domingo, 24 de julho de 2016

Tomas Tranströmer (1931 - 2015)


Tomas Tranströmer foi um poeta sueco, nascido em Estocolmo a 15 de abril de 1931. Formado em psicologia na Universidade de Estocolmo, trabalhou como terapeuta, psicólogo em prisões e centros de detenção juvenil.

Estreou com o volume 17 dikter (17 poemas, 1954), aos 23 anos. A este seguiram-se livros como Det vilda torget (A praça selvagem, 1983),  För levande och döda (Pelos vivos e mortos, 1989), e Den stora gåtan (O grande enigma, 2004). Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2011.

A tradução abaixo é de Marcia Sá Cavalcante Schuback, que já traduziu vários poetas suecos modernos e contemporâneos para a Modo de Usar & Co., como como Katarina Frostenson (n. 1953), Magnus William-Olsson (n. 1960), Helena Boberg (n. 1974) e Pontus Ahlkvist (n. 1987).

Tomas Tranströmer faleceu em Estocolmo a 26 de março de 2015.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER

Dó maior

Rua abaixo
depois do amor
a neve revirou no ar.
O inverno havia chegado
enquanto um se deitava no outro.
A noite fez o branco brilhar.
Ele andou rápido de alegria.
E a cidade toda se inclinou.
Sorrisos pedestres –
atrás dos colarinhos abertos,
todos sorrisos. Era livre!
E todos os pontos de interrogação
começaram a cantar
a presença de Deus.

Era como ele via.
Uma música se soltou
e andou pelo delírio da neve
a passos largos.
Tudo em peregrinação
ao Dó.
Uma bússola tremendo
rumo ao Dó.
Uma hora acima das dores.
Era fácil!
Atrás dos colarinhos abertos,
todos sorrisos.

(Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback)

:

C- Dur

När han kom ner på gatan
efter kärleksmötet
virvlade snö i luften.
Vintern hade kommit
medan de låg hos varann.
Natten lyste vit.
Han gick fort av glädje.
Hela staden sluttade.
Förbipasserande leenden - 
alla log bakom uppfällda 
kragar. Det var fritt!
Och alla frågetecken 
började sjunga om
Guds tillvaro.

Så tyckte han.
En musik gjorde sig
lös och gick i yrande 
snö med långa steg.
Allting på vandring
mot ton C.
En darrande kompass
mot ton C.
En timme ovanför
plågorna.
Det var lätt!
Alla log bakom
uppfällda kragar.

.
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sábado, 23 de julho de 2016

Flávio Morgado


Flávio Morgado é um poeta brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1989. É o autor de um caderno de capa verde (7Letras, 2012) e uma nesga de sol a mais (7Letras, 2016). O poeta vive e trabalha no Rio de Janeiro.

§

POEMAS DE FLÁVIO MORGADO


a mariposa

a esta hora
em que estamos
em uma longa conversa,
e suas devidas pausas reflexivas,
sobre o engajamento que cabe
a nossa não-natureza.

é quando, repentinamente,
pousa uma mariposa noturna
sobre a palavra norte.

que sabe essa mariposa,
inconsciente de si,
abreviada em sua natureza
eterna estranha de meus olhos,
sobre o pouso desavisado?
sobre uma leitura?
que sabe este inseto de
seu voo?
que sabe a mariposa
sequer da palavra norte?

distraído nas letras,
atento a tudo que não posso perder,
voltasse os olhos ao pouso,
e à palavra norte,
e quisesse dar vida à mariposa
e lhe atribuir um aviso,
uma mensagem, um presságio...

mas que sei eu sobre a natureza,
senão minhas atribuições?
sobre a mariposa?
nada, senão seu pouso
e agora sua morte.

da mariposa que sobre
a palavra pousada:
a ela, vulto de qualquer
superfície.
acendesse em mim este poema.
(que sabe as mariposas sobre as metáforas?)

que sei eu sobre as mariposas
senão sê-las?
escolhendo sua morte minha,
não-natural,
ecoada em meu poema:
norte ao qual pousei.

§

brás de pina

brás de pina
janelas atentas
muros tristes e
ladeira igreja

ladeira- travessia,
prometeu subir, nunca chega
saudade de uma vida
que nunca passou

rio arapogi
sem flores
(índio sem cocar)

outras cores:
verde aposentado
azul a filha morreu antes do casamento
amarelo jogou no bangu
branco foi muito rico e perdeu tudo

as histórias se escrevem nos muros
(por isso eu chorava na porta de edson borracha)

muro-rosto
limo-lágrima

a casa de minha vó
bangalô, tijolinho
portão-barulho,
o jardim se salva nas plantas que a mão ainda rega
o marido se foi cedo demais

casas lidas
mundo à janela
e não precisávamos de mais nada
todos se sabiam
pela rua (sem entrar)

brás de pina
não se diz –
se debruça no dito –

e morre-se em varanda

§

quadro de Fernando Diniz

pinta como quem cava
a dentro, e de repente
a claridade
na caverna insistida em furos
deixa reluzir sua própria pá

§

dançar a bonita morte de  Dom Garcilaso de La Vega


nunca deu um passo
                                  em linha reta

enquanto seu corpo foi lirismo.

deixava-se cair
                     como trôpego
                     como distraído
                     como
                                ritmo

decorado à recordação:

"Eu acabarei, pois me entreguei sem arte
a quem me saberá perder e acabar..."
- e temos horror a éros.

