quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Das poéticas vocais: Wimme Saari



Wimme Saari é um performer lapão, ou saami, nascido em 1959 em Kelottijärvi, um vilarejo da Lapônia finlandesa. Os lapões ou saamis formam o único grupo indígena da Escandinávia, distribuindo-se entre Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Sua língua, o lapão ou saami, divide-se em vários dialetos, e pertence à família das línguas fino-úgricas, da qual fazem parte, por exemplo, também o húngaro, o finlandês e o estoniano.

Na canção acima, Wimme Saari pratica a tradição poético-musical do joik, também conhecido como luohti, vuolle, leu'dd e juoiggus. De forte tradição oral, a mitologia saami diz que o joik foi ensinado ao seu povo por elfos. O joik é associado aos noaidi, seus xamãs, e por isso é proibido por comunidades saamis que se converteram ao cristianismo. A tradição vocal do joik, que usa apenas sons vocais não-verbais, pode ser ligado a práticas como os puirt à beul gaélicos (cf. nossa postagem sobre Liz Fraser) e a cantos indígenas das Américas, assim como a várias tradições poéticas vocais do globo, ainda vivas.



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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Lívia Natália



Lívia Natália é uma poeta e teórica da literatura, nascida em Salvador, Bahia, em 1979. Professora da Universidade Federal da Bahia, publicou sua primeira coletânea de poemas, Água negra, em 2011, seguida de Correntezas e outros estudos marinhos (Ed. Ogums Toques, 2015).



De seu último livro, o poema "Quadrilha" foi exposto em um painel na cidade de Salvador, no ano passado.



O poema, que trata da chacina do Cabula e o envolvimento da Polícia Militar, acabou sendo retirado após 2 dias de exibição, num claro ato de censura ao trabalho da poeta, que vem recebendo ameaças desde então.

Apoiamos a escritora e repudiamos este ato de desrespeito à democracia brasileira, de uma corporação que segue comportando-se em nossas ruas como se ainda estivéssemos sob o regime que lhe deu estes amplos poderes.

Abaixo, alguns poemas de Lívia Natália, seguido de sua "Nota de escurecimento", sobre a censura de seu poema.

---- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE LÍVIA NATÁLIA

Sobre o Tempo

         para Ailton Pinheiro

Se este vento persistir ainda alguns verões
e a flama acesa ainda banhar a mesa
e dançar nas paredes com suas sombras luminosas,
teremos pão. Teremos corpo,
e algo de um silêncio que não nos corte muito fundo.
Teremos a lâmina com seu fio imperfeito tangendo os tempos.

Em persistindo o vento sobrelevando as estações
Ainda serão seus cabelos que lamberão minha virilha
e terei seus olhos fechados me tateando no ar.

Em persistindo,
para além da chuva imensa e do acre que devora o verão
esta alegria descortinada e estes olhos de lágrima e brisa,
mais seremos um para o outro,
e estaremos mergulhados neste entreentranhas que,
quando venta,
somos nós.

§

Orisa didê

Arranca as percatas de seu cavalo
e nele galopa com os pés no chão.
Solta um grito que se espeta no alto
e,
repetido,
saúda a terra com a majestade de sua presença.

Dança sem a calma das horas,
pois seus braços se erguem para fora do tempo.

Caminha com sua carne de mito
e, quando vai, não parte.
Apenas se banha em seu próprio mistério.

§

O caso do Vestido

“De tempo e traça meu vestido me guarda.”
                                 Adélia Prado

Meu corpo não respeita as estações.
Chove grosso em cada dobra da cidade
E eu trago comigo um vestido de verão intempestivo.


Meu corpo não cede e, vivo, arde no ligeiro das rendas,
nas maresias que lambem o ar.
Meu corpo não cede.

E o vestido que me desveste neste calor temporão
é todo bordado na minha pele:
por dentro.

§

Aniversário

"No tempo em que comemoravam o dia de meus anos
eu era feliz e ninguém estava morto"
Álvaro de Campos


Tenho alimentado afetos com a parte boa de minhas entranhas,
a parte que não sangra tanto,
que não se avermelha em dobras.

Tenho tentado.

