sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Uma fotografia histórica e a questão de Leo Gonçalves




Ontem coloquei aqui a pergunta: "já pegou alguém no laço?" e recebi respostas ótimas. Alegres, românticas, eróticas, jocosas. Por isso mesmo, chego a ficar hesitante sobre dizer isso que vou dizer. 

Já não sei mais contar quantas pessoas me disseram que "sua bisavó foi pega no laço". Contado assim, parece quase bonito, coisa de romance romântico, praticamente todo brasileiro é descendente da Iracema de José de Alencar. 

O que pouca gente percebe é que, quando falam isso, não estão dando a mínima para essa suposta bisavó. Quem era ela? Como se chamava? Tinha parentes? Por que foi pega no laço e não seduzida? Por que seu bisavô não preferiu enchê-la de presentes, pedir a mão ao pai dela, explicar que estava apaixonado e isso fazia dele um homem inseguro de suas próprias convicções acerca de raça, credo, cor?

A verdade é que os caçadores de "bugres" estiveram espalhados por todo o país nos séculos XIX e XX. Jagunços que eram pagos para invadir aldeias indígenas, matar todo mundo, cortar seus membros, pelo que eram muito bem recompensados.

Bugre é como costumavam chamar os índios no passado. Assim também, já ouvi dizerem: "Minha avó era bugra". Bugre significa "herege", para quem não sabe. E foi nome dado aos índios por estes não serem cristãos e, obviamente, para terem uma desculpa esfarrapada para matá-los e para raptar suas mulheres.

Na foto, um grupo de "bugreiros", como eram chamados os capangas, acompanhados de duas das bisavós de vocês e alguns dos filhos delas.


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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Aïsha Devi



Aïsha Devi é uma produtora de música eletrônica (e poeta da voz) nascida na Suíça, de origem tibetana.

Após lançar alguns EPs sob o codinome Kate Wax, lançou sob seu nome Aïsha Devi, com o selo Danse Noire, o EP Aura 4 Everyone e o 12″ Hakken Dub/Throat Dub, seguido agora por Conscious Cunt, que pode ser ouvido abaixo.

Agradecemos ao poeta sonoro vienense Oskar May por chamar nossa atenção para o trabalho da suíça-tibetana.




quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Rap brasileiro: Dina Di, por Ederval Fernandes

Seguimos hoje com o dossiê sobre o rap brasileiro, que o poeta baiano Ederval Fernandes vem preparando para a Modo de Usar & Co.




Dina Di (Campinas, SP - 1976-2010)

Nos últimos anos, Mano Brown, antes um tanto avesso a aparições e entrevistas para a grande mídia, mudou um pouco essa postura. Inclusive, algumas de suas declarações recentes têm provocado burburinho entre seus antigos fãs. Por exemplo, numa entrevista para a Revista Cult, Brown fez elogios à Regina Casé, por esta, segundo ele, ter “estudado, observado e criado” o Esquenta (Rede Globo). Único programa de auditório da Globo que traz um bom número de protagonistas negros em seu elenco, Brown diz sentir orgulho de todos que fazem parte do programa. Alguns anos atrás, creio eu, seria muito difícil ouvir de Mano Brown um elogio que seja sobre qualquer atração da Globo. Em ‘Você me deve’, de Cores de Valores (2014), Brown rima: “Bora Pixote, Hollywood não espera. / Nova era / Os pretos têm que chegar / Tem que chegar / Por que não?” Os pretos “têm que chegar” ao poder, têm que ocupar também os espaços privilegiados da sociedade, têm que ocupar a mídia, o estado, o mercado, a fama, etc. Por que não?
Segundo Brown, as mulheres “têm que chegar” também. Nessa mesma entrevista à Cult, o músico é perguntado se considera o rap nacional machista. Ele responde que sim: “é machista porque o Brasil é um país machista”. Ressalta, porém, que as mulheres precisam assumir o poder, porque os homens já provaram que são ineficientes. O machismo já demostrou de variadas formas que é falido. Esta é uma grande mudança de mentalidade, pois não é infundada a alegação de que algumas músicas dos Racionais possuem inclinação machista. Aliás, até antes do disco Cores e Valores, as mulheres nas letras dos Racionais eram divididas em duas instâncias: a “mãe”, espécie de mártir que viveu todas as adversidades possíveis para criar e educar seus filhos, e “as vadias” ou as “Mulheres vulgares”, título de um dos raps do início da carreira do grupo:

Pra ela, dinheiro é o mais importante.
Seu jeito vulgar, suas ideias são repugnantes.
É uma cretina que se mostra nua como objeto,
É uma inútil que ganha dinheiro fazendo sexo.

