terça-feira, 26 de abril de 2016

Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916)



Mário de Sá-Carneiro foi um dos maiores escritores portugueses do início do século XX, nascido em Lisboa a 19 de maio de 1890. Amigo de Fernando Pessoa, forma com ele e Almada Negreiros a tríade principal do Grupo d'Orpheu, a revista que, com apenas dois números em 1915, iniciou o Modernismo em Portugal.

Publicou, em prosa, os livros Princípio (1912) e A Confissão de Lúcio (1914), assim como o volume de poemas Dispersão (1914). Seus trabalhos mais importantes seriam publicados 20 anos após seu suicídio em Paris, aos 25 anos, no volume Indícios de Oiro (1937).

Com nossa sensibilidade modernista formada pelo nosso Grupo de 22, talvez nos pareça difícil notar a modernidade de Mário de Sá-Carneiro, modernidade singular que o liga a contemporâneos seus como o brasileiro Pedro Kilkerry (1885-1917), o norte-americano T.S. Eliot (1888-1965) ou o russo Óssip Mandelshtam (1891-1938), que se educaram nas melhores lições do Simbolismo.

Hoje, centenário do suicídio de Mário de Sá-Carneiro em Paris, a 26 de abril de 1916, rendemos a ele esta pequena homenagem.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

§

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

§

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

§

Rodopio

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...

§

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.

§


Ângulo

Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar oco de certezas mortas? —
Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter construído...

 — Barcaças dos meus ímpetos tigrados,
Que oceano vos dormiram de Segredo?
Partiste-vos, transportes encantados,
De embate, em alma ao roxo, a que rochedo?...

Ó nau de festa, ó ruiva de aventura
Onde, em Champanhe, a minha ânsia ia,
Quebraste-vos também, ou porventura,
Fundeaste a Oiro em portos de alquimia?...

.....................................................................

Chegaram à baia os galeões
Com as sete Princesas que morreram.
Regatas de luar não se correram...
As bandeiras velaram-se, orações...

Detive-me na ponte, debruçado.
Mas a ponte era falsa — e derradeira.
Segui no cais. O cais era abaulado,
Cais fingido sem mar à sua beira...

 — Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes
Que um outro, só metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes —
Um outro que eu não posso acorrentar...

§

Sete canções de declínio

1.

Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto d'Astro -
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real - livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada -
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada. . .


2.

Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
- Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida.

Desfiles, danças - embora
Mal sejam uma ilusão.
- Cenários de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
- Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante -
O amante sem amante,
Ora amado ora traído...

Lançar as barcas ao Mar -
De névoa, em rumo de incerto...
- Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

...E as minhas unhas polidas -
Ideia de olhos pintados. . .
Meus sentidos maquilados :
A tintas desconhecidas...

Mistério duma incerteza
Que nunca se há-de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza...

- Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida:
Escada de Giro descida
Aos pinotes, quatro a quatro!...


3.

- Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras:
Só as Cores são verdadeiras -
Siga sempre o festival!

Quermesse - eia! - e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
Defronte do carroussel,
Eu, em ternura esquecido...

Fitas de cor, vozearia -
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs - os meus afectos
Com librés de fantasia!

Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

- Afectos... divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena - decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.


4.

As grandes Horas! - vivê-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime -
Sacrifícios são novelas.

«Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto»...
- Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome:
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam - dominem
Sua sorte em suas mãos:
- Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é d'Astro!
Luto - embora! - o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há-de ser!. . .


5.

Vaga lenda facetada:
A imprevisto e miragens
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada. . .

Um baile russo a mil cores,
Um Domingo de Paris -
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores...

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram -
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram...

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda. . .
Saudade que não recorda -
Bola de tennis no ar...

Um leque que se rasgou -
Anel perdido no parque -
Lenço que acenou no embarque
D'Aquela que não voltou...

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços, à beira-mar,
Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória
Num expresso de wagons-leitos -
Balão aceso - defeitos
De instalação provisória. . .