E que trabalho pesado este de tentar.
Tenho atendido telefonemas no meio da madrugada
como se salvasse suicidas,
corro andares ofegante de meu respiro
para evitar males que desconheço,
e o amor não cessa de me impingir sua presença dolorosa.

Já o expulsei de casa muitas vezes
e ele se esconde no dormente das portas,
o amor persiste e o sol escalavra minha pele fina
dentro da beleza de cada dia.

Tenho alimentado o amor com dedos protegidos de coragem e fé.
Mas seus dentes são tão afiados
que me ferem no côncavo das cutículas,
eles me lanham profundo,
e o amor, em mim, não cessa.

Tenho medo desta força que não me perdoa
nem me salva.

O amor tem me feito sangrar dos poros às entranhas,
depois,
como um perverso,
lambe minhas cicatrizes.

§

Freudiana

No mais fundo dos homens que amo
há meu pai, com sua carne de maresias.
Ele se desenha na pele dos meus homens
como o mar inscreve, no peixe, as escamas.

(Todo corpo em que derivo absorta
tem algo de sua voz pedregosa.)

Nas peles negras em que me banho
flutua sua existência de maré:
prenhe de naufrágios.

Aos pés destes timoneiros delicados
que pensam singrar minhas águas
sou a kianda-sereia,
um coral espelhado,
sou a ostra que se desmora em silêncio.

Sou a água eternamente translúcida.
Precipício denso de onde estes peixes bebem
- apenas -
um silêncio delicado.

§

Freudiana II

Segurar uma mãe na unha!
Ou nos fios da telefônica
       - que filtram sua voz no vazio.

Prender a mãe,
escalar suas pernas,
premir seu seio macio.

Comer do corpo da mãe,
lamber seu regaço.

Devorar a mãe na ausência
nos fios de seus cabelos,
no perfume que colore o ar.

Devorar a carne da mãe sanando,
com mãos urgentes,
a fome de todos os tempos.

O desamparo de todos os filhos

§

Um poema em seu nome


             para Ailton Pinheiro Júnior
                   
Como chamar este algo
que se dobra na dobra de sua orelha,
e deixa minhas noites insones
enquanto navegamos?

Seu cheiro que me lambe as narinas,
e mora no tecido fino destes travesseiros
onde dança sua juba domada
como um leão apaziguado em sua morada.

Este algo que dorme no nosso silêncio,
que se move no breu de nossos desejos,
algo que se exala na sua presença
que ilumina os dias e ofusca o sol?

Como se chama?

Como chamar este dia brando que se ergue?

Este gesto, esta voz que canta maresias em meu corpo?

Não há palavra que abrigue
este mundo delicado em que moramos:
qualquer nome cede ao vazio,
na fibra fina de sua presença.

§

Negridianos
           
          para Cuti, Limeira e Guellwaar Adún

Há uma linha invisível,
lusco-fusco furioso dividindo as correntezas.
Algo que distingue meu pretume de sua carne alva
num mapa onde não tenho territórios.

Minha negritude caminha nos sobejos,
nos opacos por onde sua luz não anda,
e a linha se impõe poderosa,
oprimindo minha alma negra,
crespa de dobras.

Há um negridiano meridiando nossas vidas,
ceifando-as no meio incerto,
a linha é invisível mesmo:
mas nas costas ardem,
em trilhos rubros,
a rota-lâmina destas linhas absurdas que desenhas
enquanto eu não as enxergo.

§

Anatomia

Meu corpo se dobra na curva dos dias,
as ondas passam prenhes de pássaros, peixes e maresias
o mar bebe o mundo com sua língua de onda
e meu útero permanece vazio.

Desconsolada,
engoli naufrágios inteiros
com pescadores e navios
e meus sonhos ganharam pele de peixe.

(Ando com esta barriga murcha,
recolhida no labirinto das entranhas.)

Meu útero bebeu a tinta das letras,
comeu papéis e teclas,
guardou-se debaixo do travesseiro, para o quando,
guardou-se no bolso, numa caderneta fina, para se.

Tudo vão:
Meu útero apenas ganhou guelras
e respira submerso.

