sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Poema inédito de Rubens Akira Kuana

Hoje, na série de inéditos, um poema de Rubens Akira Kuana.

Tratado da Consolação

O capricho
pelo extermínio
das fronteiras
é apenas
passageiro.
Nem mesmo
o almanaque
Abril conta
todas as rezas
e santinhos
eleitorais.
A nova muralha
da China é uma
hidrelétrica
e o Ministro
da Pesca faz
o símbolo da
paz. Disfarça.
Ventila. Quando
catástrofes maiores
nos atingirem
estaremos a bordo
da arca matriarcal.
Junto ao resto
dos índios
tamanduás
e orelhões
assistindo
a qualquer
estoque
de soja
transformar-se
em mausoléu. Ar
queologia. Onde
está nosso Dia
de Princesa?
Nossa bolsa
imigração?
Miami é uma
concubina & quem
serve também
sorve. Cabeças
tanto rolam
quanto provam:
eu poderia comer
dinheiro agora
com os olhos
vendados. As
mãos amarradas
aos pés. Seus
pés. Um
balde cheio
de gelo cai
sobre nossas
costas corais.
A partir
dos polos
os peixes
repovoam
o planeta.
Você, afinal
é o mágico
que sempre
quis ser.

§


§

sobre o autor





Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina, em 1992. Traduziu poetas contemporâenos de língua inglesa como Sophie RobinsonLonely ChristopherAriana Reines e Alex Dimitrov, entre outros. Estreou com o livro Digestão (2014), publicado através da LUMA Foundation e 89plus - associados a UbuWeb (ubu.com) - na exibição "Poetry will be made by all!", aberta no Centro de Arte Contemporânea Löwenbräukunst, em Zurique, Suíça. Sob curadoria e assessoria de Simon Castets, Hans Ulrich Obrist, Kenneth Goldsmith e Danny Snelson. O livro está disponível para download gratuito:

http://poetrywillbemadebyall.ch/book/digestao/

Foi publicado na Modo de Usar & Co. impressa e no Suplemento Pernambuco. Publica suas traduções e poemas no espaço pessoal AkIraRubens Akira Kuana vive e trabalha em Budapeste, na Hungria.

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quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

Poema inédito de Laura Erber

Na série de inéditos, um texto de Laura Erber, de um livro em andamento.




Um homem fala do que não fica

um homem fala do que não fica do que não volta do que
                 [se alastra do interior
um homem faz o círculo e erra
um homem constrói uma canoa e some
um homem seus adendos suas carícias
um homem as pálpebras se abrindo
um homem talvez eremita talvez desmaie
um homem na proa velho cisne magoado
um homem loa após loa recobrando a antiga fé
um homem de mansinho
um homem príncipe do azar
um homem em certos momentos
um homem apenas isso
um homem que finge que dorme
um homem atrevido cauteloso mas atrevido
um homem regateia
um homem desce à Terra
um homem em dúvida
um homem e depois
um homem letárgico
um homem doce contrariado
um homem embaralha as cartas
um homem sem estrondo sem cartilha
um homem um pouco de febre
um homem matemática lenta
um homem o contrário do destino
um homem para uma viagem só
um homem cheio de tralhas
um homem no capinzal
um homem se afasta
um homem coloca mayonnaise em tudo
um homem vive com um cão dentro de um buraco
                 [dentro de um túnel
um homem vagamente um homem que conheci um dia
um homem mata se mata não morre se aborrece morre
um homem por intermédio
um homem solto no espaço
um homem o que fez o azar com a sua vida
um homem espirra de um jeito
um homem se quiser deixar uma mensagem
um homem de volta
um homem apara o bigode e sangra
um homem vende biscoitos amanteigados demais
um homem em grupo
um homem urso
um homem sem fim
um homem como havia sido
um homem conversível
um homem de costas
um homem tão só
um homem brinca como um gato brinca com um rato
um homem frio fundo falso
um abominável homem das neves
um homem sino rachado
um homem uma vida inteira
um homem entornado
um homem doce cristalizado
um homem Segundo Império
um homem quieto
um homem das cavernas pintadas
um homem perdido no labirinto de promessas diferidas
um homem sua outra vida com outros homens
um homem seus remorsos seus pruridos seu Trabant
                 [azul cobalto
um homem brando viaja como um bárbaro não sei ler
                 [a dor em seus olhos
um homem circulando no meu corpo
um homem apesar de tudo
um homem basta
um homem recebe apaga
de vez em quando
respira comigo

§

sobre a autora

Laura Erber é uma poeta, romancista e artista visual brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 1979. Publicou as coletâneas de poemas Insones (2002), Celia Misteriosa (2007) - em parceria com Federico Nicolao e Koo Jeong, Os corpos e os dias (2008) - publicado originalmente em edição bilíngue português/alemão como Körper und tage (Merz-Solitude, 2006), em tradução de Timo Berger; Vazados & Molambos (2008) e bénédicte vê o mar (Editora da casa, 2011), além do romance Esquilos de Pavlov (2013). Laura Erber vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Marcello Sahea - "onde?" (2014)


Marcello Sahea - "onde?" (2014)

digital video, 2'55"
2014
Poema visual: Marcello Sahea
Voz: Marcello Sahea & Mariana Collares (melodia inspirada em canto kaiowá)
Direção de arte, Edição e Mixagem: Marcello Sahea
____________________Veneno Design

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segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Poema inédito de Ederval Fernandes

Na série de inéditos da Modo de Usar & Co., um poema de Ederval Fernandes.