a tudo dançou e impôs
                                          seu delírio orgânico
                                          seu verso espanhol
                                          seu destino de musa
que quando à morte
                       o alvejou, já dançava

ao passo do poema que seguia:

ao seu lirismo
até a pedra se justificaria.
dedos
de Dona Dalva


imagino seu corpo
no que posso lutar com a morte
                                                                 (não com seu abraço delével,
                                                                  mas o que ainda deixa a nossa vista, os vivos)

e são seus dedos
                              amigos dos bem-te-vis
                              exagerados ao açúcar
                              e disciplinados ao rosário

que assinaram nossa estreia da finitude
- minha primeira, sua última.

os dedos que nunca foram
em riste em nome próprio
                                                   (porque era mulher, porque era casada, porque era órfã
                                                    e porque era mulher de novo.)

os dedos dobrados,
e nem por isso menos indicativos
ao bom costume castrado.

os dedos de arnica que nunca puderam dobrar a esquina.

os dedos imaginários
que movimentam a permanência
                                   em não estar

mas que ainda assim permite,
na insistência deste aceno novo,
      nos ver que o corpo morto,

este sim talvez fosse sonho.

§

raissa

na folha,
seu nome escrito
                           não tem olhos castanhos
                           não gosta de amoras
                           não adormece

mas a remete
tão capaz quanto ao silêncio de antes

- dita no avesso do mundo.

seu nome
precedido por agora
de mãos dadas à isoldas
                               pilares
                               rosas

artifício por outros fogos

acenderá no seu
também outros
                                         nomes mudos

- o bem dito se desapercebe dizendo.


seu nome escrito
                   à flor da pele (ou da folha)
                   uma multidão de vezes (ou de vozes)

lido, traça trajetos:
um resguardo
do próprio verbo guardar.

resta, portanto, a este poeta,
                                       e seu amante,
mais do que amar:

a conversão do amor falado

                             no próprio amor falante.


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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Kóstas Kariotákis (1896 - 1928)


88 anos do suicídio de Kariotákis


Kóstas Kariotákis foi um poeta grego, nascido em Trípoli a 11 de novembro de 1896. Estreou com o livro Ὁ πόνος τοῦ ἀνθρώπου καὶ τῶν πραμάτων (A dor dos homens e das coisas, 1919), que foi ignorado em grande parte, quando não recebeu críticas severas dos contemporâneos. A este seguiu-se Νηπενθῆ (Nepente, 1921) – o nome da droga que se acreditava curar a melancolia, mencionada em textos clássicos como a Odisseia. Seu último livro em vida foi Ἐλεγεῖα καὶ Σάτιρες (Elegia e Sátiras, 1927). Transferido para a cidade de Preveza (que dá título a este poema abaixo, o último que escreveu), Kóstas Kariotákis suicidou-se com um tiro no peito, aos 32 anos, sob um eucalipto. Após sua morte, como vemos também no caso de alguns brasileiros, seus contemporâneos transformaram por completo, hagiograficamente, a recepção de sua obra, e ele viria a se tornar um dos poetas mais influentes das letras gregas nas décadas por vir. 

--- Ricardo Domeneck

§

POEMA DE KÓSTAS KARIOTÁKIS

Preveza

São de morte estes corvos ao voarem
De encontro aos negros muros, ao telhado,
São de morte as mulheres ao amarem
Como quem preparasse um refogado.

De morte as ruas sujas e mesquinhas
Com nomes tão sonantes e tão fortes,
O olival, que abraça o mar, as vinhas,
E até o próprio sol, morte entre as mortes.

De morte o inspector que quer levar
Para análise a dose ..."ilegal".
Na varanda os jacintos a espreitar
E o mestre escola lendo o seu jornal.

Da guarda o pelotão no forte branco,
Domingo toca a banda no coreto.
Com "dracmas trinta" abri conta no banco,
Fui hoje lá buscar a caderneta.

Vais pelo molhe e pensas devagar:
"Será que sou?" E dizes: "Não, não és."
Chega o barco, a bandeira a tremular.
Vem decerto o prefeito no convés.

Ai se ao menos por tédio um habitante
Se deixasse morrer neste desterro,
Para toda a gente ir, grave o semblante,
Negro o luto, entreter-se no enterro.

(Tradução de Manuel Resende)

:

ΠΡΕΒΕΖΑ

Θάνατος είναι οι κάργες που χτυπιούνται
στους μαύρους τοίχους και στα κεραμίδια,
θάνατος οι γυναίκες που αγαπιούνται
καθώς να καθαρίζουνε κρεμμύδια.

Θάνατος οι λεροί, ασήμαντοι δρόμοι
με τα λαμπρά, μεγάλα ονόματά τους,
ο ελαιώνας, γύρω η θάλασσα, κι ακόμη
ο ήλιος, θάνατος μέσα στους θανάτους.

Θάνατος ο αστυνόμος που διπλώνει,
για να ζυγίσει, μια «ελλιπή» μερίδα,
θάνατος τα ζουμπούλια στο μπαλκόνι
κι ο δάσκαλος με την εφημερίδα.

Βάσις, Φρουρά, Εξηκονταρχία Πρεβέζης.
Την Κυριακή θ’ ακούσουμε τη μπάντα.
Επήρα ένα βιβλιάριο Τραπέζης,
πρώτη κατάθεσις δραχμαί τριάντα.

Περπατώντας αργά στην προκυμαία,
«υπάρχω;» λές, κ’ ύστερα: «δεν υπάρχεις!»
Φτάνει το πλοίο. Υψωμένη σημαία.
Ίσως έρχεται ο κύριος Νομάρχης.