§


NOTA DE ESCURECIMENTO
Lívia Natália

              “Se Palmares não vive mais
               faremos Palmares de novo!”
                     (José Carlos Limeira)

Quando escrevi o poema “Quadrilha”, no extremo sentimento pelos mortos do Cabula, os meninos do Rio de Janeiro ainda não tinham sido alvejados por mais de cem tiros. Mas Amarildo já havia desaparecido e Joel, aquele menino, morto. Quando escrevi o poema, havia anos que o Carandiru com seus 111 mortos já estava quase esquecido. Eis o poema:

Quadrilha

Maria não amava João,
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos os seus sapatos.

(Publicado no livro Correntezas e outros estudos marinhos, Ed. Ogums Toques, 2015.)

Este poema, selecionado para publicação no projeto Poesias Nas Ruas, Ilhéus – BA, aprovado pela FUNCEB – Fundação Cultural da Bahia, setorial de Literatura, Fundo de Cultura, 2014, foi divulgado em busdoor e outdoor pela Cidade de Ilhéus.

Desde então, quando a foto do outdoor foi viralizada nas redes sociais, vi a minha poesia e a minha pessoa expostas em manifestações que nascem de uma polarização político-partidária mas que, no entanto, exortam à misoginia, racismo e outras violências.

Foram soltas notas de repúdio, inclusive por representações oficiais da Polícia Militar, sites de notícia deram notas, solicitaram a retirada do out-door, e alguns “formadores de opinião” foram falar contra o poema, contra a poeta e contra o governo.

Primeiramente, afirmo que, entre a esquerda e a direita político-partidária, eu continuo sendo uma mulher negra, portanto, a mim pouco importa a guerra político-partidária que se quer montar, mas não admito que o meu poema, a minha obra e a minha imagem sejam utilizadas para um fim tão mesquinho. Pede-se que respeite a Instituição, e eu, como cidadã, EXIJO RESPEITO.

Desde a década de oitenta do século passado não há censura oficial neste País, portanto, tentar silenciar a minha voz é um ato ILEGAL, que atenta contra os direitos do cidadão. Como se não bastasse a sistemática exposição do meu nome, imagem e obra, sem que em nenhum momento tenha-se me procurado para que eu pudesse me posicionar, tenho recebido uma enxurrada de mensagens, declarações, recados e e-mails que são profundamente agressivos e que buscam me inspirar medo, que buscam me fazer ter vergonha do que escrevi, e que tentam desmentir o que a poesia representou.
Gostar ou não de uma obra de arte assiste apenas a quem a recebe, mas a censura não cabe! O poema e o outdoor, como se registra no texto de autorização por mim assinado ao projeto Poesia nas Ruas, deve ser mantido por dois meses em exposição.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Grada Kilomba



Grada Kilomba é uma escritora portuguesa, nascida em Lisboa, filha de imigrantes de São Tomé e Príncipe e Angola. Formada em Psicologia Clínica e Psicanálise, trabalhou com sobreviventes das guerras de independência de Angola e Moçambique, com projetos dedicados à relação entre memória e trauma. Hoje, é professora na Universidade Humboldt em Berlim, onde leciona sobre estudos de gênero, com uma pesquisa focada sobre o pensamento pós-colonial. Publicou o livro Plantation memories: Episodes of Everyday Racism (2012). Trechos dele são encenados no vídeo acima.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"Napëpë" (2004), documentário de Nadja Marin



Napëpë (2004), documentário de Nadja Marin, sobre a relação entre antropólogos e o povo Yanomami. Recomendação de Thiago Rolim.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825)


Dirham de prata do califa Al-Mahdi, pai de ‘Ulayya bint al-Mahdī


‘Ulayya bint al-Mahdī foi uma poeta e princesa no Califado Abássida, filha do califa Al-Mahdi, que governou Bagdá entre os anos 775 e 785. Meia-irmã do grande Harun al-Rashid (763 - 809) e do também príncipe poeta e compositor Ibrahim ibn al-Mahdi (779–839), o trabalho de ‘Ulayya bint al-Mahdī sobrevive com pequenos poemas compostos para a voz, em sua maioria na forma de muḥdath, mas há também hinos a seu irmão e califa Harun al-Rashid. As fontes de seus poemas e biografia estão no Kitab al-aghani, o importante cancioneiro coligido por Abu al-Faraj al-Isfahani (897–967).

