Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Júlia de Carvalho Hansen



Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em janeiro de 1984 e mora em Lisboa desde 2009. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo e atualmente cursa o mestrado em Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa. Neste ano de 2012 prepara uma dissertação sobre a noção de tradição em alguns ensaios de poetas do século XX, enquanto termina de escrever o seu segundo livro de poemas: alforria blues ou poemas do destino do mar, do qual os poemas aqui publicados fazem parte. Seu primeiro livro é o cantos de estima, que teve duas edições de materiais, tamanhos e tiragens diferentes. A primeira foi no projeto 12 exemplares [link: http://12exemplares.blogspot.com] no qual a poeta datilografou a máquina de escrever 14 poemas e os costurou em 12 cadernos que foram destinados a pessoas de diferentes idades, profissões e localidades, com o convite de que retribuíssem o cantos de estima com o fazer que quisessem. Das respostas foi feita uma exposição na Associação Cultural Cecília, em São Paulo, em agosto de 2009. No mesmo mês, foi publicada a 2ª edição, ampliada em poemas e na tiragem gráfica de 120 exemplares. É possível encontrá-la para download na internet [link: http://pt.scribd.com/doc/45464735/Cantos-de-Estima]. A convite da Fundação realiza com a artista plástica Mayana Redin a exposição Aluvião, no Porto, em dezembro de 2010. Em fevereiro de 2011 é lançada sua publicação de poemas Primeira Reunião de Lugares, integrante da mostra "Transporto sempre uma viagem", na Galeria Quadrum, em Lisboa. O número 3 impresso da Modo de Usar & Co. traz vários poemas da poeta, dos quais reproduzimos um abaixo, seguido de vários poemas inéditos.

--- Modo de Usar & Co.


§


POEMAS DE JÚLIA DE CARVALHO HANSEN

[Temes a noite onde os nomes...]
Júlia de Carvalho Hansen

Temes a noite onde os nomes não se registram nos radares
e as palavras como joelhos afastados pela mão de outro
são caixas-pretas boiando no mais marinho dos oceanos.

Um avião cruza os ares em direção a um batizado.
É o seu eco que cola as sílabas umas as outras
rejuntes de significado, amálgamas do esquecimento.

Se só pensas em assentar as mais corretas, maneiras
de permanecer, feito cal, espalhado pelas espáduas
trêmulo cimentado teu coração, um canteiro de plantio
para as alfaces – soníferas e insípidas – do cotidiano.
De ti, só poderei aceitar atrelar-me, como um mexilhão.

Agora sou na tua rocha. E de mim se aproxima outro,
que os passageiros não alcançarão. Age antes de querer
com todos os olhos de quem nunca tinha tocado bivalves
sem enciclopédia ou Discovery Channel
feito um miúdo se maravilha, ama as pérolas,
sabe bem mastigá-las com os dentes até parti-las.

Como eu, um dia, também contigo, tentei.

(publicado originalmente, junto de vários outros inéditos, no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.)


§


Poemas completamente inéditos:

poemas do destino do mar

Acordei em Lisboa com o barulho de abrirem
um lençol molhado no céu
e tentavam arrastar as colinas para o rio.
Ao meu lado desenhavas
as linhas de um mar apavorado
mas grande demais para fugir.

Guardo junto a outros. Tudo o que me importa.
Há uma caixa ali, do lado esquerdo de quem está comigo,
onde estão aos quantos instantes iguais
gravados nas milhares de fotografias
digitais pelos turistas no mundo agora
e eu. Tão madura, tão rude, inconstante
cinqüenta mil doçuras que te apavoram
cinqüenta mais cinqüenta mil e duas paisagens com uma pessoa em frente
ícone, um totem do igual
queimado pelo vermelho do sol.

Ou que quer dizer isso?
Esse lugar que desaparece com uma chuva-fria
os quatro dias dados aos combatentes do entretenimento
seus pés que incham, desacostumados a andar e
clicam. Para a tia que ainda existe, uma empregada atenta
tua mão distraidamente na varanda da minha mão.
Como o vento grava em uma roupa
um alvo é só um vulto. Que quer dizer isso?
Um beijo dado
mais tarde.


§


O céu que nos prometa um ano bêbado
sem por enquantos
um ano que diz ENTÃO MOSTRA
e sacode feito leitoa as tetas que caem
são nuvens
de uma chuva dramática e sem aprendizagem.
Eterno ser sem se apropriar
da impossibilidade de organizarmos
em formas calmas, permanentes, necessárias
tanto você como também eu
ou nós podemos pular e estaremos no alto
através dele, este céu que nos promete
Sou eu o messias e anuncio
mais uma rodada de anos
bêbados.


§


Enquanto ele fala sobre um furacão e a força repentina que é nascer eu
ouço. Ao seu lado o tempo, penso, passa em mim
como uma poça de água parada
por onde atravessou um caminhão.

Não sei pra onde
dizem vão
essas placas abandonadas
nem porque elas ficam assim
penduradas.

Ninguém salva a ninguém de si mesmo
brinca de farol, no máximo
neon das estrelas do coração.