Αν τουλάχιστον, μέσα στους ανθρώπους
αυτούς, ένας επέθαινε από αηδία…
Σιωπηλοί, θλιμμένοι, με σεμνούς τρόπους,
θα διασκεδάζαμε όλοι στην κηδεία.

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terça-feira, 19 de julho de 2016

Poema inédito de Ederval Fernandes

Na série de inéditos hoje, um poema de Ederval Fernandes (Feira de Santana, 1985).





No bolso as moedas

perder o amor
não é perder o lápis
o relógio
de preguiça perder o poema
ou o comboio o elétrico 15E
sentido algés
por 6 minutos
a mais na cama
nas contas a serem
pagas nas culpas
nunca suturadas
perder o calor
do café
o amor perdê-lo não é
como precisar ir
mas ficar
andar e não correr
atrás disso
que fácil e lento passa
em frente à porta (ouvir
Dylan para entender
o uso deste sample)
perdê-lo o amor não é
como ir à praia sem querer
ir embora
e descobrir depois:
o melhor era ficar
perdê-lo o amor
é impossível
no bolso as moedas
se escondem
(mas não
desaparecem)
como o amor

§


§

sobre o autor

Ederval Fernandes é um poeta brasileiro, nascido em Feira de Santana, Bahia, em 1985. Seu livro Conta Corrente, sua primeira coletânea de poemas, foi lançado pela editora Sarò no começo de 2015. Ederval Fernandes vive e trabalha em Lisboa, Portugal.

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Eliane Marques




Eliane Marques é uma poeta brasileira, nascida em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, em 1970. Estreou com o volume Relicário (2010), ao qual se seguiu e se alguém o pano (2015). Os poemas abaixo são todos deste último livro. Agradecemos à autora por nos permitir publicá-los.



§

POEMAS DE ELIANE MARQUES


o grito alouçado entre as falanges
quase estômago por rezas ou doce
archotes ora mediante muito troco
com o g a menos da letra de câmbio
ai ai ai meu deus assim o quadro
 “a expulsão com golpes de cana”

de repente o boa-noite aos poucos
além-ar alijados às armas brancas
com a licença dos barrancos o cão
o cão seu dono sob a lua em câncer

o grito – dos espanhóis seu rabo de olho
a espera do tutano para algum embrulho
como se retinta a caixa onde o seu crânio
aos trancos só por toleima rinhas  e canto

o osso na tampa  
o soba – camareiro amaranto
o entulho nas unhas os troços
o que essa gente e seus amiantos?

vento ao sul chutes à proa
a colher (em seu estojo)
penas para a boca  

por que aos braços sobra
o consolo de que gyges
(noutros tempos)
fez a festa na trácia louça

§

se mancenilhas na língua
norma de pedra e sabão
se às prontas tortilhas
dois pulos
sobre as patas do boi

se o sôngoro sabe
se contra o couro
querela a savana

e se irene não-à-lei
e se irene não-sinhô
e se não-tão-preta
e  nem-tão-boa
e se ainda aos piores mortos
o amém das moças

e se não-não-iá-iá
e se tome
e se ainda o amontoado atamanca

e se alguém o pano  

disfarçá-lo com um manto
a animália-dilúvio
a cruz-escudo
a rotina dos túmulos pela úmida vez

au-delá
oh gente do alabama

tombem as louças contra a lâmina
seu manuseio  –  a convenção mais antiga
banida dos brasões (aqueles)
ranhura na sala dos infantes

§

tal seu ofício
ofício negro
hera em cada mano
nelúmbio e sonho
ofício de negro
o mais americano
desses que se acossam nas vértebras
à esquerda de um canto

oficialato já disseram sem mando
quebranto e ordálio
nem o mississipi
pelos bantos aí afogados

negrisísifo se for o quase
junto à gordura dos soldos
a marcha (a medula) – os sovacos
entre ônibus e obituários
a propriedade
(e por que não)
de qualquer hotentote

a salvo apenas os ombros
ouve: aqui uma vez bandos

também uma vez nibelungos
quando a querença dos anéis
outra vez mameluca

mas a cucharra
como se nuvem
ofício enterrá-la no domingo

§

ô que esforço a queda dos molares
nem o descanso imerecido
bem menos o adorno lá do fundo dos ossários
por certo augúrio que se esvai ao acaso por esse ô
quase à margem, as lascas
                                       (coisa única que é nossa)

aí bem aí a fome que engendra o que não se pode
aí bem aí a tigela em que tomam sopa os apátridas

ô que esforço então as carátulas
por aí por algum beco encravado
qualquer pasto de ruínas que pace

feitio de água nas calhas
feitio de água no mastro
e em seu casco o cheiro do que veio sem nome próprio

ô juzin onde nairas e gorda boca a todas as horas
onde as altas maçãs da aristocracia na face?

acaso o primeiro meio-dia não foi servido
em folhas de flandres?
acaso a primeira carne não foi cortada
pela faquinha que separa o nome e as coisas?
nome oco sem inhame juzin o teu juzinfernandes

juzin atenção ao trio de pavões no telhado
atenção ao pó de tuas sobrancelhas quebráveis

ô tudo bem
não faz a diferença mínima
que hoje couro e água doce

melhor sempre melhor é que a morte satisfaça o dono
a negrura na fábula que balouça em torno das trancas

por exemplo,  n'algum lugar
o béééé das ovelhas
é claro a tal estrada vicinal
e o túmulo da translúcida mocinha blanca

ô ô

fronteira de tijolos e sílica
que núbios tomem
aquelas lascas nas canecas de estanho

