quarta-feira, 1 de julho de 2015

Miquel Martí i Pol (1929 - 2003)



Miquel Martí i Pol foi um poeta catalão, nascido em Roda de Ter a 19 de março de 1929. Publicou, entre outros, La fàbrica (1958), Paraules al vent (1954), Vint-i-set poemes en tres temps (1972), La pell del violí (1974), Cinc esgrafiats a la mateixa paret (1975), Amb vidres a la sang (1977), L'àmbit de tots els àmbits (1981), Llibre d'absències (1985), Suite de Parlavà (1991), Llibre de les solituds (1997), Cinc poemes de possibles variacions melangioses (1998) e Després de tot (2002). O poeta faleceu em Vich, a 11 de novembro de 2003. A tradução abaixo é de Vanderley Mendonça, postada nas redes sociais. O poema pertence ao livro Vint-i-set poemes en tres temps (1972).

--- Ricardo Domeneck

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POEMA DE MIQUEL MARTÍ I POL


Não peço grande coisa:
poder falar sem disfarçar a voz,
caminhar sem muletas,
fazer amor sem ter de pedir licença,
escrever num papel sem pautas.
Ou então, se parecer demais:
escrever sem ter de disfarçar a voz,
caminhar sem pautas,
falar sem ter de pedir licença,
fazer amor sem muletas.
Ou então, se parecer demais:
fazer amor sem ter de disfarçar a voz,
escrever sem muletas,
caminhar sem ter de pedir licença,
poder falar sem pautas.
Ou então, se parecer demais...

(tradução de Vanderley Mendonça)

:

No demano gran cosa:
poder parlar sense estrafer la veu,
caminar sense crosses,
fer l’amor sense haver de demanar permisos,
escriure en un paper sense pautes.
O bé, si sembla massa:
escriure sense haver d’estrafer la veu,
caminar sense pautes,
parlar sense haver de demanar permisos,
fer l’amor sense crosses.
O bé, si sembla massa:
fer l’amor sense haver d’estrafer la veu,
escriure sense crosses,
caminar sense haver de demanar permisos,
poder parlar sense pautes.
O bé, si sembla massa…

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sábado, 20 de junho de 2015

"Barbra de barba" (2015), de Thiago Gallego, com Ismar Tirelli Neto



"Barbra de barba" (2015), de Thiago Gallego, com Ismar Tirelli Neto e Lucas Matos.


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terça-feira, 16 de junho de 2015

Vídeo sobre o Festival Artes Vertentes



Pequeno vídeo sobre o Festival Artes Vertentes, filmado em 2014, com participações especiais de Matilde Campilho, Eduard Escoffet, Harryette Mullen, Ricardo Domeneck, Luiz Gustavo Carvalho e Juliana Steinbach. Filmado por Miklos Vali e Balázs Böröcz.

A edição de 2015 ocorre entre os dias 10 e 20 de setembro, e conta com curadoria literária de Ricardo Domeneck e Luiz Gustavo Carvalho, uma vez mais. Já foram anunciadas as presenças dos poetas Tomas Venclova (Lituânia, 1941) e William Zeytounlian (Brasil, 1988) na edição deste ano.



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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Noel Rosa (1910 - 1937)



Noel Rosa foi um dos grandes poetas do samba, nascido no Rio de Janeiro a 11 de dezembro de 1910. É autor de clássicos da nossa canção, como "Com que roupa?", "Gago apaixonado" e "Conversa de botequim". Textual e estilisticamente, nada há que o separe dos nossos grandes primeiros modernistas. Um texto como o de "Conversa de botequim" o faz digno de figurar ao lado de poetas como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade ou Mario Quintana, mestres da prosódia brasileira.




Conversa de Botequim
Noel Rosa

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Telefone ao menos uma vez
Para três quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

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Há muito que aprender com nosso primeiro Rosa. Seu sarcasmo é algo único, seu humor bem mais ácido que o dos poetas escritores. Foi um dos nossos belos poetas satíricos do século XX, como seu conterrâneo Sapateiro Silva no século XIX. Poetas do samba como Noel Rosa, Angenor de Oliveira (Cartola), Antônio Candeia e Nelson Cavaquinho são mestres da nossa fala. Noel Rosa morreu de tuberculose aos 26 anos, no Rio de Janeiro, a 4 de maio de 1937.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE NOEL ROSA




Com que roupa?
Noel Rosa

Agora vou mudar minha conduta,
Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar
Vou tratar você com a força bruta,
Pra poder me reabilitar
Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

Agora, eu não ando mais fagueiro,
Pois o dinheiro não é fácil de ganhar
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro,
Não consigo ter nem pra gastar
Eu já corri de vento em popa, mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?

Eu hoje estou pulando como sapo,
Pra ver se escapo desta praga de urubu
Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu
Meu terno já virou estopa e
Eu nem sei mais com que roupa
Com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou?