Ele abre a janela e sorri como o vento mostra os dentes do cavalo dado.
Não olha assim, amor,
depende tanto tudo, não esquece.


§


Seja lábio, lanterna
adivinha o meu nome
no céu, homem.

Treme não. O astro
é barbárie, insolação
rosto sem face. Mas

o mar quando escreve
é um coração
que não tivesse centro.

Que fosse capaz
o mar de te deixar
mesmo se, não deixava.

Vingava os olhos
de tanto ver mexer
pra te morder

a onda que abraça
a galáxia ri
muito branca.


§


galope

Acordo em estado de dicionário. Sei que enquanto não escrever meus ombros continuarão como as lombadas duras das capas. Definitivamente é hora de acordar e meus olhos se desprendem de alegria quando sacudo os pés pra um lado e outro, e ainda no colchão os olhos desprendem das órbitas e começam a me olhar. Depois do café, chego na pia da casa de banho e tenho que lavar os dentes. A escova, escova. A pasta quase acabando, da próxima vez Colgate não, Couto. Couto é portuguesa. Tiro todo o açúcar do café depois do pequeno-almoço para as cáries não corroerem todos os meus dentes. Não que eu não tenha amor pelas coisas que vivem. Não que a putrefação não seja uma forma, tão pouco sutil forma, de vida. Não que eu ache que seja capaz de conter o destino das coisas, dos meus dentes, mas definitivamente meus poemas mentais são melhores do que os escritos. O que provocará certamente em quem lê uma vontade de estar por dentro do meu corpo, das minhas órbitas, dos meus pés. Coisa que eu até que gostaria. Por não ter onde ser colocada na minha retirada de dentro para a sua entrada, eu teria, definitivamente, como aquele cavalo que saiu da aldeia, definitivamente eu teria fugido.



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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Lançamento carioca dos livros de Marília Garcia e Ricardo Domeneck, seguido de leitura com Lu Menezes, Alice Sant´Anna, Luca Argel e os autores



A Editora 7Letras e o Baukurs Cultural convidam para o lançamento carioca dos livros Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck, e engano geográfico, de Marília Garcia

e para uma leitura com os autores

Lu Menezes
Alice Sant´Anna
Luca Argel

e Marília Garcia e Ricardo Domeneck

Sábado, dia 28 de janeiro de 2012, a partir das 15 horas.

Baukurs Cultural
Rua Goethe, 15
Botafogo
Rio de Janeiro


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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

"Modo de Usar & Co.", em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, convida: TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR : 26/01 : MAM-Rio



A revista Modo de Usar & Co., em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, convida a todos para uma noite com curadoria de Marília Garcia e Ricardo Domeneck, em colaboração com Marta Mestre (curadora assistente do MAM-Rio):


TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR


primeiro evento da revista em parceria com o MAM, no dia 26 de janeiro de 2012, quinta-feira, às 18:30. Uma noite de textos manifestando-se em voz, música e vídeo

com os poetas

DIMITRI BR (diahum)
ISMAR TIRELLI NETO
JOEL GIBB (The Hidden Cameras/Canadá)
MARÍLIA GARCIA
RICARDO DOMENECK
VICTOR HERINGER

Informações:

TEXTUALIDADE: MODOS DE USAR

Textualidade: modos de usar é um evento que convida o texto a sair da página do livro para ocupar outros meios, como a voz, a música e a tela, através da oralização de poemas, de canções, de performances e vídeos. Nesta primeira apresentação promovida pela revista Modo de Usar & Co. em parceria com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a materialidade da linguagem se deslocará pelo espaço do MAM, buscando assumir outras formas e tornar rarefeita a fronteira dos gêneros. Dando destaque aos diversos modos de usar da linguagem poética contemporânea, o evento reunirá Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer, representantes da geração dos novíssimos poetas da cena carioca, Dimitri BR, compositor e músico que desenvolve o projeto de videocanções diahum, Joel Gibb, poeta vocalista da cultuada banda canadense The Hidden Cameras, e dois dos editores da revista Modo de Usar & Co., Ricardo Domeneck, que vive em Berlim e está de passagem pelo Rio de Janeiro por ocasião do lançamento de seu novo livro, e Marília Garcia.

Com a previsão de duração de 1h20, Textualidade: modos de usar busca dar a ver outras formas de manifestação do texto, bem características do nosso tempo, usando elementos da escrita, da voz, da música e do vídeo e dando sequência ao trabalho da revista Modo de Usar & Co., que apresenta, em suas edições impressa e virtual, os vários deslocamentos da linguagem e uma pesquisa em torno da opacidade do texto poético, funcionando na fronteira entre transparência e não-transparência do signo.

Textualidade: modos de usar

com Dimitri BR, Ismar Tirelli Neto, Joel Gibb [The Hidden Cameras], Marília Garcia, Ricardo Domeneck e Victor Heringer

data: quinta-feira, 26/01/12

hora: a partir das 18h30

local: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo
Rio de Janeiro, Brasil.