§

Por alguns novos cruzeiros, garganta e água na boca em que a sopa de uziza, sob os restos do rei morto, a cicatriz da louça forcada da época em que o grande deus, sua cabeça torpecida pelas noites de orvalho, a ponto de sacar o pé sustém do mundo. Mas quase a grande fruta de ukwa na grande cabeça de nwaka dimkpolo, quase.  O ato exigia que se enrolasse a perna como se, no exato momento, o tum tum tum ascendente do ikolo quebrasse. A cura, caso houvesse, não seria justificada, cada qual com sua carga, não se comeria e nem se beberia até que o peso enterrado e se alguém, a água grudava no meio dos dentes.  Assim, forquilhado o ogene do arauto, o calo das canoas autorizara que os quatro dias depusessem ukwas em seu ilo: o raspar do musgo gangrenoso, o mesmo que no barco assentados; o arrancar da rede de lianas que a prendia; o mesmo que a cana do leme sacudida ao vento; depois, o sinal com a cabeça já que o colar de contas do adivinho caído em favor das igas; sensação idêntica a de caminhar até o término do dia; por isso, a noiva com a mão, a mãe e as nove com trouxas na cabeça, quer dizer, o dote – pilão, potes de óleo de palma, peixe, panela de ferro, pratos (dois ou três), mandioca, cabaça e a concha já madura para o conter de omeros.  É claro, a promessa da ferrugem ditada aos mais cruentos.  A questão é que a lasca descascara a pele – bem o que a faca fez com a laranja – e ele a salpicara com os punhos, embora sem os braceletes de cobre para os golpes. Logo, o corre-corre e o cambaleio com os dentes, o baldear a água antes que os tornozelos, e uma vez mais só a vergonha do seu cheiro a revoltar as narinas, esqueça-se o nariz de formigueiro. Lebura toro toro por dia lebura toro toro, que um corpo não cai onde levantado, que quem não tem lugar outro, apoia as mãos no próprio braço.  Acontecia esta manhã de mercado (era Eke, omeros, ô omeros, encerra esse dia com o lamento da concha) o mesmo negócio de sempre. Lebura toro toro, ainda que com o vestidinho de igreja. O frio das chagas repuxava até a virilha. Arrastou-se, então, pela calle rumo à venda, com uma faca curta de cabo de madeira. É certo que alguém poria a melhor cachaça e o remédio de costume ao seu alcance, pois quando um adulto na casa, a cabra não sofre presa das dores do parto: a caixinha de acaju e o pote de vaselina, o melhor de todas as redondezas, além da bacia de gelo esmaltada. Ele costumava esperar o Eke inteiro e, contra os costumes, a velha que varria o mundo (com uma vassoura). Aí de novo se curvava e untava a ferida, a boca que jamais se pronunciaria ou da qual o anúncio de que okro a mão do coveiro.  Sim, uma bênção o inchaço, que os calcanhares que carregava não apenas os calcanhares dos finados, mas os daqueles que machacaran as folhas murchas de inhame sob um tempo em que não se soube quando o bater da chuva e nem quando o secar dos lábios. 

§

quantas mãos para sabás
quantas velas para que o dia
seja como a noite

sabás um negro tonto
sabás um negro bruto
sabás um negro louco
sabás um negro torto

sabás, oh sabás
grita ora oragora
gora fora ora mesmo

que refaça o que não pode
sabás o negro morto

os punhos
à boca terrena de sabás
como louro ou água doce

sabás, oh sabás
quando a morte não destino
de teus braços raízes

sabás, oh sabás
o negro sem espelho o negro sem veneno
o negro sem o mesmo o negro sem terreno
sabás o negro

algo se foi, sabás
algo se foi para sempre

e um nome é preciso
um nome preciso
que te ampare do vento

§

os pés de prato o barro
os calos os mais redondos
o azul dos cílios o cinza
a redonda bacia das batatas

tudo encefalotrapo
batom terracota retratos
barulham o mesmo tudo
o mesmo nome muro abaixo
o brinco dos quais as contas
o lenço no trirreme onde troncos
troços um sonho
pan tan pan sobre os ouvidos
as veias as mais finas –
os puros-sangue da rainha

esquecidos os braços
no mármore de salamina
que outra seja a remadora
a madrepérola da rotina

que outro seja o azedo
daquela maçã nas papilas

§

a mais negra a mais dura
com sua boca de tomates
amarrada até as unhas

que se vistam desse traje
os braços já sem donos
o café cada vez mais negro
o nó da madeira mais pura

que se vistam desse traje
o lombo de oito cavalos
os lenços mais vermelhos
os oito cravos de chumbo

que se vistam desse traje
os cigarros do coveiro  
as raízes ontem camélias
as tortilhas as mais tontas

que se vista desse traje
o cocheiro o mais bêbado
o mais negro o mais lúgubre

e bem antes de anoitecer
e bem antes de amanhecer
que se adone a morte de tudo
do mais antigo e negro
do mais negro e chumbo

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sexta-feira, 8 de julho de 2016

MC Xamã (Jason Fernandes)



Jason Fernandes, mais conhecido como MC Xamã, é um poeta do Rio de Janeiro.