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Gago apaixonado
Noel Rosa

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Dembo Konté (1942 - 2014)



Dembo Konté foi um griot, como são conhecidos os poetas da tradição oral africana, nascido em Banjul, Gâmbia, em 1942. O poeta pertenceu a uma longa linhagem de griots em sua família, guardiães da história de seu povo. O poeta colaborou extensamente com outros griots, como Kausu Kuyateh, do Senegal, e com seu pai, Alhaji Bai Konté (1920-1983). Os griots da África Ocidental se apresentam  com acompanhamento musical do instrumento chamado kora, com 21 cordas.

 

A gravação que abre a postagem foi gravada em Gâmbia em 1985, e a faixa logo acima, de pai e filho da família Konté, foi extraída do álbum Gambian Griot Kora Duets (Folkways Records, 1979). Dembo Konté morreu em Brikama, Gâmbia, a 14 de janeiro de 2014.


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quinta-feira, 4 de junho de 2015

TJ Dema



TJ Dema é uma poeta e performer botsuanesa, nascida em 1981 no norte do país, entre o povo da língua calanga, de origem Bantu. Ela escreve, porém, em inglês, a língua oficial do país, ao lado de tsuana, a língua autóctone falada pela maior parte da população.



Ela publicou o livro Mandible (2014), foi diretora da Writers Association of Botswana e hoje comanda a Sauti A&PM, uma agência dedicada ao fomento das artes em seu país. A poeta esteve no Rio de Janeiro, onde participou de performances, uma oficina e uma discussão no Museu de Arte do Rio, em conversa com Joan Metelerkamp mediada por Masé Lemos.



TJ Dema vive e trabalha am Gaborone, capital de Botsuana.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE TJ DEMA

Ovários

I

Quando chega a meia-noite
Descubro que estou há tempo demais
De ponta-cabeça a soprar minhas entranhas
Um guarda-chuva no vento
Ocupada demais na crença
Em sonhos
Na mágica a ser encontrada
Em canteiros de abóbora infestados de ratos
E homens com tempo
E um sapato de vidro a mais em suas mãos

II

Mulheres aprendem
Que às vezes há sangue
Mas não morte
Elas aprendem a esconder o útero com seios
A escolher aquilo que se pode perder
A receita otimista ou na prateleira o bolo constante
Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se
Com nada de nada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

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Ovaria
TJ Dema

I

When midnight comes
I find I have been away too long
Blowing my insides upside down
An umbrella in the wind
Too busy believing
In dreams
In the magic to be found
In rat-infested pumpkin patches
And men with time
And one too many glass slippers in their hands

II

Women learn
That sometimes there is blood
But not death
They learn to conceal the womb with breast
To choose that which can be lost
The hopeful recipe or the constant cake in cupboard
They learn to clutch the knife
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content
With utterly nothing

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 Performance de TJ Dema.

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Só porque 

Porque eu sei que você vai perguntar
onde estão as flores,
eu colhi as rosas, rubras, doces,
e as deixei à beira da estrada, de comida aos pássaros.

Porque eu sei que você vai perguntar
onde está a sobremesa,
eu fiz halva para você com estas mãos,
amassei e então derramei o que era seu.

Porque eu sei que você vai perguntar
onde eu estou,
há muito deixei o lugar onde estava
para caminhar devagar entre árvores

Onde seu olho ganancioso não me alcança.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Just because
TJ Dema

Because I know you are going to ask
where the flowers are,
I have picked roses red and sweet,
left them by the wayside for the birds to eat.

Because I know you are going to ask
where the sweets are,
I have made you halwa with these hands
stirred and then spilt what was yours.

Because I know you are going to ask
where I am,
I have long left the place I was
to walk slow between the trees

Where your greedy eye cannot reach me.

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Daniel Monteiro


Daniel Monteiro é um escritor e poeta sonoro português, nascido em Lisboa, a 29 de março de 1996. Estudou Produção e Tecnologias da Música na capital portuguesa. Trabalha com som através de programação sonora e sons gerados por dispositivos electrônicos que ele própria cria ('sono-esculturas', em suas palavras). Seu trabalho, segundo o autor, liga-se à tradição de Pierre Schaeffer e Stan Hanson, de quem as peças "Strette" e "L'inferno de Strindberg", respectivamente, levaram-no a trabalhar com poesia e som. Apresentamos abaixo duas peças sonoras suas: "Engrenagem digital", a partir de uma leitura do texto de Marinetti, e "Semelhanças à natureza", com vocalização sobre texto seu.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS SONOROS DE DANIEL MONTEIRO


Daniel Monteiro - "Semelhanças à natureza" (2015)

Semelhanças à Natureza
Daniel Monteiro

Árvore como caos.
Árvore como pensamento.
Árvore como fim do próprio pensamento:

Ramos como ideias,
Extensão como expansão,
Fruto como fim.

Folha como fim.
Flor como fim.

Fruto folha flor no chão
Como fim do fim.

Tempo.

Putrefação como início de uma nova vida.

Húmus.

Arte.

Reestruturação.

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Daniel Monteiro - "Engrenagem digital" (2015)

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