domingo, 24 de maio de 2015

Sérgio Sampaio (1947 - 1994)




Sérgio Sampaio foi um poeta trovador capixaba, nascido em Cachoeiro de Itapemirim a 13 de abril de 1947. Com alguns dos melhores textos da poesia cantada brasileira, lançou os álbuns Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (1973), Tem que Acontecer (1976), Sinceramente (1982) e o póstumo Cruel (2006).




O poeta morreu no Rio de Janeiro, esquecido pela oficialeza brasileira, a 15 de maio de 1994.


Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista 
Sérgio Sampaio

Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista
Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada
          [com isso 

Porque bandido quase sempre quando atira não acerta no que mira
Porque cachorro quando ataca pode às vezes atacar o seu amigo
Porque dentista policia a minha boca como se fosse bandido
Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro 
Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia
Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista
Dentista, dentista...

§

ÁLBUNS DE SÉRGIO SAMPAIO


 Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (1973)

§


Tem que Acontecer (1976)


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sábado, 23 de maio de 2015

Roque Dalton (1935 - 1975)


Roque Dalton foi um poeta salvadorenho, nascido em San Salvador a 14 de maio de 1935. Estudou direito em San Salvador e no Chile, e publicou os livros Mía junto a los pájaros (1957), La Ventana en el rostro (1961), El Mar (1962), El turno del ofendido (1962), Los Testimonios (1964), Taberna y otros lugares (1969) e Los pequeños Infiernos (1970). O poeta viveu exilado no México e em Cuba durante os sucessivos governos militares ditatoriais de seu país. De volta a El Salvador, clandestinamente, engajou-se no Ejército Revolucionario del Pueblo. Foi assassinado por membros do grupo a 10 de maio de 1975, durante os expurgos que se seguiram a divisões dentro do ERP.

§

POEMA DE ROQUE DALTON

O descanso do guerreiro

Os mortos estão cada dia mais indóceis

Antes era fácil lidar com eles:
dávamos a eles um pescoço duro de uma flor
louvávamos seus nomes num lista longa:
assim os lugares da pátria
assim as sombras notáveis
assim o mármore monstruoso.

O cadáver assinava em favor da memória,
ia outra vez para as filas
e marchava ao compasso de nossa velha música.

Mas que nada
os nossos mortos
são outros desde então.

Hoje se mostram irônicos
perguntam.

Acho que perceberam
que são cada vez mais maioria.

(tradução de Carlos Augusto Ancêde Nougué)

:

El descanso del guerrero

Los muertos están cada día más indóciles.

Antes era fácil con ellos:
les dábamos un cuello duro una flor
loábamos sus nombres en una larga lista:
que los recintos de la patria
que las sombras notables
que el mármol monstruoso.

El cadáver firmaba en pos de la memoria:
iba de nuevo a filas
y marchaba al compás de nuestra vieja música.

Pero qué va
los muertos
son otros desde entonces.

Hoy se ponen irónicos
preguntan.

Me parece que caen en la cuenta
de ser cada vez más la mayoría.

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Diego Vinhas



Diego Vinhas é um poeta brasileiro, nascido em Fortaleza, Ceará, em 1980. Foi um dos editores da revista Gazua e é autor dos livros Primeiro as coisas morrem (2004) e Nenhum nome onde morar (2014).



Sagitário

você traz de longe este talento para cair
de escadas? você mimetiza
cidades numa coleção de canecas de louça?
você sabia que Anna Akhmátova virou nome
de uma (e da luz morta
que nos chega de uma estrela? você foi
manhã de chuva em alguma vida passada?

você reza? você já dançou sozinha
como se o mundo
se resumisse a paredes e velocidade, com
alguma rouca alegria? você deixou
na infância uma noite de tédio, auréola
empenada e asas
de arame? você mentiria

para ter em estoque todos os sonhos
bons que pudesse coagir? você partilha
o quarto com um zoo imaginário? você detesta
cigarros? você teme que as crianças
se despedacem quando em seu colo? você
aceita ficar sempre por aqui?


(in Nenhum nome onde morar, Rio de Janeiro: 7Letras, 2014).