Vários poemas seus podem ser ouvidos no canal da excelente Grito Filmes, que registra a cena da poesia vocal carioca.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sean Bonney


Sean Bonney é um poeta contemporâneo britânico, nascido em Brighton em 1969. Publicou, entre outros, Notes on Heresy (2002), Poisons, Their Antidotes (2003), Blade Pitch Control Unit (2005), After Rimbaud (2010) e o mais recente Letters Against the Firmament (2015), traduzido por Miguel Cardoso e lançado agora em Portugal como Cartas contra o Firmamento (Douda Correira, 2016). É deste livro que foram extraídos os poemas abaixo.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE SEAN BONNEY

em vez de ‘amo-te’ diz que se foda a polícia, em vez de
‘os fogos celestiais’ diz que se foda a polícia, não digas
‘contratação’ não digas ‘trostky’ diz que se foda a polícia
em vez de ‘despertador’ diz que se foda a polícia
em vez de ‘o meu transporte para o trabalho’ em vez de
‘sistema eleitoral’ em vez de ‘vento solar contínuo’ diz
                      [que se foda a polícia
não digas ‘perdi a noção das minhas visões’ não digas
‘essa faculdade humana tão vilipendiada’ não digas
‘suicidado da sociedade’ diz que se foda a polícia, em vez
                      [de ‘o movimento
das esferas celestes’ diz que se foda a polícia, em vez de
‘o globo luzente da lua’ em vez de ‘a Rainha Mab’ diz
que se foda a polícia, não digas ‘débito directo’ não digas
                      [‘adere ao partido’
diz ‘o teu sono é proveito para o patrão’ e depois diz que se foda a polícia
não digas ‘hora de ponta’ diz que se foda a polícia, não digas
‘eis os passos que dei para arranjar emprego’ diz que se foda a polícia
não digas ‘um Caffè Latte fachavor’ diz que se foda a polícia, em vez de
‘a força gravitacional da terra’ diz que se foda a polícia, em vez de
‘faz o novo’ diz que se foda a polícia
não digas ‘uns trocos’
diz que se foda a polícia, não digas ‘feliz ano novo’ diz
                      [que se foda a polícia
diz talvez ‘reescrever o calendário’ mas depois disso, logo
depois disso diz que se foda a polícia, em vez de ‘pedra filosofal’
                       [em vez de
‘casamento real’ em vez de ‘o labor da transmutação’ em vez de ‘amor
à beleza’ diz que se foda a polícia
diz sem justiça não haverá paz e depois diz que se foda a polícia


(tradução de Miguel Cardoso)

:

for “I love you” say fuck the police / for
“the fires of heaven” say fuck the police, don’t say
“recruitment” don’t say “trotsky” say fuck the police
for “alarm clock” say fuck the police
                                                       for “my morning commute” for
“electoral system” for “endless solar wind” say fuck the police
don’t say “I have lost understanding of my visions” don’t say
“that much maligned human faculty” don’t say
“suicided by society” say fuck the police / for “the movement
of the heavenly spheres” say fuck the police / for
“the moon’s bright globe” for “the fairy mab” say
fuck the police / don’t say “direct debit” don’t say “join the party”
say “you are sleeping for the boss” and then say fuck the police
don’t say “evening rush-hour” say fuck the police / don’t say
“here are the steps I’ve taken to find work” say fuck the police
don’t say “tall skinny latté” say fuck the police / for
“the earth’s gravitational pull” say fuck the police / for
“make it new” say fuck the police
                                                       all other words are buried there
all other words are spoken there / don’t say “spare change”
say fuck the police / don’t say “happy new year” say fuck the police
perhaps say “rewrite the calendar” but after that, immediately
after that say fuck the police / for “philosopher’s stone” for
“royal wedding” for “the work of transmutation” for “love
of beauty” say fuck the police / don’t say “here is my new poem”
say fuck the police
                say no justice no peace and then say fuck the police

§


Carta contra a linguagem

"Deus escolheu precisamente o que não existe de modo a reduzir ao nada aquilo que existe" 
--- São Paulo