§

sobre os participantes:

Dimitri BR [Rio de Janeiro, 1976] lançou o disco Música Sólida (2011) e o ep Pop rock tropical (2007), com a banda 3a1. Editou, com Silvia Rebello, a coleção Compacto simples de contos escritos por cancionistas e publicou textos na Modo de Usar & Co.. Desde 2009, desenvolve o projeto de vídeo-canções diahum [diahum.com].



mercado negro
[Dimitri Rebello ou Dimitri BR]

fardo que carrega
não há quem suporte

então me entrega
sua vida e morte

do seu ponto fraco
faço ponto forte
é o meu dedo em riste
que lhe aponta o norte

nem precisa força
pra que se comporte

pague seus pecados
ou então culpe a sorte

a falta de um abrigo
alguém que lhe conforte

eu lhe tiro os filhos
tomo sua consorte
vezes por capricho
outras por esporte

você estende os pulsos
eu lhe digo
- corte

você tem um sonho
eu lhe digo
- aborte


:

Ismar Tirelli Neto [Rio de Janeiro, 1985] é autor dos livros Synchronoscopio (7Letras, 2007) e Ramerrão (7Letras, 2011). Publicou textos na Modo de Usar & Co., Polichinello e Jacket2 [eua], e já se apresentou no Simpoesia [São Paulo] e no ArteFórum [ufrj]. Escreve em http://juventudevulcabras.wordpress.com/.



:

Joel Gibb [Canadá, 1977], artista visual e músico residente em Berlim, é o poeta-vocalista e líder da banda The Hidden Cameras [http://thehiddencameras.com/] com a qual lançou mais de dez discos e eps. Seu disco mais recente, Origin:Orphan, é de 2009.



Smells like happiness
Joel Gibb (The Hidden Cameras)

Happy we are when we choose to wear the blindfold
And mark our own day with a parade and a song

In our minds our fathers have died and we realize that cities have clubs and we like to get drunk and high from the smells we inhale from dirty wells and the mouth of a boy who smokes cigarettes

Happiness has a smell I inhale like a drug done in a darkened hall or a bathroom stall with a friend or a man with a hard-on

I feed my own face when I soon crave a taste of the neck of a boy who wears eau de toilette and shaves every day and behaves well in department stores

As well, it is the smell of old cum on the rug men walk their dirty feet on and the sweat from the chest of a man in a leather uniform

Happy are we when we choose to wear the blindfold and mark our own place with the smell of our own


§

Cheira a felicidade
tradução de Ricardo Domeneck


Felizes somos nós quando escolhemos vendar os olhos
E marcamos nosso dia com um desfile e uma canção

Em nossas mentes nossos patriarcas estão mortos e percebemos que as cidades têm clubes e gostamos de ficar bêbados e altos com os cheiros que inalamos em poços imundos e da boca de um menino que fuma cigarros

A felicidade tem um cheiro que inalo como uma droga produzida num salão escurecido ou numa cabine de banheiro com um amigo ou um homem com uma ereção

Eu alimento minha própria cara quando tiro um gosto do pescoço de um garoto que usa eau de toilette e se barbeia todo dia e se comporta bem em lojas de departamentos

Também é o cheiro de esperma velho no tapete sobre o qual homens caminham com pés sujos e o suor no tórax de um homem com uniforme de couro

Felizes nós somos quando escolhemos vendar nossos olhos e demarcar nosso próprio território com cheiros dos nossos


:

Marília Garcia [Rio de Janeiro, 1979] é autora de 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify/7Letras, 2007). Coedita a Modo de Usar & Co. e já se apresentou nos festivais Salida al Mar [Argentina) e Europália [Bélgica]. Escreve em
lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.



:

Ricardo Domeneck [Bebedouro, SP, 1977] é autor de Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), a cadela sem Logos (Cosac Naify/7Letras, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify/7Letras, 2009), Cigarros na cama (Berinjela, 2011) e Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012). Coedita a Modo de Usar & Co. e já se apresentou no Museo Reina Sofía (Madri) e deSingel International Arts Campus (Antuérpia), entre outros. Escreve em ricardodomeneck.blogspot.com



:

Victor Heringer [Rio de Janeiro, 1988] é autor de Quando você foi árvore (plaquete, 2010), canção do sumidouro (plaquete, 2010) e Automatógrafo (7Letras, 2011). Publicou textos na Modo de Usar & Co. e no momento pesquisa as múltiplas relações entre texto literário e imagem. Seu trabalho pode ser lido no site http://
automatografo.org.





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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

São Paulo: 18/01: quarta-feira: Convite para uma leitura com Calixto, Domeneck, Faleiros, Stigger e Villa, mais lançamento do livro de nosso coeditor



Livraria da Vila & a revista Modo de Usar & Co. convidam para uma leitura com os autores

VERONICA STIGGER
FABIANA FALEIROS
DIRCEU VILLA
FABIANO CALIXTO
RICARDO DOMENECK

No dia 18 de janeiro de 2012, na loja de Pinheiros, às 20:00.

Às 19:00, no mesmo local, ocorre o lançamento paulistano do livro novo de Ricardo Domeneck (coeditor da Modo de Usar & Co.), intitulado Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012).


Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Pinheiros, São Paulo SP
(0xx)11 3814-5811






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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Novas contribuições para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto"



Novas contribuições, vindas de Portugal, Argentina, Espanha e Brasil, para o projeto "Empreste sua voz a um poeta morto". Você pode acompanhar o projeto diretamente pelo novo canal



ou aqui mesmo, na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.. Veja os novos vídeos abaixo.


--- Modo de Usar & Co.

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Patrícia Lino (Porto, 1990) empresta sua voz a Ruy Cinatti (1915-1986).

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Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) empresta sua voz a Hilda Hilst (1930 - 2004).

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Chacal (Rio de Janeiro, 1951) vocaliza o poema "Anjo exterminado", de Waly Salomão (1943 - 2003).

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Diogo Vaz Pinto (Lisboa, 1985) vocaliza o poema "Falta por aqui uma grande razão", de Mario Cesariny (1923 - 2006).

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Érica Zíngano (Fortaleza, 1980) lê trecho de "O começo de um livro é precioso" (Lisboa: Assírio & Alvim, 2003), de Maria Gabriela Llansol (1931 - 2008).

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Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) vocaliza o poema "Visão 1961", de Roberto Piva (1937 - 2010).

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Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979) empresta sua voz a Luiza Neto Jorge (1939-1989), lendo o poema "A porta aporta".

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Tatiana Faia (Lisboa, 1986) vocaliza os poemas "Regressarei" e "Esteira e cesto", de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 — 2004).

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Aníbal Cristobo (Buenos Aires, 1971) empresta sua voz a Alberto Girri (1919-1991).

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Rodrigo Álvarez (Buenos Aires, 1968) empresta sua voz a Rodolfo Fogwill (1941 - 2010).

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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

Antoine Wauters



Antoine Wauters nasceu em 1981, em Lieja (Bélgica), uma das cidades mais importantes da Valônia (Liège em francês, Luik em holandês, Lüttich em alemão e Lîdje em valão, quatro das línguas faladas no território). O poeta teve uma estreia tripla em 2008, lançando ao longo do ano os pequenos volumes Os (Lieja: Tétras-lyre, 2008), La Bouche en quatre (Bruxelas: Le Coudrier, 2008) e Debout sur la langue (Bruxelas: Maelström, 2008). Foi por este último, traduzido na íntegra por Juliana Bratfisch e lançado em edição bilíngue no Brasil no ano passado pela editora de Francisco dos Santos - De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011) – , que Antoine Wauters recebeu o prêmio da Academia Real de Língua e de Literatura Francesas da Bélgica, marcando-o como um dos nomes a seguir na jovem poesia francófona. Desde então, seu trabalho foi publicado na França em antologias como La nouvelle poésie française de Belgique (Châtelineau: Le Taillis-pré, 2010) e Trois poètes belges (Dijon: Editions du Murmure, 2010), onde também foi lançado seu quarto livro, Ali si on veut (Cheyne Editeur, 2010). Em fevereiro de 2012, a mesma Cheyne Editeur lançará seu livro Césarine de nuit, enquanto o poeta segue trabalhando em seus romances Celle qui dort e
Nos mères,.

Antoine Wauters cresceu na campagne, numa pequena vila valona das Ardenas. Em 1999, iniciou seus estudos de filosofia em Bruxelas, nos quais declarou ter descoberto e recebido a influência duradoura e transformadora de Nietzsche, Foucault, Kierkegaard, Lévinas, e de autores como o austríaco Thomas Bernhard. Especializou-se e escreveu sua tese no campo da Bioética, estudando e discutindo os perigos do movimento tecnófilo conhecido como “Trans-humanismo”, dos Estados Unidos. Entre 2004 e 2005, trabalhou como ativista em campanhas médicas contra a epidemia da AIDS em Burquina Fasso e ensinou literatura e teologia em um colégio de Bruxelas, antes de retornar à sua cidade natal em 2006, onde segue hoje ensinando literatura e teologia. Em 2007, conheceu o importante poeta belga Jacques Izoard (1936 - 2008), também natural de Lieja, que se tornaria um mestre e incentivador, encorajando Antoine Wauters à publicação tripla do ano seguinte que já mencionamos. O poeta já se apresentou em festivais de poesia francófona da Bélgica, França, Suíça e Luxemburgo, e é também dramaturgo e romancista. Atualmente, colabora como roteirista com o jovem cineasta Antoine Cuypers.