Os poemas apresentados abaixo são todos inéditos.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DIEGO VINHAS

Tango

o olho terá o dia todo para desenrugar
as imagens (revolvendo o lixo que escorre do sono
para o quarteirão, sacos desventrados
como músicas pela metade). você abraça
a fumaça também, à sua maneira,
bordada em uma cena de 93
quando me levavam pela mão em busca
de frutas japonesas na feira
e estrangeiros apertavam outras
cujos nomes recém-conheciam e repetiam até gastar
e restar pouco mais que frações de sol
no abrigo das frutas. escolher
é sempre um ato de
violência. entre café/madrugada,
ontem, quis escrever do cansaço que pulsa
em pêndulo, mesmo que ela (agora
sonha) de manhã, não entendesse (agora enlaça mundos
legíveis, de onde se arrancassem poemas
legíveis) e, já perto de seu hálito (agora usurpa
¾ da cama) pensei, antes de apagar, que
“barcos dariam ótimos
fantasmas”.

§

Sob estrelas

vistas como corpo de delito de um projétil
que esburacasse tanto a lona negra do céu

a quase simular (estas escaras de luz)
um Pollock ainda mais feroz - quanto de atrito

cabe em um hora assim: o seu sono e o dos barcos
à praia, maré que a noite vestiu de fuligem,

débil teatro para ninguém? treva e ruído
de ventilador vestem o quarto, singram através

da calma de vê-la dormir (longe a lua ao rés-
do-chão no reflexo da poça, um sonho puído,

um sonho e só, talvez). mas tudo apaga, a vertigem,
tudo zera- o poema parece dizer - os arcos

da estátua à beira-mar, tudo expira, qual detrito
do dia anterior, a cama, ou pontos de cruz

rebobinados, volvendo a ser linha
(sem véu
a manhã engatilha incêndio: na jaula um sol réptil)


§

Por que precisamos de monstros?

por quê?
para que haja sempre
saudades da luz
alguma luz em galope
na aventura
do vasto território inimigo
embaixo da cama?
para que destes dias
e dos passados (feitos
de falta e colagens
respectivamente)
qualquer retalho tenha
(sempre) este
agouro
brincando em volta
como um satélite?
pense em ouvir
o som da própria voz
em noites assim
pense que você não possui
um gato multicinza
a quem gosta de apelidar
depois de alguns tragos
de pale blue eyes
e pense
em todas as subespécies
de solidão
desta estranha fauna
por exemplo a do
homem-sanduíche
e o mercado informal de ouro
ofertado aos vultos que
o ultrapassam
ou a do homem-rã
consertando cabos dentro
da água
ferruginosa
(placenta imensa
sob a ponte)
e pense que com você
não existe qualquer
gato em cujo dorso
por a mão para
drenar o cansaço
mas somente noite
após um dia comum
e o som
da própria voz.
daí o imperativo
por monstros?
o medo como forma de
companhia? ou por
serem fonte de pavor e bênção
(já falamos disso:
muitos começos brotam
dos pesadelos),
uma fronteira sugerindo
algo além do
nosso tumulto?
não responda agora
sua casa espera
em desordem
mas a conversa se
espalha nas paredes
e nem dormir
seria mudar de assunto
(Goya sabia que el
sueño de la razón
produce monstros).
no próximo intervalo
de silêncio que
irromper aí
pense em tudo isso
em nossas mitologias
pessoais e gírias internas
e se
para você também
o que chamamos
medo (ou
coisa que o
valha) chega às
vezes vestido
de espelho
e como se por
efeito
bumerangue
talvez eles
também esperem
pela lanterna
que empunhamos
a investigar
embaixo da cama
talvez
por saudades da luz
os monstros
nos queiram
por perto.

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terça-feira, 19 de maio de 2015

M. NourbeSe Philip lê "Discourse on the Logic of Language"



No vídeo acima, a poeta M. NourbeSe Philip, nascida em Trindade e Tobago em 1947, lê seu texto "Discourse on the Logic of Language", do livro She Tries Her Tongue, Her Silence Softly Breaks (1989). A poeta e ensaísta, de nacionalidade canadense, escreveu ainda as coletâneas de poemas Thorns (1980), Salmon Courage (1983) e o importantíssimo Zong! (2008), um dos grandes livros de poesia do século XXI, no qual ela trabalha com o terrível massacre do navio Zong, que lançou cerca de 140 africanos sequestrados e escravizados ao mar em 1781.