Então lá me mudei para outro país, uma nova cidade, e devo dizer que estou a adorar. O efeito não é dissemelhante ao de arrancares o teu nome à tua face, ao de desencantar finalmente os segredos das arcaicas artes da invisibilidade. Pelo menos é o que digo a mim próprio depois de estar acordado há dias e dias. Sendo que a invisibilidade, na sua acepção mais simples, não é senão a visibilidade amplificada ao máximo. Enfim, quando aqui cheguei pela primeira vez pus-me a caminhar para todo o lado, completamente ao acaso, por vezes de olhos fechados, por vezes com eles abertos. Quando nos sentimos vivos a esse ponto, ou seja, vivos mas não no sentido a que estamos acostumados, ou seja, absolutamente perdidos, puramente perdidos, bem, aí a distinção entre os sonhos e a visão, entre o que quer que é suposto a visão e os sonhos serem, torna-se, obviamente, uma coisa quase sem significado. Durante muito tempo limitei-me a vaguear pelas partes mais populares da cidade. Nem sei bem porquê, para ser sincero – quer dizer, são populares por alguma razão, e não será propriamente uma que me seja cara. Mas enfim, lá me aventurei até mais longe, até aos estranhos círculos exteriores com os seus nomes esquisitos, impronunciáveis – e com isto não quero dizer impronunciáveis simplesmente para alguém que não fala a língua, para um estrangeiro como eu, mas mesmo para as pessoas que aqui vivem. Vêem-se por lá umas estranhas portas vermelhas. E estranhas paisagens. Por alguma razão dei por mim a pensar em Pasolini. Para ser mais específico, naquela cena no fim de Teorema, onde o pai – tendo passado a fábrica para as mãos dos trabalhadores, e tendo depois tentado em vão engatar um rapaz na estação de comboios, despe as roupas e desarvora para uma estranha paisagem vulcânica ou deserta, e ao entrar nessa paisagem desata aos gritos. Há uns dias estava a tentar explicar a um amigo que a meu ver esse grito contém tudo o que ainda tem algum significado na palavra ‘comunismo’ – ou melhor, o que quer que seja que pessoas como nós querem dizer quando usam essa palavra, que é, como sabes, algo diferente daquilo que o dicionário do mundo visível gosta de fingir que isso significa. Sabes o que estou a dizer. Uma espécie de guincho agudo e metálico. Impronunciável. Inaudível. Ando obcecado com o Pasolini. Hoje, há umas horas, pus uma fotografia dele, nu, na parede do meu escritório – e ajuda, ajuda quando estou a tentar pensar sobre esse grito, sobre toxicidade e audibilidade, sobre o bizarro silêncio dentro do qual vivo mesmo no meio do escarcéu ensurdecedor desta cidade que de algum modo me convenci que poderia vir a amar. Um académico qualquer dizia a certa altura acerca de Pasolini que nós ‘devíamos baixar o volume dos seus sermões políticos e escutar o que ele sussurrava nas suas obras’, o que é obviamente uma idiotice, porque a sua política está precisamente nesses sussurros, ou melhor, nesses guinchos quase inaudíveis. Suponho que conheces o seu guião inacabado sobre São Paulo – aquela parte em que ele cita Coríntios, a propósito de “ouvir coisas inexprimíveis, coisas de que não se pode falar”. Durante uns tempos andei completamente obcecado com isto. Não me interpretes mal. Não julgues que de repente me perdi dentro de uma Nuvem-do-Não-saber de trazer por casa ou, pior ainda, em poesia experimental reconfortantemente opaca. Quer dizer, quero que essa merda se foda. No último ensaio que Pasolini escreveu ele torna bem claro o que quer dizer com “coisas inexprimíveis”, coisas “de que ninguém pode falar”. São nomes. “Eu sei os nomes”, escreveu ele naquele ensaio publicado em 1974. Os nomes dos que se sentam nos vários comités. Os “nomes dos responsáveis pelos massacres”. Os nomes do poder. As sílabas proibidas. Os nomes daqueles cujos nomes é impossível pronunciar em certas combinações e continuar a viver, simplesmente. E, como é óbvio, isto tem pouco ou nada a ver com o que certos idiotas chamam de “magia”, o que significa, claro, que tem tudo a ver. Mas enfim, andava com tudo isto às voltas na cabeça enquanto continuava a caminhar, afastando-me cada vez mais da cidade, em círculos cada vez mais largos e mais e mais estranhos, até que o meu diálogo interior, se é que eu posso ser acusado de ter tal coisa, parecia chegar-me numa linguagem com a qual já não me conseguia identificar, que já não conseguia compreender, ou mesmo ouvir. Talvez a conseguisse cheirar. As limitações do espectro olfáctico não recebem a atenção devida, nem pouco mais ou menos, em todo o palratório acerca dos “sentidos teóricos”, logicamente desvairados ou não. Mas enfim. Coisas que não somos capazes de dizer. Coisas inexprimíveis. Responsabilização. Transparência. Blá blá blá. Hölderlin chamou a isso nefas. Sabes? Cultos mistéricos e por aí fora. Revelar os segredos etc. A saliva dos juízes. Mastigar cartilagem e osso. E se quiséssemos poderíamos, pensava eu de mim para mim enquanto ia girando sem parar em círculos de 920 graus, poderíamos traduzir tudo isto em termos geográficos, de modo a que toda aquela chuvada de saliva