segunda-feira, 27 de junho de 2016

Poema inédito de Victor Heringer

Hoje, na série de inéditos, poema de Victor Heringer, que diz ter abandonado a poesia.





o meu avô é o futuro
Victor Heringer

O pai do meu pai era meio maluco.

Era assim que os jornais do Rio de Janeiro
falavam dele: naturalista considerado
"meio maluco".

Ele vivia em um sítio
enfurnado num fim de mundo
chamado São Pedro da Serra
uma aldeiazinha no interior do Rio.

Montanhas, mato desbotado de sol, cheiro de água doce.

Quando preciso decidir algo importante
vou para São Pedro
e fico horas olhando a água corrente.

Todas as minhas decisões
foram erradas, mas
ainda confio
na água.

O meu avô plantava orquídeas ameaçadas
bromélias e samambaias
e outras plantas cujo nome não sei
porque sou erê urbano
e hoje em dia nenhum poeta sabe botânica.

Ele fazia os vasos para as plantas.
Vasos de cimento

O meu avô
provavelmente sabia
desmontar uma caminhonete velha
uma geladeira velha
uma máquina de lavar velha
um fogão velho
uma árvore de fruta
e montar tudo de volta.

O meu avô antes do microchip.

O meu avô devia saber
dirigir trator
e adivinhar quais pedras iam se descolar
como verrugas podres
das montanhas.

Eu não sei nada disso.

O meu avô fazia licores e geleias para vender.
Gosto tanto de seu comércio miúdo.

O meu avô criava caramujos
e dizia que era escargô.
Ele jogava suco de beterraba
em cima de açúcar União
e vendia para os da cidade grande
dizendo que tinha extraído o açúcar
da beterraba. A turistada comprava.
Gosto tanto que ele era também
esse trickster. Raposa velha
o tal. Tocava viola assim ganhou vovó.

O meu avô detestava ônibus escolares
jogava frutas neles quando passavam.
Eu me tornei professor
mas entendo as frutas.

Meu avô não devia saber
recitar a tabuada.

Quando os jornais perguntavam, meu avô respondia:
"– A gente tenta trazer a roça aos visitantes – diz, humilde. – Na verdade, entendemos as dificuldades por que passa o homem da cidade grande e por isso fazemos de tudo para agradá-lo." (O Globo, 20 de abril de 1989.)

Meu avô true folk.
Nunca teve barba.

Quando o levavam para a cidade grande
no primeiro descuido dos filhos
ele fugia de volta para o sítio.
Fugia a pé, correndo.
Meu avô era meio maluco.

Se alguém dissesse para ele:
Seu Milton
o mundo está cada vez mais quente
e as plantas e os bichos estão morrendo
lá vem a Sexta Extinção
Não sei o que ele responderia.
Não lembro como era a risada dele.
Não dá para quase ouvir a risada dele?
Ouve só o meu avô rindo.

Tem gente demais no mundo
seu Milton!
Ouve só o meu avô rindo
no meio do mato.

O meu avô é o futuro.
Este sou eu, no colo do futuro:



Ele parece um pouco o Picasso, o meu avô.
Careca e atarracado.
Um Picasso da roça.

Eu me pareço com meu pai, que se parecia muito com o dele.

Meu avô
se ainda fôssemos alemães, meu avô
teria feito dez anos de idade em 1945
em Munique
sob intenso bombardeio.

Que bom que os antepassados pegaram aquele navio
que se chamava Argus.
Vieram parar aqui neste fim de mundo

O meu avô é a Alemanha que deu certo.
O meu avô é a Europa do tamanho de uma pracinha de aldeia, com um coreto no meio, nem mil habitantes e só um policial leão velho desdentado.

O meu avô morreu quando eu era muito menino.
O meu avô é o futuro.

No fim das contas tudo
o que inventamos maiusculamente:
tudo se minusculizou.
A única virtude que nos resta
é a elegância.