É autora ainda dos romances Harriet's Daughter (1988) e Looking for Livingstone: An Odyssey of Silence (1991), além das coletâneas de ensaios Frontiers: Essays and Writings on Racism and Culture (1992), Showing Grit: Showboating North of the 44th Parallel (1993), CARIBANA: African Roots and Continuities - Race, Space and the Poetics of Moving (1996) e Genealogy of Resistance and Other Essays (1997). Estamos trabalhando em algumas traduções. Por ora, convidamos nossos leitores a ouvir a belíssima leitura da poeta para seu texto "Discourse on the Logic of Language".


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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Víctor Rodríguez Núñez


Víctor Rodríguez Núñez é um poeta cubano, nascido em Havana em 1955. Publicou, entre outros, os livros Cayama (1979), Con raro olor a mundo (1981), Noticiario del solo (1987), Cuarto de desahogo (1993), Los poemas de nadie y otros poemas (1994), Oración inconclusa (2000), tareas (2011), reversos (2011) e desde un granero rojo: poesía reciente (2014). Após viver na Nicarágua e Colômbia, o poeta hoje vive e trabalha nos Estados Unidos, onde é professor na Kenyon College. A seleção e traduções abaixo são de Cide Piquet.

§

POEMAS DE VÍCTOR RODRÍGUEZ NUÑEZ
Traduções de Cide Piquet

Arte poética?

                 para María Santucho y Víctor Casaus

Puxei uns olhos míopes
     um nariz bissexto
lábios que não consigo juntar
um cabelo de camelo
mais um corpo de atleta aposentado

Também o mau gênio de meu pai
a dor do lado de minha mãe
a pinta suspeita de minha avó
a cólica renal de todos
e até as febres constantes do meu filho

Razões que me obrigam
a ter um mau juízo da beleza

:

¿Arte poética?

                    para María Santucho y Víctor Casaus



Saqué unos ojos miopes
                                              una nariz bisiesta
unos labios que no puedo juntar
un pelo de camello
más un cuerpo de atleta retirado

También el mal genio de mi padre
el dolor en el lado de mi madre
el lunar sospechoso de mi abuela
el cólico nefrítico de todos
y hasta las fiebres constantes de mi hijo

Razones que me obligan
a tener mala opinión de la belleza

§

1986

Nada importante
       Salvo

Que na China floresceram
de azul ― azul purpúreo ―
os bosques de bambu

E milhares de ursos panda
comeram até o último
broto desesperado

Os jornais mentem
ou a beleza mata

:

1986

Nada importante
    Salvo

Que en China florecieron
de azul ― azul purpúreo ―
los bosques de bambú

Y miles de osos panda
comieron hasta el último
desesperado retoño

Los periódicos mienten
o la belleza mata

§

Entrada


Não sei por que caminho
foi que cheguei aqui
Neste lugar estranho
sem casas nem paisagem
Este lugar despido
das pedras até à alma
onde o mundo germina

Talvez também tu chegues
seguindo este caminho
Pois nesta vida farta
de acertos e certezas
o erro é o que nos une
A poesia é o reino
dos equivocados

:

Entrada


No sé por qué camino
pero he llegado aquí
Hasta este raro sitio
sin casas ni paisaje
Este lugar desnudo
de las piedras al alma
donde el mundo germina

Quizás también tú llegas
siguiendo ese camino
En esta vida harta
de aciertos y certezas
solo el error nos une
La poesía es el reino
de los equivocados

§

Natureza viva


Todo santo dia constróis
        e isso não basta
Deves abrir os olhos
para que não te cegue tanta destruição
Todo santo dia urdindo
      este sólido nada

Sem dar razão
  deliram estes sapatos velhos
sobre o pasto de outubro
que eu nunca vesti
e se oxidam ao primeiro olhar
Delira o sol de barro
que perdeu uma lasca
uma chama de sua frágil coroa
      pendurado na tarde
entre quatro palmeiras
Deliram
   o sem-fim do carpinteiro
as curtas tranças da tecedeira
que desfiou o mundo
para voltar a tecê-lo
Sem explicação
   delira este olho
com que não vi nada
onde a tormenta desenha nuvens
que já não são de sal