Em 2002, a carioca Nega Gizza lançou o single “Prostituta”. “Você acha que é falta de moral? / Promiscuidade excessiva? / Seja puta dois minutos e sobreviva”. Não consigo ver resposta melhor ao verso: “É uma cretina que se mostra nua como objeto / É uma inútil que ganha dinheiro fazendo sexo”. Como se não bastassem as estrofes de profundo machismo e mau gosto, o refrão de “Mulheres Vulgares” é extremamente constrangedor. “Diferentes, e não iguais”, rima Ed Rock, em certa altura:

Somos Racionais, diferentes, e não iguais.
Mulheres Vulgares, uma noite e nada mais!

Mesmo admiradora confessa dos Racionais, a rapper Dina Di sempre demarcou sua crítica à inclinação machista do grupo. Não apenas do grupo, mas de grande parte do movimento Hip Hop paulista. No começo da sua trajetória, lá pelo início dos anos 90, Di usava roupas mais largas quando estava no palco para que os “manos do rap” prestassem mais atenção às suas ideias do que ao seu corpo. Uma atitude de quem sentia na pele o ambiente opressivo de ser uma das raras vozes femininas no rap nacional. Em um especial intitulado “A voz feminina dos becos”, publicado na revista Época, em 2002, Di, argumentando que o olhar masculino não tem o mesmo poder de radiografar a alma feminina como o olhar da própria mulher, questionava alguns procedimentos de Mano Brown: “o homem pode ver, mas não pode sentir. Por isso, eu tenho o maior respeito pelos Racionais, mas, vai me desculpar, chamar uma mulher de vadia é muito difícil de aceitar. O Mano Brown fala da mãe nas letras, mas nunca da mulher dele”. De fato, só recentemente é que as músicas de Mano Brown saíram do maniqueísmo mãe vs. mulheres vulgares. É recente o fato de haver música que retrate, por exemplo, o corpo feminino de uma forma menos agressiva ou pejorativa.

O corpo feminino, inclusive, também foi assunto controverso nas músicas de Dina Di. E este é de fato um ponto instigante da relação entre Dina e o aparelhamento machista da cena Hip Hop. Porque, de alguma forma, ela acabou reproduzindo em suas rimas certos lugares-comuns que encontramos, por exemplo, na já citada “Mulheres Vulgares”. “Corpo em evidência”, do penúltimo disco do seu grupo Visão de Rua (“A noiva do Tchock”, de 2003) contêm um discurso um pouco sectário e ácido às “mulheres-objeto”, sem ao menos explorar as condições complexas desta construção identitária (vá lá, me desculpem por este meio-jargão acadêmico). Kelly Key é um dos alvos:

De um corpo perfeito
e uma mente vazia, 
uma atriz pornô que
interpretou uma vadia.

Tem buceta pra dar e vender.
Explora a belê.
Leva uma vida de princê.
Pensando o que?

Nem sabe o que é sofrer,
de Cherokee.
Tem até jet-ski.
Dinheiro é mato.
É só fingir.

Ai da Kelly Key se fosse feia.
É, eu vi seu pôster nu,
até seu cu,
no boi de uma cadeia.

A mesma chance não teria. 
Cá ente nós,
com aquela voz
e o corpo cheio de estria.

A segunda parte, porém, é uma explanação sobre o corpo feminino como objeto central e hipnótico da indústria pornográfica na internet. Assunto muito importante no período do seu lançamento, porque coincidia que a massificação da internet no país. E o rap, como instrumento de conscientização, ‘deveria’ tocar neste assunto para esclarecer seus ouvintes.

