo COBRA e é considerado o mais importante e influente poeta experimental do pós-guerra no país. Pertence à geração conhecida como De Vijftigers, algo como "os dos anos cinquenta", o que talvez no Brasil chamaríamos de Geração de 1950. Sua poesia foi reunida no volumGedichten 1948-1965, além de livros individuais. 




Figura lendária na cena cultural holandesa, alguns de seus versos são bastante populares, como seu "Alles van waarde is weerloos" ("Tudo de valor é vulnerável", do poema "O velhote fala"), que se transformaria em uma placa em neon por tempos no topo do prédio de uma companhia de seguros em Roterdã. Sua posição na poesia holandesa talvez esteja em algum ponto entre a de Augusto de Campos e a de Paulo Leminski na brasileira. Abaixo, uma versão, com a ajuda da inglesa, e seguindo o original holandês com meu conhecimento do alemão. Lucebert morreu a 10 de maio de 1994.

--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE LUCEBERT

eu desligo uma revolução
eu desligo uma pequena revolução deleitável
eu não sou mais da terra
eu sou de novo da água
eu carrego capacetes espumantes na cabeça
eu carrego fantasmas fotógrafos na cabeça
em minhas costas descansa uma sereia
em minhas costas descansa o vento
o vento e a sereia cantarolam
os capacetes espumantes sussurram
os fantasmas fotógrafos despencam

eu desligo uma pequena deleitável revolução revoluteante
e despenco e sussuro e cantarolo

:

ik draai een kleine revolutie af 
ik draai een kleine mooie revolutie af 
ik ben niet langer van land 
ik ben weer water 
ik draag schuimende koppen op mijn hoofd 
ik draag schietende schimmen in mijn hoofd 
op mijn rug rust een zeemeermin 
op mijn rug rust de wind 
de wind en de zeemeermin zingen 
de schuimende koppen ruisen 
de schietende schimmen vallen 

ik draai een kleine mooie ritselende revolutie af 
en ik val en ik ruis en ik zing


Lucebert, "O domador de animais" (pintura a óleo, 1959).

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Lu Menezes


Lu Menezes é uma poeta brasileira, nascida em São Luís do Maranhão em 1948. Mudou-se de vez para o Rio de Janeiro, depois de morar em Brasília, e no Rio vive e escreve desde então, começando a publicar seus poemas na década de 70. A estreia em livro viria com O amor é tão esguio (1980). Está entre os mais discretos poetas contemporâneos do país. O segundo livro viria apenas na década de 90, com Abre-te, Rosebud! (1996). Foi com uma resenha deste livro que descobri o trabalho de Menezes, fazendo dela um dos primeiros autores contemporâneos que li ainda jovem. Ainda que contemporânea de poetas como Francisco Alvim e Ana Cristina Cesar, sua aversão à vida dita literária e a grupos, assim como a discrição e simplicidade de seu livro de estreia, fizeram com que seu trabalho só recebesse maior atenção na década de 90. Outros quinze anos se passariam até a publicação do seu terceiro e mais recente volume, o belo Onde o céu descasca (2011), que comprova sua singularidade dentro da poesia contemporânea brasileira. A sua é uma poesia logopaica, uma textualidade que segue a música do pensamento. É cosa mentale, mas escandida no tempo, sonoramente. Percebe-se seu apreço por Wallace Stevens, que como ela escreveu sobre um mundo que apenas através da linguagem pode ser percebido, apreendido, fazendo com que mundo e linguagem imiscuam-se, tornem-se inseparáveis. Neste aspecto, sua poesia pode ser conectada a de outra mulher, a paulista Orides Fontela (1940-1998), ou ainda à da norte-americana Laura Riding (1901-1991).

O mundo contemplado, observado, mostra-se em máscaras de linguagem, memória e percepção sensorial - mas sem fronteiras claras entre elas. Em poesia desta natureza, a própria linguagem se torna o sexto sentido. Há uma consciência histórica ainda, que age de forma sutil, mostrando como o passado volta não apenas para latir em nossas consciências, mas para mordê-las. Os poemas exigem leitura lenta e atenta. Seu ritmo não quer fluir sem resistência, mas empedregar na língua. Suas observações podem parecer impassíveis, mas há uma calma não de resignação, e sim de compreensão.