Tenho a paz firmada
 contigo e com os astros
Ponte abanico verso
tudo será destruído
No entanto
         hoje creio no que creias

:

Naturaleza viva


Todo el santo día construyes
  y eso no basta
Debes abrir los ojos
para que no te ciegue tanta destrucción
Todo el santo día urdiendo
esta sólida nada

Sin dar razón
  deliran esos zapatos rotos
sobre el pasto de octubre
que no me he puesto nunca
y se oxidan de una sola mirada
Delira el sol de barro
que ha perdido una astilla
una llama de su agria corona
colgado de la tarde
           entre cuatro palmeras
Deliran
  el sinfín del carpintero
las breves tranzas de la tejedora
que ha deshilado el mundo
para volverlo a hacer
Sin explicación
  delira este ojo
con que no he visto nada
donde la tormenta dibuja nubes
que ya no son de sal

He firmado la paz
        contigo y con los astros
Puente abanico verso
Todo será destruído
Sin embargo
hoy creo en lo que creas


§

Manifesto

Tenho às vezes uma vontade louca
de abrir a janela e dar um grito
Um grito zepelim
com que me transportar
       para além da morte

Mas então acontece
que só me dá mais pena de mim mesmo
porque minha janela está sempre aberta
Além disso pra que acordar os vizinhos

Eu gostaria de dizer
“anjos que bebem cantam fornicam
na taberna esfumaçada
suja do meu coração
a conta está paga”

Mas devo dizer
“o anticomunismo
é uma estratégia global da burguesia
para continuar me roubando
o vinho os desejos as canções”

Então resolvo:
“anjos que bebem cantam fornicam
o anticomunismo
é uma estratégia global da burguesia
devolvam as asas à revolução”

Líricos coloquiais
        a conta está paga?

:

Manifiesto

Tengo a veces una ganas inmensas
de abrir la ventana y dar un grito
Un grito zeppelín
con el cual remontarme
                                               más allá de la muerte
Pero sucede entonces
que me da más pena conmigo mismo
pues mi ventana siempre está abierta
Además para qué despertar a los vecinos

Me gustaría decir
“ángeles que beben cantan fornican
en la taberna humeante
sucia de mi corazón
la cuenta está pagada”

Pero debo decir
“el anticomunismo
es una estrategia global de la burguesía
para seguir robándome
el vino los deseos las canciones”

Y entonces soluciono
“ángeles que beben cantan fornican
el anticomunismo
es una estrategia global de la burguesía
Devuélvanle sus alas a la revolución”

Líricos coloquiales
          ¿la cuenta está pagada?


§

Happy birthday

Quando tudo se afasta de mim
e entro na desmemória
esse céu sem música
  sem ódio
como um astro perdido

Quando tudo se afasta de ti
e desse inconfundível
penetrante cheiro de nada
que brota de tua pélvis
     estrela desmentida

Quando tudo se distancia de tudo
e a menor distância
que pulsa entre dois pontos
é o que nos desune
voltei a arder

Cinza do infinito

:

Happy Birthday

Cuando ya todo se aleja de mí
y entro en la desmemoria
ese cielo sin música
sin odio
como un astro perdido

Cuando ya todo se aleja de ti
y de ese inconfundible
penetrante olor a nada que brota
de tu pelvis
         estrella desmentida

Cuando ya todo se aleja de todo
y la menor distancia 
que late entre dos puntos 
es lo que nos desune
he vuelto a arder

Ceniza de infinito

§

Abismos


Vivo entre dois abismos
        A paciência
de quem talvez já caminhou demais
e se debruça na ponte
― única cerimônia desta tarde ―
para ver passar as águas
E a enorme impaciência
de quem quer prosseguir a todo custo
mas só enxerga a torrente de insônias
e da ponte se atira
          em teu regaço

:

Abismos
               

Vivo entre dos abismos
      La paciencia
del que ya anduvo tal vez demasiado
y se acoda en el puente
― única ceremonia de la tarde ―
a ver pasar las aguas
Y la impaciencia enorme
del que quiere seguir a toda costa
pero sólo ve el raudal de insomnios
y del puente se lanza
 a tu regazo

.
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mira Gonzalez

Rubens Akira Kuana, nosso correspondente de guerra nas trincheiras da poesia contemporânea norte-americana, apresenta o trabalho de Mira Gonzalez.



