sexta-feira, 31 de julho de 2015

Bandeira, Quintana e Drummond diante do Morro da Providência


Foto emblemática de três grandes poetas brasileiros – Manuel Bandeira, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade – conversando com o Morro da Providência ao fundo, no fim da década de 1960. A foto nos foi enviada por Matheus José Mineiro. O comentário abaixo é do poeta Marcus Fabiano Gonçalves:

"Bandeira, Quintana e Drummond diante do Morro da Providência, também chamado Morro da Favella, a primeira aglomeração urbana desse tipo no Rio de Janeiro, que emprestaria o seu nome (favela, depois da reforma ortográfica) a todas as demais. Sendo a favela uma planta arbustiva, note-se ainda, logo atrás dos poetas, a insinuante presença de altos pés de cana, provavelmente dando testemunho já da migração nordestina dos anos 50-60. A foto é de fins dos anos 1960."

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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Corsino Fortes (1933 - 2015)



Corsino Fortes foi um poeta cabo-verdiano, nascido no Mindelo, na ilha de São Vicente, em 1933. Presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde, foi o primeiro embaixador do país em Portugal.

Considerado um renovador da linguagem poética cabo-verdiana, lançou os livros Pão e fonema (1974), Árvore e tambor (1986) e Pedras de Sol & substância, este último publicado no volume que reunia sua poesia até então, A cabeça calva de Deus (2001).

Escreveu em português e crioulo cabo-verdiano. Pode-se ler um artigo de Cláudia Fabiana sobre o trabalho do poeta, Corsino Fortes e sua poética semeadora da 'cabeça calva de Deus'”, na revista Buala

Corsino Fortes morreu hoje, 24 de julho de 2015, em sua São Vicente natal.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE CORSINO FORTES

Pecado original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noite brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito.

§

Proposição

Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
Abertos
No olho da cabra

E membros de terra
explodem
na boca das ruas
Estátua de pão só
Estátuas de pão sol

Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra
Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos

§

De pé nu sobre o pão da manhã

Desde a manhã os pés
Estão nus ao redor da ilha,
Nus de árvore nus de tambor
Joelhos de sol E volutas de poeira
Nos tornozelos
Em movimento

Desde o início
O tambor dos dedos
Sob o pão das pedras
O cão das artérias
Preso
Na voragem
Dos calcanhares
Que agitam
Na terra polvorenta
O ponteiro dos membros
Sobre a testa do mundo

Os membros o mundo o meridiano de permeio

O sarilho dos corvos na falésia
Anuncia-nos

À boca do povoado
Ao vento gordo sabor a fiambre hálito
De pão novo

À beira-mar erguemos as nossas costelas
À promessa pública do mar E
À beira-mar navegamos
Com mãos menos mãos
Com pés menos pés
De proteínas

§

Como Noé

As espécies conhecem
A sílaba E a substância deste homem
Não há milho
Que não ame o umbigo deste homem
Não há raiz
Que não rasgue a carne deste homem

E na fome pública deste homem
Cresce
A ave no voo
E a gema na casca
Cresce
O cabo d'enxada
E a cintura da terra
Cresce
A porta do sol
E o alfabeto da pedra verde
Não há fonte
Que não beba da fronte de tal homem
Que
A erecção deste homem é redonda
E tem o peso da terra grávida

§

De boca concêntrica na rota do sol

Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração

E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

§

A cesariana dos três continentes

Antes
da moeda do corpo Ao capital da alma
Antes da luz
no mar da memória
E da pedra & vento na erosão do rosto
Éramos no verão da terra
A semente sem primavera
Éramos a exclamação
Do lon na lonjura
Dando
Pernas aos montes E braços às montanhas
Dando face & sentido
Às dunas do mar alto
Que respiram
as coxas
os seios
o sexo de Sahel

Lembro-me de ti! na África do teu ventre
Interrogando-se
sobre o istmo + a
proa do nosso destino
Quando pólos e penínsulas de maremoto
Rasgaram & rasgavam
No vórtice da vida! na fractura da terra
A cesariana dos três continentes

Ficamos umbigos de pedra
Em rodopio
Entre a pele e o osso das estações
Ficámos então ilha + ilha
sobre o vento
pelo arquipélago da evasão

*

Assim! foi a pronúncia
Antes & depois do 1.° dia + a
Erosão da crónica
na boca da “Rotcha Scribida”

§

Postais do Mar Alto

I

Crioula ! dirás ao violão
Da noite e à viola do madrugar
Que és noiva e morena
            com Lela em Roterdão

Jamais venderás pela cidadela
            De porta em porta
A sede de água doce que balouça
            Em latas de folha-de-flandres