Lindas de ver e de fazer
muito homem enlouquecer.
Atrás não é preciso correr.
Elas vêm até você.
Acesse o cardápio do dia.
Ninfetas, hum. Bater punheta vicia.
Purifique seu pensamento dessa fome.
Pornografia é anti-amor,
uma carne podre que tantos consomem.


*

É interessante pensar nas circunstâncias do rap paulista quando Dina Di, com seu grupo Visão de Rua, apareceu em Campinas. Pelo que consta, Visão de Rua lançou o primeiro disco em 1998. É possível que o grupo seja de um tempo anterior. Neste período, Rio e São Paulo, as duas maiores escolas do (naquela época ainda recente) rap nacional, seguiam caminhos um tanto diferentes. Enquanto a escola carioca tinha um rap de feitio mais estetizante (vamos ficar com esta palavra na falta de uma melhor), um tipo de música que expressava mais o estilo de vida dos skatistas e seus pares; o rap paulista se constituiu em torno do rap de denúncia e conscientização.

Toda generalização é perigosa, mas vamos tentar esta: tomemos o Planet Hemp e os Racionais como exemplo. A comparação me parece interessante porque foram bandas contemporâneas e que, de alguma forma, centralizaram os modos de expressão do rap de suas regiões durante boa parte dos anos noventa. Enquanto o Planet, que, aliás, não era ‘apenas’ uma banda de rap (sua genealogia musical remonta à De la Soul, Beastie Boys, música jamaicana dos sound systems e por aí segue), apesar de uma eventual crítica social, militava principalmente pela descriminalização e legalização da maconha (mas no fundo a banda pregava mesmo era algo como um hedonismo urbanoide – é claro, nada próximo do que Don L viria a fazer no começo da década de 2010); os Racionais, seguindo a cartilha estética de grupos como Public Enemy, produziam seu rap de denúncia sobre as mazelas da sociedade brasileira, abordando temas como criminalidade, desigualdade social e racismo. Percebidas as duas linhas mestras do rap nacional nos anos noventa (é claro, não estou me esquecendo de MV Bill, rapper carioca que, pela sua obra, está mais perto dos “paulistas”), fica mais fácil perceber a verve na qual Dina Di se filia. Não é à toa que “Irmã de Cela”, uma das primeiras músicas gravadas por ela, tem um destinatário tão concreto:

Eu vou invadir sua mente
Que nessa altura está confusa
fraca e inconsciente.

Irmã de cela”,
baseada na realidade
do nosso sistema carcerário,
podre e digno de pena.


Fora o flagrante ineditismo de uma voz feminina rimando sua “experiência pessoal” no sistema carcerário brasileiro, no fundo é mais um rap de denúncia e para um público bastante específico, aqueles cujas mentes estão “confusas, fracas e inconscientes”. “Irmã de cela” faz parte do repertório do primeiro disco do Visão de Rua, “Periferia é o alvo” (1998), e é um texto modesto, sem maiores atrativos se compararmos, por exemplo, a “Diário de um detento”, dos Racionais, cujo o tema é semelhante, mas o trabalho textual e musical é muito mais elaborado. Um rap deste disco, porém, chama minha atenção: “Marcas da Adolescência”. Ele tem um estranho apelo pop. O refrão, melódico, tem um sotaque gospel, com um bonito moog ao estilo do melhor Dr. Dre dos anos noventa. A letra é interessante, e até então inédita (na cena do rap brasileiro), apesar de explorar antigas e contínuas situações machistas: homens que não se assumem como pais, mães solteiras que tentam educar seus filhos mesmo com as situações mais adversas, “mulheres que são educadas para amar com fidelidade e homens que são educados para ser amados”, etc.

Eu sou a mãe do seu filho
que você nem viu crescer.
Nunca sequer deu valor,
nunca sequer quis saber
de entender a dor dos meus pais,
dos meus irmãos.
E tem mais:
dos sete anos em cana,
das correrias, cigarros,
das muitas noites sozinha
à espera da sua liberdade
e você já na primeira oportunidade
me troca
por vagabunda de farra,
pelas noitadas de bar,
uma carreira,
um tiro de coca,
por um cachimbo de crack.
É foda.