Mira Gonzalez é uma poeta estadunidense nascida em Los Angeles, Califórnia, em 1992. É autora do livro i will never be beautiful enough to make us beautiful together (Sorry House, 2013).


Está associada ao movimento que vem sendo chamado de alt-lit. Atualmente, vive e trabalha no Brooklyn, em Nova Iorque.

--- Rubens Akira Kuana

§

POEMAS DE MIRA GONZALEZ
traduções de Rubens Akira Kuana

Hoje meu despertador tocou às 12:30

eu fiquei na cama por mais de uma hora
olhei coisas no meu celular
eu me senti levemente ansiosa sobre nada em particular
eu desci as escadas e servi café em uma jarra
eu perguntei a uma pessoa na internet se eu deveria usar drogas
eu usei drogas antes que a pessoa tivesse tempo para responder

eu me sinto alienada por pessoas que expressam preocupação sobre mim sem

definirem suas preocupações em termos de um objetivo ou solução específica
eu não me sinto reconfortada pela ideia de uma vida após a morte
eu não quero continuar experimentando coisas depois de morrer
eu quero que alguém puxe meu meu cabelo porque eu gosto da ideia de alguém
controlando minha cabeça sem tocar minha cabeça

qual é a diferença entre ser uma pessoa independente
e ser uma pessoa que está aceitando a solidão

:

Today my alarm went off at 12:30 PM

I stayed in bed for over an hour 
looked at things on my phone 
I felt slightly anxious about nothing particular 
I walked downstairs and poured coffee into a jar 
I asked a person on the internet if I should take drugs 
I took drugs before the person had time to respond

I feel alienated by people who express concern about me without 
defining their concern in terms of a specific solution or goal 
I dont feel comforted by the idea of an afterlife 
I dont want to continue experiencing things after I die
I want someone to pull my hair because I like the idea of someone 
controlling my head without touching my head

what is the difference between being an independent person 
and being a person who is accepting of loneliness

§

2 semanas atrás eu estava procurando drogas em uma festa

um cara me deu álcool e em seguida me diagnosticou com 'transtorno depressivo'
eu disse 'eu acho que não tenho isso' e 'obrigada'
hoje eu roubei e bebi 3 red bulls
pessoas já tiveram paradas cardíacas ao beberem mais de 3 red bulls em um dia
pensar sobre a morte me faz sentir minúscula e calma
eu realmente não estou interessada em morrer agora
às 14:00 eu tomei analgésicos e caminhei até a praia
eu toquei um caranguejo e um ouriço do mar e uma coisa mole
eu acho que vou parar de usar óculos
as coisas parecem melhores quando eu não consigo vê-las claramente
eu quero sentir uma emoção que seja como ser socada na cara durante 3 anos

:

2 weeks ago I was looking for drugs at a party

one guy gave me alcohol then diagnosed me with 'major depressive disorder' 
i said 'i don't think i have that' and 'thank you' 
today i stole and drank 3 red bulls
people have gone into cardiac arrest from drinking more than 3 red bulls in a day
thinking about dying makes me feel tiny and calm
i feel mostly uninterested in dying right now 
at 2pm i took pain killers and walked to the beach 
i touched a crab and a sea urchin and a squishy thing 
i think i am going to stop wearing my glasses 
things seem better when i can't see clearly 
i want to have an emotion that feels like being slowly punched in the face for 3 years

§

sem título 5

eu estou assistindo pessoas que estão dançando e se tocando
eu estou bebendo vodka com gelo e me sentindo extremamente fodida
eu me pergunto se as pessoas se sentem mais sós agora do que a uma hora atrás
quando estavam em seus quartos olhando coisas na internet

:

untitled 5

I am looking at people who are dancing and touching each other
I am drinking vodka with ice and feeling incredibly fucked
I wonder if anyone feels more lonely now than they felt an hour ago
when they were alone in their rooms looking at things on the internet

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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Abolição da escravidão no Brasil: textos de Leo Gonçalves e Marcus Fabiano Gonçalves sobre o 13 de maio de 1888

Ontem, 13 de maio, comemorou-se 127° aniversário da Abolição da Escravidão no Brasil, como se sabe o último país no Ocidente a fazê-lo. Gostaria de reproduzir aqui duas intervenções feitas ontem nas redes sociais, pelos poetas Leo Gonçalves (Minas Gerais, 1975) e Marcus Fabiano Gonçalves (Rio Grande do Sul, 1973). 

