terça-feira, 24 de maio de 2016

Carla Diacov




Carla Diacov é uma poeta brasileira, nascida em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro. Seu livro de estreia, Amanhã Alguém Morre no Samba, foi publicado em Portugal pela Douda Correria em 2015. Os poemas abaixo foram extraídos deste livro.



Seu segundo livro, Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse, está no prelo pela mesma editora.

§

POEMAS DE CARLA DIACOV


em noites mais quentes fazemos chás
da primeira mansidão da noite quente
chás
ou então sopas
das folhas imóveis das pedras agitadas
mentira
é que faz-me falta ter o homem do adubo
é que faz-me falta ter a mulher do adubo
nas noites mais frias faríamos sorvetes
ou então mentiras
é que eu estou só
estou só
conheço tudo pelo tato
em noites amenas estou só e toco a campainha dos vizinhos e corro
                          [pra debaixo do lençol só

uns fios de estar só
uns fios de cabelo na boca e só

o peso dessa espera me puxa pra cama
a gravidade dessa espera faz-me mais
longa me joga aos postes
me empurra ao largo das borrachas infláveis

estou só
conheço tudo pelo tato
a mentira dos olhos ouvidos
o truque nos joelhos dos poetas

faríamos chás sorvetes mentiras sopas

§

Maçã mal cabida

faz já dois candelabros que ela não olha para trás
uma mulher de olhar para trás
mas então agora é o prato chinês
os ossinhos do pato no canto perto
da mão esquerda
o garfo com seus dentes virados
para o quadro onde um cavalo e sobre ele
uma garotinha forçando o rosto num
raio de sol muito mal pintado num
tom de maçã mal cabida ali
pobre
pobre beleza pobre mal cabido ali
faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás
metodologia de sondar sem ver
uma faca no assoalho de cupins
uma vaca bordada no guardanapo novo
uma mulher e um homem e uma roda de tortura
uma vaca bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus
uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada
uma vaca bordada na cara dela
e se ela se botasse a cantar e se
se ela botasse a querer lamber um peito marinho
e se ela se botasse
a pensar num estupro supracoreografado
uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não
ela usa um terno cinco tamanhos maiores
faz treze luas que ela não
faz treze náuseas que ela não olha para trás
uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia
uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar
um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher
coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado
cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali
se ela se bota a voltar a olhar para trás
se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar
se ela se bota a criar uma boa superstição com taças
já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não
                     [olha para trás
se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa
se ela se bota a entortar o quadro
uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura
uma carcaça bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus onde o homem
se ela se bota a cruzar os ossos
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas
se ela se bota a pentear a franja com o garfo
se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas
se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal
faz já onze moscas que ela não olha para trás

§

entrega-me a palavra amanteigada
sou bem mais súcia sendo a louca da
rua da pamonha
doze ovos pelo preço de um cão
dopa-me despe-me carca-me
machuca minhas dobras atando-me reta
ata-me ao palavreado vicioso
tranca-me ao sanatorinho das sentenças que
não
sou mais louca falando jaula flácida
entupimento pela cor
meta no meu reto sua pose de cu
veja como em qualquer circunstância
tua boca besuntada em pink fica bem
meta na minha boca seus doze corações de abóbora
dobra-me a vista a crista
meta na minha cuia seus doze papos de anjo
lasca-me o nariz até fazer flecha
aponta-me o orifício
abóbada zinco lips coniforme mientras
eu nunca mais vou aprender a falar nó
eu nunca mais vou esquecer de te dizer mó

§

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

§

mulher com galhos
cingida pelos teus próprios galhos
morrendo de medo de nada
nada é mesmo engraçado
mulher com galhos risonha
e a mulher com galhos passa atravessa a ponte de prata
ajeita os galhos
queima os cascos
e continua rindo abana o rabo égua
certa de que está no caminho errado
rindo
mulher de galhos
linda meio linda e metade égua
linda
rindo feito égua
tua língua é olho-d’água e gaiola
tecido que bordo
debrum da colcha onde quero me enrolar nos dezembros todos
tua língua d’égua

§

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

§

foi concebida em sonho e funciona
como digo agora
digo que funciona com rodas
papai passa pelo tecido e o aplaude
em pé
o vendedor corre o balcão
mede
corta
embrulha
amarra tudo com um cordão vermelho que faz laços
à felicidade de papai
papai que chega desembrulhado e
com todo e mais algum amor
cobre a máquina com o tecido de motivos marítimos
no que a família toda comemora tomando
suco de cana e arrotando nomes da pilantragem atual
e assim é que
realmente funciona a máquina de costurar
o que diz o manual é outra dança