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes -
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita...

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-há -
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole...

Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Linotyp' do «Matin»...

Manchette de sensação
Transmitida a todo o mundo -
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revol'ção...

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo - cheio
De carimbos, lado a lado...

Nobre ponte citadina
De intranquila capital -
A humidade outonal
Duma manhã de neblina...

Uma bebida gelada -
Presentes todos os dias...
Champanhe em taças esguias
Ou água ao sol entornada...

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios -
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida -

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
- A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande...


6.

Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida. . .

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na ideia dum país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem...

Parou ali a barca - e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... - ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo...

... Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguecida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor de rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças d'honra libertas sobre o mar-
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos - carícias de âmbar flutuando...

Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as Catedrais -
Sobre a cidade, a luz - esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho - solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...

Exílio branco - a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos - seu brou-u-há...
E na Praça mais larga, em frágil cera,
Eu - a estátua «que nunca tombará»...


7.

Meu alvoroço d'oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
- Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a posso ir apanhar!


          (Paris - julho e agosto 1915)


.
.
.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

22 de abril de 1500 - 22 de abril de 2016

516 anos de quê?

"Tupy or not tupy that is the question."

Oswald de Andrade, Manifesto antropófago (1928)

§

Yawa shõka – canto do povo Marubo para atrair porcos do mato 

Cantado por Antonio Brasil Marubo
Traduzido por Pedro Cesarino


        Shoo shoo shoo

São mesmo as primeiras
    Wano, as mulheres da terra
Na relva da terra
         Shoma sentada está
Shoma, de poder-calma
         A Shoma ali sentada
         Caldo de tabaco-calma
         Do caldo bebe
         A Shoma ali sentada
Caldo de tabaco-calma
         Seu poderoso vento-calma
         Shoma vento sopra

:

Shoo shoo shoo

Avi ato pariki
Mai wano shavovoã
Mai shosho karẽsho
Seteai shomara
Shoma rawe isĩyai
Seteai shomara
Rawe rome eneki
Ene yaniawai
Seteai shomara
Rawe rome ene
Rawe rome weyai
Seteai shomara

§


Murilo Mendes - "Os Índios", in Poliedro (1972).

§

O Canto da Castanheira do Povo Araweté
cantado por Kãñïpaye-ro Araweté
Tradução de Eduardo Viveiros de Castro
retrabalhada por Antônio Risério

Nai dai dai
Por que você empluma a grande castanheira?
Por que os Maï emplumam a grande castanheira, Modidaro?
Por que os Maï solteiros emplumam a face da castanheira?
Eis aqui os Maï, Ararinhano, emplumando a face da castanheira,
Eis aqui os Maï, emplumando a grande castanheira.
Nai dai dai.

Kadïne-kãñï
Aqui aqui os Maï, emplumando a face da castanheira
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a grande castanheira?
Aqui aqui os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a face da castanheira, aqui aqui os Maï.
Porque quer sua filha, diz Maï – Kadïne-kãñï – que empluma a grande castanheira.
Foi o que disse Maï – Kadïne-kãñï – ninguém comeu, disse Maï.
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – falando em emplumar a grande castanheira?
Veja aqui os Maï, Modidaro, emplumando a face da castanheira.

Alumia meu charuto caído, disse Maï.
Veja aqui os Maï, Ararinhano, emplumando a face da castanheira.
Aqui aqui os Maï, emplumando a grande castanheira.
Disseram entre si os Maï – Kadïne-kãñï – vamos emplumar a castanheira.
Porque querem nossa filha, os Maï emplumam a grande castanheira.
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a grande castanheira.
Kadïne-kãñï