II

De manhã
Nevava sobre as têmporas d’Europa
A lâmpada da minha mão é nave
            Entre os fiordes de Norga

Desde ontem
Chove pela proa
            Aço que entorpece
E nos ossos de abandono
            gnomo de silêncio sem memória

Desde ontem
O navio é paisagem de alma sem retina
E teu nome sobre o mar
            sol + árvore de boca sumarenta

III

Já vendi Kamoca food
            nas ruas de New York

Joguei orim nas vigas
            dos arranha-céus por construir

Num edifício em Belfast
Ficaram ossos e crânios
            De contemporâneos
O sangue ainda retine
            vivo
nas narinas dos telefones

IV

Ouvidos de ilhéu ouviram
A voz solarenga a goela olímpica
De um pilão nas ruas da Finlândia

Vi então patrícios
            vestidos de toga
Falando crioulo
Nas grandes salas de audiência

            Além-Pirinéus
            há negros y negros
Na Alemanha imigrada
os países da sopa
são os negros da Europa

V

Crioula! nas tarde de Domingo
            Ao sol dos arbustos
Dirás aos rostos de boa têmpera
            E velhos jogadores de cricket
Que os nomes
            De Djone
            Bana
            Morais
            Goy
            Djosa
            Frank
            Morgoda
            Palaba e Salibana
Utilizam-se
            como
            selo branco nos documentos
            como
            passaporte e livre-trânsito

À porta das embaixadas

VI

É boca probante
            que o chão o drama
Emigram connosco debaixo da língua
Atestam-no
            joelhos e cotovelos de secura
            do colonato de Cabiri

Ao longo dos caminhos de ferro
Dou E recebo socos
Dos vizinhos da regedoria
Por dissídios de terreno
            E normas de cultura

Numa noite de loucura
no colonato em Sacassenje
Dividimos a terra
            entre pevides & árvores de fruto
            entre sangue & cicatrizes

E fiquei previdente na fronteira
Empunhando a tranca da minha porta

VII

Ora caminho
Olho que nasce: nascente que olha
A sombra da omoplata sobre o mundo
Tocando tambor
            com sangue d’África
            com ossos d’Europa

            E

Todas as tardes meu polegar regressa
            E diz à boca da ribeira
De Adis Abeba vim E bebi
            Nas cataratas de Ruacaná

§

Konde Palmanhã Manchê

Ó Konde
Ó Konde palmanhã manchê
Konde note ftcha ftchode
E palmanhã manchê
C’pê plantode na tchon
E terra na coraçon
Konde sangue rasgâ na corpe
Arve de broçe aberte
E smente gritâ na rotcha
Tambor de boca verde
E daquel som
Ma quell sangue soldode
Nascê boca
boca centrodeboca rasgodeNa roda de sol

Ó Konde palmanhã manchê
Sem dsuspère pundrode
Na bandêra de porta
Sem lanterna cindide
Na robe de burre
Pa naufroge de navi
Sem navi quebrode
Na boca de pove
E mar bem olte! brobe!
dsusperodeBen quebrâ na Praia Grande
Sês broçe gorde de pecode
E mar bem
Na se luxe
E na se grandèza!
Se mostre
De mar erguide na pêto
Se mapa bronque
Desenhode n’alma
Bem bidê na colónia dnha boca
Tod’aquel negoce dnha sangue ultramarine

Ó Konde palmanhã manchê
E Criste bem dsê morada
El bem ta bem
Pa broçe direita de Monte Cara
C’se cobe d’enxada
Ma se calçon drill
C’se pê na tchon
Ma se dede quebrode
Bem sentâ
Na pedra radonde dnôs fogon
Sem tchuva na mon
Sem fraqueza na sangue
E sem corve na coraçon

Ó Konde
Ó Konde palmanhã manchê

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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Daniel Filipe (1925 - 1964)


Daniel Filipe foi um poeta e jornalista cabo-verdiano, nascido na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1925. Estudou em Portugal e foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras,  e realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Dissidente durante a ditadura de António Salazar, foi perseguido e torturado pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). 

Publicou os livros Missiva (1946), Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – vencedor do Prêmio Camilo Pessanha, A Invenção do Amor e outros poemas (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963), assim como o romance O Manuscrito na Garrafa (1960). Daniel Filipe morreu em Cabo Verde, em 1964.