Basta uma papel de parede descascando, em que se vê um céu artificial, ou uma foto de picos nevados vista em pleno verão do Rio de Janeiro para lançar a autora em uma meditação sobre a realidade, através do contraste entre a percepção da visão sobre uma imagem reproduzida e a percepção do tato e da audição da realidade em redor. Destes choques conflitantes entre os sentidos, surge sua cosa mentale.

Abaixo, apresentamos uma pequena seleção de seus poemas, desde textos da década de 70 a inéditos em livro publicados pela primeira vez no quarto número impresso da Modo de Usar & Co. Com poucos poemas disponíveis na Rede, alegra-nos poder apresentar aqui esta seleção.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE LU MENEZES

DUAS CORES TINHA O GLOBO 26/09/76

MÁXIMO BRANCO
dos besourinhos miudinhos
que vieram da África pro Rio em navios
transportando cereais

e invadiram primeiro
“a orla marítima com preferência
pelos prédios de cor branca”



MÍNIMO VERMELHO
de quando o avião

sobrevoava a aldeia
e lá de cima o seu irmão

viu todos os índios
parados e nus

mas ela acenando vestida
com o mesmo vestido vermelho

“um pouco abaixo do joelho”

que usava no dia do rapto
dez anos antes


§
                                                                               
LÍNGUA

Lama seca estala sob os pés
de um povo do deserto que fala
uma língua que estala

Afina-se
alvíssima areia assoviando
finíssimo
a cada passo
nosso
seu som de seda

Aquém
de humana fala,
desde bem longe
língua também
sola do pé é

§

ESTIRPE

Índios americanos
sempre souberam:
da assimétrica junção
de uma mulher e um cão

certainly de caça ao deleite,
que a cada ereção dos seus descendentes
dentes em riste persiste e promete
apócrifo céu suculento —

o primeiro homem nasceu

Respingos dele — respingos
me irrigam

E não sei por que
com tão vasta sede
deserto tamanho cultivo

“Não sei por que
gosto tanto de areia”, ele disse
com voz onde água escondida

Não sei por que gosto tanto
de qualquer coisa que ele diga

§

TINTA DO CÉU

Toda vez que um senhor feudal
disfarçando a blasfêmia a pedido da Igreja
bradava Par le sang bleu! em lugar
de Par le sang de Dieu!

nos ouvidos dos servos
o Verbo
cor se fazia,
tingia-se de azul o sangue senhoril

Atrás
do biombo bleu, divino desde o mais
remoto alvorecer, o azul, sangue de Deus,
em sangue nobre assim se converteu

Plebeu ou nobre, bastardo
no isopor de uma embalagem de ovos,
legítimo 
em toda espécie de flor,
toda sorte de azul
do céu descende

Nômade, artesão da Distância,
diluidor de montanhas
ou sedentário, ilhado nos olhos de um pescador,
com seu frescor a tiracolo, o azul — globetrotter mor—
errando aquém dos ares
em lagos, mares, rios da Terra e do sangue,
tinta do céu é ainda

§

NEVES DE VERÃO
(NEVE SOBRE PAPEL)

“Et je connais la neige,
Autant que ma chair même
Son froment me protège
Contre les chairs que j’aime”
J. Laforgue


Na loja quente da cidade quente
atrás
de uma xerox acionada
por suadíssimo rapaz,

verás
parede que copia o frio,
cheia de chalés suiços
em chão 
de neve sobre papel

Neve de calendário no Brasil
que além de sorvete
de coco ao céu
    da boca de quem resfria o olhar...

a própria Distância promete
a quem a mira e cobiça
morrer, 
cobrir-se com ela
como galhos, pedras, telhados

§

DISTÂNCIAS INCOMENSURÁVEIS II

Grã-estrelas quebradiças
esfarelam-se na noite armazenária 
de um céu com dobradiças

Muito e pouco
distam das estrelas
e da lua terra-a-terra de strass
que sobre a mesa de um camelô o sol mela

“A BBC sonhava com tudo o que eu — mas eu
só comigo sonhava!” gritou o Sousa pelo oniaudiente
megafone estrelado instalado em sua mente

Pela TV se vê
que para atrair os índios, um espelho
foi deixado brilhando no matagal

Mas quem afasta
verdes feixes de elétrons
e penetra
no vibrante capinzal distante