§

passo por esse casal de amantes
é como meter as mãos num balde de sardinhas
são tantas as mordidelas
estou ferida
não é mortal
passei por aquele casal de amantes
foi como meter num balde de sal
estraçalhadas
as mãos
são tantas as sardinhas
como corta o sol
nem meio gato à vista
como corta a luz
como corta o navio
são tantas as escamas
é como meter as mãos
são tantos os braços
nem meio gato
nem meia língua
nem meio mal

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Não morrer de todo - com Quinto Horácio Flaco e Wisława Szymborska

uma translúcida holotúria


O tradutor Guilherme Gontijo Flores já teve algumas de suas traduções de Horácio publicadas aqui, com seu artigo "Odes de Horácio: tirar a poeira". Pedimos esta tradução a ele por se tratar do poema  do qual Wislawa Szymborska retira sua citação para o poema "Autotomia", o da holotúria, um dos favoritos aqui da casa. No poema da polonesa, ela traz aquelas três palavras leves como plumas, "non omnis moriar", de onde surge o mantra "Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida". Nestes dias, voltamos ao mantra, tanto de Horácio quanto de Szymborska. Postamos aqui os dois poemas e urgimos os vivos a não morrerem em demasia.



NÃO MORRER DE TODO

Ode 3.30

Monumento imortal mais do que o bronze ergui
grãs pirâmides sem pares superará
que nem chuva mordaz e Áquilo em desrazão
poderão derruir nem os decênios
numa série sem fim — fuga dos séculos.
Todo não morrerei: parte maior de mim
evitou Libitina, eu crescerei além
sempre novo em louvor se ao Capitólio
o pontífice com tácitas virgens vem.
Terei fama onde rui ríspido o Áufido
e onde Dauno reinou rústicos áridos
sem ter água nas mãos, fraco eu firmei razão
por primeiro trazer cantos eólicos
sobre itálicos tons. Minha soberba tu
aceita — eu mereci; cinge-me o délfico
louro às têmporas ó doce Melpômene.

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

:

Carmen 3.30
Quinto Horácio Flaco

Exegi monumentum aere perennius 
regalique situ pyramidum altius, 
quod non imber edax, non aquilo impotens 
possit diruere aut innumerabilis 
annorum series et fuga temporum. 
non omnis moriar multaque pars mei 
vitabit Libitinam: usque ego postera 
crescam laude recens, dum Capitolium 
scandet cum tacita virgine pontifex: 
dicar, qua violens obstrepit Aufidus 
et qua pauper aquae Daunus agrestium 
regnavit populorum, ex humili potens 
princeps Aeolium carmen ad Italos 
deduxisse modos. sume superbiam 
quaesitam meritis et mihi Delphica 
lauro cinge volens, Melpomene, comam.

§

Autotomia
Wisława Szymborska

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)

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domingo, 1 de maio de 2016

Érica Zíngano - "sob certas circunstâncias" (leitura em Berlim)



Érica Zíngano lê seu texto "sob certas circunstâncias", em Berlim.




Extraído do quarto número da revista berlinense artiCHOKE, que traz também textos de Nathalie Quintane, Antoine Hummel e Justin Katko. Gravado no lançamento da revista no Vierte Welt, em Berlin-Kreuzberg, a 30 de abril de 2016.



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terça-feira, 26 de abril de 2016

Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916)



Mário de Sá-Carneiro foi um dos maiores escritores portugueses do início do século XX, nascido em Lisboa a 19 de maio de 1890. Amigo de Fernando Pessoa, forma com ele e Almada Negreiros a tríade principal do Grupo d'Orpheu, a revista que, com apenas dois números em 1915, iniciou o Modernismo em Portugal.

Publicou, em prosa, os livros Princípio (1912) e A Confissão de Lúcio (1914), assim como o volume de poemas Dispersão (1914). Seus trabalhos mais importantes seriam publicados 20 anos após seu suicídio em Paris, aos 25 anos, no volume Indícios de Oiro (1937).

Com nossa sensibilidade modernista formada pelo nosso Grupo de 22, talvez nos pareça difícil notar a modernidade de Mário de Sá-Carneiro, modernidade singular que o liga a contemporâneos seus como o brasileiro Pedro Kilkerry (1885-1917), o norte-americano T.S. Eliot (1888-1965) ou o russo Óssip Mandelshtam (1891-1938), que se educaram nas melhores lições do Simbolismo.