Da minha boca

a vertigem
do dia são estas
horas:

luz e fogo
levando
embora a noite
calma.

um nada
no nada,
meu adágio
sai e segue.

e um deus (morto)
bebe um café
comigo.

 *

“perigo”,
ele me diz,
“não sou eu,
amigo,
o infeliz
que te trouxe
ao veneno”.

eu sei, eu
digo,
desde pequeno

(cravado
no umbigo)
trago comigo

este jogo
de ases.

e não
vou, eu sei,
fazer
as pazes:

se as fiz,
eu falhei.

 *

do som,
quero a canção;
da mão

(é verdade),
quero e não sei
a liberdade.

não da forma
oca - o veneno
é da boca.

se a língua
portuguesa
é pouca,

isto não é
problema?

não aqui,
assim,
no meu poema.

§

sobre o autor

Ederval Fernandes é um poeta brasileiro, nascido em Feira de Santana, Bahia, em 1985. Seu livro Conta Corrente, sua primeira coletânea de poemas, será lançado pela editora Sarò no começo de 2015. Ederval Fernandes vive e trabalha em Feira de Santana.

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domingo, 26 de Outubro de 2014

Canto Mbyá Guarani - "A terra que se abre como flor"

Neste domingo, 26 de outubro de 2014, este canto dos Mbyá-Guarani, em tradução de Douglas Diegues e Guillermo Sequera.

Menino guarani em foto de Carlos Penteado


A terra que se abre como flor

Vamos nessa vamos partir dessa terra
Vamos nos mandar
Para que os filhos desta terra
Terra de sofrimentos
Os poucos Mbyá que sobrem sobre ela
Fiquem numa boa.
Eles dirão:
Ficamos numa boa.
Estamos numa boa.
A terra se abre como flor.
Todos podem ver
Nossa pequena família numa boa.
Alimentos brotam por encantamento para nossas bocas.
Queremos
Encher a terra de vida
Nós os poucos (Mbyá) que sobramos
Nossos netos todos
Os adandonados todos
Queremos que todos vejam
Como a terra se abre como flor.

§

tradução de Douglas Diegues e Guillermo Sequera, in Cantos ameríndios (Rio de Janeiro: Azougue, 2012).











quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Alva Noto feat. Anne-James Chaton - "uni acronym"

Nestes últimos dias, soam umas vozes muito altas, vindo de duas campanhas, mas a única coisa que dá para entender do que falam é isso:


"uni acronym" (2011), poema verbivocovisual
- colaboração entre Alva Noto e o poeta sonoro francês Anne-James Chaton



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quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

A tradição poética basca conhecida como Bertsolaritza




Bertsolaritza é uma tradição poética oral do povo basco. Canção ou também desafio entre poetas orais, chamados bertsolaris, a tradição se assemelha ao repente brasileiro. Extremamente popular no País Basco, demonstra a saúde contemporânea da tradição oral e da poesia em geral em tantas partes do mundo.

Uma das formas mais comuns é o zortziko txiki, ou "pequeno de oito", com a primeira linha formada por oito sílabas, seguida de uma linha de sete sílabas. Este par de linhas ou versos é chamado de puntu, quatro deles formando uma estrofe. Outro, o zortziko handi ou "grande de oito", é formado por pares de 10 e 8 sílabas. Um dos mais conhecidos e um dos primeiros registrados foi Pernando Amezketarra (1764 - 1823). Outro bertsolari famoso foi Jose Manuel Lujanbio Retegi (1860 - 1936), conhecido como Txirrita.

Txirrita (1860 - 1936)

Um conhecido bertsolari contemporâneo, surgido nos anos 90, é Andoni Egaña (n. 1961). Por muitos anos uma tradição masculina, no novo século passou a ser praticada também por mulheres, uma das mais famosas sendo Maialen Lujanbio, a primeira a ganhar uma competição.

Maialen Lujanbio (n. 1976)

Os bertsos podem tanto ser satíricos, eróticos como políticos, como foi o caso da série conhecida como "Muñagorriren bertsoak", ou "Bertsos de Muñagorri", lançada pela facção de José Antonio Muñagorri em 1838, durante a Primeira Guerra Carlista, numa tentativa de terminar o conflito.

Encontrei este exemplo, a primeira estrofe do bertso "Aitorren Izkuntz Zarra", do bertsolari Z. Andonegi:

Aitorren izkuntz zarra
nai degu zabaldu
munduaren aurrean
gizonki azaldu
baldin gure zainetan
odolik badegu
euskaldunak euskeraz
itz egin bear degu.

Uma tradução livre seria (com auxílio da tradução para o inglês):

Velha língua de Aitor
queremos espalhar
perante o mundo todo
corajosos a cantar
enquanto nossas veias
sangue possuírem
nós bascos em basco
hemos de falar

(N.: Aitor é o mítico patriarca dos bascos)

Após ganhar a competição em 2009, Maialen Lujanbio cantou esta Txapeldunaren Agurra, ou "Despedida do Vencedor", que escolhemos para encerrar.



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