Poemas de amor seus dedicados a um khādim (servo) chamado Ṭall sobreviveram, e reza um conto que, proibida por Harun al-Rashid de sequer pronunciar o nome de Ṭall, durante uma leitura do Sūrat al-Baqara (o segundo e mais longo capítulo do Alcorão), ela teria silenciado um verso por conter a palavra ṭall (que significa "orvalho"). Conta-se que o califa, impressionado com a forma inteligente com que ‘Ulayya ao mesmo tempo obedecera, mas demonstrara o absurdo da ordem, concedeu a ela que Ṭall se tornasse seu khādim pessoal.

Durante a proibição, ‘Ulayya passaria a usar também a palavra ẓill (sombra) como código para denominar Ṭall, que seguia como sua sombra ainda que não pudesse dizer seu nome, num jogo de grande inteligência poética. Acredita-se que o poema-canção abaixo, vertido a partir de uma tradução inglesa, seja um dos poemas dedicados a Ṭall e refira-se a estes tempos de proibição:


Eu contive o nome do meu amor        e o repetia sozinha, calada. 
Como anseio por espaços abertos     onde o possa ouvir gritado.

--- ‘Ulayya bint al-Mahdī (777-825), poeta e princesa do Califado Abássida (versão de Ricardo Domeneck, a partir da inglesa.)

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domingo, 24 de janeiro de 2016

Ernesto von Artixzffski



Ernesto von Artixzffski é o pseudônimo de Sergio Maciel, poeta brasileiro nascido em Curitiba em 1992. É graduando em Letras pela Universidade Federal do Paraná, e colaborador do coletivo escamandro. Teve poemas publicados no escamandro, no Brasil, e na Enfermaria 6, em Portugal. É inédito em livro.

--- Ricardo Domeneck


§

POEMAS DE ERNESTO VON ARTIXZFFSKI



sobre minha casa arde a chama da possibilidade
o jardim é incerto
e meu cão azul sem razão dorme ao pé da porta
tudo acontece aqui
meu quarto e minha sala estão no mundo:
sou feliz e a flor da morte curva-se no canto do quintal


§

ao condensar-se em terra o corpo
já que a matéria em tudo compacta
inda que sólido discirna-se ao olho

mudo rarefaz-se em reza e some
(mas o corpo o corpo pode também
brotar do sal ajuntar-se em flores)

e em si mesmo aberto e fechado
aguarda que a angústia então
desapareça em morte dissolva-se

(circundando assim uma casa
estéril com seus jardins carnais)
enquanto estrutura sob a chuva

em desespero as formas do nada

§


[nada surpreende a figura dum barco]

               Antes tinha por ti todo o meu tédio,
               hoje é firme a aflição e este desejo atroz
                                 Horácio via Gontijo


nada surpreende a figura dum barco

não consigo escrever sobre o mundo nem tenho a mínima capacidade de descrever de modo lírico os acontecimentos bárbaros que o compõem os linchamentos que antropologicamente compõem o território brasileiro os desastres ambientais as guerras não consigo escrever não consigo escrever porque os acontecimentos se estraçalham com tanta violência destroem-se em tantos pedaços que se transformam num vazio áspero em nós

certas belezas se
apagam no breu
ou na pressa

e a essa incapacidade de escrever de um modo mínimo e digno sobre os fenômenos submete-nos à tortura e converte-nos numa espécie de museu da desgraça onde habitam as formas mais domésticas da indiferença ou seja isso equivale a dizer que vamos nos purificando criando texturas puras nos destroços do mundo que martirizamos mas toda pureza implica um aspecto de desumanização é o problema permanente da pureza ressecando a vida

é preciso sempre de uma voz
de que apanhe esse verso que
ela e o lance a outra de uma voz
que com tantas outras teça a vida

a realidade é que na poesia as coisas se esparramam por excesso e não há como escrever sobre absolutamente nada por isso não consigo escrever sobre o mundo sobre essa forma real que em si mesma divergindo se repete não posso nada para além de grafar barbárie pedra amor brasil mas o grão grosso da terra a fibra nativa à pele do homem só vivem mesmo em composição de ar e vero sofrimento não consigo escrever sobre nada em verso porque não posso ensinar ao original a lição da cópia

a vagar taciturno entre o talvez e o se

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Tim Dlugos (1950 - 1990)

Rubens Akira Kuana apresenta e traduz o poeta norte-americano Tim Dlugos (1950 - 1990), que teve sua obra reunida recentemente nos Estados Unidos.