Hoje, centenário do suicídio de Mário de Sá-Carneiro em Paris, a 26 de abril de 1916, rendemos a ele esta pequena homenagem.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

§

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

§

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

§

Rodopio

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...

§

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.

§


Ângulo

Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar oco de certezas mortas? —
Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter construído...

 — Barcaças dos meus ímpetos tigrados,
Que oceano vos dormiram de Segredo?
Partiste-vos, transportes encantados,
De embate, em alma ao roxo, a que rochedo?...

Ó nau de festa, ó ruiva de aventura
Onde, em Champanhe, a minha ânsia ia,
Quebraste-vos também, ou porventura,
Fundeaste a Oiro em portos de alquimia?...

.....................................................................

Chegaram à baia os galeões
Com as sete Princesas que morreram.
Regatas de luar não se correram...
As bandeiras velaram-se, orações...

Detive-me na ponte, debruçado.
Mas a ponte era falsa — e derradeira.
Segui no cais. O cais era abaulado,
Cais fingido sem mar à sua beira...

 — Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes
Que um outro, só metade, quer passar
Em miragens de falsos horizontes —
Um outro que eu não posso acorrentar...

§

Sete canções de declínio

1.

Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto d'Astro -
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real - livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada -
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada. . .


2.

Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
- Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida.

Desfiles, danças - embora
Mal sejam uma ilusão.
- Cenários de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
- Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante -
O amante sem amante,
Ora amado ora traído...

Lançar as barcas ao Mar -
De névoa, em rumo de incerto...
- Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

...E as minhas unhas polidas -
Ideia de olhos pintados. . .
Meus sentidos maquilados :
A tintas desconhecidas...

Mistério duma incerteza
Que nunca se há-de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza...

- Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida:
Escada de Giro descida
Aos pinotes, quatro a quatro!...


3.

- Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras:
Só as Cores são verdadeiras -
Siga sempre o festival!

Quermesse - eia! - e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
Defronte do carroussel,
Eu, em ternura esquecido...

Fitas de cor, vozearia -
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs - os meus afectos
Com librés de fantasia!

Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

- Afectos... divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena - decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.


4.

As grandes Horas! - vivê-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime -
Sacrifícios são novelas.

«Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto»...
- Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome:
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam - dominem
Sua sorte em suas mãos:
- Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é d'Astro!
Luto - embora! - o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há-de ser!. . .


5.

Vaga lenda facetada:
A imprevisto e miragens
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada. . .

Um baile russo a mil cores,
Um Domingo de Paris -
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores...

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram -
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram...

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda. . .
Saudade que não recorda -
Bola de tennis no ar...

Um leque que se rasgou -
Anel perdido no parque -
Lenço que acenou no embarque
D'Aquela que não voltou...

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços, à beira-mar,
Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória
Num expresso de wagons-leitos -
Balão aceso - defeitos
De instalação provisória. . .

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes -
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita...

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-há -
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole...

Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Linotyp' do «Matin»...

Manchette de sensação
Transmitida a todo o mundo -
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revol'ção...

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo - cheio
De carimbos, lado a lado...

Nobre ponte citadina
De intranquila capital -
A humidade outonal
Duma manhã de neblina...

Uma bebida gelada -
Presentes todos os dias...
Champanhe em taças esguias
Ou água ao sol entornada...

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios -
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida -

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
- A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande...


6.

Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida. . .

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na ideia dum país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem...

Parou ali a barca - e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... - ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo...

... Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguecida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor de rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças d'honra libertas sobre o mar-
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos - carícias de âmbar flutuando...

Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as Catedrais -
Sobre a cidade, a luz - esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho - solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...

Exílio branco - a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos - seu brou-u-há...
E na Praça mais larga, em frágil cera,
Eu - a estátua «que nunca tombará»...


7.

Meu alvoroço d'oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
- Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a posso ir apanhar!


          (Paris - julho e agosto 1915)


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sexta-feira, 22 de abril de 2016

22 de abril de 1500 - 22 de abril de 2016

516 anos de quê?

"Tupy or not tupy that is the question."