Lembro que li uma velha história sobre o Beau Brummell.
Brummell era o deus dos dândis (1778-1840).
— Não há nada mais deselegante que um dândi

mas nessa velha história sobre o Belo Brummell
tinha uma anedota
uma curiosidade: os dândis tão ricos tão tédios
já não tinham o que fazer das roupas
tanta roupa tanto royal purple tanto ouro
que começaram a lixar tudo o que tinham
a desgastar os tecidos: blusinhas, casacos, túnicas
até que o que restou eram fios muito finos
quase gaze
aquelas para tapar feridas
e os dândis agora vestiam curativos
meu avô vivia sem camisa, só de shortinho
descalço mesmo no chão de terra
ou de havaianas azuis e brancas

(e os meus pés são tão finos
sinto tantas cócegas!)

O meu avô era mais elegante que os dândis.
O meu avô viu o homem pisar na Lua
e não deve ter achado nada de mais.

As três fotos que guardei do meu avô jovem
foram tiradas no início da década de 1950.
Nas três ele aparece bem vestido
terno, gravata e chapéu
– a tríade clássica do vestuário masculino.

Mas nunca os três juntos:
em uma das fotos está só de chapéu, sem terno e sem gravata
na outra, só de gravata
na terceira, só de terno.

Um homem elegante
jamais deve ser totalmente elegante.
Não há homem mais deselegante do que um mandão
todo poder é cafona.
Não há jeito elegante de invadir, matar e pilhar.
Nada mais cafona do que uma farda.
Nada mais cafona do que uma toga.

Horace Aliananga, em seu livro de aforismos
(A elegância como virtude intelectual, 1956)
disse de outra forma:
"A maior virtude do penteado de Maria Antonieta foi a guilhotina."

"Poucas coisas são tão elegantes
quanto um homem prestes a ser fuzilado
fumando seu último cigarro."



Verdades que vovô
não saberia formular.
Mas acho que as pressentia.

Ao longo dos anos
quanto mais ganhava notoriedade
como pioneiro ecologista
salvador de orquídeas
e homem de negócios miúdos
mais se despojava das cascas.

Passou a nadar com os sapos
em sua piscina de água natural
(feita de cimento)
e a andar sem camisa
descalço, vestindo shorts
de cinco reais.

Na última foto que tenho dele
estou bebê em seu colo. Ele está de pé
vestindo só uns shorts amarelados
no meio de uma estradinha de terra em São Pedro.
Um velho parrudo e forte
cabelo branco e o coração fraco
dali a alguns meses entraria em parada.

Careca e atarracado
o Picasso da roça
havia atingido a beatitude da elegância:
estava verdadeiramente nu.
Não precisava de curativos.

§


§

sobre o autor

Victor Heringer é um escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1988. Publicou automatógrafo (2011), o romance Glória (2012), e ainda O escritor Victor Heringer (2015). Mantém uma coluna na revista Pessoa. Seu próximo livro é o romance O amor dos homens avulsos, a ser lançado este ano pela Companhia das Letras.



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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Italo Diblasi



Italo Diblasi é um poeta brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1988. Estreou com o volume O Limite da Navalha (2016). Escrevi sobre seu livro de estreia para a revista Garupa.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE ITALO DIBLASI

O limite da navalha

    Havia crescido
       e era definitivo:
já tão banal o forte gosto
          da aguardente
de velhos tempos coisa alguma
         nem o corpo
também a pele manifesta seu devir
          extingue-se, camaleoa
  de máscara em máscara
o bruto corpo da árvore castigada
    ao cair das folhas.
              Cresci
perdi castelos e pudores
       perdi sorrisos, sim
            perdi favores
deixei aos sóbrios a vitória
      sobre o tempo
 ganhei silêncios & temores
           ganhei revolta
   quando mais queria calma
ganhei suor e não o pão
           ganhei o Ar
a plenitude do hemisfério
        a anarquia nos trópicos
   ganhei perdi
          ganhei & perdi
uma metralhadora de espantos
      em eterno ir e vir
e para sempre fustigado à labareda
   porque a vida era mesmo
       uma invenção do caralho
um paroxismo de doer as flores