e sílabas impronunciáveis se transformaria então, pura e simplesmente, nos discos de paisagem inabitável. A cela onde se está à espera de morrer. A vala comum dos pestilentos. A cidade do sol. Utopia. Todos os sonhos de todos os sacanas exangues que não acreditam nos seus sonhos, nem tão-pouco se lembram deles. “Pois é isso o trágico entre nós”, escreveu Hölderlin, uns tempos antes de ter partido para as montanhas e de ter rachado a cabeça ao meio contra vá-se lá saber que estatística infernal, “abandonar o reino dos vivos em absoluto silêncio, apinhados num contentor qualquer, não pagar pelas chamas que não fomos capazes de controlar ao sermos consumidos pelo fogo.” Uma metáfora e tanto, iá? E uma cujas implicações vão muito além daquilo que o próprio Hölderlin alguma vez poderia reconhecer. Quer dizer, neste momento, agora. “O reino dos vivos”. “Apinhados num contentor qualquer”. “Em absoluto silêncio”. Agora que as fronteiras crescem para os céus. Agora que os dentes vão sendo afiados. E enquanto caminhava perguntava-me de quem seria “o reino dos vivos”, e de quem seria esse “absoluto silêncio”, e se os nomes inexprimíveis que Pasolini quase enunciava pertenciam a esse silêncio ou não, e se aqueles que tinham ou estavam na posse desses nomes estariam entre os vivos, ou não. Porque às vezes na obra de Pasolini, na sua obra tardia, parece que a própria utopia é a necrópole, um anel de bairros de lata, um círculo em redor da cidade, uma “força do passado” a despedaçar o presente, um deserto febril vindo do futuro, a uma distância inexprimível, inconsolável. E aquele dono da fábrica aos berros, na última cena de Teorema, será que estava aos berros porque entrava no “reino dos vivos”, ou estaria antes de saída. Não sei. Nem sequer é um grito, aquilo, não chega a sê-lo. É mais uma coisa morta, uma tosse a assanhar-lhe a garganta. E estava eu com estes pensamentos quando de repente me apercebi que já não caminhava, porque já não havia por onde caminhar, nada que pudesse atravessar, ou fosse o que fosse. Uma vaga impressão de um círculo de casas, ou ossos. Um vago pressentimento de que poderia entrar em qualquer um deles. Que ninguém me impediria. Que seria tão invisível como qualquer pessoa viva, ou qualquer cadáver. É isso. Rimbaud. Enfim. Como burguês que sou, pus-me à procura de uma paragem de autocarro. Mas não consegui encontrar nenhuma, e então, como a pessoa que em tempos fui, deitei-me no chiqueiro da estrada e fiz os possíveis por ignorar os sinais conformistas que as estrelas tentavam irradiar na minha direcção. Isto é, nenhum, nada. Como um lençol de manicómio, coçado e áspero. A relação assalariada. As moedas colocadas sobre os meus olhos. E o sol a despontar. Ou talvez não. Talvez alguém o tivesse pulverizado. Como foi pulverizada a cega visão dos vivos. Como foi pulverizado o “absoluto silêncio” de Hölderlin, denso de ruídos, estasiado. Enfim, adiante. Lá acabei sentado num banco não sei onde, ao lado de um velhote qualquer, a partilhar uma cerveja com ele, que era só pele e osso oco, e a língua que falávamos não era inglês nem alemão, ou lá que porra de língua é suposto falarmos cá neste reino dos vivos, cá neste reino dos mortos, e, bem, estava eu no meu arrazoado sobre Pasolini, sobre como na última entrevista que deu, umas poucas horas antes de morrer, ele confessara a sua crença na magia, e como essa magia não estava simplesmente em saber como pronunciar os nomes ditos impronunciáveis mas, mais propriamente, em saber como traduzir esses nomes impronunciáveis em raiva pura e dura, o que significa saber como habitar o interior da palavra “não”, a sua paisagem e a sua geografia. Não falo, claro, do “não” seco dos guardas fronteiriços, e essa coisa toda. Mas o “não” enquanto o oposto do sol. E nem sei se estava a usar palavras, ou apenas uma espécie de arquitectura de guinchos que mal se ouviam, mas lá continuava a falar-lhe de Pasolini, do seu poema “Vitória”, onde os corpos dos partigiani rastejam para fora das suas campas e marcham, carregando todo o silêncio dessa simples palavra “não”, até às cidades lá em baixo. Horrorizados com o que lá encontram, com o refugo daquilo por que julgavam ter dado as suas vidas, dão meia volta e enfiam-se outra vez nos seus buracos na terra. E, embora se trate de um poema de grande amargura e derrota, traça ainda sim uma ideia de como persistir, como não capitular, face àquilo, seja lá o que for, que vai despedaçando os nossos nomes, vai estilhaçando os nossos nomes, até que os seus significados se transformam em algo terminal e inumano, tão inumano quanto o grunhido desgraçado que soltava entredentes enquanto me punha de pé e cambaleava de volta ao meu apartamento numas das zonas mais em voga desta cidade assombrada e irremediavelmente gentrificada. Tomei uma porrada de speed, fiquei a olhar para o vazio durante algum tempo, e depois escrevi-te esta carta. Espero que não te importes que eu tenha estado tanto tempo sem dar notícias. Não somos completamente indefesos. Ainda não fomos consumidos pelas chamas.
    