Tim Dlugos foi um poeta norte-americano, nascido em Springfield, Massachussets em 1950. No final dos anos 70 mudou-se para Nova Iorque, onde contribuiu com a cena literária local, através da revista Christopher Street, voltada ao público gay, e do Poetry Project.

Seus livros de poesia incluem: High There (1973), Je Suis Ein Americano (1979), Incredible Risks (1980), Entre Nous (1981), A Fast Life (1982), Strong Place (1992) e Powerless: Selected Poems 1973–1990 (1995).

Marcada pelo constante uso do enjambment, da observação de detalhes cotidianos e conversas entre amigos, a poesia de Dlugos é justamente comparada com a de Frank O'Hara e James Schuyler.

Após descobrir que era soropositivo, Dlugos estudou na Univerdade de Yale para se tornar um padre episcopal. Morreu de efeitos relacionados à AIDS em 1990, e sua poesia nos dá uma das primeiras reações literárias de força à epidemia que devastou os anos 80 e 90.



Sua obra poética foi reunida no volume A Fast Life: Poems of Tim Dlugos em 2011, editado por David Trinidad.

--- Rubens Akira Kuana

§

POEMAS DE TIM DLUGOS
traduções de Rubens Akira Kuana

Pétalas Brancas

"A República encontra-se no desabrochar de Washington" 
          Robert Bly

Pétalas brancas
caem em um rio escuro.
Desprovidas de significado político,
elas correm até o mar como estrelas.

Eu sou o explorador espacial.
Eu viajo até um planeta
onde não há plantas nem animais.
Todos vivem em harmonia.
Eu não quero ir para casa.

Eu sou o pioneiro e a pioneira,
ambos ao mesmo tempo.
Eu construo minha casa com minhas próprias mãos,
e ela é linda,
com simples e perfeitas linhas.

Eu sou o fazendeiro esperando os vegetais
crescerem, para que eu possa comê-los.
Eu sou o caçador mirando no urso.
Eu não quero atirar, mas minha família precisa de carne.
O urso me lança um estúpido olhar animal.
Utilizaremos sua pele como cobertas,
sua gordura para acender nossas lâmpadas.
Nossa cabine irá feder a noite inteira.

Eu sou o camaroteiro que gradua-se em capitão.
O sexo a bordo do navio é rude, mas atende ao meu gosto.
Eu sou o homem nos degraus da casa
onde a viúva do Presidente vive.
A noite inteira espero pelo estranho
sair de seu carro
para que eu possa acender meu reconhecimento.

Eu sou o vaqueiro que dorme com seus cavalos.
Eu sou o homem que ama cachorros.
Eu sou o Presidente doente escapulindo
para nadar no Potomac.

Eu sou o homem negro.
Eu fecho meus olhos
e escurece por dentro.

Eu sinto o sol sobre meu rosto.
Eu vejo a luz através das minhas pálpebras.
É reluzente, inteligente
livre de todas as preocupações.

Eu sou o herdeiro de uma grande família americana.
Meu sucesso está garantido.
Uma tragédia inesperada é tudo o que pode me deter.
Eu sou o notório senador ensinando seu filho a se barbear.

:

White Petals

"The Republic lies in the blossoms of Washington."
—Robert Bly

White petals
drop into the dark river.
Heedless of political significance,
they ride out to the sea like stars.

I'm the space explorer.
I travel to a planet
where there are no plants or animals.
Everyone lives in harmony.
I don't want to go home.

I'm the pioneer man and the pioneer woman,
both at the same time.
I build my house with my own hands,
and it's beautiful,
with simple, perfect lines.

I'm the farmer waiting for the vegetables
to grow, so I can eat.
I'm the hunter aiming at the bear.
I don't want to shoot it, but my family needs meat.
The bear gives me a long dumb animal look.
We'll use his skin for blankets,
his fat to light our lamps.
Our cabin will stink all night.