A música “Mulher de malandro” é do segundo disco do Visão de Rua. Ruas de Sangue, lançado em 2001, demonstra a evolução lírica da rapper campinense. Embora os temas sejam praticamente os mesmos – crime (com todos os seus subtemas), pobreza, miséria, etc –, seu vocabulário ganha mais complexidade e profundidade. O seu flow ganha mais agilidade. Era comum, nos anos noventa, associar um estilo de flow mais lento à escola paulista e algo mais acelerado à escola carioca. No começo da década 00, as influências começaram a se embaralhar. Enquanto a Dina Di de Ruas de Sangue começava a acelerar o seu flow, Xis lançava seu potente (e aceleradíssimo) hit “Chapa o Coco” e Sabotage, ainda procurando uma brecha da cena para aparecer, confeccionava um jeito de rimar único, com uma agilidade e velocidade totalmente fora dos padrões paulistas (e cariocas, e brasileiros). “Mulher de malandro” é mais um dos raps de Dina Di relacionados ao mundo carcerário. Se em “Irmã de Cela” a voz vem de dentro da cadeia, “Mulher de malandro” (assim como a já citada “Marcas da adolescência”) joga uma luz sobre as mulheres que esperam pela liberdade dos seus companheiros.

Mulher de malandro, se pá, tem uma sina.
Sei lá, virou rotina. É foda.
Porta de cadeia, humilhação.
Vou dar a volta por cima.
Penso sair fora e sumir.
Não, não é bem assim.
Se o cara fez o que fez,
foi pelo filho e por mim.

(...)

Aqui se faz, aqui se paga.
Aqui, veneno o tempo inteiro.
Sem pai pro meu pivete,
sem marido, sem dinheiro.
Hoje em dia
eu queria ser uma mulher
independente.
Ter meu canto, meu emprego
sem ter que contar com família
e parente

Depois que a minha mãe se foi,
o resto, ih, eu nem insisto.
Eu tenho 6 irmãos,
Nenhum, se pã,
lembra que eu existo.


É intrigante pensar na familiaridade e na recorrência do tema do cárcere na discografia de Dina Di. Aliás, não só na sua discografia, mas em outros âmbitos de sua vida e como estes setores (pessoais e artísticos) se retroalimentaram. Dina Di tinha ciência que sua música era ouvida pela população feminina das penitenciárias de São Paulo, e que o seu rap, de algum modo, as “ajudava”. Aos repórteres de Época em matéria já mencionada, ela disse: “quando a mulherada ouve as minhas músicas, sabe que não está sozinha”. A própria rapper já passou pelo cárcere e, no limite, boa parte da sua vida foi marcada entre a prisão (quase) alienante de uma vida de pobreza e violência cotidianas e a ‘liberdade’ que o rap lhe inspirava e que, infelizmente por um curto período antes dela falecer por complicações no parto do seu segundo filho, de fato lhe instituiu.

O terceiro disco do grupo liderado por Dina Di foi produzido por Helião e Dj Cia, ambos da família RZO (lendário grupo da zona oeste paulista, um dos mais importantes coletivos de rap do Brasil). “A noiva de Tchock” é um trabalho muito superior aos anteriores em todos os quesitos: musical, textual e de produção. A voz de Dina Di está mais potente e as suas rimas possuem outros temas menos trágicos. Já há espaço, inclusive, para refletir sobre sua própria caminhada de destaque no rap, como nas canções “Dina Di 2004”, “Guerreiros” e “Vem ver”:

Sou o que sou.
Visão. Dina Di.
A caminho do tri.
De avião, por que não?
Vamo nessa, Helião,
Chama a Li.