Leo Gonçalves discute a questão da "celebração" da data, algo que foi questionado ontem nas redes sociais por alguns ativistas. Seu texto lembra-nos da importante participação de poetas e outros intelectuais no processo, como Luiz Gama, Castro Alves, Cruz e Sousa, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio.

Marcus Fabiano Gonçalves revê a posição da Família Imperial no processo abolicionista, divulgando a recém-descoberta carta da Princesa Isabel (1846-1921) a Manuel Afonso de Freitas Amorim (1831-1906), o Visconde de Santa Victória, datada de 11 de agosto de 1889 (notem a proximidade do Golpe de Estado republicano), na qual a princesa discute em sigilo os planos de Dom Pedro II e da família imperial para os passos a serem tomados após a abolição. Passos que, sabemos hoje, jamais foram dados com a queda e exílio de Dom Pedro II, e certamente não, mais tarde, pela República.

Somos um povo, infelizmente (assim nos quer a elite brasileira) sem memória histórica, ainda muito guiados pelas narrativas oficialescas escolares. Conhecer e repensar nossa História é um papel importante para tentarmos melhor atacar os problemas estruturais da República no Brasil, e fico feliz em divulgar aqui as contribuições de poetas com esta consciência histórica. Concordar ou não com eles fica a critério vosso.

Encerro a postagem com as vozes entrelaçadas dos escravos nas vozes dos grandes: Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme, com o álbum completo O Canto dos Escravos (1982).

--- Ricardo Domeneck

§



SOBRE O 13 DE MAIO

por Leo Gonçalves




Ontem eu vi algumas pessoas aqui reclamando que as madames brasileiras se incomodam quando vêm médicos cubanos para o Brasil e que comemoram quando chegam as babás filipinas. E fiquei pensando: ora, nada mais coerente! O Brasil é uma grande sociedade escravocrata. Tudo o que as classes mais ricas querem é que seus empregados sejam seus serviçais. Quando digo "empregados" estou me referindo a toda e qualquer pessoa para quem essas pessoas desembolsam algum dinheiro. Portanto, se médicos estão incluídos, que dirá sua babá. Claro que cada um com seu estilo, sua aparência. Um médico tem que dar boa impressão. E para isso, não pode se parecer com suas faxineiras. Da mesma forma, trazer faxineiras de longe é como que burlar a lei brasileira que não permite mais a permanência de empregadas em casa. Um jeito de ter serviçais-quase-escravas que não têm lugar para voltar no final do dia. 

O 13 de maio, andei vendo por aqui, muitos dizem que não é data a se comemorar. Eu digo: é sim! Como não!? Comemorar não significa não criticar. Claro que é, como toda a legislação brasileira, uma tabula rasa. Uma lei que estipula o fim de uma coisa sem achar as soluções para isso. Mas é possível que o dia 13 de maio de 1888 seja a data mais importante já ocorrida no Brasil. E, é óbvio que ela não foi criada pela Princesa Isabel. Havia toda uma confluência para que ela pudesse ser assinada. Há quem diga, inclusive, que a ausência de Dom Pedro II previa essa ação, já que o rei não achava politicamente estratégico, ele mesmo, assinar a tal lei. Alguns autores dizem que a proclamação da república foi uma resposta da elite brasileira à abolição. Ou seja, a abolição mudou todo o contexto do país. E deve ser comemorada por todos. 