I'm the cabin boy who graduates to captain.
Shipboard sex is rough, but it suits my taste.
I'm the man on the steps of the house
where the President's widow lives.
All night I wait for the stranger
to get out of his car
so I can flash my look of recognition.

I'm the cowpoke who sleeps with his horses.
I'm the man who loves dogs.
I'm the cranky President sneaking away
to swim in the Potomac.

I'm the black man.
I close my eyes
and it gets dark inside.

I feel the sun on my face.
I see the light through my eyelids.
It's bright, intelligent
free of all cares.

I'm the heir of a great American family.
My success is guaranteed.
Unexpected tragedy is all that can stop me.
I'm the popular senator teaching his son to shave.

§

Minha Morte

Quando eu não mais
senti-lo respirando
meu pescoço está logo após
a esquina (oi vizinho)

:

My Death

when I no longer
feel it breathing down
my neck it's just around
the corner (hi neighbor)

§

A Verdade

Toda vez que eu uso
minha linguagem, conto
a verdade. Um gato
em um colarinho branco,
como um padre com pelo
malhado, atravessa a grama
morta do quintal, e sai
através da cerca branca. O sol está
forte, mas as cores da relva
foram lavadas pelo inverno, não a luz.
Fevereiro. O vitral da casa
ao lado recebe todo o peso do sol.
Deve estar espetacular
para a vizinha em minha cabeça,
uma mulher de cabelos brancos com um ar
digno e gracioso, que
através das poças de cores
mais vivas sobe o lance de escadas.
Eu nunca vi isto,
mas sei que está lá.

:

The Truth

Every time I use
my language, I tell
the truth. A cat
in a white collar,
like a priest with calico
fur, walks across the dead
grass of the yard, and out
through the white fence. The sun’s
strong, but the colors of the lawn
were washed out by the winter, not the light.
February. Stained glass window of the house
next door takes the sun’s full brunt.
It must look spectacular
to the neighbor in my head,
a white-haired woman with an air
of dignity and grace, who
through pools of the intensest
colors climbs the flight of stairs.
I’ve never seen it,
but I know it’s there.

§

Paraquedas

A imagem bergmaniana do jogo
de xadrez com a Morte,
embora não em um sonho
preto e branco onde a melancolia
filma zunindo com símbolos,
mas em um jardim em Provença
com peixes dourados na fonte
e enormes palmeiras cujas copas
cortam através do eterno
céu azul acima das ruínas
Romanas e as ruas poeirentas
onde qualquer porta pode levar até
a mais perfeita refeição: isto é o que
eu penso quando lembro
que tenho AIDS. Mas quando
eu penso em como a AIDS matou
meus amigos, especialmente
aqueles cujos caminhos
através da vida menos
os prepararam para resistir
ao monstro, eu penso em
uma insaciável e ambulante besta
com dentes afiados e um persistente
fedor que permanece em cada
ramo vivo de uma flor
seu espesso pelo roça
enquanto persegue sua presa.
Eu penso neste repugnante
animal comendo meus lindos amigos,
inocentes como filhotes de cervos. Dwight:
tão delicado e vaidoso, seus longos e magros
braços e pernas pregados com agulhas,
dor de tubos e agulhas, seus estreito
peito inflado por máquinas, sua mente
perdida em um lapso de sete minutos
entre a falha do respirador
e o momento em que as enfermeiras notaram
algo errado. Enrolei
meus membros ao redor daquele corpo frágil
pela primeira vez sete anos
atrás, em um hotel barato perto do pier,
onde cada peça de seu extravagante
guarda-roupa — botas com pele de cobra,
suas calças apertadas com estampa de leopardo,
cachecóis de aviador, e uma jaqueta
de couro verde brilhante —
estavam enroladas em um canto de
seu quarto em um pára-quedas amarelo.
É difícil o bastante encontrar um pára-quedas
em Nova Iorque, lembro-me de pensar,
mas encontrar um no tom certo
de canário era um feito
do tipo de cidadão com quem
eu queria popular minha vida.
Dwight o dançarino, Dwight o ilustrador
e o seguidor da moda,
Dwight a criança, a incerta
travesti, Dwight o assustado,
enraivecendo-me por que uma diatribe
anti-AZT de algum excêntrico
em trapos o convenceu a não tomar
as pílulas que poderiam
mantê-lo vivo, Dwight
na passarela, Dwigh no telefone
sugerindo que ainda poderíamos fazer sexo
se vestíssemos "capas de chuva", Dwight
fodendo uma garota de Massapequa
no banheiro feminino da Danceteria
(ele usava mais maquiagem e joias
melhores que as dela), Dwight planejando
uma viagem para Londres ou Berlim onde ele
seria descoberto e sua vida
transformada. Dwight apagado,
expulso de seu próprio e jovem corpo.
Dwight morto. Em Bellevue, eu enrolei
meus braços ao redor de sua segunda pele
de gazes e cicatrizes e tubos,
passei minha mão contra
suas tranças, e me despedi.
Eu espero não ser aquele
que soltou a besta faminta
que lhe massacrou, doce menino.
Você não fazia ideia
de como evitar
a besta. Eu me sinto tão confiante
na maioria dos dias que posso continuar
vivo, sobreviver e prosperar
com AIDS. Mas quando eu vejo
Dwight sorrir e escuto sua misteriosa
e encantadora voz em minha cabeça,
eu sei que a AIDS não é um jogo de xadrez
mas uma caça, e não há
nenhuma escapatória do horror
sangrento da morte, nenhuma
fiança, nenhum brilhante
pára-quedas ao lado da minha cama.