Na Bélgica, seu trabalho já foi comparado ao de outros autores nascidos em Lieja, como o do próprio Jacques Izoard por sua pesquisa acentuadamente sintática, ou o de Eugène Savitzkaya (n. 1955) por sua escrita marcada pela obsessão com as relações entre som e sentido. A um leitor brasileiro, creio que o texto meditativo de Wauters neste pequeno volume, que faz seu percalço entre a linguagem como abstração e a língua como concreção, tendo o corpo humano por filtro, poderá lembrar certas páginas de Clarice Lispector em um texto como Um sopro de vida: pulsações (1978). Entre os poetas brasileiros contemporâneos, poder-se-ia traçar algumas semelhanças entre sua poética e o que já chamei de lírica analítica em poetas como o paulista Marcos Siscar (n. 1964) e a carioca Marília Garcia (n. 1979). Não são comparações visando qualquer efetivação de uma uniformização ou hierarquia, mas uma tentativa de compreender as relações subterrâneas entre poesias de línguas distintas através, talvez, de mestres comuns. Leitores familiarizados com certa escrita francófona da década de 70 e 80, como a de Emmanuel Hocquard ou Christophe Tarkos, poderão pensar talvez em túneis subterrâneos conectando as poesias contemporâneas da Bélgica e do Brasil.

Antoine Wauters lê excertos de seu livro Césarine de nuit, em Beirute, Líbano.

Uma das primeiras questões que o trabalho de Antoine Wauters poderá levantar é a de gênero. Em geral, identificamos primeiro a textualidade de cada autor dentro de um gênero específico e então passamos a julgá-la a partir das suas convenções. Em blocos de signos, seus fragmentos poderiam ser identificados tanto como prosa quanto como poesia. A questão interessa apenas na medida em que influencia a recepção do trabalho. Linguagem que se volta sobre si mesma, com a chamada função poética de Jakobson presente, o texto de Antoine Wauters funciona na fronteira entre transparência e não-transparência do signo. Aqui, falaríamos não tanto de sua materialidade como de sua opacidade. A algumas pessoas no Brasil, com a influente pesquisa iniciada pelo Grupo Noigandres na década de 50 com foco na materialidade do signo, sua concretude, a escrita de Antoine Wauters poderá parecer, em certos aspectos, abstrata. O que me parece interessante observar é justamente o delicado e quase precário equilíbro entre abstração e concretude que seu trabalho gera. Língua torna-se tanto o sistema de signos que forma nossa linguagem como o órgão carnal que usamos para movimentá-la. Ao verbivocovisual, muitos poetas contemporâneos unem uma preocupação com o uso da palavra na língua como parte integrante do seu significado, tal qual preconizou Wittgenstein em uma das proposições das Investigações filosóficas (1953). Assim, o poeta joga com semântica, sintaxe e contexto, o que poderia ligar Antoine Wauters, no âmbito brasileiro, talvez à pesquisa experimental de outros poetas da década de 50, como Ferreira Gullar e Mário Chamie. Sua escrita opera um borrar de certas dualidades, chamando nossa atenção para o debate sobre o objetivismo celebrado por certa poesia contemporânea, unido a aquilo que a crítica norte-americana Marjorie Perloff chamou de uma poética da indeterminação. Sua escrita é uma meditação com o corpo, através da língua (sistema de comunicação comum a uma comunidade linguística) e da língua (órgão móvel da cavidade bucal), em nome da língua e da língua.


--- Ricardo Domeneck

NOTA DO AUTOR: O texto acima foi publicado, com pequenas alterações, como introdução ao volume De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011). Em trabalhos mais recentes, Antoine Wauters tem borrado a fronteira entre gêneros estanques, praticando uma textualidade com forte presença da narratividade, como podemos ver no excerto de seu próximo livro, Césarine de nuit, ao fim desta postagem: "Et elle s’engouffre dans les couloirs, dans les / chambres vides, dans le grand réfectoire à peu / près aussi vide sauf le couvert dressé, vêtue / d’un linge ou d’un tricot, et sur le haut des / cuisses un petit short court de la taille / d’un mouchoir, une jupette aux cents plis. Tout le monde dort, dit-elle, ou tout le monde est mort (...)"

NOTA 2: Informações sobre o lançamento oficial do livro ao fim da postagem.

§

POEMAS DE ANTOINE WAUTERS


Antoine Wauters lê fragmentos do seu livro Debout sur la langue, em Lieja, Bélgica. Especial para a Modo de Usar & Co. e a Hilda Magazine.


Poemas do volume De pé sobre a língua / Debout sur la langue
(São Paulo: Lumme Editor, 2011). Traduções de Juliana Bratfisch.

(nota: infelizmente, não é possível reproduzir aqui os "blocos de texto" com os quais Wauters geralmente diagrama seus poemas. Respeitamos as quebras de linha no livro original.)

Tudo parte dum jato de sangue, um
apelo rubro ao corpo. De um precisar
passar, ser passado, atravessado sem
demora. Um precisar escutar mais
que falar. Tudo parte de um grito
raio vindo de baixo, balbucio ou diabo,
denso às entranhas.

Tout part d’un coup de sang, d’un
appel rouge au corps. D’un besoin
de passer, d’être passé, traversé sur-le-
champ. D’un besoin d’entendre plus
que de parler. Tout part d’un cri
éclair venu d’en bas, babil ou diable,
dense aux entrailles.

§

Tudo parte duma batida surda,
regular como um sopro de noite,
primitiva como a terra. Dum canto
precedente a linguagem e sobre o qual
pousam, repousam restos: nossas
línguas cem vezes demolidas.