E quando os velhos temas ressurgem, como o cárcere (“Do lado de fora da Muralha”), suas palavras, mais sábias, menos carregadas de frustração, ganham uma nova densidade, algo difícil de explicar, mas que em seus trabalhos anteriores prescindiam. O exemplo melhor desta ‘nova densidade’ é “Filho pro mundo”. Este rap, que tematiza sobre a relação mãe e filho, o faz com tanta amplidão, que nos faz pensar sobre as escolhidas individuais, sobre até que ponto a influência dos pais na criação dos seus filhos é de fato importante, e como “o amor de uma mãe” (como construção social) é algo extremamente complexo. Nesta música há uma colagem de uma fala do Datena, caricato repórter policial da tevê aberta brasileira, na qual ele registra a prisão em flagrante de um possível assassino e estuprador. Datena, em sua falsa retórica de ‘sujeito de bem’ indignado, reclama: “Tira esse lixo da tela”. Os versos de Dina Di que precedem esta colagem possuem um poder reflexivo muito grande. Sem dúvida, este é um de seus melhores momentos como rapper.

Em tempos de dor,
quando orar costuma ser em vão,
a verdade é uma só: o amor da maioria esfriou
e até os cristãos
comem o pão que o diabo amassou

Cristo, olhai por isto.
Criei com sacrifício.
Não foi pra ouvir o Datena dizer
"tira da tela esse lixo".

Uma cena forte que chocou.
Um flagrante de um estuprador.
Eu só lamento pela mãe.
Olha o monstro que ela criou...


Essa música me impressiona demais. Eu fico pensando: como deve ser para uma mãe não conseguir parar de amar um monstro?


§

sobre o autor




Ederval Fernandes é um poeta e crítico contemporâneo brasileiro, nascido em Feira de Santana, Bahia, a 25 de outubro de 1985. Formado em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana, o poeta vive e trabalha hoje em Lisboa. Estreou com  O Livro Conta Corrente (Feira de Santana: Sarò, 2015).

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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Diego Callazans


Diego Callazans é um poeta contemporâneo brasileiro, nascido em Ilhéus, Bahia, a 6 de julho de 1982. O poeta cresceu, no entanto, em Aracaju, Sergipe, onde vive desde os 5 anos.  Publicou A poesia agora é o que me resta (2013), Nódoa (2015) e a plaquete Blasfêmias (2015). Os poemas abaixo formam seu livro ensejos, que publicamos na íntegra aqui.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DIEGO CALLAZANS

ensejos (livro completo)


canta, ó Musa!
mas devagar...
que cato milho
ao digitar.




[insônia]

já passa do momento
de ser algo.
o pé moldou o sapato.

vieram as reticências e o mais
da vida é inércia;
não insista.

a sorte caleja aos 30.
e o sono se vai
às 3.


§


[complexo]

tick tock,
sounds the clock
– mas só o do ianque no Iraque.

no éden tupiniquim,
relógio douto é assim:
triste traste.


§


[Aracaju]

                           a C.B.

a bruma solar
coroa de espasmos
os traços do centro.

no lodo carnal
incontáveis freaks
rastejam lateralmente.

perfumam-se de almanaque
e entre hostes vagueiam,
parlamentares.

mais fétido unguento
que os olhos imberbes
ousaram um beque.


§


[blasé no bus]

num Circular pouco denso,
ele apossou-se do assento
e se trancou nos ouvidos.

mas veio o sol deitar vinco
no alheamento metódico.

só se pode ser cool ao sul do Trópico.


§


[um passante]

ontem saiu um poema.
alguém o leu de relance
e, amassando os rabiscos,
encarcerou no mais fundo.

mas inda sente o ruído
dos versos roendo o ludo.
quer retornar ao mugido.
quer das palavras só ordem.

as mil rasuras do dia
quase obliteram o escrito.
mas o poema de ontem
embrulha o vazio de hoje.


§


[motivo]

as circunstâncias
têm seu vazio.

a arte entope o
ralo .'. mosaico
par'onde acorre
o impensado.

em certas doses
deve Absurdo(cc)
ser ministrado.


§


[ensejo]

tombar a secreta bastilha.
rasgar dinastias larvais.
alçar-se a um novo estado:
o poético.

ser vela a trepidar
sob este véu contínuo.


§


[post]

&,
after the end,
what's left
as choice?