Oswald de Andrade, Manifesto antropófago (1928)

§

Yawa shõka – canto do povo Marubo para atrair porcos do mato 

Cantado por Antonio Brasil Marubo
Traduzido por Pedro Cesarino


        Shoo shoo shoo

São mesmo as primeiras
    Wano, as mulheres da terra
Na relva da terra
         Shoma sentada está
Shoma, de poder-calma
         A Shoma ali sentada
         Caldo de tabaco-calma
         Do caldo bebe
         A Shoma ali sentada
Caldo de tabaco-calma
         Seu poderoso vento-calma
         Shoma vento sopra

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Shoo shoo shoo

Avi ato pariki
Mai wano shavovoã
Mai shosho karẽsho
Seteai shomara
Shoma rawe isĩyai
Seteai shomara
Rawe rome eneki
Ene yaniawai
Seteai shomara
Rawe rome ene
Rawe rome weyai
Seteai shomara

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Murilo Mendes - "Os Índios", in Poliedro (1972).

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O Canto da Castanheira do Povo Araweté
cantado por Kãñïpaye-ro Araweté
Tradução de Eduardo Viveiros de Castro
retrabalhada por Antônio Risério

Nai dai dai
Por que você empluma a grande castanheira?
Por que os Maï emplumam a grande castanheira, Modidaro?
Por que os Maï solteiros emplumam a face da castanheira?
Eis aqui os Maï, Ararinhano, emplumando a face da castanheira,
Eis aqui os Maï, emplumando a grande castanheira.
Nai dai dai.

Kadïne-kãñï
Aqui aqui os Maï, emplumando a face da castanheira
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a grande castanheira?
Aqui aqui os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a face da castanheira, aqui aqui os Maï.
Porque quer sua filha, diz Maï – Kadïne-kãñï – que empluma a grande castanheira.
Foi o que disse Maï – Kadïne-kãñï – ninguém comeu, disse Maï.
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – falando em emplumar a grande castanheira?
Veja aqui os Maï, Modidaro, emplumando a face da castanheira.

Alumia meu charuto caído, disse Maï.
Veja aqui os Maï, Ararinhano, emplumando a face da castanheira.
Aqui aqui os Maï, emplumando a grande castanheira.
Disseram entre si os Maï – Kadïne-kãñï – vamos emplumar a castanheira.
Porque querem nossa filha, os Maï emplumam a grande castanheira.
Por que fazem assim os Maï – Kadïne-kãñï – emplumando a grande castanheira.
Kadïne-kãñï

Nai dai dai
Por que você empluma na manhã a face da castanheira?
Por que você empluma a face da castanheira?
Por querer nossa filha, disse Maï a si mesmo, Ararinhano.
Por que ficam assim os Maï, errando flechas nos grandes tucanos?
Por vocês emplumam a face da castanheira, Maï?
Vamos, passe sua filha para cá, disse Maï.
Por você se emplumam as castanheiras – nai dai dai – ninguém me deu de comer, disse Maï.
Por que os Maï solteiros emplumam assim a face da castanheira, Modidaro?
Por que os Maï emplumam assim a face da castanheira? Vou comer o finado Kãñïpaye-ro, disse Maï.
Assim Maï vai me levar, me cozinhar na panela de pedra.
Vamos comer seu finado pai, disseram e redisseram os Maï.
Vão me cozinhar na panela de pedra, disseram os Maï.
Mais uma vez vão me comer na avesso do céu, eles disseram.
Mande a menina, disse Maï – nai dai dai - flechar os grandes tucanos comigo, disse Maï.

Por que você passa urucum na face da castanheira?
Aqui aqui os Maï untando a face da castanheira.
Por que os Maï acendem assim a face da castanheira, Yoweído? Vamos, passe sua filha para cá.
Eeeh um comedor-de-pequenos-jabutis espantou as grandes cotingas, disseram os Maï – nai dai dai
Nossa futura comida afugentou as grandes juritis, disseram os Maï.
Plumagem das grandes cotingas, araras-canindé-eternas, disseram os Maï;
vamos, vamos flechar os grandes tucanos.

Eeeh, quanto àquilo de Maï pedir a filha, não precisava pedir.
Nada me foi oferecido, disse Maï, vamos, dê jabutis para mim, disse Maï.
Por que você empluma a face da castanheira?
Eeeh, nossa futura comida afugentou as grandes juritis.
Por que você empluma a grande icirií?
Por querer levar mulher para caçar, Maï empluma a face da castanheira.
Por que você passa urucum na face da grande icirií?
Por que Maï acaba com meu tabaco?
Nosso chão é cheiroso, disse Maï – nai dai dai –
assim que untar icirií, vamos nos perfumar um ao outro, disse Maï.
Por que os Maï emplumam a face da castanheira?
Nai dai dai.