Tout part d’un battement sourd,
régulier comme un souffle de nuit,
primitif comme la terre. D’un chant
précédent le langage et sur lequel
pose, repose tout l’éboulis : nos
langues cent fois moulues.


§

Falar é uma passagem, um
passar, um ato de descompressão
entre a orelha da terra e a orelha do
baixo ventre, um pó procurando
filtrar, infiltrar o vivo, a fenda azul
do escafandro, corpo ou língua,
nossa noite.

Parler n’est qu’un passage, un
passer, un sas de décompression
entre l’oreille de terre et l’oreille de
bas-ventre, une boue cherchant à
filtrer, infiltrer le vivant, l’ajour bleu
du scaphandre, corps ou langue,
notre nuit.


§

Pés no chão, cabeça entre as mãos no
solo, firmando um mundo cravado cujo
denso e redondo apelo, denso e redondo
canto, eu me aterro. O corpo é
uma orelha, um rochedo martelando.
Nos fala e nos fende, nos
desfaz e nos mina. Falado, fendido,
é também rompido, desfeito de um
apelo. Escuta.

Pieds à plat, tête en mains dans le
sol, foulant un monde enfoui dont
dense et rond l’appel, dense et rond
le chanté, je me terre. Le corps est
une oreille, un rocher martelant. Il
nous parle et nous fend, nous
déchire et nous mine. Parlé, fendu,
il est aussi rompu, déchiré d’un
appel. Il entend.


§

A língua como uma cena onde
desperta uma voz. Louca. Selvagem.
Que é a voz primeira, palavra,
antes a fala, muda ou batendo
longa. Um ruído. Há ruído. Algum
infinitamente mais belo que nossas
musicas sem elos.

La langue comme une scène où
déboule une voix. Folle. Sauvage.
Qui est la voix première, parole
d’avant le mot, muette ou battant
longue. Un bruit. Du bruit. Un
infiniment plus beau que nos
musiques sans os.



§

Isso que eu digo vem tanto da terra
quanto do mar. Do ventre da terra e
do mar do ventre. Dia e noite
sem repouso, palavras são postas sobre
a têmpora, azul, frágil, da crosta
terrestre. Assim que digo escrevo,
talvez só seja preciso escutar
que me inclino, estico a mão, coleto
rochas e rochedos sonoros.

Ce que je dis vient de la terre autant
que de la mer. Du ventre de terre et
de la mer du ventre. Jour et nuit
sans repos, les mots sont posés sur
la tempe, bleue, fragile, de la croûte
terrestre. Lorsque je dis j'écris, peut-
être ne faut-il rien entendre d'autre
que je me penche, tends la main, ramasse
rocs et rochers sonores.


§


O corpo é mergulhado na greda
que, bem no fundo, é fogo,
água corrente rubra, soberana. É
nessa aliança emergida ao
ventre, que juntas, mão na
mão, fundam o espaço e o tempo.
Aqui o corpo volta ser a orelha do
mundo e, batendo surdo o sangue, dá
luz às vozes.

Le corps est plongé dans la glaise
qui, tout au fond, est du feu, de
l'eau filant rouge, souverraine. C'est
là, dans cette alliance montée au
ventre, qu'ensemble, main dans la
main, fondent l'espace et le temps.
Là que le corps redevient l'oreille du
monde et, battant sourd le sang, en
accouche les voix.


§


A língua, sigo em todos os sentidos,
pressiono de minhas peles até
parti-la limpa, absorvê-la em seu centro.
Depois me endireito, de pé, pés
aterrados firmemente, como uma
orelha fixa no buraco do fundo, uma
palma aberta sobre o mundo
interior que me precede e mesmo,
me preexiste.

La langue, je la cours en tous sens,
la pétris de mes peaux jusqu’à la
briser net, l’avaler en son centre.
Puis je m’y tiens droit, debout, pieds
terrés fermement, comme une
oreille vissée au trou du fond, une
paume ouverte sur un monde
intérieur qui me précède et même,
me préexiste.



§

Passo um verbo. Passo uma ação mas
não um lugar, espaço litúrgico. Escrever.
Desviar em direção a um templo, um
santuário onde em paz com o céu, a
terra, se afagam quem sou eu e quem
não sou mais. Onde o corpo se recompõe,
livre, nu, animal e jogador, ventre
membrana aos sons.

Pas un verbe. Pas une action mais
un lieu, un espace liturgique. Écrire.
Dériver vers un temple, un
sanctuaire où en paix avec le ciel, la
terre, se frôlent qui je suis et qui je
ne suis plus. Où le corps se rejoint,
libre, nu, animal et joueur, ventre
membrane à sons.



§

Aqui onde creio dizer, não digo nada
ainda. E aqui onde creio falar, são
as palavras que me falam,
me desventram e muito doces, muito
docemente me sopram, como se
dissessem de alguém que nos
toma alguma coisa. Soprado, esvaziado,
de medula e sal, outras vozes me
passam, dançam em roda, me
afagam.