§

Argonauta

 Sonhei com uma cidade submersa
que desconhecia luz e era habitada
por estranhas criaturas fluorescentes
que sentiam fome e amor,
mas sobretudo fome, e adornavam
as almas com cantos de guerra e
silêncios rompidos à chibata
mas havia alma e isso bastava
porque na superfície nós não tínhamos
nem isso, e o sonho desdobrava-se
num turbilhão de imagens em
que eu via o amor ser inventado
e escurecer e as trevas eram tudo
e eu dormia e desesperadamente
sabia que ninguém viria coroar
minha agonia porque acordávamos
todos os dias e quem quer que
quisesse viver teria de saber
que aqui não se sonha, não,
não se sonha sem custo
e o meu custo, tão doce e terrível,
era a loucura daquela cidade
que já desaparecia outra vez
e a insuportável luz volvia
com a realidade e tudo
o que se podia fazer era secar
os olhos e observar o sol dormir
atrás do mundo

§


A urgência

No último vagão
de um noturno qualquer
rumo a lugar nenhum
o indomável riso
de uma puta alucinada
que quer saber
o que diabos escrevo
a uma hora dessas
e pede lugar num poema
que a mantenha viva
até a semana que vem
e eu estou com ela
para uma última valsa
antes do fim

§


Gaia Ciência

é proibido
cuspir
no prato

é proibido
dormir
no asfalto

é proibido
trepar
no mato

é permitido
açoitar
as massas

é permitido
erigir
as farsas

é permitido
morrer
às traças

paremos, portanto, de fingir
que Nietzsche estava errado
quando enlouqueceu às portas
de explicar esse caralho

§

Oração a Quetzalcóatl

Eu queria ser o duplo de um Jaguar
   pra findar de vez o mundo
      outorgando-lhe a premissa
daqueles velhos calendários de pedra
              que diziam-nos da vida
            os ciclos
    e dos homens, a saudade
os nossos velhos calendários de pedra
      que resistem à sorte
para além de nossas vagas gerações
  e fazer deles morada
      de meu novo corpo-oráculo
   um oráculo de estômago e entranhas
proclamando a palidez dos dias
              em que tu
   observavas o inferno à distância
         enquanto eu me arrastava
                agrilhoado
      carregando-o nos calcanhares
           (o Inferno)
adormecido pela cáustica vingança
      das paredes bem pintadas
                        do cárcere
       em que nascemos
            tu, presa do corpo &
     eu, presa do tempo
para sempre solidificados num suspiro
              de pequena-morte

§


Um Cordel Perdido ou O Mito-Brasil

Diz o panfleto de Simão Sinésio (também conhecido como Simão, o Bardo), mestre de cordel e apologista do sebastianismo que perambulou pelo sertão de Pernambuco no último século, que três vezes uma estrela vermelha (uma estrela de fogo) cairia dos céus no sertão, primeiro como tragédia, depois como farsa, e por último, como espetáculo.

Conforme consta na profecia, cada estrela marcaria o nascimento de um coringa brasileiro, figura nietzscheana, nem boa, nem má, que confunde e comove, e que viria bagunçar o temeroso esquema-brasil até que o rei renascesse, separando o joio do trigo.

Também constava no panfleto o importante dado de que a terceira e última estrela trairia e seria traída pelos seus, para - em seguida - reabrir o baralho, ja sem cartas marcadas, que engendraria o triunfo do naipe de copas e seu coração flamejante.

Importante notar, entretanto, que os três coringas estariam destinados ao fracasso - um fracasso que empurra a história pra frente, como um germe, preparando o retorno de Dom Sebastião.

A primeira estrela, sabemos, trouxe Antonio Conselheiro, profeta de Canudos e dos desgraçados, marcado e aniquilado como Bandido pelos valetes de espada e pela imprensa oficial do século xix. Regente que regou com sangue a poeira do sertão, dando de beber aos seus.

A segunda, conforme nos informa a exegese dos poetas contemporâneos, trouxe Marighella, guerrilheiro negro e baiano assassinado como Bandido no Rio de Janeiro à época da ditadura militar, o governo do naipe de paus, que duraria 21 anos, regando com sangue o asfalto.