Nai dai dai
Por que você empluma na manhã a face da castanheira?
Por que você empluma a face da castanheira?
Por querer nossa filha, disse Maï a si mesmo, Ararinhano.
Por que ficam assim os Maï, errando flechas nos grandes tucanos?
Por vocês emplumam a face da castanheira, Maï?
Vamos, passe sua filha para cá, disse Maï.
Por você se emplumam as castanheiras – nai dai dai – ninguém me deu de comer, disse Maï.
Por que os Maï solteiros emplumam assim a face da castanheira, Modidaro?
Por que os Maï emplumam assim a face da castanheira? Vou comer o finado Kãñïpaye-ro, disse Maï.
Assim Maï vai me levar, me cozinhar na panela de pedra.
Vamos comer seu finado pai, disseram e redisseram os Maï.
Vão me cozinhar na panela de pedra, disseram os Maï.
Mais uma vez vão me comer na avesso do céu, eles disseram.
Mande a menina, disse Maï – nai dai dai - flechar os grandes tucanos comigo, disse Maï.

Por que você passa urucum na face da castanheira?
Aqui aqui os Maï untando a face da castanheira.
Por que os Maï acendem assim a face da castanheira, Yoweído? Vamos, passe sua filha para cá.
Eeeh um comedor-de-pequenos-jabutis espantou as grandes cotingas, disseram os Maï – nai dai dai
Nossa futura comida afugentou as grandes juritis, disseram os Maï.
Plumagem das grandes cotingas, araras-canindé-eternas, disseram os Maï;
vamos, vamos flechar os grandes tucanos.

Eeeh, quanto àquilo de Maï pedir a filha, não precisava pedir.
Nada me foi oferecido, disse Maï, vamos, dê jabutis para mim, disse Maï.
Por que você empluma a face da castanheira?
Eeeh, nossa futura comida afugentou as grandes juritis.
Por que você empluma a grande icirií?
Por querer levar mulher para caçar, Maï empluma a face da castanheira.
Por que você passa urucum na face da grande icirií?
Por que Maï acaba com meu tabaco?
Nosso chão é cheiroso, disse Maï – nai dai dai –
assim que untar icirií, vamos nos perfumar um ao outro, disse Maï.
Por que os Maï emplumam a face da castanheira?
Nai dai dai.

:



§


André Vallias - "totem" (2014)

§
Canto sagrado da folha, do Povo Maxakali
Tradução de Charles Bicalho & Rafael Maxakali


hu yu yux
hu yu yux

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

hu yu yux
hu yu yux

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

hu yu yux
hu yu yux

:

hu yu yux
hu yu yux

mîxux teh înûn
îup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

hu yu yux
hu yu yux

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

hu yu yux
hu yu yux

Ilustração encontrada na tese de Charles Bicalho


§



Caetano Veloso - "Um índio" (ao vivo em 1982)

§

A terra que se abre como flor, canto dos Mbyá-Guarani
em tradução de Douglas Diegues e Guillermo Sequera.

Vamos nessa vamos partir dessa terra
Vamos nos mandar
Para que os filhos desta terra
Terra de sofrimentos
Os poucos Mbyá que sobrem sobre ela
Fiquem numa boa.
Eles dirão:
Ficamos numa boa.
Estamos numa boa.
A terra se abre como flor.
Todos podem ver
Nossa pequena família numa boa.
Alimentos brotam por encantamento para nossas bocas.
Queremos
Encher a terra de vida
Nós os poucos (Mbyá) que sobramos
Nossos netos todos
Os adandonados todos
Queremos que todos vejam
Como a terra se abre como flor.

(in Cantos ameríndios, Rio de Janeiro: Azougue, 2012).

 §


Veronica Stigger - Delírio de Damasco (2014).

§



Bell Dome (Ricardo Domeneck & Nelson Bell) - 
"Mantra contínuo com perturbações intermitentes" (2016)

§



As Hiper-Mulheres (2011), filme de Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette.


.
.
.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Poema inédito de Edimilson de Almeida Pereira

Na série de inéditos, poema de Edimilson de Almeida Pereira.






O ESTRANHO

1. O HOMEM ESTÁ SÓ DIANTE

de quem o protege. Não se acostumar
ao fogo
à fartura
é a lição primeira.