— sou eu —

índio trânsfuga que acha
a trânsfuga estrela no chão

§

MASSA ESTELAR

Após questão condominial envolvendo
— vizinhazinha — versão subjetiva
 da estreiteza objetiva do encanamento predial,

atira-se exausta no sofá
e na TV 
o Cosmo vem revelar
em seu brilhante semblante
sombria faceta algo familiar:

“estrelas da morte” — superstars
dotadas de buracos negros que as devoram
até a explosão fatal
com emissão de raios gama
num raio de não sei mais qual astronômica distância
esterilizando sua inteira vizinhança estelar

— Ora, se não somos mesmo
“feitos de massa estelar” — ela considera
— Ora, se nesta vida
contraída por solidão, medo, rotina,
mais e mais não se repete
a visita germicida do universo em expansão
quando em tal canal aporto apertando este botão

(Logo, plagas do sono
— multiforme nebulosa, vizinhança bem diversa
igualmente longe e perto —
acolhem com sonhos opacos o seu eterno regresso)

§

TSUNAMI E VIZINHANÇA

Então, a mulher e a criança
seguiram uma serpente que nadou para terra firme
e conseguiram se salvar

A mulher 
era só certa vizinha a quem a mãe, antes de morrer
confiara a criança

A serpente terá sido, 
de repente, uma espécie de vizinha também
Vizinha de outra espécie

§

NEWTON E O NATAL

Na foto só aparece
um arco-íris sobre a casa
onde Newton nasceu no dia de Natal

Mas a gente o imagina lá dentro com o prisma
fazendo um raio de sol dar à luz
no quarto escuro seu próprio arco-íris

A foto é bonita como um presente de Natal
que se pudesse vida afora ganhar e desembrulhar

§

MANHÃ DE PRATA

Manhã nublada, a caminho da praia
passa-se pelo cemitério
— praia —
banhada de cruzes

Pulando
de túmulo em túmulo, escalam o céu
meninos empinando
pipas que chamadas “papagaios”
mais bonitas ficam

Alcançada a praia-praia
entre vívidos corpos nos banha a estranha
luz de Juízo Final que lá se ensaia

— Imagina
quantos íntimos ritos de autoanistia,
quantos instantâneos
autobatismos não se veriam

caso algum novo tipo de raio ou
propriedade fotocrômica da prata
nos franqueasse 
contemplar mentes ao mar

§

MONUMENTO NA NÉVOA

Deste sofá, basta em geral erguer os olhos para achar
a estátua magnânima no alto
da floresta magnífica

Hoje, porém, quem olhar para cima
nem sombra do Filho de Deus verá; um turista extraterrestre
duvidará da sua presença lá
como alguns humanos duvidaram já da existência do mar
e outros apostam ainda que na Lua não pisamos

Enquanto nos descortina
a China no Rio de Janeiro, o nevoeiro
talvez omita
em algum Guia Instantâneo para Marcianos
a existência do Cristo de concreto...
invisibilizado tão perfeitamente que suspende
minha descrença de rotina

O corpo vivo, a carne do Redentor
terá nascido de raro tipo de poder-de-esconder
análogo (no mínimo) à névoa que no momento,
além do seu monumento, envolve
um trio espremido neste sofá para dois
— o marciano, eu, você

§

RIO CONGELADO

Raro Rio frio: 
em manhã marinha do Leblon
na esquina da Delfim com Rainha Guilhermina
beleza do Real — ferina — urdida em azul onipresente
violado por bandeiras de alerta vermelhas, amendoeiras tremeluzentes...
latões de lixo laranja, passantes, velas ao longe
e — sim — um perfeito senão: 
este cão
preto com pata
engessada — quebrada? torcida? Cão manco
em preto e branco no coração da realidade hipercolorida
Tudo tão vívido engendrado pelo DJ do Acaso
que nenhum disco de Newton 
jamais irá girar e gerar
saldo amnésico
síntese cinza

§

UM RIO CHINÊS

Nessa baía
tantas baleias evoluíam que um belo dia
ao pé do Morro da Urca, ampla matança tornou de vez
Praia Vermelha a areia

Nessa baía que a pele repele
a gente hoje só se banha
em teoria:
só os olhos
no azul se molham
e encharcados de telescopia
a linha do bondinho puxam até a China —

até penedos verde-jade primos do azulíneo
Pão de Açúcar daqui — antes batizado Pote de Manteiga
no café da manhã de gigante
do viajante Léry

Primos chineses
próximos-distantes
também da altibaixa
sinfonia do “mar de morros”
em Minas — China de cá —
que em meio a névoa e melancolia
o pincel de Guignard soube orquestrar