A terceira e última estrela, como se pode adivinhar, trouxe Lula, operário pernambucano perdido em São Paulo que chegaria ao poder, condenado ao amor e ao ódio, que traiu e foi traído, que errou e acertou, constantemente tentado pelo labirinto do poder, porque lutou a guerra silenciosa de copas contra o ardiloso naipe de Ouro$.

E aqui nos encontramos, ao estágio do mito-brasil descrito por Simão em que as massas se dividem. Há quem consulte os relógios e os bancos; ha quem consulte a bolsa de valores ou o próprio estômago.

Há os que olham para a televisão, para o horizonte e para o céus. Há os que olham para o mar à espera do rei. Enquanto isso, Lula, cognominado "A Jararaca do rabo partido", declara guerra e reúne as tropas. O baralho de ouros se agita e tambem estende as garras. Não faltam acusações e há farsas. Os acusadores bradam a aletheia, a verdade. A imprensa defende o seu naipe, e instiga: Bandido ou Herói?

E também isso Simão Sinésio, o Bardo, o que perambulou pregando, já havia respondido:

em matéria de Brasil,

Os dois!

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Poema inédito de Mariano Alejandro Ribeiro

Na série de inéditos, poema de Mariano Alejandro Ribeiro (Lisboa via Buenos Aires, 1993)





LONGEST WAY ROUND

aos solavancos
moving steadily toward my fate
se um dia deus quiser
teremos tempo para discutir
como meninos ricos, na esplanada
de um café
ao pequeno almoço
a fumar do mesmo cigarro e a ver
os pobres infelizes a passar no autocarro
e vamos pensar: “céus, graças a deus que não
somos eles”
ah ah ah ah
prima dona e mulher de saltos
um dia ainda vamos ler o ulisses
mas até lá
as palavras grandes são
tostas de queijo vegan na esplanada
e batidos de hortelã e espinafres
ou então na tua mala
uma aversão antiga
uma versão antiga muito antiga
da crítica à razão pura ou então
da fenomenologia do espírito
ou então
do tractatus do outro
mas quem pensas que és

porque o caminho mais longo, amiga
longest way round, amiga
is the shortest way home
e até lá as flores não vão perfumar o passeio
mas sim
a cabeça dos fulanos do autocarro
não te julgues
o último dos moicanos
ainda terás de dar o teu lugar
à velhota bigoduda

§


§

sobre o autor

Mariano Alejandro Ribeiro é um poeta nascido em Buenos Aires em 1993, mas vive desde os 9 anos de idade em Portugal. Tem poemas publicados no jornal literário da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Os Fazedores de Letras, e na coletânea Sizígia, da editora CanalSonora. Estreou com o livro Antes da Iluminação (Lisboa: Mariposa Azual, 2016).

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terça-feira, 21 de junho de 2016

Poema inédito de Ricardo Aleixo

Na série de inéditos, texto de Ricardo Aleixo (Belo Horizonte, 1960)




Manhã aberta

Me infinito, aqui onde começa
a manhã aberta

de azuis, sob o mesmo sol
de sempre que faz sol

em nossa casa.
Alguém canta ao longe,

já não sinto
saudades de nada, outro alguém

luta para dar partida em um carro
velho, um cão dos infernos

late, as formigas ocupam
partes do pão e o vinho de ontem à noite,

estrelas explodem sem que ninguém
perceba, o trânsito

é difícil a esta altura do dia em qualquer
dos dois rumos

que levam ao centro
da cidade, e no entanto

dormes, indiferente a todos
os barulhos deste mundo,

mas não – sei, porque sorris – a
este breve movimento

da minha enorme mão que toca,
com uma desajeitada alegria,

as tuas duas pequenas mãos,
entrecruzadas

sobre teu seio esquerdo.
Estamos vivos.

§


§

sobre o autor

Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1960. Publicou, entre outros: Festim (1992), Trívio (2001), Máquina Zero (2004), Modelos vivos (2010) e Impossível como nunca ter tido um rosto (2016).