2
take great pieces
&
make some noise.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Tomas Venclova


Tomas Venclova é um poeta lituano, nascido na cidade de Klaipėda em 1937. Seu pai, Antanas Venclova (1906-1971), foi um poeta, jornalista e tradutor soviético. O filho, dissidente do regime, causaria dores de cabeça ao pai. Proibido de publicar, Tomas Venclova teria um lançamento oficial apenas em 1972, com Um sinal de fala. É considerado hoje um dos mais importantes poetas do Leste Europeu, tendo recebido importantes prêmios como o Petrarca e o Prêmio de Duas Nações, dividido com o polonês Czesław Miłosz.

Tomas Venclova vem ao Brasil pela primeira vez, a convite do Festival Artes Vertentes 2015, que ocorre entre os dias 10 e 20 de setembro, em Tiradentes, Minas Gerais. As traduções abaixo são de Flávio Britto.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE TOMAS VENCLOVA

Acolhido pelo crepúsculo e o frio

Acolheram-me o crepúsculo e o frio.
Passando os arcos pesados e inóspitos,
Dez estações no caminho a fio
E um monte de parques de novembro:
Este círculo, fixo e distinto,
Onde o feixe de uma lâmpada de cem watts,
pendendo para o labirinto,
acerta enganosamente a parede de tijolos.

O reino de Ariadne e Minos
Um novo lar que logo acabou;
Devido à bruma, sequer um avião
Recentemente levantou voo.
Quão cheios os trens, todos os dias –
Quanto espaço, quanto ar e dificuldade!
Então os presos, que à casa seguiam,
Sentiam por vezes saudade do guarda.

Como dívida que o espaço quitava,
Lugares familiares me ressurgiam.
‘Universidade, ônibus’, eu falava,
‘Ilha, monumento,’ repetidamente.
‘Amanhã vou sem eira’, falei
Ou ao menos tentarei partir
Com os vivos à beira eu deixei
Minha alma no escuro cair.

Velhos nomes e números se achegaram
Forma e sentido em cada letra alterados.
Fui seguindo as vozes que sumiam
Incapaz de nos achar conectados
No apartamento, trancado e sem habitante,
Os retratos já não me conhecem,
Nem em sonhos, no reino dos céus,
Ou no segundo círculo de Dante.

O tempo encurta, e convenhamos,
Não se perde o hábito de existir,
Mas eu diria, ao passar dos anos,
Longe se escuta o telefone tinir.
E só a memória, dia após dia
Se expande como bússola fria
Até que uma linha reta seria
O passado que um dia fingiu à distância.

Em realidade retalhada da realidade
Não se sabe o que se ouve ou se sente.
As margens asfaltadas do Aqueronte
Resistiram à insensível corrente.
Cada nada apoiado em si
E sem nós este mundo é tenaz
Só se pode alegar existir
O silêncio e as musas, não mais.

Onde o capital gira em aliança
E a bruma não trai o plenário
Onde os jogos na neve nos cansam
Demos graças pelo dicionário
E na terra onde a mão de um amigo
Não se doa a quem está sem coragem,
O poder mais supremo, o vazio
Envia os anjos: ritmo e linguagem.

Não peço o esquecimento de um minuto
Ou a morte, ou o perdão dos pecados
Mas deixe o gemido absoluto
Sobre a noite gelada e a pedra bruta.

§

A Marina da Nova Inglaterra

Não o mar, e sim brumas ardentes, lajes de concreto
e trilhos dejetados, trespassados pelo carmim fuliginoso do entardecer
que volta e meia rasga o céu. Envolto em
algas fétidas, o quebra-mar se projeta – um refúgio para gaivotas.
Onde a areia e o estreito convergem, um vulto aguarda o carmesim
desbotar ao longe da desordem repleta de mastros
e retornar a casa, chegado o momento. Mas onde é a casa?
Aqui, ou no litoral distante? Nas montanhas, onde avalanches
despojaram as encostas? Sob pinheiros de estradinhas rurais,
onde se veem profundezas de antigos porões? No corpo que envelhece
e se recusa a capitular? Ou quiçá na incerteza
em que viveste? Na certeza de que desaparecerás? Neste
lugar envenenado por ferrugem –
ou mesmo no olhar que ainda pode profetizar
a simetria, harmonia e medida que consiga encontrar?