(tradução de Miguel Cardoso)

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Letter Against the Language

"God has chosen precisely what does not exist in order to reduce to nothing what does exist"
– St. Paul

So I moved to a new country, a new city, and I have to admit I like it very much. The effect is not dissimilar to tearing your name off your face, to finally stumbling onto the secrets of archaic techniques of invisibility. Or at least that’s what I tell myself when I’ve been awake for several days. Invisibility being, in its simplest meaning, visibility amplified to the max. Anyway, when I first arrived I walked everywhere, at absolute random, sometimes with eyes closed, sometimes open. When you feel that alive, meaning not alive at all in any sense that you’ve become used to, meaning absolutely and utterly lost, well, the distinctions between dreams and sight, between whatever it is that waking and vision are supposed to be, become pretty much meaningless. For a long time I was simply scrambling around in the more popular parts of town. Not really sure, to be honest – I mean, they’re popular for a reason and its not necessarily one I’m particularly sympathetic with. So I started venturing further out to the strange external circles with the weird unpronounceable names – and by that I don’t mean unpronounceable simply to a person who doesn’t speak the language, but even to the people who live there. There are some strange red doors out there. Some pretty strange landscapes. For some reason I started thinking about Pasolini. To be specific, the scene at the end of Theorem, where the father – having given his factory away to the workforce, and then having tried and failed to pick up a boy at a railway station, takes off his clothes and wanders off into some strange volcanic or desert landscape and, as he enters that landscape, he screams. I was ranting on to a friend a few days ago that I take that scream to contain all that is meaningful in the word ‘communism’ – or rather, what it is that people like us mean when we use that word which is, as we both know all too well, somewhat different to whatever it is the dictionary of the visible world likes to pretend it means. You know what I’m saying. A kind of high metallic screech. Unpronounceable. Inaudible. I’m obsessed with Pasolini. I stuck a naked picture of him on my office wall earlier on today – it helps, it helps when I’m trying to think about that scream, about toxicity and audibility, about the weird silence I live inside right in the middle of the deafening din of this city I’ve convinced myself I might have come to love. Some academic once wrote of Pasolini that we “should turn down the volume on his political sermons and listen to what he whispered in his work”, which is obviously pretty stupid because the politics are precisely within those whispers or, rather, those barely audible screeches. I guess you must be familiar with his unfinished St Paul screenplay – the bit where he quotes Corinthians on “hearing inexpressible things, things we are not able to tell”. I got really obsessed with that for a while. Don’t get me wrong. I’m not about to disappear into some kind of cut-rate Cloud of Unknowing, or worse, some comfortably opaque experimental poetry. I mean, fuck that shit. In the last essay he wrote, Pasolini made it pretty damn clear what might be implied by “inexpressible things”, things “we are not able to tell”. It is names. “I know the names”, he wrote, in that essay published in 1974. The names of those who sit on the various committees. The “names of those responsible for the massacres”. The names of power. The forbidden syllables. The names of those whose names it is impossible to pronounce in certain combinations and continue simply to live. And obviously, this has very little to do with what certain idiots still call “magic”, which means it has everything to do with it. But anyway, I was thinking about all of this and all the while I kept walking further and further out of town, in wider and wider circles, until my own interior dialogue, if I can even be accused of having such a thing, seemed to come at me in a language I could no longer commit to, or comprehend, or even hear. Perhaps I could smell it. The limitations of the olfactory spectrum don’t get nearly enough attention in all the chatter we endure about the “theoretical senses”, logically deranged or not. But anyway. Things we are not able to tell. Inexpressible things. Accountability. Transparancy. Blah blah blah. Hölderlin called it the nefas. You know? Mystery cults and so forth. Revealing the secrets etc. The saliva of judges. Chewing on gristle and bone. And we could, if we wanted, I thought to myself, spinning round and round in 920 degree circles, we could translate that whole thing into geography, so those spittle-flecked unpronouncable syllables would become the sheer disks of unliveable landscape. The death-cell. The plague-pit. The city of the sun. Utopia. All of the dreams of all of those dry fuckers who neither believe nor remember their dreams. “For that is the tragic with us”, wrote Hölderlin, sometime before he wandered off into the mountains and had his head split apart by god knows what infernal statistic, “to go away into the kingdom of the living in total silence packed up in some kind of container, not to pay for the flames we have been unable to control by being consumed in fire”. Quite a metaphor, yeh? And one whose implications go further than anything Hölderlin would have been able to recognise. I mean, right now. “The kingdom of the living”. “Packed up in some kind of container”. “In total silence”. As the borders are going up. As the teeth are being sharpened. And as I walked I wondered whose “the kingdom of the living” was, and whose was that “total silence”, and if the inexpressible names that Pasolini had almost uttered were of that silence or not, and if those who had, or possessed those names, were of the living, or not. Because sometimes in Pasolini’s work, in the late work, it seems as if utopia itself is the necropole, a ring of slums, a circle around the city, a “force from the past”, tearing up the present, a fever-desert, coming from the future, at inexpressible distance, inconsolable. And that screaming factory owner, in the last scene of Theroem, was he screaming because he was entering the “kingdom of the living”, or because he was leaving it. I don’t know. It isn’t even a scream, not really. More a dead thing, a powder-rasp. And as I was thinking this I suddenly realised I was no longer walking, because there was nothing to walk on, or through, or anything. Vague impression of a ring of houses or bones. Vague sense I could enter into any one of them. That no-one would stop me. That I would be as invisible as any living person, as any corpse. That’s right. Rimbaud. Anyway. Like the bourgeois I am I went looking for a bus-stop. But I couldn’t find one, so like the person I used to be I lay down in the filth of the road and did my best to ignore whatever conformist signals the stars were trying to throw my way. As in, none whatsoever. Like a rough and aged bedlam sheet. The wage relation. The pennies on my eyes. And the sun coming up. Or maybe it wasn’t. Maybe someone had smashed it. Like the blinded eyesight of the living has been smashed. Like the ‘total silence’ of Hölderlin, ecstatic and packed with noises, has been smashed. But whatever. It seemed I was sitting on a bench somewhere, with some old guy, sharing a beer with him, all thin and vacant bone, and the language we were using wasn’t English or German or whatever the fuck language a person is supposed to use in this the kingdom of the living or this the kingdom of the dead and, well, I was ranting on to him about Pasolini, about how in the last interview Pasolini gave, just hours before he died, he did admit to a belief in magic and how that magic was not simply in knowing how to pronounce the so-called unpronounceable names but, more to the point, in knowing how to translate those names into sheer anger, which means the knowledge of how to inhabit the word “no”, its landscape and its geography. Not of course the pinched “no” of border-guards and the rest. But “no” as in the opposite of the sun. And I don’t know if I was even using words at all, or just some kind of structure of barely audible screeches, but I was still going on about Pasolini, about his poem “Victory”, where he has the bodies of the Partisans crawling out from their graves and marching, with all the silence of that simple word “no”, into the cities below. Horrified by what they find there, by the residue of what they thought they died for, they turn around, clamber back into their holes in the earth. And though its a poem of great bitterness and defeat it still carries within it a sense of how to continue, of how not to capitulate, in the face of whatever it is that is breaking our names apart, our names, shattering them, until their meanings change into something terminal and alien, alien as the pitiful groan I mumbled as I stood up and staggered back to my temporary flat in one of the more fashionable areas of this hopelessly gentrified and haunted city. I did a shit-load of speed, stared into space for a while, then wrote you this. Hope you don’t mind that I haven’t been in touch for so long. We are not completely defenceless. We have not yet been consumed in fire.


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