Là où je crois dire, je ne dis rien
encore. Et là où je crois parler, ce
sont les mots qui me parlent,
m’éventrent et très doux, très
doucement me soufflent, au sens où
l’on dit de quelqu’un qu’il nous
prend quelque chose. Soufflé, vidé
de moelle et sel, d’autres voix me
passent, dansent en rond, me
faufilent.



§


De pé sobre a língua e subir.
Subir uma fera de espuma,
acariciá-la com fibras, baquetas e
caprichos, o todo tenso, arqueado três
vezes para romper a amarra, coleira
ligando a todos, às palavras muito
banais. Ocas e sem sopro.
Exangues.

Debout sur la langue et monter.
Monter une bête d’écume, la
caresser de fibres, de mailloches et
tocades, le tout tendu, cambré trois
fois pour rompre l’attache, la laisse
liant à tous, aux paroles très
bouchées. Creuses et sans souffle.
Exsangues.


§

Césarine de noite (excertos)

E ela invade os corredores, os
quartos vazios, o grande refeitório quase
tão vazio exceto pela mesa posta, vestida
de linho ou tricô, e no alto das
coxas um pequeno shorts curto do tamanho
de um lenço, uma sainha com cem dobras. Todo mundo
dormiu, ela diz, ou todo mundo morreu,
e agora seu olhar vai de um pedaço de muro
à trinca da porta, da trinca da porta à
janela do ateliê, ao quadriculado de estrelas onde
fica.

Césarine das bacias, das máquinas, dos
trabalhos de costura em que ela se liberta
em rumores. Pois é assim. Fazem-na
pregar cada dia pequenas meninas e
meninos de algodão, bem leves pompons com
zíper e velcros. À noite passam
comerciais, essas crianças de laicra bem costuradas
e ligadas em magros sacos plásticos que
jogamos em seguida na água. Na cidade. Nas
grandes cidades aqui e ali.
Não é dito onde.

Prendemo-na aos anéis, ao metal de aço.
Suas mãos, dedos, fixados no alfinete feito
para isso, a um ponto menos alto que
a janela e sua trinca. Temos o cordão, a
corrente e cartuchos de batom nos
quais lavamos dentes, gritos e raiva.
Vamos pra ela com calços, nossas pequenas
vigas delicadas e vontade de consolá-la.
Ouví-la. Vê-la sorrir.

Desangulamo-na com a noite que cai, com
a lua que vem tomá-la e levá-la pra
cidade, nas galerias onde vejam: gentilmente
caminhando com cores vivas, com
frascos, dez vidros de perfume de laranja e
leite, com urina de urso negro talvez,
por que não, com anéis, cinturões
cobreados ou couro branco que captam o olho.
Mas nenhum lábio branco, nenhum sorriso de
cerva ou de jovem feliz assim caminhava.

Braceletes, colares de pérola com areia
das ilhas longínquas que é preciso imaginar terríveis,
sujas, bem menos práticas que nossa bela
grande cidade com seu rio de alumínio e
seus restos dourados, ornando Césarine. Docemente,
a cobrimos de matérias do tempo. E qual
alegria de a fazer usar, espartilhar, revestir com
o mais antigo e mais novo tecido: linho, cetim e
claro elasteno, que torna leves suas
lingeries e suas camisas de verão.

Docemente, pois é assim, sempre, nela
encucamos o necessário, a ordem que é preciso
à ordem e em seu corpo e seu espírito, e
como se mover, como estar e
se comportar nesse vasto mundo.
Depois vem a noite. Depois, a noite
que ela quer ainda longamente, potentemente
sentir nela como um lugar salvo ou
inviolado, oferecemos um bafo de ar, um esquina
no parque onde respirar.

(tradução de Juliana Bratfisch)


:

Césarine de nuit
Antoine Wauters

Et elle s’engouffre dans les couloirs, dans les
chambres vides, dans le grand réfectoire à peu
près aussi vide sauf le couvert dressé, vêtue
d’un linge ou d’un tricot, et sur le haut des
cuisses un petit short court de la taille
d’un mouchoir, une jupette aux cents plis.
Tout le
monde dort
, dit-elle, ou tout le monde est mort,
et maintenant son regard va d’un pan de mur
au verrou de la porte, du verrou de la porte à la
fenêtre de l’atelier, au carrelage étoilé où elle
gît.

Césarine des bassins, des machines, des
travaux de couture dont elle s’acquitte tout en
bruissements. Car c’est ainsi. On lui fait
accoucher chaque jour de petites filles et petits
garçons de coton, de bien légères pelotes à
tirettes et velcros. Le soir on lui réclame ses
marchandises, ces enfants de lycra bien serrés
et liés dans de minces sacs plastique qu’on
expédie ensuite par l’eau. À la ville. Aux
grandes villes d’ici et là-bas.
On ne vous dit pas où.

On l’attache aux anneaux, au métal d’aciérie.
Ses mains, dans le dos, fixées au crochet prévu
à cet effet, à un point à peine moins élevé que
la fenêtre et son verrou. On a le cordeau, la
chaînette, et des cartouches de rouge à lèvres
dont on lui lave les dents, les cris et la colère.
On vient à elle avec des lattes, nos petites
verges délicates et l’envie de la consoler.
L’entendre. La voir sourire.