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André Vallias - "totem" (2014)

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Canto sagrado da folha, do Povo Maxakali
Tradução de Charles Bicalho & Rafael Maxakali


hu yu yux
hu yu yux

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

hu yu yux
hu yu yux

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

a folha vem
voando com
o yãmîy vem
caindo com

hu yu yux
hu yu yux

:

hu yu yux
hu yu yux

mîxux teh înûn
îup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

hu yu yux
hu yu yux

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

mîxux teh înûn
îxup hã înûn
yãmîy teh înûn
înãkã înûn

hu yu yux
hu yu yux

Ilustração encontrada na tese de Charles Bicalho


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Caetano Veloso - "Um índio" (ao vivo em 1982)

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A terra que se abre como flor, canto dos Mbyá-Guarani
em tradução de Douglas Diegues e Guillermo Sequera.

Vamos nessa vamos partir dessa terra
Vamos nos mandar
Para que os filhos desta terra
Terra de sofrimentos
Os poucos Mbyá que sobrem sobre ela
Fiquem numa boa.
Eles dirão:
Ficamos numa boa.
Estamos numa boa.
A terra se abre como flor.
Todos podem ver
Nossa pequena família numa boa.
Alimentos brotam por encantamento para nossas bocas.
Queremos
Encher a terra de vida
Nós os poucos (Mbyá) que sobramos
Nossos netos todos
Os adandonados todos
Queremos que todos vejam
Como a terra se abre como flor.

(in Cantos ameríndios, Rio de Janeiro: Azougue, 2012).

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Veronica Stigger - Delírio de Damasco (2014).

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Bell Dome (Ricardo Domeneck & Nelson Bell) - 
"Mantra contínuo com perturbações intermitentes" (2016)

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As Hiper-Mulheres (2011), filme de Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Poema inédito de Edimilson de Almeida Pereira

Na série de inéditos, poema de Edimilson de Almeida Pereira.






O ESTRANHO

1. O HOMEM ESTÁ SÓ DIANTE

de quem o protege. Não se acostumar
ao fogo
à fartura
é a lição primeira.

Contra a fome, os dentes
se levantam,
Mas pouco valem ante a promessa
rompida.
A dívida mais onerosa, a herança.
O corpo,
o pensamento,
os últimos cavalos da pradaria
– nada põe sentido na solidão.

Não habituar-se
a que isso seja uma regra
é a liberdade.

2. UM HOMEM VAI SEM A PERNA

como um navio que, abertos os porões,
aderna.
Sua gramática é esta.

De falta em falta a história se acumula.

Vão porque há quem os espere.
Âncoras.


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terça-feira, 19 de abril de 2016

Poema inédito de Miguel Martins

Na série de inéditos, poema do português Miguel Martins (n. 1969).




Naquele tempo, era costume chegarmos de madrugada
às grandes capitais do mundo, depois de varrermos países
e países de estradas secundárias com as nossas lanternas,
e anunciarmo-nos como quem veste a guerra e o amor,
fazendo soar os sinos dalgum pequeno campanário de algibeira,
normalmente defronte de um balcão feito cascata,
enquanto as nossas vozes vendiam ilusões bíblicas
às raparigas que olham para o tecto como se fosse o chão.

Era ainda demasiado cedo para que os sapatos se impusessem
entre os pés e a estrada; demasiado tarde, todavia,
para que lhes confessássemos os jardins onde sonháramos
imagens difusas, feitas apenas de cor e dispersão,
antes da ordem, muito antes do caos, a anos-luz da arte
e do abandono. Uma força imoral, uma urgência rara como todas
as urgências, decompunha espelhos sobre espelhos, encadeava
os dias e inventava a serpentina aparentemente interminável
a que se chama vida quando se tem ainda a dentição intacta.

Foi há muito tempo. Somos ridículos, hoje, quando evocamos
escaramuças ou risos, lábios fendidos ou beijados,
como se quinhentas vezes o nevoeiro não tivesse feito gritar
entretanto a sirene do nosso cabelo em recessão, como se
as nossas namoradas de Toledo ou Avinhão não se tivessem abortado
a si mesmas quinze vezes, e os anos, também a elas, não toldassem
os passos, como vómito até aos calcanhares. Resta-nos
a compostura de uma gravata nova, do cabelo aparado
até ao pavilhão auricular, e a talha dourada de uma partita de Bach
para enganar a flacidez da carne, como se a carne precisasse de nós
para sentir a deserção da água, a inominável deserção da água,
de todas as praias a que não voltaremos.

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