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segunda-feira, 20 de junho de 2016

Juana Manwell [Mulher Coruja] (fl. 1880-1920)

Juana Manwell, conhecida como Mulher Coruja (floruit 1880-1920), foi uma poeta-xamã do povo Tohono O’odham (que significa "povo do deserto"), anteriormente conhecidos como Papago, cujo território tradicional estendia-se do deserto de Sonora, no México, ao Arizona, nos Estados Unidos.

Mulher do povo Tohono O'odham, fotografada por Edward Curtis em 1905


Entre 1880 e 1920, a Mulher Coruja receberia centenas de canções em rituais de comunicação com os espíritos dos antepassados do seu povo, canções que chegaram a nós por terem sido coletadas e gravadas pela importante antropóloga, etnógrafa e etnomusicóloga France Densmore (1867-1957) em 1920.

Frances Densmore coletando canções com Susan Windgrow (Makawastewin), do povo Dakota 


Poemas de Juana Manwell podem ser encontrados em antologias importantes como Technicians of the Sacred (1968), The Penguin Book of Women Poets (1978) e, mais recentemente, The New Anthology of American Poetry (2003), que tem, como a seleção seminal de Jerome Rothenberg, o grande valor de não hierarquizar nem segregar nacionalmente por línguas oficiais, mas reunir no primeiro volume Traditions and Revolutions: Beginnings to 1900, poetas como Emily Dickinson e W.E.B. Du Bois,  Stephen Crane e Juana Manwell, Walt Whitman e Too-qua-stee (do povo Cherokee), os poetas anônimos e compositores das canções dos escravos, sequestrados, ao lado das canções dos povos autóctones do território, desterrados.



Os poemas abaixo são parte dos encantamentos de Juana Manwell, a Mulher Coruja, canções-rituais de cura. Aproximações podem ser perigosas neste contexto, especialmente em uma tradição que não separa o estético do religioso, a performance do ritual. Mas, como Rothenberg em sua antologia, parece-me frutífero para nós perceber as conexões das tradições globais, vendo neste minimalismo de Juana Manwell, a Mulher Coruja, algo que perpassa-nos da poesia chinesa ao coisismo de um poeta como Vasko Popa. Assim, como em Technicians of the Sacred, permitimo-nos a vertigem de descoberta ao ler uma canção  anônima do povo Santali da Índia ao lado de um "salmo" atribuído a certo Davi, poeta daquela outra tribo. A vanguarda sempre esteve entre nós. Como aquele Anjo da História em Benjamin, ela sabe olhar para trás - e para o lado, e para baixo, e para cima. Rosa-dos-ventos dos desastres (des-astros, desiderações) que se acumulam vindos de todos os pontos cardeais.


--- Ricardo Domeneck

§

CANÇÕES PARA AS QUATRO PARTES DA NOITE
– canções rituais de Juana Manwell, a Mulher Coruja –

Na noite azul

Como hei-de começar minha canção?
Nesta noite azul que se avizinha?
Vou sentar-me aqui e começar minha canção.

§

O escuro eu adentro

Não distingo o que vejo.
O escuro eu adentro.
Não distingo o que vejo.

§

Vejo tufos de espíritos com penas brancas

À minha frente espalham-se penas de coruja.
Ouço algo correr em minha direção,
Eles me passam, e mais adiante
Vejo tufos de espíritos de macias penas brancas.

§

Na grande noite

Na grande noite meu coração vai sair,
Em minha direção chacoalha o escuro,
Na grande noite meu coração vai sair.

§

Eu verei a terra

Eu vou longe para ver a terra,
Estou correndo longe para ver a terra,
Enquanto em minha casa mesclam-se as canções.

§

A aurora aproxima-se

Temo que amanheça antes que eu chegue
Ao lugar que já vejo
Sinto os raios do sol me baterem em cheio.

§

A pena da coruja busca a aurora

É provável que a pena da coruja ache a aurora.
Ela a busca.
Ela há-de ver no leste brilhar vermelha a aurora.