O dia 13 de maio marca o fim de lutas de pessoas como Luiz Gama, Castro Alves, Cruz e Sousa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Rui Barbosa e outros muitos intelectuais brasileiros que vinham há décadas denunciando a desumanidade desse sistema de trabalho. Acontece que o Brasil, como já falei acima, era (e é) uma sociedade fundada no e sustentada pelo escravismo. O significado do 13 de maio permanece como a primeira grande reviravolta nas relações humanas deste país. Muito mais libertária do que o 7 de setembro e o 21 de abril juntos.

Por fim, concordo com uma coisa: o dia 20 de novembro, data em que Zumbi morreu há mais de 300 anos, é sim a data mais importante para o negro brasileiro. Mas não aceito a outra versão que diminui a importância da Lei Áurea: o dia 13 de maio é uma data importante para todos os brasileiros. De todas as cores. Desde esse dia está abolida a "escravidão". Não somente a escravidão negra. Toda e qualquer escravidão é terminante proibida e revogadas as disposições em contrário.

Um amigo argentino, certa vez, me contou da família de sua mulher. Que teriam vindo da Itália no final do século XIX e tentado se estabelecer em São Paulo. Acontece que, por aqui, os fazendeiros tentaram escravizar seus novos lavradores imigrantes. Horrorizada, a família conseguiu escapar pelo sul do país, indo se estabelecer em Buenos Aires onde encontraram melhores condições de vida. Ou seja, toda pessoa está sujeita ao trabalho escravo. Independente da cor.

A mente brasileira foi, é e continuará escravista. Portanto, comemore, minha gente. Comemore sim. Não por ser negro. Mas por poder hoje não ser nem senhor nem escravo/a mais. E do jeito que as coisas andam retrocedendo por aqui (e obedecendo à mentalidade das tais madames e seus respectivos bolsonaros), a qualquer momento até mesmo essa lei pode ser revogada.



§


REPUBLICANDO O IMPÉRIO

por Marcus Fabiano Gonçalves


A CARTA DA PRINCESA ISABEL AO VISCONDE DE SANTA VICTÓRIA

Que a abolição tenha nascido de uma Lei que custou à Coroa o seu trono não significa que ela não tenha sido também, e até principalmente, uma conquista árdua dos negros, cativos e libertos, e de seus partidários. Os historiadores revelaram, em 2012, uma dramática carta da Princesa Isabel ao Visconde de Santa Victória, datada de pouco antes do golpe republicano que gerou o banimento da família imperial. Esse documento demonstra inequivocamente o que Dom Pedro II e Joaquim Nabuco planejavam como um projeto completo de Abolição: A TITULAÇÃO DA PROPRIEDADE FUNDIÁRIA, A INDENIZAÇÃO E A EDUCAÇÃO para os recém libertos, mesmo que à custa da fortuna pessoal do Imperador. Observe-se também que Sua Alteza Imperial assume ainda, nessa mesma carta, uma postura arrojadíssima para a época, defendendo explicitamente a libertação das mulheres do cativeiro doméstico pelo sufrágio feminino. Uma leitura aconselhável para quem anda obcecado com as questões ditas de "gênero" e de "raça" nas suas versões norte-americanas "for export".


* * * * *

11 de agosto de 1889 – Paço Isabel
Corte midi

Caro Snr. Visconde de Santa Victória

Fui informada por papai que me collocou a par da intenção e do envio dos fundos de seo Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do anno passado, e o sigilo que o Snr. pidio ao prezidente do gabinete para não provocar maior reacção violenta dos escravocratas. Deus nos proteja si os escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio pois seria o fim do actual governo e mesmo do Império e da caza de Bragança no Brazil. Nosso amigo Nabuco, além dos Snres. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderam dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Camaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brazil!

Com os fundos doados pelo Snr. teremos oportunidade de collocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas proprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas tirando seos proprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seos bens, o que demonstra o amor devotado do Snr. pelo Brazil. Deus proteja o Snr. e todo a sua família para sempre!

Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba porém infeliz, que o Snr. e seo estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Snr. Mauá significou huma grande derrota para o nosso Brazil!

Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais hum pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos captivos. Quero agora dedicar-me a libertar as mulheres dos grilhões do captiveiro domestico, e isto será possível atravez do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar!

Agradeço vossa ajuda de todo meo coração e que Deos o abençoe!

Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.

Muito d. coração
ISABEL

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O CANTO DOS ESCRAVOS: cantado por Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme





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