(traduções de Flávio Britto)


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domingo, 23 de agosto de 2015

Anúncios literários do Festival Artes Vertentes 2015

A quarta edição do Festival Artes Vertentes ocorre entre os dias 10 e 20 de setembro na cidade de Tiradentes, Minas Gerais. Com direção artística de Luiz Gustavo Carvalho, o festival traz à cidade mineira músicos, escritores, artistas visuais, espetáculos teatrais e filmes de várias partes do mundo. A curadoria literária é de Luiz Gustavo Carvalho em colaboração com Ricardo Domeneck. Nos anos anteriores, vieram ao Brasil, graças ao festival, o poeta esloveno Tomaž Šalamun (1941-2014), a norte-americana Harryette Mullen, o argentino Ezequiel Zaidenwerg, o mexicano Alejandro Albarrán e o ucraniano Andriy Lyubka, entre outros, que leram ao lado de brasileiros como Leonardo Fróes, Ricardo Aleixo, Angélica Freitas e Reuben da Rocha.

Através do festival, foi lançada no Brasil a primeira antologia de poemas da israelense Tal Nitzán, O ponto da ternura (São Paulo: Lumme, 2013), e será lançada este ano também pelo Artes Vertentes a primeira tradução para o português de um romance do esloveno Drago Jančar, intitulado Desejo debochado. Drago Jančar é considerado um dos maiores escritores da Eslovênia, e estará presente no Festival deste ano para o lançamento do romance. Além dele, já foram anunciados na edição de 2015 o poeta lituano Tomas Venclova (n. 1937), o poeta mexicano Luis Felipe Fabre (n. 1974) e o poeta paulistano William Zeytounlian (n. 1988), que lançará durante o festival seu primeiro livro de poemas, Diáspora (São Paulo: Selo Demônio Negro, no prelo).

O festival acaba de anunciar hoje a presença ainda da poeta maranhense Lu Menezes. Venha para Tiradentes!





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sábado, 22 de agosto de 2015

Katie Holten


Katie Holten é uma artista gráfica e visual irlandesa, nascida em Dublim em 1975. Formou-se na Faculdade Nacional de Arte e Design de Dublim e obteve uma "Fulbright Scholarship" para continuar seus estudos na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Desde então, teve exposições em instituições como o Museu de Arte Contemporânea de St. Louis e o Museu de Arte de Nova Orleans, nos Estados Unidos, na KBH Kunsthal (Copenhague), no Centro Histórico da Cidade do México, e representou a Irlanda na Bienal de Veneza em 2003.  

As peças abaixo foram extraídas de seu livro, prestes a ser lançado, About Trees (Berlin: Broken Dimanche Press, 2015). Nele, Katie Holten publica textos referentes a árvores, usando uma fonte criada por ela, a "Trees", em que cada letra do alfabeto é substituída por um tipo de árvore. O alfabeto ilustra a capa do livro.




Num gesto de potência poética e (por que não?) política, Katie Holten transforma em florestas de signos textos de livros que um dia foram árvores até se transformarem em florestas dos nossos signos, textos dedicados a árvores agora no alfabeto delas, florestas nas florestas de signos de Baudelaire.



Acima, a página 26 do livro About Trees (Berlin: Broken Dimanche Press, 2015). Trata-se do ensaio de Tacita Dean intitulado “Michael Hamburger”, reescrito com o alfabeto "Trees". Abaixo, uma página de "Funes, el memorioso", de Jorge Luis Borges, no mesmo alfabeto arbóreo.



Há, ainda, textos de Lucrécio, Paul Klee, Franz Kafka, Natalie Jeremijenko, Zadie Smith, Agnes Martin, Ursula K. Le Guin, Fritz Haeg e Radiohead, entre outros. Katie Holten, que é irmã do romancista irlandês John Holten, vive e trabalha entre Dublim e Berlim.





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