Contra a fome, os dentes
se levantam,
Mas pouco valem ante a promessa
rompida.
A dívida mais onerosa, a herança.
O corpo,
o pensamento,
os últimos cavalos da pradaria
– nada põe sentido na solidão.

Não habituar-se
a que isso seja uma regra
é a liberdade.

2. UM HOMEM VAI SEM A PERNA

como um navio que, abertos os porões,
aderna.
Sua gramática é esta.

De falta em falta a história se acumula.

Vão porque há quem os espere.
Âncoras.


§


.
.
.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Poema inédito de Miguel Martins

Na série de inéditos, poema do português Miguel Martins (n. 1969).




Naquele tempo, era costume chegarmos de madrugada
às grandes capitais do mundo, depois de varrermos países
e países de estradas secundárias com as nossas lanternas,
e anunciarmo-nos como quem veste a guerra e o amor,
fazendo soar os sinos dalgum pequeno campanário de algibeira,
normalmente defronte de um balcão feito cascata,
enquanto as nossas vozes vendiam ilusões bíblicas
às raparigas que olham para o tecto como se fosse o chão.

Era ainda demasiado cedo para que os sapatos se impusessem
entre os pés e a estrada; demasiado tarde, todavia,
para que lhes confessássemos os jardins onde sonháramos
imagens difusas, feitas apenas de cor e dispersão,
antes da ordem, muito antes do caos, a anos-luz da arte
e do abandono. Uma força imoral, uma urgência rara como todas
as urgências, decompunha espelhos sobre espelhos, encadeava
os dias e inventava a serpentina aparentemente interminável
a que se chama vida quando se tem ainda a dentição intacta.

Foi há muito tempo. Somos ridículos, hoje, quando evocamos
escaramuças ou risos, lábios fendidos ou beijados,
como se quinhentas vezes o nevoeiro não tivesse feito gritar
entretanto a sirene do nosso cabelo em recessão, como se
as nossas namoradas de Toledo ou Avinhão não se tivessem abortado
a si mesmas quinze vezes, e os anos, também a elas, não toldassem
os passos, como vómito até aos calcanhares. Resta-nos
a compostura de uma gravata nova, do cabelo aparado
até ao pavilhão auricular, e a talha dourada de uma partita de Bach
para enganar a flacidez da carne, como se a carne precisasse de nós
para sentir a deserção da água, a inominável deserção da água,
de todas as praias a que não voltaremos.

§


.
.
.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Daniel Santiago



Daniel Santiago é um artista brasileiro, nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 1939.  Viveu na Bahia entre 1962 e 1966, onde estudou xilogravura. Um dos pioneiros da arte postal e conceitual no Brasil, uma de suas peças mais conhecidas é "O Brasil É O Meu Abismo", performance sua com cartaz-texto de Jomard Muniz de Britto, que nos chegou pelo registro fotográfico de Paulo Bruscky, com quem o artista colaborou amplamente. 



Vídeo, performance, arte gráfica, Daniel Santiago é um dos maiores artistas brasileiros vivos. Alguns de seus trabalhos, produzidos durante a Ditadura Militar e a falsa "transição" democrática, são importantes para o momento em que vivemos.



§


§



§


§

Equipe Bruscky & Santiago

§



.
.
.

domingo, 17 de abril de 2016

Abud Said


Abud Said (também Aboud Saeed) é um escritor sírio, nascido em Manbij em 1983. Passou a maior parte de sua vida, no entanto, em Alepo, no norte do país, onde trabalhava como ferreiro quando eclodiu a Guerra Civil Síria em 2011. Sem ter considerado qualquer carreira literária, suas postagens no Facebook sobre o dia-a-dia de sua mãe e família em meio à guerra começaram a ganhar vários leitores. Descoberto pela tradutora alemã Sandra Hetz, que vive em Beirute, a editora alemã Mikrotext lançou em 2013, com tradução de Hetz, uma antologia de suas postagens sob o título Der klügste Mensch im Facebook. Statusmeldungen aus Syrien, que sai agora no Brasil pela Editora 34 como O Cara mais esperto do Facebook, com tradução do árabe por Pedro Martins Criado. Aboud Said vive há um ano em Berlim, como refugiado. Tive o prazer de conhecê-lo na Eslovênia, quando lemos juntos em um evento em Liubliana. É bom saber que ele vai ao Brasil e participa da FLIP este ano. Para mim, a leitura de O Cara mais esperto do Facebook foi uma das experiências mais humanizadoras quanto a tudo o que li sobre a terrível guerra civil que ainda destroça aquele país.