Agradeço a Sandra Santos por chamar minha atenção para o trabalho do poeta. Todos os poemas foram extraídos do admirável A invenção do amor e outros poemas (1961), que pode ser lido na íntegra.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DANIEL FILIPE


Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor sùbitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou   A TV anuncia
iminente a captura   A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada
       para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique   Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem
       os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa
       passiva
Todos   Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o   Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

§

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas   Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
 inexplicàvelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
         razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo   Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

§

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
           correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher
 amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los   É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz   Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de
            lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância   Campos verdes floridos
Água simples correndo   A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente   É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

§

Impõe-se sistematizar as buscas   Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
              orquestra privativa
Não estarão nunca aí   Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada
              acontece

A identificação é fácil   Onde estiverem estará também pousado
              sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí   Engatilhem as armas invadam a casa disparem à
              queima roupa
Um tiro no coração de cada um   Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar   Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o
              pranto
Quer dizer que fostes contagiados   Que estais também perdidos para
              nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte o tiro
              indispensável
Não há outra saída   A cidade o exige

§

Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer   Matai-o   Amigo irmão que seja
matai-o   Mesmo que tenha comido à vossa mesa crescido a vosso
              lado
matai-o   Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite   Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

§

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo   estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto   patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

§

É na cidade que é preciso procurá-los
incansàvelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito
           especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora   Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

§

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
        do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
         diplomático
e depois o homem e a mulher que a polícia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
        recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal
 fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta   É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual

§

Já não podem escapar   Foi tudo calculado
com rigores matemáticos   Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos   Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo

(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte 
une fenêtre eclairée) 


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domingo, 19 de julho de 2015

"Murilo Mendes: A Poesia em Pânico" (1977), de Alexandre Eulálio



Filmado entre 1971 e 1974, Murilo Mendes: A Poesia em Pânico é um curta-metragem de Alexandre Eulálio (1932-1988), disponibilizado na Rede pelo poeta Pádua Fernandes.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Dez jingles para Oswald de Andrade (1972), de Rolf de Luna Fonseca



Dez jingles para Oswald de Andrade (Rolf de Luna Fonseca, 1972).





(via André Vallias)

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Walter Benjamin (1892 — 1940)




Hoje é a data de nascimento de Walter Benjamin. Desejar-lhe um feliz aniversário, quando pensamos na maneira como uma das mentes mais brilhantes do século XX terminou seus dias, parece demasiado desproporcional. Mas eis aqui nossa celebração de que ele nasceu, e viveu. Para os que jamais leram o texto, é obrigatório. Leitura de calafrios, profética.


TESES SOBRE A HISTÓRIA
Walter Benjamin

1

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado "materialismo histórico" ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.

2

"Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana", diz Lotze, "está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro". Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.

3

O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à l’ordre du jour — e esse dia é justamente o do juízo final.

4

"Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo."
Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.

5

A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido. "A verdade nunca nos escapará" — essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exacto em que o historicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.

6

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo "como ele de fato foi". Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

7

"Pensa na escuridão e no grande frio
Que reinam nesse vale, onde soam lamentos."
Brecht, Ópera dos três vinténs

Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: "Peu de gens devi-neront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage". A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode reflectir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes génios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.

8

A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de exceção" em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no séculos XX "ainda" sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.

9

"Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
Gerhard Scholem, Saudação do anjo

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivel-mente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

10

Os temas que as regras do claustro impunham à meditação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocupação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredado por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no "apoio das massas" e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma reali-dade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.

11

O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas idéias econômicas. E uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como "a fonte de toda riqueza e de toda civilização". Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser "o escravo de outros homens, que se tornaram... proprietários". Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: "O trabalho é o Redentor dos tempos modernos... No aperfeiçoamento... do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador". Esse conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem. Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, "está ali, grátis".

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"Precisamos da história, mas não como precisam dela
os ociosos que passeiam no jardim da ciência."
Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida

O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a social-democracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.

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"Nossa causa está cada dia mais clara e o povo cada dia mais esclarecido."
Josef Dietzgen, Filosofia social-democrata

A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conhecimentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero humano. Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em flecha ou em espiral. Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homo-gêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.

14

"A Origem é o Alvo."
Karl Kraus, Palavras em verso

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de "agoras". Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de "agoras", que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o actual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx.

15

A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:

"Qui le croirait! on dit qu’irrités contre l’heure
De nouveaux Josués, au pied de chaque tour,
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour."

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O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem "eterna" do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz "era uma vez". Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.

17

O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.

18

"Comparados com a história da vida orgânica na Terra", diz um biólogo contemporâneo, "os míseros 50 000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas, Por essa escala, toda a história da humanidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora." O "agora", que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana.

Apêndice

1

O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um "agora" no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

2

Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.

1940

(Tradução de Sérgio Paulo Rouanet)

Ensaio obtido em Walter Benjamin -– Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.

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terça-feira, 14 de julho de 2015

Roberto Piva - "O século XXI me dará razão" (vídeo)



Roberto Piva - "O século XXI me dará razão". Mais sobre o poeta aqui na Modo de Usar & Co., com textos de Fabiano Calixto e Ricardo Domeneck, mais pequena seleção de poemas.






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