§

A estrela da manhã

Sobe a estrela da manhã.
Eu cruzo as montanhas
E adentro a luz do mar.


(vertidas a partir das traduções de Frances Densmore para o inglês)

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sábado, 18 de junho de 2016

Poema inédito de André Capilé

Na série de inéditos, poema de André Capilé.





e se a torto e sem leme
anda entre bestas na chuva?

e se colocam preço
no que faz por consumo a prazo?

a que se presta o prumo
se nem assim encontra o centro?

a que se presta a alma
senão ao quefazer da carcaça?

no cascalho em que enterra os dedos
também morde o capim mijado

a boca na inflamação do escândalo
o cabelo que arranha a garganta

sua as unhas por fiar o crespo
espalhado no sorver da rama

para o que der e vier até lá
cada noite carrega suas mulas


§

sobre o autor


André Capilé nasceu em Barra Mansa, cidade do interior sul fluminense, em 1978. Doutor em “Literatura,  Cultura e Contemporaneidade”, pela PUC-Rio. Co-fundador e ex-organizador do ECO — performances poéticas. Publicou rapace (2012 — Editora TextoTerritório) e balaio (2014 — 7letras), pela coleção megamini e “A canção de amor de J. Pinto Sayão" (2015 — Edições Macondo), tradução de “The love song of J. Alfred Prufrock”, pela coleção Herbert Richers.

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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Poema inédito de Adelaide Ivánova

Na série de inéditos, poema de Adelaide Ivánova (Recife, 1982).

Adelaide Ivánova em retrato de Manuel Wetscher



o cavalo

               "I look
                      at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
                     except possibly for the Polish Rider"
                                                 Frank O'Hara

menino há dias tento desenrolar esse fio esse laço
desatar essa corda do meu pescoço e escrever
essas mal domadas linhas ofertá-las a ti menino e potro
surgido nesta estepe sem ferradura e assilvestrado
tirando os cowboys da sela e do sério: tu
menino poeta cavalo

e eu repetitiva nos poemas obcecada na vida
me embaralho feito cego em faroeste
ofereço-te meu açúcar meus torrões mais
pra pangaré e mula que pra égua e relincho,
amolestada e paleolítica, ao sacudir do teu galope
e ao balanço da tua crina

em repouso do topo da tua cabeça à minha
há um côvado de distância já em galope gallardo
inútil a antropometria da tua glande a meu chanfro
de equina não há côvado que nos meça yoctômetros
talvez aquela medida imaginária que nunca foi usada
pois mede lonjuras que não existem de tão mínimas

escrever um poema pra ti é domar um mustang
de santuário quando pra mim santo és tu menino
vishnu que me batizas de aminoácidos, precário
e matutino, potro poeta a quem dedico horas
de trabalhos não-forçados: pousar a fuça exausta
em tua soldra, levemente triste

não poder ver tua cara enquanto gozas na minha
para depois admirar tuas quartelas bordo e casco,
tuas estrias no lombo de potro bem alimentado crescido
mais rápido que o previsto. pulaste as cercas do estábulo
para chegar, poeta e cavalo, nestas paragens onde
me encontras pronta de sela esporas postas

para mais uma doma nesta sodoma aos avessos
sem cabresto gamarra deito-me devota em teu garrote
de puro-sangue belga e muda diante dos músculos
do teu costado em cilha aguardo a tala e entendo
o poema alemão que diz: toda  a sorte que há
no mundo vem no lombo de um cavalo.

§


§

sobre a autora


Adelaide Ivánova é uma escritora, poeta, jornalista e fotógrafa brasileira, nascida no Recife, Pernambuco, em 1982. Lançou os livros Autotomia (fotografia) e Polaróides (Cesárea, 2014). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais, como i-D (UK), Colors (Itália), The Huffington Post (EUA), Der Greif (Alemanha), Vogue Brasil e Vogue RG (Brasil), Ojo de Pez (Espanha) e Vision (China), entre outras. É dela, ainda, a foto de capa do quarto número impresso da Modo de Usar & Co.. Adelaide Ivánova vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha.

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