--- Ricardo Domeneck

§

TEXTOS DE ABUD SAID
traduções de Pedro Martins Criado


18 de janeiro de 2012 às 14:03

O ditador / não ouve jazz

*

23 de fevereiro de 2012 às 21:14

Minha namorada disse: eu gostaria de ver seu quarto e sua biblioteca.
Eu disse a ela: não tenho biblioteca, só alguns livros espalhados aqui e ali.
Eu não tenho meu próprio quarto / cada membro da família diz que meu quarto é o quarto dele / até as visitas, quando digo "fique à vontade", vão direto para lá.
Meu quarto é o que não tem cama / tem uma TV e um aquecedor / minha mãe sempre fica lá sentada / rezando e assistindo às notícias, e como ela não sabe ler, todo dia me pergunta o número de vítimas.
Fico nervoso com as perguntas dela e de vez em quando invento um número da minha cabeça.

*

28 de maio de 2012 às 15:03

Toda vez que eles dizem "grupos armados" / uma gargalhada coletiva ecoa do cemitério.

*

28 de junho de 2012 às 17:01

Confissão 51:

Continuarei escrevendo até chegar um tanque na porta da minha casa.

*

29 de julho de 2012 às 00:42

Caso bombardeiem o meu computador e a mim, alguém no exterior vai administrar
minha conta do Facebook. Nada vai mudar.
Minha foto de perfil continuará como está / de pinta e cigarro.
Meus amigos continuarão / o número pode variar.
As paixões / nós continuaremos enquanto houver teclas no teclado.
Os poetas / fodam-se seus murais do Facebook, um a um.
A morte / excluo um amigo e aceito o pedido de outro que esperava há meses.
A revolução / se levantou e o Facebook tomou o seu lugar.

*

25 de agosto de 2012 às 13:21

Enquanto minha vizinha bonita jogava água na frente da casa dela
eu estava na varanda, fumando. Fumando para convencê-la
de que estou muito ocupado, e não sozinho. Fumando para bater
as cinzas do meu cigarro na frente dela. Fumando para xingar o ditador
a cada trago. Fumando para que a fumaça queime meus olhos
até lacrimejarem e minha mãe ache que estou chorando a morte dos meus amigos
Fumando e fazendo uma nuvem de fumaça para que o mundo civilizado veja
que a nossa casa está queimando, e nos envie bombeiros e o resgate
Fumando para minha mãe não parar de fumar.

.
.
.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Das poéticas vocais: Seb el Zin



Sabe-se pouco sobre a pessoa que age sob o codinome de Seb el Zin, mas seu currículo é algo impressionante. O vocalista, compositor e multi-instrumentista já trabalhou com Archie Shepp, Arto Lindsay, Marc Ribot, Mike Ladd, Jonas Mekas, Crium Delirium, Cem Yıldız, Christophe Chassol, entre outros. Outros projetos incluem a adaptação da Fedra do gigante moderno grego Yannis Ritsos e a fundação de grupos como My Sister Klaus e  ITHAK, ou o álbum coletivo Anarchist Republic of Bzzz (Arto Lindsay, Marc Ribot, Mike Ladd & Sensational), com capa de Kiki Picasso. Foi-nos recomendado pelo cavalodada-de-ouvidos-abertos Reuben da Rocha. Este álgum específico, Hypnose Scandée (2007), interessa-nos por ter sido composto quase exclusivamente com experimentações vocais.




.
.
.