§

LUZES AO LONGE
(ABRIL DE 2003)

Agora, é como se desse pedaço de vidro negro
com que pintores monocromatizam reduzindo
a tons, só tons a paisagem
(“vidro de Claude”)
vasta mortalha derivasse, nuvem íntima
da tinta que o polvo-mor tanto aspira,
petróleo

derramado sobre as 1001 cores de Bagdá
respingando
o Rio
da vida inteira quando na fila dos alvos de cá
sua vez
chegar enegrecendo o Corcovado verde-jade
enegrecendo
palmeiras e azulejos do passado árabe-português
enegrecendo
o Pão de Açúcar — sonho celeste chinês,

de tal maneira que não possas mais
preferir ver ao anoitecer
“noite, esperança e pedraria” através
do amado verso de Mallarmé
(teu vidro de Mallarmé)
porque
só em tempo de paz
segregam esperança as reentrâncias da pedraria;
só em tempo de paz
luzes ao longe — algum remoto bem
anunciam mesmo a quem o desespero tangencia

§

BRILHO DE ALMAS

Alma, obsoleta
medida demográfica vigente
nas povoações brasileiras de outrora.

Hoje sobrevivente
quando anoitece, quando se acendem
as lâmpadas das casas
e reanimam-se as cidadezinhas
repovoadas
de almas que luzem ao longe — ao largo da estrada.

Não luzem
na mondrianesca quadriculescência da urbe,
no boogie-woogie noturno tão belo da urbe
ou em qualquer refulgente
favela nela incrustada.

Gente demais
apaga a lâmpada da alma
— ela ao redor
requer
vazio que reacenda
a sua aura — elétrica na era
da reprodutibilidade eletrônica.

Chama para a qual
é clara condição
a solidão
chama-se alma.

§

COMPASSO-CORPO

Como o compasso-corpo de um camelô que na praça
traça círculos de carne em torno de si,

ou curva tesoura
para poda curvilínea de jardim japonês

é e não
da ordem do Corpo

esse Midas fugaz que em nós
mesmos nos muda

Um modo
de estar no instante o propicia

Um uno e elástico
modo que ao milímodo mundo se alia

§

COMO CASA JAPONESA

— Alma —
como casa japonesa
leve sejas

Possa em volta de ti
— a cada instante, a cada gesto —
haver
não falta ingrata, mas vazio tutelar
com valor similar
àquele ao redor
das coisas no país
“do sol nascente”

Possa em volta de ti
properar
como sol nascente
o vazio
como elogio
ao puro ato
de estar no espaço,
ser, existir, respirar

E corpo — quem me dera —
alimentando o esprit de finesse de um gastrônomo esguio
nutrisses tal vazio;
quem me dera em alta — a alma — assim mantivesses

§

O QUE SE JUNTA À GEMA
(A Aníbal Cristobo)

Se quando se frita um ovo
o que se junta à gema — além de sal —
é pensamento,

pode-se então tudo juntar, juntar até
a lembrança de outra gema

descoberta
por um teleaventureiro
munido de savoir faire irrestrito

ou bom farsante dublê
de guia intrépido do inóspito, mas
who cares?

Gema de ovo de corvo
em alto penedo disposto
e alcançado
a duras penas...

Tanto que após fritá-lo
sobre nua pedra quente no deserto do Colorado,
este homem confessou ter ingerido
“mesmo sem sal”
o ovo
mais delicioso da sua vida
— o qual
de metáfora nos sirva
sabendo, decerto, a sal do deserto,
sal do difícil
— íntimo, pessoalíssimo —

§

ESCAFANDRO PARA NARCISO

No século das luzes, assombrou um luminar da razão
que até no fundo do oceano, “onde o olho humano
raramente chega”,
chegasse a beleza
Hoje
com nosso olhar extra-humano
em troncos rochas seixos nuvens,
em vasos sanguíneos
mergulhando
fundo
— tão fundo que via mapas
de Sherazades-geômetras
chegamos
ao âmago, aos mananciais
de arabescos fractais —
hoje mais
que a própria
serpenteante
beleza recém-nascida
(proliferando sob medida
de transbordante em transbordante
represa incontida)
intriga é que ela ostente
a cada autossemelhante
salto da sua
correnteza de surpresas,
essa razão
inesgotável, uma razão
obsessiva
como se
não de um século, e sim
de todos, de tudo
do“duro cerne da beleza”
jorrassem já as luzes