On la dessangle avec le soir qui tombe, avec la
lune qui vient la prendre et on l’emmène en
ville, dans les galeries où la voici : gentiment
promenée avec des couleurs vives, des
flasques, dix flacons de parfum à l’orange et
au lait, à l’urine d’ours noir peut-être,
pourquoi pas, avec des boucles, des ceinturons
cuivrés ou en skaï blanc qui captent l’œil.
Mais aucune lèvre blanche, aucun sourire de
biche ou de jeune fille heureuse ainsi promenée.

De bracelets, de colliers de perles avec le sable
d’îles lointaines qu’il faut imaginer terribles,
sales, bien moins pratiques que notre belle
grande ville avec son fleuve d’aluminium et
ses rebuts dorés, on orne Césarine. Doucement,
on la couvre des matières du temps. Et quelle
joie de lui faire porter, la corseter, la revêtir du
plus ancien au plus nouveau tissu : lin, satin et
bien sûr élasthanne, qui rend légers ses sous-
vêtements et souples ses chemises d’été.

Doucement, car c’est ainsi, toujours, on lui
inculque le nécessaire, l’ordre qu’il faut à
l’ordre et à son corps et son esprit, et
comment se bien mouvoir elle, comment se
bien tenir et comporter dans ce vaste monde.
Après quoi est la nuit. Après quoi, à la nuit
qu’elle veut encore longuement, puissamment
ressentir en elle comme un lieu sauf ou
inviolé, on lui offre un brin d’air, un coin de
parc où respirer.



§


LANÇAMENTO

Lumme Editor e Club Noir, com apoio da Modo de Usar & Co., convidam para o lançamento de De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011), do poeta belga Antoine Wauters (Lieja, 1981), com tradução de Juliana Bratfisch, e para uma noite de leituras em que poetas contemporâneos brasileiros leem suas traduções para textos de poetas contemporâneos estrangeiros.

Juliana Bratfisch lê Antoine Wauters (Bélgica).

Ricardo Domeneck lê Ezequiel Zaidenwerg (Argentina), Robin Myers (Estados Unidos) e Monika Rinck (Alemanha).

Dirceu Villa lê Anne Carson (Canadá) e Mairéad Byrne (Irlanda).

Fabiano Calixto lê Heriberto Yépez (México).

Mario Sagayama lê Christophe Tarkos (França).

No dia 17 de janeiro de 2012, terça-feira, a partir das 22:00.

Club Noir
Rua Augusta, 331
Consolação
São Paulo SP




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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Belo Horizonte: Lançamento da "Modo de Usar & Co." número 3 e do novo livro de Eduardo Jorge, hoje à noite, 11 de janeiro de 2012


Ocorre hoje em Belo Horizonte o lançamento de PÁ, PUM. (Belo Horizonte: Tipografia do Zé, 2012), de Eduardo Jorge & Lucila Vilela, mais um livro da Coleção Elixir, dirigida pelo poeta belorizontino Ricardo Aleixo em colaboração com o designer gráfico Flávio Vignoli, da Tipografia do Zé.

A Coleção Elixir já lançou trabalhos de nomes como Gláucia Machado, Guilherme Mansur e Paulo Bruscky, sempre pequenas tiragens artesanais de livros inéditos de poetas contemporâneos. No lançamento de PÁ, PUM. será apresentada a performance homônima, a cargo dos autores e de Ricardo Aleixo.

O lançamento é hoje, 11 de janeiro de 2012, em Belo Horizonte na Avenida Augusto de Lima, 233 - Loja 64.

Por generosidade de Eduardo Jorge e Ricardo Aleixo, ocorrerá no evento também um pequeno lançamento belorizontino do terceiro número impresso da Modo de Usar & Co., que traz, como já divulgamos, textos dos seguintes poetas:

Angélica Freitas
Cecília Pavón
Charles Pennequin
Charles Reznikoff
Christian Prigent
Dirceu Villa
Emmanuel Hocquard
Érica Zíngano
Érico Nogueira
Fabiana Faleiros
Fabiano Calixto
Fabrício Corsaletti
Gertrude Stein
Helmut Heissenbüttel
Inês Cardoso
John Ashbery
Júlia Hansen
Kenneth Koch
Leandro Rafael Perez
Leonardo Gandolfi
Liv Nicolsky
Marcelo Sahea
Marco Catalão
Marília Garcia
Mario Sagayama
Nathalie Quintane
Paula Glenadel
Renan Nuernberger
Reuben da Cunha Rocha
Ricardo Domeneck
Roberto Bolaño
Rodolfo Caesar
Rodrigo Álvarez
Rodrigo Damasceno
Rosmarie Waldrop
Rui Camargo
Tiago Pinheiro
Vicente Huidobro
Victor Heringer
Violeta Parra
Walter Gam



Avisamos que são pouquíssimos exemplares. Chegue cedo e garanta seu exemplar, da Modo 3 e do livro de Eduardo Jorge e Lucila Vilela.

abraço,

Os editores.


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