(notas: AZT é o medicamento utilizando no tratamento de AIDS)

:

Parachute

The Bergman image of a game
of chess with Death,
though not in a dreamscape
black-and-white as melancholy
films clanking with symbols,
but in a garden in Provence
with goldfish in the fountain
and enormous palms whose topmost
fronds cut into the eternal
blue of sky above the Roman
ruins and the dusty streets
where any door may lead to life’s
most perfect meal: that is what
I think of when I remember
I have AIDS. But when
I think of how AIDS kills
my friends, especially
the ones whose paths
through life have least
prepared them to resist
the monster, I think of
an insatiable and prowling beast
with razor teeth and a persistent
stink that sticks to every
living branch of flower
its rank fur brushes
as it stalks its prey.
I think of that disgusting
animal eating my beautiful friends,
innocent as baby deer. Dwight:
so delicate and vain, his spindly
arms and legs pinned down with needles,
pain of tubes and needles, his narrow
chest inflated by machine, his mind
lost in the seven-minute gap
between the respirator’s failure
and the time the nurses noticed
something wrong. I wrapped
my limbs around that fragile body
for the first time seven years
ago, in a cheap hotel by the piers,
where every bit of his extravagant
wardrobe—snakeskin boots, skin-tight
pedal pushers in a leopard print,
aviator’s scarves, and an electric-
green capacious leather jacket—
lay wrapped in a corner of
his room in a yellow parachute.
It's hard enough to find a parachute
in New York City, I remember thinking,
but finding one the right shade
of canary is the accomplishment
of the sort of citizen with whom
I wish to populate my life.
Dwight the dancer, Dwight the fashion
illustrator and the fashion plate,
Dwight the child, the borderline
transvestite, Dwight the frightened,
infuriating me because an anti-AZT
diatribe by some eccentric
in a rag convinced him not to take
the pills with which he might
still be alive, Dwight
on the runway, Dwight on the phone
suggesting we could still have sex
if we wore “raincoats,” Dwight
screwing a girl from Massapequa
in the ladies’ room at Danceteria
(he wore more makeup and had better
jewelry than she did), Dwight planning
the trip to London or Berlin where he
would be discovered and his life
transformed. Dwight erased,
evicted from his own young body.
Dwight dead. At Bellevue, I wrapped
my arms around his second skin
of gauze and scars and tubing,
brushed my hand against
his plats, and said goodbye.
I hope I’m not the one
who loosed the devouring animal
that massacred you, gentle boy.
You didn’t have a clue
to how you might stave off
the beast. I feel so confident
most days that I can stay
alive, survive and thrive
with AIDS. But when I see
Dwight smile and hear his fey
delighted voice inside my head,
I know AIDS is no chess game
but a hunt, and there is no
way of escaping the bloody
horror of the kill, no way
to bail out, no bright
parachute beside my bed.

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