§

UMA NOVA BELEZA
(A Pedro Meirelles)

Compreende-se por que
depois de conhecer a “magnífica desolação” da Lua
o astronauta nunca mais se queixou
do tempo que faz

Descoberta a beleza sideral da Terra através
do espelho lunar — oxalá nosso futuro
não apareça nessa arquiadmirada
bola de cristal — de perto, empoeirada
sem cheiro, sem atmosfera, sem nada além de crateras

Quando o dedo da moça do tempo na TV
roça a face azul da Terra apontando lugares
e a música do tempo toca enquanto se sabe
que o planeta terá frentes frias e quentes
canícula neve tufões tempestades...

e na vasta colcha mutante são emendados
os céus de rosas os céus nublados
o sol brilhando as nuvens pingando sobre grandes cidades
— Londres Lisboa Tóquio Los Angeles...
Rio de Janeiro Madri Istambul Buenos Aires

— tudo junto gera
sensação estranha — lágrima impessoal climática
que rola pelo ser afora
como as profecias da meteorologia contornando
a bola de sonho em que dia após dia acordamos

§

FELLINI E A AURA RUANTE

O pavão abrindo o leque
se chama “ruante”

 É como toma
a tela inteira de Amarcord
transbordando
 em lento-imenso instante

Eu queria agora
um poema assim

Semelhante 
àquele navio esplendoroso 
irrompendo 
como um sonho inebriante   
  
 ― um navio ruante ―
                                                                       
Um poema assim
 eu queria agora 

(só com meia mea culpa se meio ruim) 

§

SURSIS
(com c. Veloso) 

Brasil do triste extravio 
No Rio de dezembro de 1973 
o avesso da neve ressoa em inglês 
in the hot sun of a Christmas day 

Calçando meias de led fosforescentes 
alheias ao ranger das botas 
palmeiras 
são como sempre 
inocentes 

Cúmplices da maresia 
aromas 
de marijuana e patchouli 
o Natal não policia 
L’air du temps tem seu sursis

§

FLASH FORWARD 
(com B. dylan) 

Knocking on heaven’s door 
knock knock knockin’ 
aos trinta aos sessenta aos cem 

alguém se cansa 
outra sorte de desejo 
bate forte em sua porta 

o desejo de outra sorte 
sem Terra sem céu 
sem estrela nenhuma à vista 

Nada além do puro Nada 
- esse horizonte - 
de perfeição inaudita

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Miron Białoszewski (1922 – 1983)



Miron Białoszewski foi um poeta e prosador polonês, nascido em Varsóvia a 30 de junho de 1922. Um de seus trabalhos mais conhecidos é seu livro de memórias sobre o Levante de Varsóvia contra os nazistas, Pamiętnik z powstania warszawskiego (1970). Escreveu poesia, prosa e teatro. Homossexual declarado, viveu com o pintor Leszek Soliński, tendo vários problemas com as autoridades do regima comunista. Miron Białoszewski morreu em decorrência de um ataque cardíaco, em Varsóvia, a 17 de junho de 1983. Os poemas abaixo são versões a partir das traduções para o inglês, feitas por Czesław Miłosz.

--- Ricardo Domeneck

§

E mesmo, mesmo que levem o fogão
Minha ode inesgotável à alegria

Eu tenho um fogão
parecido com um arco do triunfo!

Estão levando embora meu fogão
parecido com um arco do triunfo!!

Devolvam meu fogão
parecido com um arco do triunfo!!!

Eles o levaram embora.

O que resta é um buraco
nu e
cinza.
Buraco nu e cinza.

E isso me basta.
Buraco nu e cinza.
Buraco nu e cinza.
Buraconuecinza.

§

Autorretrato tal qual sentido

Eles me encaram
então é provável que tenha uma cara.
De todas as caras que conheço,
é a de que menos me lembro, mesmo.

É frequente que minhas mãos
vivam de mim em completa separação. 
Deveria então contá-las como minhas?
Onde está o que me limita?
Há um matagal em mim
de movimentos e meia-vida.

Porém sempre formiga-me
adentro a existência
cheia ou meio-cheia.

Carrego por mim mesmo
um lugar que chamo de meu.
Quando eu o perco,
isso quer dizer que eu não sou.

Eu não sou,
então não o descreio.

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